PENSAR A BOSSA_o6: Antologia poética
Antologia Poética
"O Vinicius mandou-me um grande catatau para ser editado sob as minhas vistas. Toda a poesia até agora dele, excluídos os poemas que ele hoje renega (quase todos os de O caminho para a distância e muitos de Forma e exegese)".
Manuel Bandeira, em carta endereçada a João Cabral de Melo Neto em 20 de setembro de 1949.
"Fiquei muito contente de você poder tomar conta do meu livro. Chamarei, claro!, de Antologia. Como Gabriela [Mistral] ainda o tem em seu poder, vou dar um pulo a Santa Bárbara".
Vinicius de Moraes para Manuel Bandeira, em 17 de fevereiro do ano anterior.
A Antologia Poética sai em 1954 pela editora A Noite, dirigida por Cassiano Ricardo. Traz poemas dos sete livros editados por Vinicius até então:
O caminho para a distância, de 1933; Forma e exegese, de 1935; Ariana, a mulher, de 1936; Novos poemas, de 1938; Cinco elegias, de 1943; Poemas, sonetos e baladas, de 1946; Pátria minha, de 1949.
D'O caminho para a distância o poeta 'renegou' (nos termos de Bandeira) tudo, menos A uma mulher. De Forma e exegese sobrou pouca coisa.
— a uma mulher —
Em duas edições revistas e aumentadas, a de 1960 e a de 1967, manteve-se, à guisa de prefácio, a Advertência da primeira edição, escrita pelo próprio Vinicius, explicitando as linhas que orientaram as escolhas da Antologia:
ADVERTÊNCIA
Poderia este livro ser dividido em duas partes, correspondentes a dois períodos distintos na poesia do Autor.
A primeira, transcendental, frequentemente mística, resultante de sua fase cristã, termina com o poema Ariana, a mulher, editado em 1936. Salvo aqui e ali umas emendas, a única alteração digna de nota nesta parte foi reduzir-se o poema O cemitério na madrugada às quatro estrofes iniciais, no que atendeu o A. a uma velha ideia de seu amigo Rodrigo M. F. de Andrade.
À segunda parte, que abre com o poema O falso mendigo, o primeiro, ao que se lembra o A., escrito em oposição ao transcendentalismo anterior, pertencem algumas poesias do livro Novos poemas, também representado na outra fase, e os demais versos publicados posteriormente em livros, revistas e jornais. Nela estão nitidamente marcados os movimentos de aproximação do mundo material, com a difícil mas consistente repulsa ao idealismo dos primeiros anos.
De permeio foram colocadas as Cinco elegias (1943), como representativas do período de transição entre aquelas duas tendências contraditórias — livro, também, onde elas melhor se encontraram e fundiram em busca de uma sintaxe própria.
A presente edição, revista pelo A., foi acrescida de uma seleção dos Novos poemas (II), livro editado em 1959 e composto de poemas escritos entre 1949 e 1956, sendo que a maioria em Paris. Dela só não constam alguns poemas e séries de poemas de largo fôlego, em que vem o A. trabalhando sem pressa.
Não obstante certas disparidades, determinadas pela necessidade de demarcar bem as duas tendências referidas, impôs-se o critério cronológico para uma impressão verídica do que foi a luta mantida pelo A. contra si mesmo no sentido de uma libertação, hoje alcançada, dos preconceitos e enjoamentos de sua classe e do seu meio, os quais tanto, e tão inutilmente, lhe angustiaram a formação.
Vinicius, que assumira a partir de 1946 seu primeiro posto diplomático, como vice-cônsul em Los Angeles, mora em Hollywood, passa a viver entre músicos, atores, cineastas, executivos e críticos de cinema, torna-se íntimo de Carmen Miranda e amigo pessoal de Orson Welles.
Em 1950 vai ao México visitar o amigo e Cônsul-geral do Chile no país, Pablo Neruda. É quando Neruda publica seu Canto General. O brasileiro ainda não completou 40 anos.
