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PENSAR A BOSSA_o9: Antonio Brasileiro (I)

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Vida noturna Era mesmo um bas-fonds dos diabos, com os leões-de-chácara aproveitados da Polícia Especial do Getúlio, que defendiam a gente dos fregueses incômodos, chatos, briguentos. Houve cenas desagradáveis, amargas. Lembro de uma ocasião num lugar chamado French Can-Can onde havia um piano de cauda que eu tocava durante o jantar, ali entre a Constante Ramos e a Miguel Lemos, ao lado do Posto Cinco. Frequentavam a casa o Roger, que havia sido da Resistência Francesa, e um procurador da República, de que não lembro o nome. Os dois eram muito amigos, mas um dia eles se desentenderam de verdade. Esse procurador sacou do revólver para amedrontar o amigo, mas no meio do percurso entre o bolso e a mesa a arma disparou. A bala passou perto do meu estômago, junto ao baço, e ficou encravada na parede. No percurso até lá, furou o paletó do garçom que vinha passando com uma bandeja. Vi outras coisas tristes, como o incêndio do Vogue, onde o Schiller morreu abraçado com a esposa, na cama. Algué...

PENSAR A BOSSA_o9: Antonio Brasileiro (II)

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Ernani, Juquinha, Maurici Nesse tempo, então, comecei a mostrar minhas músicas. Havia um cantor pouco famoso que viajava com o Ary Barroso, o Ernani Filho, filho do Ernani do clarone, que tocava clarinete baixo, aquele vasto clarinete de ébano que dava aqueles sons graves. Ernani gravou a primeira música que fiz: Pensando em Você . Compus a música logo depois que me casei pela primeira vez. Aquilo começou a brotar em mim, a revelar-se, qualquer coisa que estava reprimida há muito tempo. Fiz letra e música, gravando um disco de 78 rotações para a Sinter, cujo diretor era o Paulo Serrano. Do outro lado havia uma música de parceria com o Juquinha, o João Batista Stockler Pimentel, que até hoje toca bateria na noite, com o pianista Galo, e toca muito bem. Logo depois, o Maurici Moura, cantor de São Paulo residente em Santos, gravou música minha de parceria com o Newton Mendonça, Incerteza . Para ouvir a playlist Nasce um Compositor com cinco das primeiras composições de Tom registradas em...

PENSAR A BOSSA_o9: Antonio Brasileiro (III)

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A bossa nova A bossa nova é uma longa e conhecida história. Em 1962, fui para os Estados Unidos, depois de longo tempo de parceria com o Vinícius que aqui continuou a compor com outros parceiros. Só de passagem, é bom que se diga: o Vinícius não se apegava a nada, nem fórmulas, nem parceiro, nem mulher nenhuma. Era uma grande pessoa. Mas fui para os Estados Unidos. O Itamaraty estava muito interessado em divulgar a nova música que surgia, lá no exterior. Um representante do Ministério das Relações Exteriores foi à minha casa e insistiu que eu viajasse. A bossa nova é um velho ritmo que existia aqui nas escolas de samba, no Rio como na Bahia. Esse pá, tá, tá, pá, tá, está perfeitamente descrito num livro francês editado na década de 40, o La Musique, des Origines à nos Jours . Quem diz hoje que bossa nova nasceu sob influência do jazz está dizendo uma grossa bobagem. O negócio é mais sério e menos fanático. O baiano João Gilberto fez pá, tá, tá, pá, tá, e disseram que a batida era gaga....

PENSAR A BOSSA_o8: Certidão de nascimento

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VINICIUS DE MORAES Domingo, 24 de janeiro de 1965 A história já tem sido contada mas um amigo de São Paulo pede-me que faça um zoom (perguntem depois o que isso quer dizer ao meu querido colega da esquerda: piedade, dedos-duros! — esquerda da página...?) * sobre a criação de certas músicas de Antonio Carlos Jobim que deram partida ao movimento da bossa nova. Foi aí pelos meados de 1956. Eu tinha encontrado um financiador (graças à publicidade feita em torno do filme, que se articulara na Europa e determinara uma viagem minha com o produtor Sacha Gordine ao Brasil) para a minha peça Orfeu da Conceição e andava procurando um músico para fazer os sambas comigo. Não queria nenhum dos nossos 'monstros sagrados' eruditos por motivos óbvios. Queria sangue novo. Tentei primeiro meu velho amigo, já falecido, Vadico, o famoso parceiro de Noel que eu conhecera em Los Angeles e com quem eu me ligara de amizade. Vadico unia o popular ao erudito. Conhecia música profundamente e quando o e...

