Pequenas Biografias: PIXINGUINHA_12
Hermínio
"Antes de conhecer fisicamente Pixinguinha, eu ouvia Pixinguinha nas rádios e, sobretudo, o vi, em carne e osso, uma primeira vez, tocando no carnaval na antiga Galeria Cruzeiro, vizinha ao Café Nice, na Avenida Rio Branco. Década de 40. Depois, pra valer mesmo, foi na década de 50 que o conheci — e aí o grande acontecimento se deu na casa de Jacob do Bandolim, em Jacarepaguá. Pixinga já triscado nos uísques, tocando como gostava seu saxofone perolado, os dedos que eram feito estalactites de tão longos e bonitos e transparentes, as unhas alabastradas e a máscara africana esculpida em estanho ou ônix ou num piche platinado — e aqueles dedos corriam o corpo do instrumento e dele extraíam sons absurdamente maravilhosos".
Hermínio Bello de Carvalho conta que se sentiu um homem de muita sorte ao ser convidado por Pixinguinha em pessoa para compor. Era o ano de 1967 e estavam abertas as inscrições para o III Festival de Música Popular Brasileira da TV Record de São Paulo e para o II Festival Internacional da Canção da TV Globo do Rio de Janeiro. Hermínio recebeu e colocou letra naquela Mascote, composta durante os 50 dias que Pixinguinha passou internado no Instituto de Cardiologia Aloísio de Castro. Surgia Fala Baixinho, defendida no FIC por Ademilde Fonseca e terminando a competição em oitavo lugar. Poucos dias antes, na Record, em São Paulo, Elza Soares foi a intérprete de Isso Não se Faz. O samba de Hermínio e Pixinguinha, ali, não passou da fase eliminatória. Talvez, por enfrentar concorrentes fortíssimas como Ponteio, Eu e a Brisa, Domingo no Parque, A Estrada e o Violeiro, ou, quem sabe, por ter a melodia da primeira parte comprometedoramente parecida com Agora é Cinza, de Bide e Marçal, clássico lançado em 1933 por Mário Reis e regravado pela própria Elza Soares, no LP O Máximo Em Samba, apenas alguns meses antes do Festival.
Hermínio estaria incluído entre os entrevistadores nos dois depoimentos que Pixinguinha prestou ao Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro. O primeiro, em 1966, inaugurou a série Depoimentos para a Posteridade, contribuição inestimável à memória da Cultura nacional que o MIS desenvolve há mais de 50 anos. O segundo, gravado no segundo semestre de 1968, ao que tudo indica, foi motivado pela grande quantidade de imprecisões contida no primeiro. Entre um e o outro, Jacob do Bandolim, pesquisador meticuloso, amigo e fã incondicional de Pixinguinha, pôs-se a revirar arquivos atrás de informações sobre o passado do artista. A principal descoberta estava na Igreja de Santana, onde Jacob constata — pela certidão de batismo encontrada — que o caçula do seu Alfredo da Rocha Vianna não havia nascido em 1898, como todos acreditavam (o dono do documento incluído), mas sim em 1897.
1968 continuou sendo o ano de comemorar os 70 anos do maestro, porque ao saber da novidade, Pixinguinha pediu a Jacob que a mantivesse em sigilo, para não atrapalhar as festas e homenagens que já estavam agendadas.
Somente após a morte do bandolinista, a viúva e a filha tornarão pública a data corrigida.
Os primeiros meses de 68 são passados no estúdio, gravando Gente da Antiga, LP em trio com Clementina de Jesus e João da Baiana e produzido por Hermínio Bello de Carvalho.
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Ouça o álbum na íntegra:
Pixinguinha 70
No tradicional 23 abril, a programação que começa no Gouveia, se transfere para a Assembleia Legislativa. Lá, ao lado de Donga e João da Baiana, o aniversariante assiste a uma sessão solene em sua homenagem. Mantendo a tradição dos amigos 'festarem' três dias, no dia 26 a Churrascaria Tijucana abre suas portas para um almoço com 200 convidados, entre eles o habitué Negrão de Lima, governador da Guanabara.
O evento culminante ainda estava para acontecer. No dia 18 de maio, o Museu da Imagem e do Som promove no Teatro Municipal um grande concerto comemorativo dos 70 anos. Instalado no camarote presidencial com Betí, Donga, João da Baiana e Lúcio Rangel, Pixinguinha vê suas músicas serem interpretadas por Radamés Gnattali, Jacob do Bandolim, o conjunto Época de Ouro e outras atrações. O espetáculo resulta no LP Pixinguinha 70, que é lançado antes do final do ano.
