Origens do Choro: Invenção do Maxixe_o1
"O machiche (sic), como os jogos clandestinos, dança-se por toda a parte, com exceção, já se vê, dos lares, onde esboçá-lo sequer no movimento de uma mazurca, é praticar um ato da mais revoltante indecência.
A sua música é a música dos tangos, com um ritmo novo, introduzido por compositores brasileiros; mas, na realidade, dança-se ao som de todas as músicas, de valsas, como de polcas, como de marchas, árias ou canções, por que o machiche é o ato de dançar e não a própria dança (...)
Os pares enlaçam-se pelas pernas e pelos braços, apoiam-se pela testa num quanto possível gracioso movimento de marrar e, assim unidos, dão a um tempo três passos para diante e três para trás, com lentidão. Súbito, circunvolunteiam, guardando sempre o mesmo abraço, e, nesse rápido movimento, dobram os corpos para a frente e para trás, tanto quanto o permite a solidez dos seus rins; tornam a volutir com rapidez e força, tornam a dobrar-se, e, sempre lentamente, três passos à frente, três passos atrás, vão avançando e retrocedendo, como a quererem possuir-se. Dança-se com doçura e dança-se com frenesi.
Durante o Entrudo, como durante o ano, o que se dança (...) é o machiche. No Carnaval, porém, o machiche agrava-se e atinge proporções epilépticas".
Foi assim que, com humor levemente satírico, João Chagas descreveu em seu livro De Bond, editado em Portugal no ano de 1897, a 'situação' do Maxixe no Brasil. O 'modismo da dança', processo que, como notou Eric Hobsbawm, poderia ser observado em todo o mundo atlântico e envolvia a busca de novos ritmos mais frenéticos e menos convencionais, aportara por essas bandas 50 anos antes. Outros 30 anos ainda iriam se passar até que o estilo chegasse ao apogeu e, em seguida, tomasse a forma de um fóssil no processo evolutivo do samba.
O olhar 'do outro' para o maxixe foi determinante na transição acontecida de prática 'clandestina' para modismo que correu mundo. Prova disso é a relativa facilidade de se encontrar materiais estrangeiros — manuais de dança, reconstituições de época, fotos, ou mesmo filmes, quando comparados aos nossos registros. Partituras que, no Brasil, costumavam trazer nomes alternativos, publicadas na Europa ou nos Estados Unidos, valorizavam o termo. Maxixe Brésilienne... Brazilian Maxixe... e o indefectível Danse de la Mattchciche.
Relido fora das fronteiras nacionais, o maxixe foi sendo gradualmente assumido publicamente pelas classes altas brasileiras que, antes, fruíam a nova dança como quem consome alguma substância ilícita.
O musical Flying Down to Rio, dirigido por Thornton Freeland para a RKO Pictures em 1933, traz um exemplo bem acabado desse estado de coisas. Filmado em réplica cenográfica do Copacabana Palace, mostra uma reconstituição bastante aceitável dos passos do maxixe. O "quanto possível gracioso movimento de marrar" dos pares que "apoiam-se pela testa", que João Chagas descreve, assim como os corpos que se dobram "tanto quanto o permite a solidez dos seus rins" aparecem com destaque na coreografia elaborada pelo pessoal de Hollywood sob orientação de brasileiros.
A música, apesar de aquadradada e caricatural, incorpora "quanto possível" a instrumentação e mesmo os contrapontos na região grave com que os músicos de choro acompanhavam o maxixe.
A orquestra, que não aparece nos créditos, é reconhecida no site IMDB como The Brazilian Turunas.
Turunas da Mauriceia era o nome do grupo liderado por Augusto Calheiros e Luperce Miranda e que teve papel de destaque nos carnavais dos primeiros anos do século XX. Eram os Turunas que usavam chapéus 'de cangaceiro' com um apelido regionalista escrito na aba, como os músicos da orquestra no filme.
Flying Down to Rio entrou para a História do cinema por trazer a estreia da dupla Fred Astaire e Ginger Rogers (que eram coadjuvantes, mas roubaram a cena).
1. Foi em 1845 que a polca veio dar em terras brasileiras. A dança da moda em toda a Europa, verdadeira febre em Paris e Lisboa, viajou no mesmo cargueiro que antes nos trouxera as mazurcas e as gavotas, os schottisches, os tangos argentinos, as habaneras cubanas e mais que todos, a sempiterna valsa.
