Origens do Choro: Invenção do Maxixe_o3

E confesso que, apesar dos documentos abundantes que estou recolhendo e estudando, muito ponto histórico e mesmo técnico ainda ficaria incerto num terreno virgem em que o próprio nome de maxixe não se sabe muito bem de onde veio. Nada se tem feito sobre isso e é uma vergonha.

Mario de Andrade: Música, Doce Música

1. É com essa epígrafe que se inicia Maxixe: a Dança Excomungada, livro que registra o minucioso estudo feito pelo escritor, musicólogo e jornalista Jota Efegê sobre o fenômeno do maxixe.

Doce Música de Mario saiu em 1934. O Maxixe, exatos 40 anos depois.

A pesquisa do livro gerou também o documentário 'quase' homônimo Maxixe: a Dança Perdida, dirigido por Alex Viany, de 1980.

O filme supriu uma importante lacuna: quase não existem imagens em movimento do maxixe sendo dançado no Brasil do início do século XX.

Uma justificativa para isso poderia estar em parte na dificuldade de se obter equipamentos de cinema naqueles tempos, mas também muito provavelmente pelo lugar social de prática 'indecente' que o estilo ocupou ao longo de toda sua história.

Podemos detectar aí, talvez, uma das causas para o 'pouco que se fazia' de que Mario de Andrade falava.

2. Alex Viany e equipe incluíram na montagem, dois momentos do par Ginger Rogers e Fred Astaire em duas produções hollywoodianas: Flying Down to Rio, de 1933 e The Story of Vernon and Irene Castle, de 1939, época em que o samba já substituía o maxixe no gosto popular brasileiro.

Mostrei trechos dos dois longas-metragens nas Partes o1 e o2 deste longo post.

A partir desses excertos, é possível afirmar que a (inevitável) estilização dos norte-americanos obedeceu alguns critérios dignos de elogios.

Explico.

Numa passagem de A Dança Perdida, Manoel Martins, o Kito, dançarino veterano, ensina que 'a cintura é a linha que distingue o samba do maxixe':

"O samba se resolve da cintura para baixo, enquanto o maxixe se estabelece (...) da cintura pra cima", diz o narrador.

Vadeco, integrante do Bando da Lua, os 'Miranda Boys' de Carmen Miranda na Broadway, filmes e excursões, conta, em mais uma entrevista do filme de Viany, que foi ele que ensinou o elenco do musical That Night in Rio a dançar maxixe, a convite do coreógrafo Hermes Pan que o viu dançar com Aurora Miranda enquanto filmavam Down Argentine Way.

Assim como o casal Castle, Ginger, Fred e os responsáveis pelas coreografias de grandes grupos em Flying Down to Rio, e That Night in Rio, souberam compreender a 'linha' a que Kito se refere.

Vadeco também soube dar a dica certeira: o giro 'da cintura pra cima' torna-se um leit motiv da coreografia eclética de Hermes Pan (Carmen cria o contraste ao organizar seus movimentos de acordo com a outra matriz).

Kito + That Night in Rio

Repare que That Night in Rio é uma produção de 1941, quando o maxixe, em terras brasileiras, já havia sido encoberto pelas brumas do esquecimento, completamente substituído pelo samba.

Embora a composição musical em si seja gringa, a 'batucada' do acompanhamento obedece o famoso padrão da Turma do Estácio, onipresente a partir de 1930. Sim, o tamborim ainda é quadrado e o contra surdo um pequeno bombo cenográfico, mas o 'bum bum patchicumbum prugurundum' que Ismael Silva preconizava está lá e é inconfundível.

O jeito de 'resolver' a dança 'da cintura para baixo' quando Carmen entra para fechar a coreografia também não deixa dúvida. A 'Brazilian Bombshell' era da segunda geração da música brasileira e já não adotava o maxixe, ou o choro, como paradigma.

Assim como a bossa nova anos depois, o maxixe se cristalizaria na memória dos países ricos onde teria existência mais longa, ainda que fossilizada, do que no Brasil, cujo vórtice criativo seguiria girando e inventando novidades com força total por mais de meio século ainda.

3. Há, por fim, uma particularidade nas descrições (incluídas as ilustrações na imprensa) que se faziam do maxixe dançado no Brasil: os corpos dos pares 'colam' um no outro. Essa característica é diluída por Vernon e Irene e por Ginger e Fred (todos inspirados, quero crer, na estética 'aristocratizante' criada pelo brasileiro Duque).