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| Festa dos 70 anos |
Antes que 1968 termine, e mais uma vez ao lado de Hermínio Bello de Carvalho, Pixinguinha concorreu em um festival de música: a Bienal do Samba, promovida em São Paulo pela TV Record. Desta vez, a composição dos dois se chama Protesto, meu Amor, que é defendida pela florianopolitana Neide Mariarrosa e chega à final — vencida por Lapinha, do antigo vizinho Baden Powell, com letra de Paulo César Pinheiro, então com 20 anos de idade.
1969
Em janeiro, o imóvel de Ramos é vendido e a família passa a alugar uma casa de vila em Jacarepaguá. Pixinguinha descobre logo o Chopão, bar na Praça Seca que frequentará durante os finais de semana. Mantém o Gouveia como 'escritório', de segunda a sexta, mesmo estando a Travessa do Ouvidor "55 paradas de ônibus" distante do novo endereço. E aconselha: "Depois dos 70 anos, é bom trocar a cachaça pelo uísque".
Em abril, para falar de seu aniversário, comparece ao programa de entrevistas que a atriz Célia Biar comanda na TV Globo. Na volta, a Kombi da emissora que o levava para casa choca-se com outro carro, ele fere a boca, perde muito sangue e acaba levando vários pontos nos lábios. "Os pontos viraram calos que me doem muito quando toco. Não tem mais jeito", desabafaria para um repórter do Jornal do Brasil, tempos depois.
Nos meses que antecederam o acidente, gravou disco, viajou, fez shows e participou do filme Saravah, do francês Pierre Barouh, cujas cenas hoje famosas, mostram, entre outros, Baden, Clementina, Paulinho da Viola, Márcia e Maria Bethânia.
Em 13 de agosto morre Jacob do Bandolim, vítima de um infarto fulminante ao chegar em casa, coincidentemente, vindo de uma visita a Pixinguinha. Tinha 51 anos.
No aniversário do ano seguinte, o amigo diria durante entrevista para a TV que acordara chorando, por se lembrar de Jacob, a voz do primeiro telefonema que recebia todo dia 23 de abril.
1969 também registra o lançamento do curta-metragem Pixinguinha, documentário em preto e branco, rodado em 1966 pelo cineasta e produtor João Carlos Horta. Horta filmou seu personagem à vontade em casa (ainda em Ramos), de pijama, mostrando o ambiente, tocando saxofone e dedilhando o velho piano Gaveau que usava como instrumento de apoio para fazer arranjos. Assista trecho:
1970
Pixinguinha, Alfredinho e dona Betí deixam Jacarepaguá e passam a viver num modesto apartamento no Bloco 10 do Conjunto Residencial dos Músicos, em Inhaúmas. A nova mudança se deve à péssima situação financeira em que se encontravam. As únicas fontes de renda àquela altura eram os dois salários mínimos que o pai recebia como funcionário público aposentado e os direitos autorais que vinham, praticamente, só de Carinhoso.
Não demorou para encontrar nas redondezas um ponto para os finais de semana: a Confeitaria Deise. O proprietário providenciou a compra de uma caixa de seu uísque preferido e inaugurou, com direito a uma orquestra formada exclusivamente por músicos moradores do conjunto, uma mesa cativa para o ilustre freguês.
O programa Som Livre Exportação, apresentado pela revelação Ivan Lins e dirigido por Carlos Alberto Lofler, produziu um quadro especial unindo Pixinguinha e Antônio Carlos Jobim. O autor da Garota de Ipanema incluíra Carinhoso em seu mais recente álbum, Tide, produzido nos Estados Unidos, com arranjos de Eumir Deodato. Gravado na casa da Rua Codajás, onde vivia a família Jobim, o tape trazia Pixinguinha acompanhando suas próprias composições soladas por Tom numa flauta transversal. O clima de camaradagem descontraída foi conseguido graças à admiração mútua e ao uísque, servido em fartas doses pela produção, que conhecia os hábitos da dupla.
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| Maestros soberanos |
1971
Sai pela Odeon o LP Som Pixinguinha, produzido por Hermínio Bello de Carvalho, inteiro de composições próprias (exceto Odeon, de Ernesto Nazareth). Lançado no bar Gouveia, no dia 23 de abril, o disco traz as últimas gravações feitas pelo maestro e tem como destaque a flauta de Altamiro Carrilho, em plena forma, aos 47 anos. Em 1977, Hermínio reeditaria o álbum, mudando sutilmente o título para São Pixinguinha.
