PENSAR A BOSSA_o5: Vinicius e os Sambas

Samba de branco

O senso comum adotou a ideia de que, sendo 'música de branco', a bossa nova tinha inimizade com o samba. Não era isso o que diziam os três artífices do gênero, Tom, João e Vinicius.

Não que a bossa tenha deixado de eleger suas antinomias. Mas estas eram os 'sam-boleros', os 'sam-tangos', os 'sam-fados' e qualquer subgênero que descaracterizasse a "linha pura" do samba, "cuja vitalidade carioca", segundo Vinicius de Moraes, era preciso defender "custe o que custar".

No mesmo ano em que compôs sozinho letra e melodia de sua primeira música, Vinicius iniciou a coluna Diz-Que Discos no periódico Flan: o Jornal da Semana.

No espaço semanal de Flan, Vinicius vai passar aquele 1953 comentando lançamentos da indústria fonográfica e registrando pensamentos sobre música popular. Observadas com os olhos de hoje, as notas críticas do poeta prenunciam as 'questões' que o surgimento da bossa nova viria suscitar.

Uma dessas 'questões' é a impossibilidade dos brancos da Zona Sul fazerem "samba de morro", ou "de batucada". Se o fizessem, assevera Vinicius, "estariam praticando uma contrafação".

O samba possível para ele e seus amigos, é "aquele que sabem fazer". Em outras palavras, a qualquer pessoa é permitido 'fazer samba', o problema da 'apropriação cultural' não pode ser desconsiderado e cada um tem que encontrar sua expressão mais verdadeira, genuína.  

Afinal, "não há como fugir", conclui.

Leia a seguir quatro notas de Vinicius publicadas na coluna Diz-Que Discos entre maio e setembro de 1953.

Diz-Que Discos, 24 de maio de 1953

Deu o tangolomango na música popular brasileira. Como disse, aliás, Jayme Ovalle em sua entrevista da semana passada para Flan. Perguntado sobre o tango, Ovalle pensou um pouco e explicou que o tango não é argentino nada, não, é brasileiro; morou muito tempo em Buenos Aires, deu-se muito bem por lá, mas agora bateram as saudades e ele está voltando.

Está voltando, não haja dúvida. Media Luz acaba de naturalizar-se pela voz de Albertinho Fortuna. Ivon Cury está aí para quem quiser, vocalizando o velho tango americano The Boulevard of Broken Dreams, numa formidabilíssima tradução que tem um pedaço assim:

Meus sonhos são assombrações
São fantasmas dos serões
Na solidão do Boulevard.

Serões... ou será que é?

A tangelização parece geral. Isso sem falar nos tanguinhos brasileiros mascarados de samba-canções, não os bons tanguinhos como fazia Ernesto Nazareth, mas os tangos de boite, ou melhor, boate como dizemos supernacionalistas. Enfim, não há de ser nada. É bop de um lado, tango de outro, Frank Sinatra no meio e  a música popular brasileira vai levando. Ultimamente deu de aparecer também baião em órgão. É o fim da picada.

Diz-Que Discos, 9 de agosto de 1953

Se é verdade que o Brasil está com a tendência a perder a sua velha posição de primeiro país produtor de café no mundo, em compensação está caminhando rápido para conquistar a dianteira como país produtor de boleros.

A bolerização, como diria Machado de Assis, é geral. Abre-se o rádio e lá vem o nostálgico ritmo-de-bacia (bacia pélvica, bem entendido...) que para mim, que já tenho andado muito por essas Américas, não me é estranho: lembro-me de tê-lo ouvido muito no México, por exemplo, de onde não sei se é oriundo, mas onde tem privilégios certos de nacionalidade.

Não haja dúvida, os ritmos ouvidos são do melhor bolero: tristezas mil nos bares do Brasil; grandes d.d.c. no mais puro estilo Kostelanetz, com centenas de violinos mofinos comendo soltos au clair de lune; tara muito; um certo ar de maconha oculto por eclipse — enfim, a narrativa constante do lado mórbido desses grandes e constantes entreveros que há entre homem e mulher. E os músicos brasileiros vão 'metendo los pechos', porque, evidentemente, o negócio deve estar rendendo.

Mas a verdade, se me permitem um aparte, é que estão xaviercugando a música popular brasileira.

Será isso uma das muitas formas de escapismo de uma sociedade doente e entediada a essa realidade saudável e dionisíaca que é sempre a marca da boa música popular? Evidentemente. A música com saúde passou a constituir um elemento 'onézimo' no ambiente escuro e enfumaçado das boates pequenas. As estátuas de talco precisam — para serem convenientemente cantadas pelos manequins de cera — de ritmos emolientes, pervertidos e agônicos à meia-luz de pistas de dança mínimas, pois o amor das estátuas e dos manequins não pode se executar senão à vista dos demais. E como é um amor que, em geral, não resolve, que lhe resta senão exibir-se? E para exibir-se, que lhe resta senão estimular a morbidez dos ritmos que propiciam essa exibição?

O chamado 'círculo vicioso' de Machado de Assis?

Vicioso, bem certo o círculo seria, no caso, a pista de dança.

Mas estou ficando muito inteligente demais. E é muito Machado de Assis para uma crônica só...