Essa fieira de nomes, lugares e situações pode dar ideia do prestígio de que gozava o futuro 'poetinha' em sua encarnação de poeta, crítico e intelectual.
Claro que esta cisão entre 'poeta' e 'poetinha' serve apenas aos desavisados. O mesmo João Cabral que em 1949 trocava ideias com Manuel Bandeira sobre a Antologia em preparo, em 1994, abordava a questão de forma muito menos superficial.
Perguntado se Vinícius, "de certa maneira, representava uma tendência comum entre os artistas brasileiros de ceder a uma certa lassidão, a uma certa autocomplacência, a uma tendência à facilidade, em sua literatura", João Cabral disse:
"Vinicius fez a poesia que ele queria fazer. Ele era capaz de fazer as poesias mais sofisticadas, se quisesse, como também era capaz de compor samba. Ele era um poeta de uma habilidade como não conheci outro igual. De forma que, se ele entrou por esse caminho do samba, foi porque ele quis. Porque antes ele tinha feito coisas da maior sofisticação.
(...) A poesia lírica, como o nome diz, é feita para ser cantada. Agora, depois do romantismo, todo mundo faz uma poesia de assunto, vamos dizer, cantável, mas para a qual não se faz música. Então o lirismo se desligou da música. Mas o verdadeiro lirismo é o lirismo para ser cantado. Por exemplo: teatro lírico o que é? É a ópera. Antes do romantismo, existia uma poesia épica, uma poesia histórica, uma poesia didática, até uma poesia epistolar. Uma vez o rei da Espanha se casou com uma princesa italiana, se não me engano, e havia uma duquesa muito rica lá em Madri que não podia receber a princesa no porto de Valência, mas estava curiosa para saber da festa da chegada. Naquele tempo não tinha televisão, nem imprensa, então ela contratou o Lope de Vega para ir a Valência e descrever para ela as festas da chegada da princesa. E o Lope de Vega fez uma série de cartas em verso descrevendo a cerimônia. Então, havia uma poesia epistolar, geográfica. Eu tenho a impressão de que a poesia puramente lírica é a poesia cantada. Agora, tem muita gente que faz poesia lírica, mas que não é para ser cantada, porque não encontra compositor para botar a música (risos). O Vinícius foi consequente com o lirismo dele ao desembocar na música popular. Ele deve ter sentido isso que eu estou dizendo".
Mas, se todos fossem iguais ao João Cabral, que maravilha viver!
Quando em 2003 a Companhia das Letras lançou a Nova Antologia Poética / Vinicius de Moraes, os organizadores Antonio Cicero e Eucanaã Ferraz, 20 anos distantes da entrevista de João Cabral e quase 50 depois da Antologia original, colocavam a problemática 'poeta' X 'poetinha' em perspectiva:
"Tendo gozado durante mais de três décadas de raro reconhecimento em vida, hoje não é sequer fácil encontrar, no mundo acadêmico, alguém que se tenha dedicado a estudar sua obra".
(Outros mais de 20 anos se passaram e, por certo, a situação continua muito semelhante.)
Cicero e Eucanaã acreditam que "algumas causas poderão ter sido" decisivas para o 'apagamento' de Vinicius entre os representantes da chamada 'alta cultura':
(...) "os católicos atuantes jamais perdoaram o fato que apreenderam como traição de que ele tenha publicamente abandonado a fé quando o haviam consagrado; a esquerda militante desconfiava de seu aparente hedonismo 'festivo'; os membros da geração de 45, sem confessá-lo, abominavam-no por elaborar sonetos infinitamente mais memoráveis do que os deles; os vanguardistas, por empregar formas fixas; os conservadores, por não se ater a estas; os elitistas, por ter se tornado popular; etc."
