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Mostrando postagens de outubro, 2024

Pequenas Biografias: NOEL ROSA_o9

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Marília Era uma mocinha miúda, magra, de cabelos castanhos muito claros, os olhos ligeiramente rasgados, gestos discretos. Aguardava sua vez de subir ao palco quando notou que seu violão  —  justamente o violão de estimação, de um modelo premiado em Sevilha, presente do pai  —  estava nas mãos de Noel, que acabara de tomar sua cerveja e agora parecia experimentar o instrumento. Marília lembrou-se de ter deixado o violão sobre uma mesa perto do palco. Distraíra-se. Chegou apressada e apreensiva perto do moço magro que ela não conhecia e que (...) cantava um samba desconhecido. Se pretendia zangar-se, a beleza do samba, o sentimento que o moço magro parecia imprimir a cada verso, a cada palavra, a fez mudar de ideia. Permaneceu ali, ao lado de Noel, ouvindo-o cantar acompanhando-se no violão que o pai lhe dera. Perguntou-lhe o nome do samba. —  Verdade Duvidosa . Ficou maravilhada. (...) isso se passou há dois anos . (...) Hoje, tem dezesseis anos e já é uma profi...

Pequenas Biografias: NOEL ROSA_o8

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— Vamos tomar um trem. Pro subúrbio. Isso, vamos passear de trem pelo subúrbio. Onze da noite, os dois entram num trem da Leopoldina para viagens de ida e volta que só terminarão no outro dia, sol a pino. Lindaura dormindo sentada, (...) enquanto Noel puxa do bolso papel e lápis. Alheio aos balanços do trem, escreve. Acha esta ideia tão boa que passa a repeti-la todas as noites. (...) Para ele, habituado a trocar o dia pela noite, não há problema. Mas para ela, que tem de chegar cedo ao trabalho, uma noite em claro é um suplício. (...) A questão [agora é] acolher Lindaura. Será justo deixá-la ao relento, expulsa de casa pela mãe intransigente? De forma alguma. Mas para onde levá-la? Enquanto a solução não é encontrada, Noel (...) conduz a 'noiva' para toda parte, programas de rádio, festas, botequins... [Aninham-se] em muitos lugares, hotéis, casas de conhecidos, a pensão de mulheres da amiga de um malandro amigo, um canto alugado aqui e ali. Ou este sobrado na Rua do Acre (......

Leitura Complementar: NOEL ROSA_o8 / Subindo o Morro

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O samba, na realidade, n ão vem do morro nem lá da cidade E quem suportar uma paixão, sentirá que o samba, então, nasce no coração Capítulo 20 SUBINDO O MORRO Canuto foi o primeiro.  Um negro bem comprido, magro, a fala mansa enfeitada de gírias. Ninguém podia precisar como ou quando apareceu em Vila Isabel. No começo pensava-se ter vindo do morro dos Macacos, mas hoje já se sabe que mora mesmo no Salgueiro, lugar a que nenhum dos tangarás se atreve a subir para o que quer que seja. Nenhum não é exato. Noel sobe ao Salgueiro. E também ao morro dos Macacos. E a outros mais, Favela, Saúde, Mangueira. Sempre movido por bom motivo: samba. Embora os tangarás tenham descoberto Canuto praticamente ao mesmo tempo, embora partisse de Almirante a ideia de levá-lo com seu tamborim para um estúdio de gravação e embora fosse João de Barro o primeiro a tornar-se seu parceiro, de todos é Noel o mais ligado a ele. E um dos que mais apreciam seu jeito de bater, não com a baqueta, mas com o dedo ind...