Anos 1960 — 1970_24: Flores e Espinhos
Censura e apreensão
Em 4 de outubro, ao ouvir boatos sobre a proibição de Caminhando, Vandré declara: "Minha canção diz tudo o que penso e por isto me responsabilizo por ela. Cantarei em qualquer lugar onde haja um violão, pois minha função é cantar".
Dois dias depois, o Jornal do Brasil publica um artigo assinado pelo general alagoano Octávio Costa, com o título As flores de Vandré.
O militar afirma que o 3º FIC havia sido palco de três injustiças: a primeira por parte do júri, por não premiar a melhor letra; a segunda por parte da plateia, "pela cegueira da paixão, renegando dois dos maiores compositores brasileiros e sufocando a suavidade de Cinara e Cibele (sic)"; a terceira do próprio Vandré, cometida contra os "soldados armados". Para ele, apenas a terceira ainda poderia ser reparada.
Se para bom entendedor um pingo é letra, fica claro que, do ponto de vista do general, o compositor deveria sofrer alguma punição.
Na edição do dia 10, o Correio da Manhã informa: "Como foi anunciado, fiscais do Departamento de Censura e agentes do DOPS percorreram, ontem, as lojas de discos de Niterói e São Gonçalo e apreenderam cerca de 500 compactos simples que continham a gravação do cantor e compositor Geraldo Vandré, Pra Não Dizer Que Não Falei de Flores (sic)".
No dia 11, um boletim do SNI avisa ao DOPS de São Paulo que o DOPS carioca havia apreendido 500 discos com a canção de Vandré, "considerada subversiva pelas autoridades militares". Quatro dias depois, um promotor militar denuncia um estudante por carregar um pacote com panfletos subversivos, em cujo verso estava impressa a letra de Caminhando.
Apesar da censura, uma lista publicada na revista Veja aponta o compacto simples como o quinto mais vendido no país.
No dia 23, Caminhando é oficialmente proibida. A partir daí, não pode mais ser tocada no rádio, na televisão e em locais públicos em todo o território nacional. Policiais do país inteiro recebem ordens para recolher o disco.
Quem se interessa pela música pode ser fichado como subversivo.
Apesar disso, aproximadamente 180 mil exemplares são vendidos em apenas quinze dias.
O dono da gravadora RGE, Enrique Lebemdiger, é quem ajuda a distribuir cópias do compacto nos centros estudantis, até que o SNI (Serviço Nacional de Informações) descobre a estratégia.
Cresce a repressão
Os aparelhos de repressão aumentam a vigilância sobre os artistas da MPB, considerando-os subversivos ou simpatizantes do comunismo e da luta armada. Muitos serão enquadrados no AI-5, o ato baixado na sexta-feira, 13 de dezembro de 1968, pelo marechal presidente Costa e Silva. Tal decisão é tomada após uma reunião dos vinte e três membros do Conselho de Segurança Nacional, no Palácio das Laranjeiras, Rio de Janeiro, na qual, ironicamente, a palavra democracia é pronunciada dezenove vezes. O único voto contrário é o do vice-presidente, Pedro Aleixo, que argumenta: "Presidente, o problema de uma lei assim não é o senhor, nem os que com o senhor governam o país. O problema é o guarda da esquina".
Considerado um "golpe dentro do golpe", o AI-5 se sobrepõe à Constituição Federal, suspende as garantias constitucionais, aumenta a censura, possibilita o fechamento do Congresso Nacional por quase um ano e amplia espaços para a linha-dura das Forças Armadas. Na mesma sexta-feira 13 de sua promulgação, Carlos Lacerda e Juscelino Kubitschek são presos no Rio. Um é levado para o Regimento Caetano de Farias, da polícia militar, na rua Frei Caneca. O outro é conduzido ao quartel do 3º Regimento de Infantaria, em São Gonçalo. Os dois têm os direitos políticos cassados por dez anos.