Como vimos num post anterior, os músicos daqui primeiramente interpretaram as partituras importadas com exacerbada sentimentalidade e nostalgia. Os dançarinos, por sua vez, cuidariam de 'condimentar' a receita. Se a polca, 'amolecida', deu no choro, re-fogada no calor tropical, virou o mexido maxixe.
No vídeo a seguir, bailarinos das cidades de Ufa, Chelyabinsk e Yekaterinburg, na Rússia, dançam a célebre Polca Cigana, de Victor Herbert, coreografada por Richard Powers.
Powers, professor da Universidade de Stanford, Califórnia, vem pesquisando e reconstituindo danças sociais históricas há quase 30 anos. Ele criou esta coreografia sobre Romany Life, originalmente uma ária da opereta The Fortune Telller, escrita pelo norte-americano Victor Herbert em 1898.
Powers reconstituiu os passos da polca a partir de coreografias anotadas, descrições de manuais e ilustrações de época que compõem um repertório de variações usadas por mestres da dança social como Henri Cellarius, Charles D'Albert and Charles Durang.
Essa sequência, portanto, poderia ter acontecido a qualquer momento entre 1844 e a década de 1890.
2. Como é de conhecimento geral, o Maxixe cairia em desgraça ante o moralismo burguês fin de siècle de um Brasil às vésperas de abolir a Escravatura e de tornar-se República.
O escândalo que a nova dança provocou, no entanto, já estava em germe na polca, antes mesmo de sua chegada.
"Por essa época, as danças de salão passavam por um processo de mudança da forma coletiva (quadrilha, minueto) para a de par enlaçado (...). Essa mudança vinha ao encontro do anseio de uma maior liberalização dos costumes e teve na polca seu meio ideal de propagação" (CAZES, 1998).
"Um perfeito retrato da mudança de hábitos que se operava nos salões" é este soneto de Arthur Azevedo, publicado em 1876:
UMA OBSERVAÇÃO
Pra uma contradança vai tirá-la
— Dai-me a honra? — Pois não! — E pela sala
Ei-los a passear de braço dado.
Daqueles meigos corações se exala
Té que as palmas batendo o mestre-sala
Toma lugar o par apaixonado
Bole, mexe, comprime, apalpa, aperta
Durante uns turbulentos balancés:
Sentada a um canto observa que na dança
Hoje trabalham mais as mãos que os pés.
3. "O famoso Corta-Jaca, nome com o qual o tango Gaúcho se popularizou, é uma das músicas mais gravadas e conhecidas de Chiquinha Gonzaga, ao lado de Ó Abre Alas, Lua Branca e Atraente. Nasceu nos palcos dos teatros musicados, onde foi dançado na cena final da opereta burlesca de costumes nacionais Zizinha Maxixe, representada no Teatro Éden Lavradio, em agosto de 1895. O ator Machado Careca (José Machado Pinheiro e Costa), autor anônimo da peça, terminou por colocar versos na música do Corta-Jaca, ajudando a popularizá-la, sobretudo depois que sua versão foi gravada em disco pelo duo Os Geraldos. (...)
O Corta-Jaca tornou-se um clássico da música instrumental brasileira, merecendo gravações, entre outros, de Abel Ferreira, Altamiro Carrilho, Artur Moreira Lima, Clara Sverner, Paulo Moura, Radamés Gnatalli, Turíbio Santos, inúmeras bandas e algumas versões cantadas".
Sempre referido como 'tango' é um exemplo claro do tratamento que os compositores e instrumentistas brasileiros deram às matrizes europeias — da polca ao maxixe ao samba.
Bibliografia:
Maxixe: a Dança Excomungada. Jota Efegê, 1974. Editora Conquista.
Da Cidade Nova aos Palcos: Uma história social do maxixe (1870 - 1930). Juliana da Conceição Pereira, 2021. Tese de Doutorado, Universidade Federal Fluminense, Niterói.
Choro: do Quintal ao Municipal. Henrique Cazes, 1998. Editora 34.
Richard Powers (site)
Chiquinha Gonzaga (site)