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Mostrando postagens de fevereiro, 2025

16. A Era de Ouro

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Em artigo publicado na Folha de São Paulo pelo centenário da Semana de 22,  o professor José Miguel Wisnik  afirma que: "A força e a fraqueza do grande arco da cultura moderna no Brasil, que vai dos anos 1920 aos 1960, consiste na aliança entre o erudito e o popular com base na mediação da classe média. Esse arco poderoso incluiu a literatura, as artes visuais, a música de concerto e chegou à MPB e ao Cinema Novo, apontando para um salto social que a ditadura interrompeu". A lista de cinco itens do autor de  O Som e o Sentido  está dividida em 3 + 2:  'literatura, artes visuais e música de concerto' separados da MPB e do Cinema Novo, que só surgiriam no final do período, na década de 1960. Ao descrever  em semelhantes termos  o "grande arco", Wisnik  deixa entrever (como resíduo) a existência de uma música popular brasileira que não é 'MPB' (e um cinema que não é 'Novo') e que, sabemos, acontece nas mesmas décadas (ou quase). Refiro-me à músi...

15. A Ponta da Modernidade e a Melhor Tradição

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Caetano Veloso, na autobiografia  Verdade Tropical : "Eu tinha dezessete anos quando ouvi pela primeira vez João Gilberto. Ainda morava em Santo Amaro, e foi um colega do ginásio quem me mostrou a novidade que lhe parecera estranha e que, por isso mesmo, ele julgara que me interessaria:   —  Caetano, você que gosta de coisas loucas, você precisa ouvir o disco desse sujeito que canta totalmente desafinado, a orquestra vai pra um lado e ele vai pro outro. Ele exagerava a estranheza que a audição de João lhe causava, possivelmente encorajado pelo título da canção,  Desafinado   —  uma pista falsa para primeiros ouvintes de uma composição que, com seus intervalos melódicos inusitados, exigia intérpretes afinadíssimos e terminava, na delicada ironia de suas palavras, pedindo tolerância para aqueles que não o eram. A bossa nova nos arrebatou. O que eu acompanhei como uma sucessão de delícias para minha inteligência foi o desenvolvimento de um processo radica...

14. A Revolução de 30 e a Cultura

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Quem viveu nos anos 30 sabe qual foi a atmosfera de fervor que os caracterizou no plano da cultura, sem falar de outros. O movimento de outubro não foi um começo absoluto nem uma causa primeira e mecânica (...). Mas foi um eixo em torno do qual girou de certo modo a cultura brasileira, catalisando elementos dispersos para dispô-los numa configuração nova.  Neste sentido 1930 foi um marco histórico, daqueles que fazem sentir vivamente que houve um 'antes' diferente de um 'depois'. Com efeito, uma série de aspirações, inovações, pressentimentos, estavam claros no decênio de 1920, que tinha sido uma sementeira de grandes e inúmeras mudanças. Mas como fenômenos isolados, parecendo arbitrários e sem necessidade real, vistos pela maioria da opinião com desconfiança e mesmo ânimo agressivo.  Depois de 1930 eles se tornaram até certo ponto 'normais', como fatos de cultura com os quais a sociedade aprende a conviver e, em muitos casos, passa a aceitar e apreciar. Isto oc...

13. O Fim dos Anos 20

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Em fins de 1928, o carioca olhou para o alto na avenida Rio Branco e viu as luzes que passavam em velocidade, formando letras, na fachada de um edifício. Era a estreia de O Jornal Luminoso, uma versão elétrica de O Jornal, de Assis Chateaubriand, com manchetes e notícias curtas, "escritas no ar", contra o fundo da grande noite. Chateaubriand trouxera essa ideia da Europa. A Noite reagiu com uma novidade: a seção  Carioca-Repórter . Pedia que os leitores, por telefone, por carta ou em pessoa, mandassem notícias para o jornal, sobre acidentes de rua, transgressões, crimes. O Rio acabara de ganhar também duas fábricas de papel, com o que novas publicações não paravam de surgir. As principais eram os jornais Diário de Notícias, de Orlando Dantas, e Diário Carioca, de José Eduardo de Macedo Soares, ambos de oposição declarada ao governo federal, e Crítica, de Mario Rodrigues, sujeito aos humores do chefe e a propostas generosas. E, entre muitas novas revistas 'de sábado', ...

12. A Turma do Estácio

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1. Eles eram todos negros ou mestiços. Alguns, muito altos e atraentes; quase todos, vaidosos e bem-vestidos — ternos de linho branco ou marrom, camisas de seda, chapéus Fedora, gravatas e sapatos no apuro, joias e relógios, ouro à vontade nos dentes. Alguns andavam armados. Seus pontos eram o Café do Compadre, na rua Santos Rodrigues, o Bar Apollo, no largo do Estácio, ou, a negócios, o Mangue, a zona de prostituição, adjacente ao Estácio. Nenhum deles sabia música — uns poucos se viravam no violão —, mas podem ter sido os inventores do surdo, da cuíca e do tamborim. Com eles, o samba deixou de ser maxixe, ganhou um novo rosto rítmico e melódico e, pela primeira vez, saiu às ruas com o nome de 'escola'. Eram os rapazes do bairro do Estácio. Chamavam-se Ismael Silva, Nilton Bastos, Alcebiades Barcellos (Bide), o irmão deste, Rubens Barcellos (Mano Rubem), Sylvio Fernandes (Brancura), Oswaldo Vasques (Baiaco), Lino do Estácio (Heitor dos Prazeres), Edgar Marcelino dos Passos (Ma...

11. O Rei da Voz

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Se não possuísse aquele perfil chegado à malandragem, Francisco Alves talvez não tivesse se aproximado dos criadores do samba batucado. Sete anos depois, com a mesma naturalidade com que explorava aquela pequena na Lapa, passaria a explorar os sambistas no Estácio. Com a mesma espontaneidade com que registrava como seu um automóvel adquirido com dinheiro alheio, registraria como suas as criações de outros. 1. Embora tivesse sido, na verdade, 'alugado' a ele por Alcebiades Barcellos, afirmava que era de sua autoria o  Vadiagem :      A vadiagem eu deixei      Não quero mais saber... "Não o vendi propriamente", explicava o verdadeiro criador. "O Francisco Alves assina-o, mas me dá 50% dos lucros que aufere". Um aluguel que já havia rendido "mais de três contos de réis" para Bide. Nascido na Conselheiro Saraiva, uma viela escura de esquina com a rua Primeiro de Março, em frente à ilha das Cobras, Chico passou a infância e a adolescência ali na z...