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PENSAR A BOSSA_1o: inverno na Califórnia

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Em tom bem triste 12 de novembro de 1964 Parte hoje para os Estados Unidos o meu querido amigo e parceiro Antonio Carlos Jobim. Sua missão, não conheço mais bela: defender o prestígio sempre crescente de nossa música popular, de que foi o motivador principal, através da lírica beleza de seus melhores sambas e canções. Não há atualmente no mundo que nos é conhecido compositor mais completo. Qual Mancini, qual Legrand, qual nada! Peguem as músicas e façam as comparações. E não sou só eu que o digo, eu que sou seu maior amigo e mais constante letrista, o que poderia parecer suspeito. Perguntem a Carlos Lyra, a Dorival Caymmi, a Baden Powell, aos homens que são hoje os mais legítimos representantes da canção brasileira no mundo e que lutam em três continentes pela sua divulgação. Num país onde pouco ou quase nada se faz pela música, que é o que de melhor temos; onde o esforço de um diplomata de visão como o conselheiro Mário Dias Costa, do Departamento Cultural do Itamaraty, constitui uma ...

PENSAR A BOSSA_o9: Antonio Brasileiro (I)

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Vida noturna Era mesmo um bas-fonds dos diabos, com os leões-de-chácara aproveitados da Polícia Especial do Getúlio, que defendiam a gente dos fregueses incômodos, chatos, briguentos. Houve cenas desagradáveis, amargas. Lembro de uma ocasião num lugar chamado French Can-Can onde havia um piano de cauda que eu tocava durante o jantar, ali entre a Constante Ramos e a Miguel Lemos, ao lado do Posto Cinco. Frequentavam a casa o Roger, que havia sido da Resistência Francesa, e um procurador da República, de que não lembro o nome. Os dois eram muito amigos, mas um dia eles se desentenderam de verdade. Esse procurador sacou do revólver para amedrontar o amigo, mas no meio do percurso entre o bolso e a mesa a arma disparou. A bala passou perto do meu estômago, junto ao baço, e ficou encravada na parede. No percurso até lá, furou o paletó do garçom que vinha passando com uma bandeja. Vi outras coisas tristes, como o incêndio do Vogue, onde o Schiller morreu abraçado com a esposa, na cama. Algué...

PENSAR A BOSSA_o9: Antonio Brasileiro (II)

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Ernani, Juquinha, Maurici Nesse tempo, então, comecei a mostrar minhas músicas. Havia um cantor pouco famoso que viajava com o Ary Barroso, o Ernani Filho, filho do Ernani do clarone, que tocava clarinete baixo, aquele vasto clarinete de ébano que dava aqueles sons graves. Ernani gravou a primeira música que fiz: Pensando em Você . Compus a música logo depois que me casei pela primeira vez. Aquilo começou a brotar em mim, a revelar-se, qualquer coisa que estava reprimida há muito tempo. Fiz letra e música, gravando um disco de 78 rotações para a Sinter, cujo diretor era o Paulo Serrano. Do outro lado havia uma música de parceria com o Juquinha, o João Batista Stockler Pimentel, que até hoje toca bateria na noite, com o pianista Galo, e toca muito bem. Logo depois, o Maurici Moura, cantor de São Paulo residente em Santos, gravou música minha de parceria com o Newton Mendonça, Incerteza . Para ouvir a playlist Nasce um Compositor com cinco das primeiras composições de Tom registradas em...

PENSAR A BOSSA_o9: Antonio Brasileiro (III)

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A bossa nova A bossa nova é uma longa e conhecida história. Em 1962, fui para os Estados Unidos, depois de longo tempo de parceria com o Vinícius que aqui continuou a compor com outros parceiros. Só de passagem, é bom que se diga: o Vinícius não se apegava a nada, nem fórmulas, nem parceiro, nem mulher nenhuma. Era uma grande pessoa. Mas fui para os Estados Unidos. O Itamaraty estava muito interessado em divulgar a nova música que surgia, lá no exterior. Um representante do Ministério das Relações Exteriores foi à minha casa e insistiu que eu viajasse. A bossa nova é um velho ritmo que existia aqui nas escolas de samba, no Rio como na Bahia. Esse pá, tá, tá, pá, tá, está perfeitamente descrito num livro francês editado na década de 40, o La Musique, des Origines à nos Jours . Quem diz hoje que bossa nova nasceu sob influência do jazz está dizendo uma grossa bobagem. O negócio é mais sério e menos fanático. O baiano João Gilberto fez pá, tá, tá, pá, tá, e disseram que a batida era gaga....

PENSAR A BOSSA_o9: A invasão francesa (leitura complementar)

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SÉRGIO CABRAL As filmagens de Orphée Noir tiveram início em 1957, um ano depois do Orfeu da Conceição ter estreado no Rio de Janeiro. O produtor Sacha Gordine convidou Marcel Camus, irmão do escritor Albert Camus, para a direção e convocou Jacques Viot para refazer o roteiro de Vinicius de Moraes. A indicação de Viot não causou qualquer reação negativa de Vinicius. É verdade que ninguém seria mais bem indicado do que o autor da história para cuidar do roteiro. Além disso, o cinema não era uma atividade estranha ao velho estudioso do assunto e militante durante alguns anos da critica cinematográfica. O que chateou Vinicius foi o resultado, mais uma consequência da velha mania europeia e norte-americana de exagerar os aspectos exóticos dos países do terceiro mundo. Vinicius ficou uma fera. Foi a primeira indisposição do poeta — em seguida, também de Tom Jobim — com os franceses do Orphée Noir  (depois o filme passou a se chamar Orfeu Negro ) . Por isso, Vinicius pediu para retirar ...