Pequenas Biografias: PIXINGUINHA_11

Belarmino Ribeiro, 23, Ramos, RJ

Três Histórias de Pixinguinha

1.

Eram mais ou menos duas horas de uma certa madrugada, quando saltou do ônibus, na esquina, e caminhava por uma calçada que parecia demasiadamente estreita para quem bebera tanto. De repente estava envolvido por três assaltantes, um deles com o revólver encostado em seu queixo. O relógio, a carteira de dinheiro e outros objetos já haviam sido retirados, quando o homem do revólver se assustou:

 Xiii! É o seu Pixinguinha!

Os cúmplices não entenderam muito a reação, mas ele, provavelmente com a autoridade de chefe de quadrilha, insistiu:

 É o seu Pixinguinha! Vamos devolver tudo a ele.

Os objetos foram devolvidos com uma certa má vontade pelos demais ladrões, enquanto o do revólver parecia extremamente constrangido:

 Poxa, seu Pixinguinha, desculpe! Nós não vimos que era o senhor.

O veterano músico botou novamente o relógio no pulso, a carteira no bolso e reagiu:

 Vocês não querem tomar uma cervejinha comigo, não?

E assim, ele e os rapazes entraram em casa e foram recebidos por Betí, que não conseguira dormir, preocupada com o marido, que tanto demorava a chegar. Mas tratou de tirar a cerveja da geladeira e improvisar um tira-gosto, cortando pequenos pedaços da carne assada que sobrara do jantar e fritando-os ao alho e óleo. A farra foi até o momento em que o sol deu os primeiros sinais e o líder do grupo sentiu-se obrigado a ser franco:

 Seu Pixinguinha, a gente tem de ir embora. O senhor sabe, o dia está nascendo e não se pode dar muita sopa.

 Vocês não querem uns trocadinhos para a passagem?  ofereceu o dono da casa. Não precisavam.

No portão
2.

O arquivo do musicólogo Mozart de Araújo  incorporado, depois de sua morte, ao acervo do Centro Cultural Banco do Brasil  guarda, entre outras preciosidades, um bilhete de Pixinguinha ao próprio Mozart, pedindo a sua ajuda na obtenção de um emprego para Ismael Silva. Um dos compositores de maior sucesso de 1929 a 1935, quando a maioria de suas músicas era gravada por Francisco Alves, Ismael saiu de cena diretamente para a prisão, acusado de um assassinato que teria cometido em defesa de uma irmã. Libertado no início de 1939, enfrentava as dificuldades bastante conhecidas pelos ex-presidiários.

O bilhete, que, sem qualquer dúvida, não foi escrito por Pixinguinha (o estilo não é o seu), embora assinado por ele, acentuava a amizade de Mozart de Araújo com um dos secretários de Getúlio Vargas, Luiz Simões Lopes, que gostava de cantar, o que, na expectativa do remetente, seria um fator importante para convencê-lo de que deveria empenhar-se para resolver o problema de um compositor tão talentoso.

Insigne amigo Mozart.

Saúde e bom abraço.

A finalidade desta é fazer um pedido para uma pessoa assaz conhecida no meio musical, a quem você deve conhecer. Trata-se do antigo compositor Ismael Silva, que foi durante invictos anos parceiro de Francisco Alves, a quem ajudou muito, com uma série de sucessos, a fazer o nome que tem hoje.

Achando-se Ismael desempregado, em má situação, com compromisso, com família numerosa etc., tendo muita vontade de ajudá-lo e nada podendo fazer no momento, razão pela qual lembrei-me de solicitar ao velho amigo para interceder junto ao (cantor) Luís Simões Lopes, a fim de conseguir uma colocação para o popular sambista, que tem lutado com dificuldade de vida.

Sem mais, sendo você músico e o Luís Lopes, cantor, espero que o que puder fazer pelo Ismael seja como se fosse por mim.

Previamente agradeço.

Mais um abraço e mande ordens.

Do amigo A. Vianna (Pixinguinha).

O emprego não saiu. Mas Ismael, inspirado, compôs um novo samba.

3.

Um dia, ela ficou doente, muito doente. Foi levada ao hospital. Entre o medo e a esperança oscilavam marido e filho. Exames, correrias, diagnósticos. "Ah, Deus, tudo menos isso", pensava o filho. "Não com mamãe". O coração do pai era uma máquina velha, já rateara várias vezes. Não resistiu a choque tão forte. Enfartou. Para o filho, o caos. Pai e mãe no mesmo hospital, separados apenas pelas etiquetas que classificavam seus respectivos males em alas diferentes. Mas era preciso que ela não soubesse que ao velho companheiro também faltara saúde em hora tão difícil. Seu estado era mais grave que o dele. Mais penoso. Então, pai e filho planejaram, a despeito das proibições médicas, o que seria, sem que eles mesmo tivessem consciência, uma das mais lindas histórias de amor.

Betí e Pixinguinha

O pai pediu um terno, um chapéu e um buquê de flores. E, todos os dias, no horário da visita, ele se levantava do leito de doente, punha o terno, o chapéu, segurava as flores e, apoiado no braço do filho, atravessava o pátio para ver a mulher, como se viesse de casa. É claro que a simulação doía. Ele sofria tanto ou mais que ela. Fraquejavam-lhe o corpo e os sentimentos. Ao terminar a visita, voltava pelo mesmo pátio, trocava o mesmo pijama, recolhia-se de novo ao mesmo leito. E foi assim todos os dias, até que ela se foi para sempre. Sem ter sabido que o marido estivera muito tempo a seu lado, doente também, no mesmo hospital, no Setor de Cardiologia.

Quando ele chegou naquele dia e ela dormia tão, mas tão quieta, seu coração doente quis parar. Mas resistiu ainda; era preciso. O filho não podia sofrer dobrado. Carecia de sua companhia mais um pouco.

*

Ouça a inesgotável criatividade de Pixinguinha em gravações de 1929 até os anos 1970

Bibliografia:

História 1. Rua Pixinguinha, 23Pixinguinha: Vida e Obra. © Sérgio Cabral, 2007, FUNARTE RJ.

História 2. O saxofonista Pixinguinha. Pixinguinha: Vida e Obra. © Sérgio Cabral, 2007, FUNARTE RJ.

História 3. No hospital. O fadista bexiguentoFilho de Ogum Bexiguento© Marília T. Barboza da Silva e Arthur L. de Oliveira Filho, 1979, FUNARTE RJ.

Vídeos:

Antonico, de Ismael Silva. Com Ismael, Codó e Cristina Buarque de Holanda no programa MPB Especial Ensaio da TV Cultura, em 1973.

Playlist Inesgotável contendo sete gravações que cobrem o período que vai de 1929 à década de 1970, demonstrando a incrível criatividade de Pixinguinha como instrumentista - flauta e sax - arranjador e compositor.

Imagens:

Fachada da casa de Pixinguinha. Rua Belarmino Barreto, posteriormente, Rua Pixinguinha, n.º 23, Ramos, Rio de Janeiro. Acervo Tinhorão / IMS.

Pixinguinha no portão de casa, em Ramos, Rio de Janeiro, 1968. Acervo Pixinguinha / IMS.

Betí, relembrando os tempos de cantora (quando atuava sob o pseudônimo Jandira Aymoré), acompanhada por Pixinguinha ao piano. Acervo Tinhorão / IMS.