1972
Em maio de 1972, Betí é internada no hospital do Instituto de Assistência dos Servidores do Estado do Rio de Janeiro, por complicações de problemas cardíacos que a acompanhavam há vários anos. "As informações dos médicos não eram nada favoráveis, causando grande sofrimento a Pixinguinha", rememora Sérgio Cabral. Dias depois, com fortes dores no peito é a vez do marido ser internado, no mesmo hospital. Recomendou a todos que escondessem da companheira os seus problemas de saúde.
No dia 7 de junho, Betí morre, aos 74 anos. (...) "a partir daquele dia, Pixinguinha começava também a morrer", acredita Cabral.
"A morte, pelo menos, me traz a esperança de reencontrar Betí". disse o viúvo a um amigo.
1973
Logo cedo, no dia 17 de fevereiro, dois sábados antes do carnaval, Hermínio Bello de Carvalho decide passar em Inhaúmas para ver como estava o amigo. Leva com ele o fotógrafo Walter Firmo e o músico Eduardo Marques. O maestro, que andava muito abatido, surpreendeu Hermínio pela boa disposição.
Despedem-se perto da hora do almoço e uma imagem ficará guardada na memória de Walter Firmo, que se arrependeu de não ter consigo uma câmera: da janela do apartamento, Pixinguinha acena para o carro que se afasta.
À tarde, veste seu terno marrom e sai de casa, acompanhado por Alfredinho, em direção à Igreja de Nossa Senhora da Paz, em Ipanema: ia batizar o filho do amigo Euclides Souza Lima. Como presente para o bebê, leva uma partitura manuscrita de Carinhoso. Porém, no momento em que se prepara para assinar o nome no livro da igreja, Pixinguinha cai, fulminado por um infarto em pleno altar. Lá fora desaba, quase no mesmo instante, um aguaceiro de verão.
Enquanto isso, a tradicional Banda de Ipanema, que fazia naquele sábado seu primeiro desfile pré-carnavalesco do ano, vem da Praça General Osório em direção à Praça Nossa Senhora da Paz, sem se incomodar com o temporal. Quando se aproximam da igreja, porém, a notícia corre entre os foliões. O bloco se desmantela em segundos, dezenas de seus componentes, com as fantasias ensopadas, entre eles um especialmente desesperado Hermínio Bello de Carvalho, tentam entrar na igreja, mas são impedidos pela Polícia Militar, chamada de emergência.
O cabo Édson Costa acaba por convencê-los de que não estão trajados adequadamente para entrar na igreja e confirma que, infelizmente, já nada havia a ser feito.
"Pixinguinha", disse o soldado, consolando o pessoal, "morreu dentro da igreja, um dos lugares mais bonitos da face da terra. Morreu como Cristo. Sabem por quê? Porque, como Jesus, quando ele fechou os olhos, a chuva começou a cair".
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Ouça playlist com sete versões que revisitam ou homenageiam a obra de Pixinguinha
Bibliografia:
Pixinguinha, Vida e Obra. © 1978 Sérgio Cabral. FUNARTE, Rio de Janeiro.
Filho de Ogum Bexiguento. © 1979 Marília T. Barboza da Silva & Arthur L. de Oliveira Filho. FUNARTE, Rio de Janeiro.
pixinguinha.com.br / IMS
Vídeos:
Gente da Antiga. LP com 12 faixas produzido por Hermínio Bello de Carvalho em 1968 para a Odeon.
Excerto de Pixinguinha de João Carlos Horta, curta metragem com imagens captadas em 1966.
Para ver completo: youtu.be/BWGUVGXRVOI?si=yeW2xUFmrsRPAAFN
Playlist Modernidades contendo cinco composições de Pixinguinha revisitadas por artistas contemporâneos e duas composições em homenagem ao mestre.
Imagens:
Capa do LP Gente da Antiga, com Clementina de Jesus e João da Baiana, produzido por Hermínio Bello de Carvalho e lançado pela Odeon em 1968.
Camarote presidencial do Teatro Municipal com João da Baiana, Betí, Lúcio Rangel, Alfredinho e pessoas não identificadas no concerto comemorativo dos 70 anos, em 18 de maio de 1968. Acervo Pixinguinha / IMS.
Pixinguinha e Tom Jobim, na casa de Tom na Rua Codajás, gravando para o Som Livre Exportação da Rede Globo, em 1970. Acervo Pixinguinha / IMS.
Pixinguinha e Alfredinho no Conjunto dos Músicos. Inhaúma, Rio de Janeiro, dezembro de 1972. Acervo Pixinguinha / IMS.



