PENSAR A BOSSA_o6: As canções de câmara
JOSÉ CASTELLO
Samba-canção...
Homens e mulheres, dizem essas letras cheias de melancolia, nasceram para o desencontro e para o fracasso. Como não suportam esse destino, pioram as coisas se agarrando às ilusões. Sofrem mais ainda.
(...) Nesse cenário, Vinicius começa a dar seus primeiros passos. Em 1953, aos quarenta anos de idade, compõe seu primeiro samba, Quando Tu Passas por Mim, gravado depois por Doris Monteiro e por Aracy de Almeida. Ainda é um samba triste, que descreve o amor como uma modalidade do sofrimento.
Começa:
E mais em frente:
Versos ainda melancólicos, que trazem, porém, no desfecho, algum sentido de orgulho e de liberdade:
Em contraste com o cenário fechado e fatalista do samba de fossa, resta em Quando Tu Passas por Mim alguma chance de dignidade.
Vinicius dá parceria a Antônio Maria, mas na verdade é o autor da música e da letra. Foi o primeiro passo no cumprimento de um trato feito entre os dois amigos. Sempre que possível, um deveria dar — falsa, mas de coração — parceria ao outro. Seria como se estivessem, assim, comprando dois, e não apenas um, bilhetes na loteria do sucesso. Vinicius aceita o pacto embora, humilde, julgue deixar Maria em desvantagem. Buscará, também, outros parceiros. Compõe com Ary Barroso (Canção do Amor Que Não Vem, Em Noite de Luar, Rancho das Namoradas, entre outras) e com Adoniran Barbosa (Bom Dia, Tristeza). Tateia. Tem alguns exemplos em quem se mirar: Noel Rosa, Orestes Barbosa, Luís Peixoto.
Em Paris, em 1955, o poeta alarga seus horizontes. A sorte o leva a se encontrar com o amazonense Cláudio Santoro, um músico inquieto seis anos mais moço que ele. Santoro — maestro consagrado que estudou com H. J. Koellreutter e Nadia Boulanger, foi o primeiro dodecafonista brasileiro e se tornou amigo de Pierre Boulez — desembarca em Paris depois de uma longa turnê pela Cortina de Ferro. Acaba de ser expulso da União Soviética por causa de um romance proibido com uma bailarina ligada aos serviços de espionagem. De nada adianta exibir às autoridades soviéticas sua carteirinha de filiado ao Partido Comunista Brasileiro. Está abatido. Tem, como sempre, os minutos contados e a agenda cheia. Depara-se com um Vinicius, ao contrário, disponível e entediado com a rotina diplomática, ávido de novidades. Circulam juntos pela noite parisiense e trocam confidências. O poeta revela seu desejo de saltar o muro da diplomacia rumo à música popular, mas confessa simultaneamente seu enorme medo. Santoro saca da bagagem, então, nada menos que treze canções feitas durante a longa estada em Leningrado. "Fiz algumas, também, num castelo em que me hospedei em Varsóvia", revela. "Estava cheio de fantasmas e eu me pus a compor para me distrair do medo".
Em quase dois anos de trabalho exaustivo num piano desafinado da embaixada, Vinicius escreve as letras para as canções de câmara de Cláudio Santoro. Elas são dadas como prontas em 1959. Saem para jantar em comemoração e o poeta, sempre apressado, já traz no bolso um rascunho da contracapa do disco.
As treze letras só ficam prontas, em definitivo, quatro anos depois, quando ele já está de volta ao Brasil. Maria Lúcia Godoy chega a gravá-las, mas o disco não é lançado porque, os três concordam, a qualidade técnica é sofrível. Em 1967, o selo Festa convida Maria Lúcia Godoy, novamente, para gravar as treze canções de câmara de Santoro e Vinicius.
Durante seis tardes, o poeta acompanha os ensaios da cantora, realizados no apartamento do dentista Jorge Asmar, no Flamengo. A cada encontro, Vinicius presenteia Maria Lúcia com uma rosa vermelha. Nos intervalos, estira-se no sofá da sala e repete sempre o mesmo galanteio: "Ah, Maria Lúcia, como você me enternece!". Nessas horas, o Vinicius de Moraes sem freios e à beira do mau gosto se exibe em toda a sua plenitude. Às vezes, ele se exalta e diz coisas assim: "Ah, como você é bonita! Ah, os seus olhos... Quando você canta, eu conheço a paz profunda!". Maria Lúcia, sempre encabulada diante desses derramamentos, se limita a repetir: "Ora, Vinicius, deixa disso...". O projeto não é concluído, não pelos excessos de ênfase que Vinicius de Moraes empresta aos ensaios, mas por falta de patrocínio.
Maria Lúcia Godoy nunca pôde realizar o sonho de gravar as canções de câmara deixadas por Vinicius e Santoro. Em 1969, momento mais próximo desse sonho, no elepê O Canto da Amazônia, gravado pelo MIS e pela Fundação Cultural do Amazonas, conseguirá a proeza máxima de interpretar três delas: Acalanto da Rosa, Luar do Meu Bem e Pregão da Saudade.
A experiência com Cláudio Santoro sofistica o poeta. (...) Vinicius, formado no esteio dos românticos e dos grandes sonetistas, agora parceiro de Santoro, destoa um pouco do bom gosto 'moderno' que a classe média ilustrada começa a adotar.
Quando a bossa nova surgir, em fins dos anos 50, ela vai significar, antes de tudo, uma reação sofisticada ao baixo-astral reinante. (...) Reflexo de um tempo em que, com JK ao volante, o Brasil decide ser otimista.
Vinicius sabe manipular a felicidade, esse novo elixir da boa música, mas não abre mão do lirismo. Quando fala de experiências tristes, porém, não cede ao ressentimento, ou ao amargor. Consegue fazer letras românticas sem mau gosto e — o mais importante — sem sentimentalismo. O letrista Vinicius de Moraes vem enterrar o lirismo barato e carcomido, para pôr em seu lugar um novo tipo de lirismo, afinado com a nova bossa que começa a surgir. (...) A partir daí, a história das letras em nossa música popular se divide, sem qualquer exagero, entre o Antes-de-Vinicius e o Depois-de-Vinicius. O poeta, ao emprestar seu coração à música, se transforma numa fronteira.
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Transcrito (com adaptações) de:
Vinicius de Moraes: o poeta da paixão / uma biografia. © 1994, José Castello. Companhia das Letras.
http://www.claudiosantoro.art.br/
Imagens:
Vinicius. Autores: José e Humberto Franceschi.
