Pequenas Biografias: PIXINGUINHA_1o

Sol Sobre a Lama

Vítima de câncer no pulmão, morre Benedito Lacerda, antes de completar 55 anos. O último disco gravado pela dupla fora lançado em 1951, estavam ambos afastados do dia a dia do rádio, mas conviviam quase diariamente na sede da SBACEM, Sociedade Brasileira de Autores Compositores e Escritores de Música, na rua Buenos Aires, ponto de encontro de compositores.

A família Vianna ia vivendo com o salário que Pixinguinha recebia da prefeitura, os direitos autorais, shows, festas e apresentações na TV (num tempo em que, ao invés de pagar, artistas recebiam cachê das emissoras por participarem em seus programas). A Velha Guarda animou o evento de boas vindas à Seleção que retornava da Suécia trazendo nossa primeira Copa do Mundo, a Sinter lançou os LPs Pixinguinha e sua Banda em Marchinhas Carnavalescas de João de Barro e Alberto Ribeiro, e Cinco Companheiros, reunindo alguns dos choros mais conhecidos de sua autoria.

Recém eleito, Jânio Quadros nomeou Pixinguinha membro do Conselho Nacional de Música, órgão que evaporou, levando consigo os cargos de conselheiros, junto com a renúncia do presidente.

Dali a dois anos, o crítico Alex Viany produz Sol Sobre a Lama, longa metragem com trilha encomendada ao maestro e composta em parceria com Vinicius de Moraes.

Viany diria à Ultima Hora, que a música foi uma das primeiras ideias que lhe vieram à cabeça quando concebeu o filme.

"Só me interessaria fazer um filme genuinamente brasileiro. Portanto, vi desde logo que a música de Pixinguinha me seria tão indispensável quanto a história, os atores, a paisagem, a câmera e o filme virgem".

Durante a escrita do roteiro, o diretor inspirou-se em Lamentos, de 1928 e Ingênuo, assinada em parceria com Benedito Lacerda, de 1947. Incorporou, com a montagem terminada, uma valsa cuja partitura, escrita em 1932, trazia o título original de Olhos Sonhadores e mais uma composição inédita, que passaria a se chamar São Francisco de Ouro.

Foi Viany quem convidou, com total aceite de Pixinguinha, Vinicius, o letrista de maior sucesso naqueles anos, para botar versos nas melodias escolhidas.

Ao todo, entraram no filme 16 músicas, doze inéditas, seis em parceria com Vinicius: Lamento (que passou para o singular), Samba Fúnebre e Seule  aquela Olhos Sonhadores, agora cantada em francês, além de IemanjáMundo Melhor e a já citada São Francisco de Ouro.

Na opinião da atriz baiana Gessy Gesse, que atua em Sol Sobre a Lama e viria a se tornar a sétima esposa de Vinicius, para o poeta, compor com Pixinguinha foi "uma coisa dos deuses: nenhum casamento valeu tanto dentro da alma de Vinicius quanto essa parceria com Pixinguinha".

Vinicius:

"Pixinguinha pra mim continua sendo o maior de todos os músicos populares brasileiros. Meu querido pai, com quem eu tive o privilégio de fazer música".

(…) "é o melhor ser humano que eu conheço. E olha que o que eu conheço de gente não é fácil".

"Nenhum lorde inglês o supera em finura e lordeza".

Além de incluí-lo na tríade de motivos fundamentais para preferir viver no Brasil e não no exterior, em Olhe Aqui, Mr. Buster,

        Me diga sinceramente uma coisa, Mr. Buster:
        O Sr. sabe lá o que é um choro de Pixinguinha?
        O Sr. sabe lá o que é ter uma jabuticabeira no quintal?
        O Sr. sabe lá o que é torcer pelo Botafogo?,

o poetinha deixou como pedido para o seu funeral uma composição do querido amigo:

"Porque hoje é sábado, comprei um violão para minha filha Susana, a fim de que ela aprenda dó maior e cante um dia, ao pé do leito de morte de seu pai, a valsa Página de Dor, de Pixinguinha  e seu pai possa assim cerrar para sempre os olhos entre prantos e galgar a eternidade ajudado pela mão negra e fraterna do grande valsista". (Dia de Sábado. Para uma Menina com uma Flor, Editora do Autor, 1966)


Corações

No dia 16 de junho de 1963, aos 59 anos, partia, vítima de um infarto, Lamartine Babo. Acomodado na cadeira cativa do Gouveia, certa vez Pixinguinha se abriu com seu futuro biógrafo, o jovem Sérgio Cabral, que não esqueceria da frase: "O meu medo é, um dia, olhar em volta e não ver mais ninguém do meu tempo".

