Postagens

Mostrando postagens de maio, 2026

PENSAR A BOSSA_o8: Certidão de nascimento

Imagem
VINICIUS DE MORAES Domingo, 24 de janeiro de 1965 A história já tem sido contada mas um amigo de São Paulo pede-me que faça um zoom (perguntem depois o que isso quer dizer ao meu querido colega da esquerda: piedade, dedos-duros! — esquerda da página...?) * sobre a criação de certas músicas de Antonio Carlos Jobim que deram partida ao movimento da bossa nova. Foi aí pelos meados de 1956. Eu tinha encontrado um financiador (graças à publicidade feita em torno do filme, que se articulara na Europa e determinara uma viagem minha com o produtor Sacha Gordine ao Brasil) para a minha peça Orfeu da Conceição e andava procurando um músico para fazer os sambas comigo. Não queria nenhum dos nossos 'monstros sagrados' eruditos por motivos óbvios. Queria sangue novo. Tentei primeiro meu velho amigo, já falecido, Vadico, o famoso parceiro de Noel que eu conhecera em Los Angeles e com quem eu me ligara de amizade. Vadico unia o popular ao erudito. Conhecia música profundamente e quando o e...

PENSAR A BOSSA_o7: A propósito de Orfeu da Conceição

Imagem
As datas de saída deste livro e da estreia, no Teatro Municipal desta cidade, de Orfeu da Conceição são propositadamente coincidentes. É uma espécie de festa que me deu, pois não me foi fácil escrever a peça, e muito menos encená-la. Há 16 anos, uma certa noite em casa do arquiteto Carlos Leão, a cavaleiro do Saco de São Francisco, depois de ler numa velha mitologia o mito grego de Orfeu, dava eu início aos versos do primeiro ato, que terminei com a madrugada raiando sobre quase toda a Guanabara, visível de minha janela. Só em Los Angeles, 6 anos depois, consegui encontrar o segundo e terceiro atos, sendo que este último perdi-o, só indo refazê-lo em 1953 quando, a instâncias de meu amigo o poeta João Cabral de Melo Neto, resolvi concorrer ao Concurso de Teatro do IV Centenário de São Paulo. É difícil prever o destino de uma peça de teatro, sobretudo quando foi, como esta, ensaiada em três meses apenas, por contingências dos meus deveres de diplomata com data certa para regressar ao p...

PENSAR A BOSSA_o7: Orfeu da Conceição

Imagem
VINICIUS DE MORAES Sobre o nascimento do Orfeu negro Foi em 1942, num jantar com meu amigo e escritor americano Waldo Frank, que surgiu o que se poderia chamar o embrião de onde nasceria, alguns meses mais tarde, a ideia de Orfeu da Conceição . Acompanhava eu, então, o autor de America Hispana em todas as incursões por favelas, macumbas, clubes e festejos negros no Rio, e me sentia particularmente impregnado do espírito da raça. Conversa vai, criou-se subitamente em nós, através de um processo por associação caótica, o sentimento de que todas aquelas celebrações e festividades a que vínhamos assistindo tinham alguma coisa a ver com a Grécia; como se o negro, o negro carioca no caso, fosse um grego em ganga — um grego ainda despojado de cultura e do culto apolíneo à beleza, mas não menos marcado pelo sentimento dionisíaco da vida. Posteriormente, na viagem que fiz com o mesmo escritor ao norte do Brasil, o espetáculo dos candomblés, capoeiras e festejos negros da Bahia só fez fortifica...