O poeta Nelson Ascher, em maio de 2005, comentando a Nova Antologia que a Companhia das Letras disponibilizava agora em edição de bolso, completava:
"Vale a pena acrescentar que a crítica em geral tampouco deve tê-lo desculpado por prescindir dela, ou seja, por compor um tipo de poesia que, sem deixar o refinamento de lado, ainda assim está, graças a seus temas e ao domínio técnico que a torna acessível de imediato conforme convida a leituras cada vez mais informadas e complexas, aberta ao público não-iniciado. Pois Vinicius era, antes de mais nada, um perito no bom acabamento. Seus poemas, se examinados com cuidado, revelam um alto nível de elaboração, mas, uma vez terminados, dão a impressão de terem brotado sozinhos, quase prontos e sem terem requerido qualquer esforço. Ao contrário do que faz, por exemplo, João Cabral, o autor preferia não deixar expostos os encanamentos, a fiação elétrica e as vigas de sua obra.
Ademais, ele se diferencia do pernambucano, a quem não é qualitativamente inferior, por ter praticado uma variedade invejável de formas e estilos, escrevendo desde sonetos (Vinicius descobriu com Rimbaud e Rainer Maria Rilke que era possível compor, nessa antiga e aparentemente exaurida forma fixa, poemas autenticamente modernos) e baladas (cuja feitura aprendeu em boa parte com García Lorca) até poemas experimentais nos quais português e inglês se mesclam gerando neologismos (A Última Elegia) ou as normas gramaticais são jocosamente pervertidas à maneira do norte-americano E.E. Cummings. E acrescente-se que muito disso ele fez pioneiramente, antes que se tornasse moda ou obrigação.
Deixando seu leitor à vontade em todas as formas que escolhia, Vinicius era capaz igualmente de fisgá-lo através dos temas que abordava. Ninguém duvida que ele seja o bardo mais explicitamente amoroso que o modernismo e a modernidade legaram à nossa língua e país. Ele, a rigor, desenvolveu uma maneira própria, pertinente e, principalmente, atual de tratar esse assunto tão incontornável na poesia quanto difícil de trabalhar sem obviedades, redundâncias ou pieguice. E, ao se constatar que falava com igual desenvoltura sobre o operário em construção e as meninas de bicicleta, sobre as prostitutas do mangue e os mortos dos campos de concentração, sobre a bomba atômica e a bomba de gasolina num deserto dos EUA, sobre um crepúsculo em Nova York, sobre alface, feijoada ou uma pera, sobre um gato morto e sobre o cineasta russo Eisenstein, nada indica que existisse algo de humano que lhe fosse alheio".
Por fim, recolhendo mais uma apreciação crítica da obra poética de Vinicius, os antologistas Antonio Cicero e Eucanaã Ferraz lembram do ensaio Cinco elegias de Manuel Bandeira:
[Vinicius] "tem o fôlego dos românticos, a espiritualidade dos simbolistas, a perícia dos parnasianos (sem refugar, como estes, as sutilezas barrocas) e, finalmente, homem bem do seu tempo, a liberdade, a licença, o esplêndido cinismo dos modernos".
A MULHER QUE PASSA
A Pedro Nava
Novos Poemas. Livraria José Olympio Editora, 1938.
Excertos (adaptados) de:
Nova antologia poética / Vinicius de Moraes; seleção e organização Antonio Cicero, Eucanaã Ferraz — São Paulo, Companhia das Letras, 2005.
Antologia Poética. Editora A Noite, 1954.
João Cabral de Melo Neto, entrevista a José Geraldo Couto. Caderno Mais+, 22 de maio de 1994.
Vinicius de bolso. Nelson Ascher. Folha de São Paulo Ilustrada, 16 de maio de 2005.
Imagens:
Vinicius aos 40 anos.
Capa de O caminho para a distância, 1933.
Capa da Antologia Poética, 1954.
Vinicius e João Cabral, Paris, 1970.
Vinicius e Manuel Bandeira, s.d.
Drummond, Vinicius, Bandeira, Quintana e Paulo Mendes Campos, na casa de Rubem Braga. Autor não identificado, 1966.