Em junho do ano seguinte, é a vez do coração do próprio Pixinguinha falhar. Levado às pressas para o Hospital Getúlio Vargas, o diagnóstico inicial detectou um edema pulmonar. No dia seguinte, porém, complicações obrigaram o paciente a ser transferido para o Instituto de Cardiologia Aloísio de Castro. É o primeiro problema de saúde realmente sério que tem na vida e vai mantê-lo internado por 50 dias.

"Em três dias, você estará em casa", disse o médico um mês depois dele chegar ao Instituto. O eletrocardiograma, o quinto que fazia, no entanto, indicou que ainda não era hora de receber alta. Mais Três Dias foi o nome da música que compôs em resposta à frustração. A valsa escrita depois de receber amigos que contaram entusiasmados as últimas novidades da boêmia carioca, chamou-se Solidão. A cozinheira Ana Gomes, que o estimulava a se alimentar corretamente, ganhou como homenagem o Manda Brasa. Para a enfermeira que Pixinguinha considerava trazer-lhe sorte, dedicou Mascote. Quando finalmente teve certeza que estava para ser liberado, fez o Vou pra Casa. De acordo com Marília Barboza, foram 20 músicas criadas no quarto do hospital, para onde não foi autorizado a levar qualquer instrumento.

O tratamento prosseguiu 1964 adentro, com visitas semanais ao cardiologista. Em novembro, o médico teve a ideia de submetê-lo a exames de esforço com o saxofone, realizando eletrocardiogramas antes, durante e depois da execução das músicas. A partir de dezembro foi autorizado a tocar "com moderação" e aconselhado a reduzir o cigarro e limitar o uísque a duas doses diárias.

"O fato", anota Sérgio Cabral, "é que, profissionalmente, Pixinguinha entrou num longo período de hibernação", a partir da temporada no hospital.

Um entrevistador com pouca familiaridade e, em consequência, menos apego à aura quase mística em torno do músico, o paulista João Baptista Borges Pereira, doutorando do Departamento de Antropologia da USP, consegue captar a sutil melancolia que circunda Pixinguinha nessa fase.

A entrevista acontece no Gouveia, pela manhã.

"Estou proibido de beber desde o meu enfarte, há dois anos. Mas continuo bebericando um pouco. Namoro o uísque e caso com a mineral".

Pereira tem a impressão de que está diante de "um homem triste, remoendo saudades".

A fala do maestro, de fato, misturava estados de espírito.

"Todos os anos a festa de meu aniversário dura três dias. Os meus amigos é que me oferecem. O pessoal fica comendo e festando até o enterro dos ossos, quer dizer, o pessoal é exigente e, no começo, come o que tem de melhor, depois come o resto, rói até os ossos. No ano passado, Almirante me ofereceu 600 litros de chope para alegrar a minha festa".

"Fui muito boêmio. Joguei fora minha saúde. Faz parte da vida do artista".

"Estou meio de lado, meio fora de moda com essa história de bossa nova. Conhece o Sérgio, o Sérgio Porto? Outro dia assisti a um programa de televisão dele. Achei muita graça quando disse que cantora de bossa nova é noiva do Drácula. Quando cantam parecem que estão desmaiando, raquíticas, sem sangue, sem vida, molengas, molengas. Bossa nova é casa desarrumada. Ninguém entende ninguém. É coisa de americano".

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Ouça playlist com gravações de Pixinguinha no período de 1958 a 1968.

Bibliografia:

Pixinguinha, Vida e Obra. © 1978 Sérgio Cabral. FUNARTE, Rio de Janeiro.

Filho de Ogum Bexiguento. © 1979 Marília T. Barboza da Silva & Arthur L. de Oliveira Filho. FUNARTE, Rio de Janeiro.

pixinguinha.com.br / IMS

Pixinguinha (entrevista). © 1997 João Baptista Borges Pereira. Revista do IEB-USP, n.º 42. São Paulo.

Vídeo:

Playlist com composições e gravações de Pixinguinha no período compreendido entre os anos de 1958 a 1968.

Imagem no vídeo: Nássara.

Imagens:

Montagem sobre a capa do livro Nássara Passado a Limpo, de Carlos Didier, 2010, José Olympio Editora.

Caricaturas de Jânio e Pixinguinha, por Nássara.