Como destaca o jornalista Lucas Figueiredo no livro Ministério do Silêncio — a História do Serviço Secreto Brasileiro, de Washington Luís a Lula — 1927-2005, "o AI-5 abriu o caminho para as trevas, tendo o SNI nos seus bastidores. Nos cinco anos seguintes, o dispositivo serviria de base jurídica e inspiração para a proibição de 500 filmes, de 450 peças de teatro e de 250 livros". Além disso, quase 70 mil páginas de documentos seriam censuradas.
Anunciado em cadeia nacional de rádio e televisão por Alberto Curi, locutor oficial da Agência Nacional, o ato "permitiu ainda a cassação dos direitos políticos de setenta e seis pessoas e 340 mandatos no Legislativo e no Executivo, 546 aposentadorias e 345 demissões no serviço público". Os verdugos do regime se sentem à vontade para prender, torturar e matar quem bem entendem. No calor da guerra suja, mais de 300 opositores serão eliminados, metade deles dados como desaparecidos.
Último show
No final de 1968, Vandré é ajudado pelo colega João do Vale na busca de jovens músicos para acompanhá-lo numa temporada de shows. O primeiro a ser convidado é o violonista belo-horizontino Nelson Angelo, de dezoito anos. Depois é a vez do carioca de dezenove anos, conhecido como Franklin da Flauta. Em seguida, juntam-se ao grupo os pernambucanos Naná Vasconcelos, de vinte e cinco anos, na percussão; e Geraldo Azevedo, de vinte e três, na viola e no violão.
Surgiu assim o Quarteto Livre, que seria o último conjunto a acompanhar Vandré antes que ele saísse do país. Depois de alguns ensaios, cantor e músicos dão início à turnê de Dei Uma Flor Para o Meu Amor, show que estreia com grande sucesso no Teatro Opinião, em Copacabana. Durante uma apresentação no Teatro Municipal de São Paulo, alguém na plateia chama o cantor de festivo, ao que ele responde: "Querem que eu vista fantasia de proletário. Não visto, não".
A penúltima apresentação de Geraldo Vandré em território nacional se dá em 12 de dezembro de 1968. Acompanhado pelo Quarteto Livre, muda o nome do show para Socorro, a Poesia Está Matando o Povo — título de um poema seu — e se apresenta no Teatro Municipal de Goiânia numa promoção da Faculdade de Medicina da UFG (Universidade Federal de Goiás). Com voz firme, ele canta, recita versos e conversa com a plateia.
Vandré também canta uma moda caipira composta para a trilha de A Hora e Vez de Augusto Matraga. Quando pedem Caminhando, alega que a música está proibida, que não aceita provocações nem pretende provocar ninguém. Em seu lugar ele toca Continuando e termina solfejando a música proibida. O público aplaude e entoa a letra. A gravação do show é transmitida no dia 31 como especial de Fim de Ano, no programa O Jovem É o Dono da Tarde, apresentado por Francisco Paes na rádio da UFG.
O encerramento da curta turnê nacional se dá em 13 de dezembro, no ginásio de esportes professor Geraldo Rosa, em Anápolis. A função tem início às 21h30, quando o AI-5 já havia sido anunciado em cadeia de rádio e televisão — embora os artistas ainda não tivessem conhecimento.
Após o show, Vandré e os músicos vão para a casa do médico José Antônio de Freitas. A recepção é feita pelo repentista baiano Sinhozinho — com quem Vandré faz um desafio e improvisa versos ao som da viola. A festa acaba ao raiar do dia, quando o filho do deputado Anapolino de Faria, ex-prefeito da cidade, traz a notícia de que os militares haviam baixado o ato institucional.
"Vandré ficou louco; não sabia o que fazer e o medo de ele ser preso nos fez cancelar o espetáculo programado para o Iate Clube, em Brasília", diria Geraldo Azevedo em 5 de agosto de 1995, numa entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo.