PENSAR A BOSSA_o7: A propósito de Orfeu da Conceição

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As datas de saída deste livro e da estreia, no Teatro Municipal desta cidade, de Orfeu da Conceição são propositadamente coincidentes. É uma espécie de festa que me deu, pois não me foi fácil escrever a peça, e muito menos encená-la. Há 16 anos, uma certa noite em casa do arquiteto Carlos Leão, a cavaleiro do Saco de São Francisco, depois de ler numa velha mitologia o mito grego de Orfeu, dava eu início aos versos do primeiro ato, que terminei com a madrugada raiando sobre quase toda a Guanabara, visível de minha janela. Só em Los Angeles, 6 anos depois, consegui encontrar o segundo e terceiro atos, sendo que este último perdi-o, só indo refazê-lo em 1953 quando, a instâncias de meu amigo o poeta João Cabral de Melo Neto, resolvi concorrer ao Concurso de Teatro do IV Centenário de São Paulo. É difícil prever o destino de uma peça de teatro, sobretudo quando foi, como esta, ensaiada em três meses apenas, por contingências dos meus deveres de diplomata com data certa para regressar ao p...

PENSAR A BOSSA_o7: Orfeu da Conceição

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VINICIUS DE MORAES Sobre o nascimento do Orfeu negro Foi em 1942, num jantar com meu amigo e escritor americano Waldo Frank, que surgiu o que se poderia chamar o embrião de onde nasceria, alguns meses mais tarde, a ideia de Orfeu da Conceição . Acompanhava eu, então, o autor de America Hispana em todas as incursões por favelas, macumbas, clubes e festejos negros no Rio, e me sentia particularmente impregnado do espírito da raça. Conversa vai, criou-se subitamente em nós, através de um processo por associação caótica, o sentimento de que todas aquelas celebrações e festividades a que vínhamos assistindo tinham alguma coisa a ver com a Grécia; como se o negro, o negro carioca no caso, fosse um grego em ganga — um grego ainda despojado de cultura e do culto apolíneo à beleza, mas não menos marcado pelo sentimento dionisíaco da vida. Posteriormente, na viagem que fiz com o mesmo escritor ao norte do Brasil, o espetáculo dos candomblés, capoeiras e festejos negros da Bahia só fez fortifica...

PENSAR A BOSSA_o7: Orfeu da Conceição, o disco

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VINICIUS DE MORAES Poucas histórias terão excitado mais o espírito criador dos artistas que o mito grego de Orfeu, o divino músico da Trácia, cuja lira tinha o poder de tocar o coração dos bichos e criar nos seres a doçura e o apaziguamento. Esse sentimento da integração total do homem com a sua arte num mundo de beleza e harmonia, que artista não o traz dentro de si, confundido com o próprio impulso que o move para a criação? Foi por volta de 1942 que, uma noite, depois de reler o mito numa velha mitologia grega, senti subitamente nele a estrutura de uma tragédia negra carioca. A lenda do artista que conseguiu, graças ao fascínio de sua música, descer aos infernos para buscar Eurídice, sua bem-amada morta e que, ao perdê-la em definitivo e com ela o gosto de criar e de viver, desencadeou em torno de si a desarmonia, o desespero de que seria a primeira vitima, — essa lenda poderia perfeitamente passar-se num ambiente como o de uma favela carioca, sublimados, é claro, os seus elementos...

PENSAR A BOSSA_o6: Antologia poética

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Antologia Poética "O Vinicius mandou-me um grande catatau para ser editado sob as minhas vistas. Toda a poesia até agora dele, excluídos os poemas que ele hoje renega (quase todos os de O caminho para a distância e muitos de Forma e exegese )". Manuel Bandeira, em carta endereçada a João Cabral de Melo Neto em 20 de setembro de 1949. "Fiquei muito contente de você poder tomar conta do meu livro. Chamarei, claro!, de Antologia . Como Gabriela [Mistral] ainda o tem em seu poder, vou dar um pulo a Santa Bárbara". Vinicius de Moraes para Manuel Bandeira, em 17 de fevereiro do ano anterior. A Antologia Poética sai em 1954 pela editora A Noite, dirigida por Cassiano Ricardo. Traz poemas dos sete livros editados por Vinicius até então: O caminho para a distância , de 1933;  Forma e exegese , de 1935;  Ariana, a mulher , de 1936;  Novos poemas , de 1938;  Cinco elegias , de 1943;  Poemas, sonetos e baladas , de 1946;  Pátria minha , de 1949. D' O caminho para a d...