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Mostrando postagens de abril, 2026

PENSAR A BOSSA_o4: O Projeto Utópico da Bossa Nova

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LORENZO MAMMÌ Surge a bossa nova e morre o botequim como lugar de criação da música popular. Aquela indistinção aparente, complementar à falta efetiva de mobilidade social, que aproximava Mário Reis e Sinhô, se esvanece. A nova música deve muito pouco ao samba do morro, muito mais, eventualmente, às lojas de discos importados que distribuíam Stan Kenton e Frank Sinatra. Sua postura em relação às influências internacionais é mais livre e solta, porque suas raízes sociais são mais claras e sua posição mais definida. Bossa nova é classe média, carioca. Ela sugere a ideia de uma vida sofisticada sem ser aristocrática, de um conforto que não se identifica com o poder. Nisto está sua novidade e sua força. Mas aí está também seu ponto fraco. Nos Estados Unidos, um processo similar se verificou muito antes, em meados da década de 20, com a passagem do  dixieland  para a era do  swing . Naquele caso, porém, a perda da indefinição social, que caracterizara a prática musical em Nova...

PENSAR A BOSSA_o4: O Projeto Utópico da Bossa Nova / alguns discos

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Um aluno dele me contou que o professor Walter Garcia formulou uma descrição do percurso de João Gilberto, mais ou menos nos termos a seguir (cito de memória): João Gilberto, desde os primeiros três LPs, os da chamada 'fundação' da bossa nova, esteve em busca permanente, sempre à procura de algo que podemos chamar de 'sonoridade', ou 'estética', ou mesmo 'invenção'. Isso significa que, apesar de toda a influência que exerceu sobre a cultura brasileira, João, ele próprio, não se deu por satisfeito até 'encontrar' aquele 'algo'. Quando encontrou, disse Garcia (segundo o aluno), João Gilberto não arredou pé deste lugar conquistado, dedicando-se a lapidar incansavelmente sua obra como um todo, agora de acordo com os novos padrões. Os prováveis erros deste comentário são todos exclusivamente meus (incluído o uso da referência bibliográfica informal), mas quero crer que o ponto de chegada (que é também de partida) do percurso gilbertiano está l...

PENSAR A BOSSA_o3: No mesmo lugar muito à frente

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LORENZO MAMMÌ A celebração dos 80 anos de João Gilberto proporciona certo desconforto. Não que ele não mereça. Mas a própria ideia de comemoração, com seu alarde festivo, não parece condizente com uma personalidade tão esquiva.  Atrás de todas as páginas publicadas, memórias, artigos, testemunhos, fica a impressão de que ninguém sabe ao certo quem ele é. E que a expressão evasiva, quase abobalhada, com que pronuncia poucas frases em público é uma máscara com a qual consegue nos ludibriar há décadas. Ou não? E se sua figura, seu papel de referência para tudo o que foi produzido na música brasileira dos últimos 50 anos tiver crescido a tal ponto que já não admite um indivíduo atrás dela?  João Gilberto virou uma espécie de entidade, mais do que um simples intérprete de canções, e entidades não fazem aniversário. Seu aniversário é o aniversário de um país, mais do que o de uma pessoa. E aí, seria o caso de investigar como isso se deu mais do que quem ele realmente é. TEMPO De res...

PENSAR A BOSSA_o2: Verdade Tropical

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CAETANO VELOSO Eu tinha dezessete anos quando ouvi pela primeira vez João Gilberto. Ainda morava em Santo Amaro, e foi um colega do ginásio quem me mostrou a novidade que lhe parecera estranha e que, por isso mesmo, ele julgara que me interessaria: Caetano, você que gosta de coisas loucas, você precisa ouvir o disco desse sujeito que canta totalmente desafinado, a orquestra vai pra um lado e ele vai pro outro. Ele exagerava a estranheza que a audição de João lhe causava, possivelmente encorajado pelo título da canção  Desafinado  —  uma pista falsa para primeiros ouvintes de uma composição que, com seus intervalos melódicos inusitados, exigia intérpretes afinadíssimos e terminava, na delicada ironia de suas palavras, pedindo tolerância para aqueles que não o eram. A bossa nova nos arrebatou. O que eu acompanhei como uma sucessão de delícias para minha inteligência foi o desenvolvimento de um processo radical de mudança de estágio cultural que nos levou a rever o nosso gos...

PENSAR A BOSSA_o2: Verdade Tropical / Comentário

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  Walter Garcia, no Brasil, o principal nome da Academia quando o assunto é música popular, inicia o livro Bim Bom, a contradição sem conflitos de João Gilberto , formulando a seguinte questão: "qual o elemento formal fundamentalmente responsável" pela enorme importância que se atribui ao estilo proposto pelo cantor e violonista baiano desde o distante ano de 1957 até os dias de hoje? O livro, que é uma elaboradíssima resposta à pergunta, usa como ponto de partida alguns 'depoimentos'.   Ronaldo Bôscoli : Foi através dele [João Gilberto], através do violão dele, que nasceu a bossa nova. Ele definiu, com aquela batida, o que só havia sido indicado por Johnny Alf, Lúcio Alves e outros grandes nomes da pré-bossa nova. O disco Chega de Saudade foi definitivo. Tom Jobim : A música Outra Vez é anterior à bossa nova. O João colocou o ritmo de bossa nova e seguiu com a orquestra. Eu tinha gravado com o Dick Farney, era um samba-canção. (...) gravada pelo João, a música fico...

PENSAR A BOSSA_o1: A Trilogia Inaugural

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CHEGA DE SAUDADE João Gilberto é um baiano 'bossa nova' de vinte e sete anos. Em pouquíssimo tempo influenciou toda uma geração de arranjadores, guitarristas, músicos e cantores. Nossa maior preocupação neste long-playing foi que Joãozinho não fosse atrapalhado por arranjos que tirassem sua liberdade, sua natural agilidade, sua maneira pessoal e intransferível de ser, em suma, sua espontaneidade. Nos arranjos contidos neste long-playing Joãozinho participou ativamente; seus palpites, suas ideias estão todos aí. Quando João Gilberto se acompanha, o violão é ele. Quando a orquestra o acompanha, a orquestra também é ele. João Gilberto não subestima a sensibilidade do povo. Ele acredita que há sempre lugar para uma coisa nova, diferente e pura que —  embora à primeira vista não pareça —  pode se tornar, como dizem na linguagem especializada, altamente comercial. Porque o povo compreende o amor, as notas, a simplicidade e a sinceridade. Eu acredito em João Gilberto porque ele ...

PENSAR A BOSSA_o1: A Trilogia Inaugural / Os discos

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CHEGA DE SAUDADE (1959)   O AMOR, O SORRISO E A FLOR (1960) JOÃO GILBERTO (1961)   Imagem: Vinicius, Tom, João, Aloysio de Oliveira e Os Cariocas, 1962, autor não indicado.