PENSAR A BOSSA_o9: Antonio Brasileiro (I)

Vida noturna

Era mesmo um bas-fonds dos diabos, com os leões-de-chácara aproveitados da Polícia Especial do Getúlio, que defendiam a gente dos fregueses incômodos, chatos, briguentos.

Houve cenas desagradáveis, amargas. Lembro de uma ocasião num lugar chamado French Can-Can onde havia um piano de cauda que eu tocava durante o jantar, ali entre a Constante Ramos e a Miguel Lemos, ao lado do Posto Cinco.

Frequentavam a casa o Roger, que havia sido da Resistência Francesa, e um procurador da República, de que não lembro o nome. Os dois eram muito amigos, mas um dia eles se desentenderam de verdade. Esse procurador sacou do revólver para amedrontar o amigo, mas no meio do percurso entre o bolso e a mesa a arma disparou. A bala passou perto do meu estômago, junto ao baço, e ficou encravada na parede. No percurso até lá, furou o paletó do garçom que vinha passando com uma bandeja.

Vi outras coisas tristes, como o incêndio do Vogue, onde o Schiller morreu abraçado com a esposa, na cama. Alguém me dizia, na época, que quem está no alto morre primeiro, nesses casos. Bem, toquei no Clube do Cinema, no Drink, no Bambu Bar, no Arpège, no antigo Sacha's, no Monte Carlo, que era da cadeia do Carlos Machado, com o Night and Day. Trabalhei também no Casablanca. Os salões do Copacabana me pareciam incríveis, com aquelas orquestras e as pessoas vestidas a rigor. Toquei de tudo, rumba, bolero, fox, canções francesas, tango. No Alcazar quase só tocava tango, no Tudo Azul também.

Resolvi mudar minha vida, de repente. Para ser bicho diurno, arranjei emprego na Continental discos, em 1952. O trabalho era na Pedro Lessa, para onde fui levado pelo Sávio Carvalho da Silveira. Levava minha pastinha, com algumas partituras. Alguém cantava uma música, batendo na caixa de fósforos, e eu punha a melodia no papel. Naquele tempo não havia gravador, nem nada, era tudo de ouvido. Os que existiam eram grandes móveis, verdadeiros mastodontes. Minha pasta era dessas de attaché, com pentagrama, lápis, borracha e gilete, lá dentro. Lembro do Monsueto chegando lá com aquele samba Mora na Filosofia, e eu escrevendo a música para ele, riscando o pentagrama com todo o cuidado. O samba foi o maior sucesso.

(...)

No período do samba-canção, fiz arranjos para a Dalva de Oliveira — aquela música do Klécius Caldas e do Armando Cavalcanti, que diz "Aqui neste mesmo lugar, neste mesmo lugar de nós dois, jamais poderia pensar que voltasse sozinho depois" e escrevi tudo para orquestra. Também para o Orlando Silva, que até gravou um samba meu.

Para ouvir a playlist com os primeiros arranjos orquestrais de Tom Jobim para a Odeon clique aqui.

O fato é que eu era muito tímido, não queria aparecer e vivia me escondendo atrás do piano. O Radamés dizia que bastava sentar e escrever a música, o resto vinha por si. Fazia tudo para me encorajar. Lembro o primeiro arranjo que fiz ali para o Dick Farney. A partir daí, tomei coragem e comecei a mostrar minhas músicas, sobretudo aquelas que estavam no fundo da gaveta há muitos anos. Aquelas coisas que já vinha compondo desde o tempo da garagem na Saddock de Sá, começaram a aparecer. A minha composição — a de todo mundo, parece — é misteriosa, não sei de onde vem. Por outro lado, tudo vira mito entre nós.

Transcrito (com adaptações) de:

A Vida de Tom Jobim: Depoimento. © 1983 Editora Rio. Pesquisa: Faculdades Integradas Estácio de Sá.

Imagens:

Tom Jobim, c.1955. Fotografia de José Medeiros. Acervo IMS.

Tom no piano, Ribamar (acordeon), Juquinha Stockler (bateria) e Esdras Silva (guitarra semiacústica). Com dedicatória. 30 de setembro de 1953. Acervo IACJ.