Os dançarinos, ao 'descolar', aumentavam, claro, as possibilidades de movimentos das coreografias elaboradas, no caso deles, para os olhos da plateia. O resultado não deixa, mesmo assim, de ser, em alguma medida, asséptico.

Ilustração: K. Lixto

Enquanto isso, a dança de salão, propriamente dita, permanecia, como dissemos no início, em grande parte inacessível, pois, ao contrário de norte-americanos e europeus, o Brasil não registrou imagens em movimento.

A quase totalidade das descrições, por sua vez, acabam por insistir no caráter 'desabusado', 'escandalizante', 'lascivo', 'erótico', 'espúrio', 'lúbrico' e 'repudiado' da 'dança da ralé'.

Um lugar comum que grudou no imaginário. Quase um 'vício de linguagem'.

É aí que, finalmente, vem em nosso socorro, o excelente filme de Alex Viany.

Nele há um longo trecho, filmado sem cortes, do mestre maxixeiro Manoel Martins, o Kito*, dançando — em plena forma — em meados da década de 1970, ele que estava na ativa desde os anos 20.

É um daqueles momentos que a gente costuma dizer que são 'de rara beleza'.

Kito e sua parceira** apresentam, salvo engano, o registro em filme mais fiel disponível do modo 'roots' de dançar maxixe. Trata-se de uma experiência 'a dois' de alta voltagem! E que temos a chance de ver, para além dos limites das palavras e clichês que tentaram descrever esse acontecimento cultural hoje centenário chamado maxixe.

Cena final de Maxixe: a Dança Esquecida

Para ver Maxixe: a Dança Perdida, de Alex Viany

Para ler Maxixe: a Dança Excomungada, de Jota Efegê


Irene e Vernon Castle

* "Outro magnífico executante do maxixe é Kito (Manuel Martins Kito), baiano que, chegando ao Rio em 1921, com a cidade já nos preparativos das festas do centenário da Independência, se deixou empolgar pela dança.

Trazia de Andaraí, município onde nasceu, sua vocação de dançarino, pois, meninote, participava dos forrós, nos quais uma sanfona 'gemendo' não dava descanso aos pares. Aqui logo conseguiu assimilar os desenhos coreográficos do maxixe e, audacioso, inscrevendo-se num concurso levado a efeito no Teatro República, representou o Clube dos Democráticos e foi vencedor tendo Nena como sua 'partenaire'.

Daí em diante, conforme relatou O Jornal, de 7 de agosto de 1966, passou a ser figura prestigiosa nas escolas de dança (Guanabara, Eldorado e outras) e, em algumas delas, foi-lhe dada função de professor.

Então, nessa qualidade, convidaram-no a tomar parte em alguns filmes nacionais, dois deles, Lábios sem Beijos e Pif-Paf, dos quais foram diretores, respectivamente, Humberto Mauro e Ademar Gonzaga, ambos pioneiros da cinematografia brasileira.

Mais tarde, numa época em que já rareavam os dançarinos de maxixe, quase nenhum, pode-se dizer, e justamente quando se abria caminho para 'o rush de artistas na direção dos Estados Unidos', como escreveu José Ramos Tinhorão em seu polêmico livro O Samba Agora Vai..., teve Kito, em 1949, a grande oportunidade de alardear sua perícia no estrangeiro. Um representante da Arthur Murray Studios veio ao Brasil buscá-lo para fazer demonstrações da dança do samba e do maxixe. Sem vacilar, e animado pela impressionante soma de dólares que lhe foi oferecida, nosso patrício, levando sua 'partner' Jurema (vestida de baiana estilizada, ao jeito das que Carmen Miranda lançara nos States), lá se foi rumo ao Norte.

O êxito de suas exibições proporcionou-lhe ser chamado para atuações em vários night-clubs, um deles o famoso Copacabana, de Nova Iorque. Por fim, prolongando sua estada nos Estados Unidos, abriu um curso de danças brasileiras de salão, anunciando-se: 'M. Martins Kito, teacher — samba, maxixe, frevo & other brazilian dances — as well as authentic tango'.

Desse modo, o maxixe, já expirante em sua terra de origem, ensejava a um dos seus exímios dançarinos mostrá-lo galhardamente nas estranjas. Sem a vaidade de rei, ou campeão, Kito impunha sua categoria".

Transcrito da pequena biografia do Kito, escrita por Jota Efegê em Maxixe: a Dança Excomungada.

** O nome da parceira de Kito não está claro na ficha técnica, mas acredito que seja Nélvia Pinheiro.