Em matéria publicada no Correio Braziliense no final de 2008, Naná Vasconcelos apresentaria sua versão: "O Vandré não queria pegar a estrada principal. Foi uma loucura a viagem, durou o dia inteiro, um sufoco. Todo mundo em pânico porque o Vandré não deixava olhar para o lado. A gente parava para comer e ele não descia do carro... Vandré não queria nem colocar gasolina no carro, dizia que tínhamos cara de artista e seríamos reconhecidos". Em 14 de dezembro de 1968, a capa do mesmo jornal abrira manchete para noticiar a promulgação do AI-5. No canto direito do pé da página, um anúncio chamava atenção: "O Iate Clube de Brasília abre suas portas para o povo em geral". Programado para as 21h do mesmo dia, o show que Vandré jamais realizou chamava-se Pra Não Dizer Que Não Falei das Flores. O ingresso à venda na bilheteria do clube era vendido a 10 cruzeiros novos.
O novo ato institucional coloca em risco a segurança e a vida de todo aquele que contesta ou simplesmente discorda do regime militar. Com seus doze artigos, o AI-5 permite que se proíba a qualquer cidadão o direito ao exercício de sua profissão. Além de ter seu canto silenciado, Vandré se vê impedido de exercer a função de fiscal da SUNAB e acabará perdendo o emprego por abandono de cargo. Pelo artigo 10, fica suspensa também a garantia de habeas corpus em casos de crimes políticos previstos na Lei de Segurança Nacional.
Em 13 de dezembro de 1968 — Dia do Marinheiro e da decretação do AI-5 —, a ordem do dia no comando da esquadra naval do Rio de Janeiro é quase toda em resposta à música Caminhando. Em 21 do mesmo mês, por pressão dos militares, o jornal Última Hora publica de cima abaixo, no canto esquerdo de sua capa, uma Carta a Geraldo Vandré. O texto é assinado por um tal aspirante Basto, que serve no Forte Coimbra, nos cafundós do Mato Grosso do Sul. O mesmo conteúdo é republicado dias depois no Correio Braziliense. Na mesma ocasião, vem de Itajubá (MG) um extenso poema escrito pelo capitão-engenheiro João Batista Fagundes em resposta aos versos da canção que mexera com o brio das forças armadas. Enquanto isso, pelas ruas de algumas capitais, a reacionária organização TFP (Tradição, Família e Propriedade) distribui panfletos criticando abertamente o compositor.
No dia 29, Caetano Veloso e Gilberto Gil são presos, acusados de "tentativa da quebra do direito e da ordem institucional" com uso de mensagens "objetivas e subjetivas à população" com a finalidade de subverter o regime de governo estabelecido. Dedé, mulher de Caetano, manda um recado a Vandré dizendo que os homens estão à sua procura. Depois de ter as cabeças raspadas e ficarem presos em Salvador durante seis meses, os dois tropicalistas serão colocados a bordo de um avião e enviados para o exílio em Londres.
Na mesma ocasião, agentes do DOPS buscam Chico Buarque em seu apartamento. Entre outras coisas, querem saber que tipo de relacionamento ele mantém com o cantor que havia gravado sua música Sonho de Um Carnaval. Chico não tem dúvidas de que a repressão tem ganas em Vandré. Algo parecido diria Caetano, ao perceber a ira dos militares quando falavam o nome de seu colega paraibano. Como escreveu o jornalista Zuenir Ventura, o autor de Pra Não Dizer Que Não Falei das Flores (Caminhando) "passou a ser uma das pessoas mais visadas pelos militares — e, logo depois do AI-5, uma das mais caçadas do país".
Transcrito (com adaptações) de:
Vandré: o Homem Que Disse Não. © 2015, Jorge Fernando dos Santos. Geração Editorial, 2015.
Imagens:
Geraldo Vandré. Sem data e sem indicação de autoria.
Compacto com Caminhando e Se a Tristeza Chegar, recolhido em todo o território nacional.
O Quarteto Livre. Franklin da Flauta, Naná Vasconcelos, Nelson Angelo e Geraldo Azevedo sobre o capô do Galaxie branco de Geraldo Vandré. Acervo pessoal.
O marechal Arthur da Costa e Silva, então Ministro da Guerra, em visita oficial ao Congresso Nacional, em 1966. Dois anos depois, quando Costa e Silva já era presidente, esta foto foi capa da revista Veja que trazia extensa matéria sobre a promulgação do AI-5 e foi imediatamente recolhida. © Roberto Stuckert / Folhapress.
Repressão. Site Poder 360.




