Postagens

Mostrando postagens de setembro, 2024

Leitura Complementar: NOEL ROSA_o4 / À Luz das Estrelas

Imagem
Com a melodia que espalhávamos  —  eu, Nássara, Alegria, Canuto, Clóvis e outros  —  a minha impressão era de que se tornava mais intensa a palpitação longínqua das estrelas (Entrevista ao Jornal de Rádio). CAPÍTULO 9 À LUZ DAS ESTRELAS Começo de madrugada, Noel vem pela rua deserta a caminho de casa. Ele e o violão. Toda a Vila Isabel dorme. Ou quase toda.  Ao chegar à esquina de Souza Franco com Theodoro da Silva, distingue adiante um pequeno grupo. E ouve soar uma voz emocionada:      Este amor tristonho      Não devemos relembrar      Tantos beijos que trocamos      Tudo esqueçamos      Tudo morreu... É o bastante para que desista de dobrar à esquerda, na direção do chalé, e tome o sentido oposto, aproximando-se do grupo.  São quatro homens, todos mais velhos que ele. Três tocam violão e o outro continua cantando:      E deixaste na minh'alma      Fr...

Pequenas Biografias: NOEL ROSA_o4

Imagem
Nestes anos  de ginásio, raramente se separa do uniforme caqui. Até por uma questão de economia. Desde que voltou de Araçatuba, há quase quatro anos, Manuel Garcia de Medeiros Rosa não mais se aprumou. Cavou um emprego aqui, outro ali, sem no entanto firmar pé. (...) Assim, o uniforme do São Bento, renovado a cada começo de ano, é forma de poupar. [Apesar de estarem] morando numa casa mais nova e confortável que o chalé, e contando com a mesada que Rita recebe do filho, a tormenta ainda não passou de todo para os Medeiros Rosa. Motivo pelo qual Neca afasta-se de casa mais uma vez, agora com destino a Bica de Pedra, onde espera ter, ao lado do cunhado, um pouco mais de sorte. Lá se ocupará da contabilidade de casas de negócio e da construção de uma estrada. Clarinha (...) uma casa grande, as portas e janelas laterais dando para uma comprida e estreita varanda. (...) fica bem em frente ao bangalô. Mas só neste fim de tarde, ao voltar do São Bento, Noel parece notar que tal casa exist...

Pequenas Biografias: NOEL ROSA_o3

Imagem
No chalé sempre cabe mais um. Ou mais quatro. Como Jocelyn da Encarnação e os irmãos Dulce, Sylvia e Mariozinho Brown, crianças com as quais Hélio e Noel vão dividir boa parte de sua infância, vivendo todos sob o mesmo teto como uma só família. Jocelyn, um ano mais velho que Noel, não chega propriamente a morar no chalé. Vem cedinho, toma o café da manhã, estuda, almoça, estuda um pouco mais, brinca, janta e só depois volta para sua verdadeira casa, na rua Maxwell. Dorme e no dia seguinte começa tudo de novo. O pai, Álvaro Pereira da Encarnação, enviuvou quando Jocelyn tinha apenas onze meses. Do segundo casamento, anos depois, nasceu uma menina. Submetida, ainda pequena, a delicada operação pelos doutores Heleno Brandão e Graça Mello, morreu. (...) Eduardinho, já acadêmico de medicina, assistiu à operação. Ficou arrasado. Comentou o fato em casa com a mãe e as irmãs, amigas da família Encarnação. Rita teve uma ideia: — Por que não cuidamos do menino? Poderemos educá-lo com as nossas c...

Leitura Complementar: NOEL ROSA_o2 / A Vila do Barão

Imagem
Capítulo 3 PELAS RUAS DO BAIRRO A Vila do Barão (box) — Vila Isabel é uma grande família — costumavam dizer os moradores do bairro durante as quatro primeiras décadas do século XX, ou seja, enquanto se mantivesse vivo o espírito comunitário que dava ao lugar ares de cidadezinha do interior, as pessoas se conhecendo, se frequentando, se ajudando umas às outras. Enfim, uma fraterna e solidária instituição que o progresso e o crescimento da população fariam desaparecer. Entre os membros dessa grande família, alguns garantiam ter um parente de verdade do qual muito se orgulhavam: ninguém menos que o Barão de Drummond, o fundador do bairro. João Baptista Vianna Drummond era mineiro de Nova Era, mas registrado em Itabira do Mato Dentro. Nascido no primeiro dia de maio de 1825, já tinha 35 anos quando se mudou para o Rio. Alegre, comunicativo, liberal, antes mesmo de a Princesa Isabel sonhar com a Lei Áurea já havia ele alforriado todos os seus escravos. Com grande tino para os negócios, entr...

Pequenas Biografias: NOEL ROSA_o2

Imagem
O menino  se chamará Noel por ter nascido às vésperas do Natal.   E pelo amor do pai às coisas de França, o idioma, a cultura, a história do país de Bonaparte. Que por sinal é o maior de todos os heróis para este mineiro calado, introspectivo, que se faz repentinamente falante quando se trata de lembrar episódios como a queda da Bastilha e as campanhas napoleônicas. Noel, como o natal dos franceses. É assim que vai à pia batismal da Matriz de São Francisco Xavier do Engenho Velho, domingo, 29 de janeiro de 1911, primeiro aniversário de casamento de Neca e Martha. O padrinho é José Rodrigues da Graça Mello, o médico que acompanhou Martha durante toda a gravidez. A madrinha é Maria Arlinda Rodrigues de Almeida Madureira. Ou simplesmente Arlinda. Uma menina de nove anos que desde os seis mora no chalé como se fosse da família. (...) A mãe morreu de parto, o pai passou a vida viajando, a menina foi criada por uma tia. Num certo dia de 1907, veio de visita, todos gostaram dela...