Diz-Que Discos, 16 de agosto de 1953

O samba carioca, em sua trajetória hoje em declínio, tem mantido, como o jazz americano, uma linha pura através da qual se pode sentir suas verdadeiras características. Desde seus primórdios, quando brilhavam o Ernesto dos Santos (Donga) de Pelo Telefone; o Alfredo Viana (Pixinguinha) de Já Te Digo; o José B. da Silva (Sinhô) de Quem São Eles?; O Luís N. Sampaio (Careca) de Um B com A... Be A Bá; o Caninha de Me Leve, Seu Rafael e Esta Nega Quer me Dar; desde os tempos não por demais remotos da formação de grupos, dos Sete Batutas que brilharam na Europa e nas primeiras festas grã-finas cariocas e paulistas, o samba carioca tem conseguido manter uma linha pura e orgânica, hoje em dia cada vez mais rara, mas distinguível ainda em certos números de carnaval que as escolas de samba trazem para a cidade, e na obra desses poucos compositores que fizeram pé firme contra a estrangeirização hoje reinante, seja na música, seja na orquestração, e entre os quais brilha particularmente Ataulfo Alves.

Do princípio do século a esta data, os compositores populares têm-se dado as mãos numa instintiva defesa do que é carioca. Pixinguinha, Sinhô, Bide, Caninha, Careca, Ismael Silva, Noel, Francisco Matoso, Wilson Batista, Heitor dos Prazeres, o bom Ary Barroso (sim, porque há um lado ruim no grande compositor), Ataulfo Alves e poucos mais, formam isso que podemos chamar 'a cortina do samba', o poderoso corpo de música popular que aí está; como um juízo, a chamar permanentemente a atenção dos 'samboleristas', dos 'santanguistas' e dos 'sanfadistas', para não dizer pior, para descaracterização crescente desse grande patrimônio do Rio e do Brasil, desse ritmo que viajou continentes e se instalou em quase todas as capitais do mundo e cuja vitalidade carioca é preciso defender custe o que custar.

Diz-Que Discos, 27 de setembro de 1953

Está certo que se critique, no novo samba, o contingente de estrangeirismos musicais que trouxe para a nossa música popular; mas há que ir com calma e ver a coisa com umas fumaças de sociologia, com perdão do mestre de Apipucos. O Novo Samba nasceu, indubitavelmente, de novas conjunturas: as mesmas que propiciaram o aparecimento de um Sinatra, uma Sarah Vaughan e um Stan Kenton nos Estados Unidos; um Perez Prado em Cuba; um Ary Barroso e um Dorival Caymmi no Brasil. E no Brasil um bairro como Copacabana, — esse imenso cortiço com fumaças de grã-finismo onde se formou, premida pela falta de espaços, de educação e de numerário, uma geração desencantada, golpista e fria — a chamada geração coca-cola — capaz de colecionar vícios e neuroses com a mesma displicência com que as que lhe antecederam colecionavam botões, olho-de-boi ou retratos de artistas de cinema.

Sinatra, Copacabana, bebop, boite, microfone: eis o novo samba. O divórcio formal entre a burguesia e o povo — divórcio que, por outro lado, se anula certa comunhão de necessidades outrora inexistentes — criou naquela uma espécie de letargo, uma espécie de laisser aller, um intimismo escapista cuja melhor solução é o pequeno bar, a pequena boite onde encontrar seus desencontros, seu tédio de complicações orgânicas, seu medo à vida e ao povo lutando por se afirmar. Pequenos espaços passaram a pedir pequenas músicas — dançáveis, o mais possível, no mesmo lugar. Pequenas músicas passaram a pedir pequenas vozes, e o microfone veio facilitar a realização dessa pequenez toda, os cantores passaram a cantar para o microfone e não para os frequentadores. Por outro lado, essa lassidão patológica da sociedade que vai a boites transmitiu-se naturalmente aos ritmos que se alongaram, sofisticaram, tornaram-se também anelantes, doentios, neuróticos, cheios de problemas negativos, antes que afirmativos do ser e do sentimento humano.

A condenação do novo samba só é possível nesses termos. Ele exerce, como tudo neste mundo, uma função. Neste particular, é capaz de produzir coisas belas, como tem produzido. O que se deve combater nele é a falta de organicidade, o entreguismo, em que se compraz, a vícios que são mais da sociedade do que dele mesmo. Porque uma coisa é evidente: a música popular, como tudo no mundo, não pode ficar parada; tem de evoluir, involuir, mover-se enfim. Não se pode pedir a um Antônio Maria, a um Luís Bonfá, a um Paulinho Soledade, a um Fernando Lobo que façam samba de morro, samba de batucada, porque se eles o fizessem estariam praticando uma contrafação. O samba que fazem é aquele que sabem fazer, aquele ditado pelos sentimentos, dilemas, taras, culpas, vazios, abstenções, negações, ímpar das quais vivem e lutam pela vida. Eu tenho o exemplo em mim próprio, que estou tentando fazer um tipo de samba assim, embora procurando torná-lo mais afirmativo, menos lamuriento no que exprime. Mas não há como fugir. Ainda há pouco numa música em parceria com Antônio Maria, eu falava em "copo de uísque". Houve quem protestasse. Mas mantive. Não sou bebedor de cachaça e sim de uísque. Aliás, era. Ando agora abstêmio, ai de mim.

Transcrito de:

Flan: O Jornal da Semana

https://bndigital.bn.gov.br/acervo-digital/flan/100331

Imagens:

Vinicius e o violão

https://www.viniciusdemoraes.com.br/

Antonio Maria, Ary Barroso, Vinicius (em pé), Isaac Zuchman e Paulo Mendes Campos (sentados), no Rio de Janeiro. Fotógrafo não identificado para Revista Manchete. Acervo Paulo Mendes Campos/IMS.