PENSAR A BOSSA_o7: Orfeu da Conceição, o disco

Imagem
VINICIUS DE MORAES Poucas histórias terão excitado mais o espírito criador dos artistas que o mito grego de Orfeu, o divino músico da Trácia, cuja lira tinha o poder de tocar o coração dos bichos e criar nos seres a doçura e o apaziguamento. Esse sentimento da integração total do homem com a sua arte num mundo de beleza e harmonia, que artista não o traz dentro de si, confundido com o próprio impulso que o move para a criação? Foi por volta de 1942 que, uma noite, depois de reler o mito numa velha mitologia grega, senti subitamente nele a estrutura de uma tragédia negra carioca. A lenda do artista que conseguiu, graças ao fascínio de sua música, descer aos infernos para buscar Eurídice, sua bem-amada morta e que, ao perdê-la em definitivo e com ela o gosto de criar e de viver, desencadeou em torno de si a desarmonia, o desespero de que seria a primeira vitima, — essa lenda poderia perfeitamente passar-se num ambiente como o de uma favela carioca, sublimados, é claro, os seus elementos...

PENSAR A BOSSA_o6: Antologia poética

Imagem
Antologia Poética "O Vinicius mandou-me um grande catatau para ser editado sob as minhas vistas. Toda a poesia até agora dele, excluídos os poemas que ele hoje renega (quase todos os de O caminho para a distância e muitos de Forma e exegese )". Manuel Bandeira, em carta endereçada a João Cabral de Melo Neto em 20 de setembro de 1949. "Fiquei muito contente de você poder tomar conta do meu livro. Chamarei, claro!, de Antologia . Como Gabriela [Mistral] ainda o tem em seu poder, vou dar um pulo a Santa Bárbara". Vinicius de Moraes para Manuel Bandeira, em 17 de fevereiro do ano anterior. A Antologia Poética sai em 1954 pela editora A Noite, dirigida por Cassiano Ricardo. Traz poemas dos sete livros editados por Vinicius até então: O caminho para a distância , de 1933;  Forma e exegese , de 1935;  Ariana, a mulher , de 1936;  Novos poemas , de 1938;  Cinco elegias , de 1943;  Poemas, sonetos e baladas , de 1946;  Pátria minha , de 1949. D' O caminho para a d...

PENSAR A BOSSA_o6: As canções de câmara

Imagem
JOSÉ CASTELLO Samba-canção... Homens e mulheres, dizem essas letras cheias de melancolia, nasceram para o desencontro e para o fracasso. Como não suportam esse destino, pioram as coisas se agarrando às ilusões. Sofrem mais ainda. (...) Nesse cenário, Vinicius começa a dar seus primeiros passos. Em 1953, aos quarenta anos de idade, compõe seu primeiro samba, Quando Tu Passas por Mim , gravado depois por Doris Monteiro e por Aracy de Almeida. Ainda é um samba triste, que descreve o amor como uma modalidade do sofrimento. Começa:      Quando tu passas por mim      Por mim passam saudades cruéis E mais em frente:      Eu que só fiz te adorar!      E que de tanto te amar penei mágoas sem fim Versos ainda melancólicos, que trazem, porém, no desfecho, algum sentido de orgulho e de liberdade:      Hoje nem olho pra trás      Quando tu passas por mim Em contraste com o cenário fechado e fatalista do samba d...

PENSAR A BOSSA_o5: Vinicius e os sambas

Imagem
Samba de branco O senso comum adotou a ideia de que, sendo 'música de branco', a bossa nova tinha inimizade com o samba. Não era isso o que diziam os três artífices do gênero, Tom, João e Vinicius. Não que a bossa tenha deixado de eleger suas antinomias. Mas estas eram os ' sam-boleros', os 'sam-tangos', os 'sam-fados' e qualquer subgênero que descaracterizasse a "linha pura" do samba, " cuja vitalidade carioca", segundo Vinicius de Moraes, era preciso defender "custe o que custar". No mesmo ano em que compôs sozinho letra e melodia de sua primeira música, Vinicius iniciou a coluna Diz-Que Discos no periódico Flan: o Jornal da Semana. No espaço semanal de Flan, Vinicius vai passar aquele 1953 comentando lançamentos da indústria fonográfica e registrando pensamentos sobre música popular. Observadas com os olhos de hoje, as notas críticas do poeta prenunciam as 'questões' que o surgimento da bossa nova viria suscitar....