PENSAR A BOSSA_o9: Antonio Brasileiro (III)
A bossa nova
A bossa nova é uma longa e conhecida história. Em 1962, fui para os Estados Unidos, depois de longo tempo de parceria com o Vinícius que aqui continuou a compor com outros parceiros. Só de passagem, é bom que se diga: o Vinícius não se apegava a nada, nem fórmulas, nem parceiro, nem mulher nenhuma. Era uma grande pessoa. Mas fui para os Estados Unidos. O Itamaraty estava muito interessado em divulgar a nova música que surgia, lá no exterior. Um representante do Ministério das Relações Exteriores foi à minha casa e insistiu que eu viajasse.
A bossa nova é um velho ritmo que existia aqui nas escolas de samba, no Rio como na Bahia. Esse pá, tá, tá, pá, tá, está perfeitamente descrito num livro francês editado na década de 40, o La Musique, des Origines à nos Jours. Quem diz hoje que bossa nova nasceu sob influência do jazz está dizendo uma grossa bobagem. O negócio é mais sério e menos fanático. O baiano João Gilberto fez pá, tá, tá, pá, tá, e disseram que a batida era gaga. Tudo depende de quem ouve, naturalmente. Toda vez que há qualquer coisa criativa na América Latina, ela vai acabar na América do Norte. Foi assim com o tango, o bolero, o chá-chá-chá, o mambo, a rumba, a conga. O Edu Lobo, que vê coisas com muita precisão, disse outro dia: "Primeiro, você se naturaliza norte-americano. Depois, faz a música que quiser, porque todo mundo vai achar natural". No Brasil, há quem diga que a bossa nova é americana. Os americanos agradecem muito essa afirmação.
O Sidney Frey era um americano grandalhão, meio grosseiro e muito simpático. Nós nos desentendemos várias vezes, mas sempre acabamos conversando. O Frey queria fazer um show nas Bahamas. No show em Nova Iorque havia de tudo, e a bossa nova estava invadindo. O Itamaraty tem toda razão de aproveitar situações. Um pintor brasileiro faz sucesso no exterior, aluga-se um salão, faz-se uma vernissage. Era essa a ideia de ajudar a bossa nova, que desde 1959 ganhava espaço por lá. O Gerry Mulligan levou-a para a Costa Oeste, o Stan Getz gravou e vendeu, imediatamente, um milhão de discos. Em qualquer loja de Nova Iorque você encontra o Getz/Gilberto — featuring Antonio Carlos Jobim. Isso tudo foi um acontecimento na minha vida. Eu, que tinha muitos preconceitos políticos contra os Estados Unidos, chamando-os de imperialistas e racistas, às vezes, comecei a ver as coisas de mais perto. Muito daquilo permaneceu, teve confirmação. O resto foi consumido pelos fatos, e não passava de preconceito mesmo.
O Itamaraty fez pressão para que eu fosse, mas uma certa timidez me segurava. Lembro que o Fernando Sabino foi lá em casa e me falou: "Você é um brasileirinho ignorante, subdesenvolvido". Achei que era isso mesmo, mas que devia ir lá fazer o melhor que pudesse. Descobri naquele país muita seriedade, muita generosidade.
Para ouvir as 12 faixas de The Composer of Desafinado Plays, primeiro LP solo de Tom Jobim, produzido nos EUA em 1963 e lançado no Brasil pela ELENCO de Aloysio de Oliveira, clique aqui.
Sem roupa certa para o frio, vi um crioulo da orquestra colocar seu sobretudo nas minhas costas e continuar seu trabalho. A contragosto, comecei a mudar minhas opiniões sobre os norte-americanos. As pressões que a gente recebe são feitas em cima de generalizações. Outro dia, um conhecido me disse, depois de elogiar os franceses como liberais: "O que os americanos fizeram no Vietnã"... Disse a ele que o que os franceses fizeram na Indochina não era nada melhor. E os portugueses conosco? E os russos na Polônia? No Afeganistão? A pessoas só se lembram daquilo que desejam lembrar. Acredito em gente, não em regimes. O André Midani me disse, há pouco: "Por que ficar falando no colonizador moderno, se somos descendentes do grande colonizador que conhecemos, o português?". E nós mesmos em relação aos índios, o que somos senão colonizadores, dos mais cruéis?
No Carnegie Hall
Cheguei no dia do show, depois de fazer escalas na Nicarágua e em Porto Rico. Cheguei às seis horas, e o concerto era às nove. Larguei a bagagem no hotel, tomei um banho, botei uma roupa melhor. Meu hotel era o Adam na 86th, e o Carnegie é na 57th. Na hora exata, pisei no teatro. Cantei o Samba de uma Nota Só em inglês, para uma plateia de brasileiros. Não havia exigência de cantar em inglês, mas nós pensávamos que aquele era um país estrangeiro. Naquela noite, muita gente estreou como cantor: eu, Roberto Menescal, Carlinhos Lyra.
O show não tinha a menor importância na noite nova-iorquina, mas a bossa nova já tinha explodido em disco e vendido milhões nos Estados Unidos. A importância que no Brasil foi dada ao espetáculo foi desproporcional à realidade. O que valia mesmo, para a divulgação da nossa música, eram os milhares de discos vendidos, o que tocava nas rádios, o que cantoras apresentavam na televisão. A partir de 1962, a bossa nova imperou, enquanto em outras faixas os Beatles tomavam conta do mercado.
Estávamos todos ali no mesmo barco, apavorados, recém-saídos do avião, um grupo de brasileiros vivendo uma aventura. Depois, todos voltaram para o Brasil, mas eu pensei que devia ficar um pouco mais. Era a primeira vez que ia ao estrangeiro, estava para fazer 36 anos. Isso foi em novembro de 1962. Um mês depois começou a nevar em Nova Iorque. Eu, João Gilberto e Sérgio Ricardo ficamos por lá, reclamando em carta que estávamos muito sozinhos. Em janeiro, a Astrud pegou um avião com a Thereza e foram ao nosso encontro. Desceram no aeroporto com aqueles agasalhos brasileiros, aquelas martas que nada sabem a respeito do dragão do frio. Desceram do avião muito bonitinhas, e desse quadro me lembro até hoje: as pernas, os sapatos desprotegidos.
Antes da chegada das mulheres ajeitamos as acomodações no Hotel Diplomat, na rua 43rd. onde estávamos desde novembro. O Sérgio Ricardo, que era solteiro, deu um sumiço nas revistas de mulher nua que colecionávamos, mandamos varrer os quartos e afugentar as baratinhas que circulavam por ali. Pois bem, ficamos lá até julho, quando começou a fazer aquele calor que só faz em Nova Iorque, no verão. Thereza e eu pegamos um navio de volta, e navegamos durante 28 dias até chegar ao Rio. Era uma espécie de banana-boat, sem qualquer pressa, que entrou pela Geórgia adentro, num largo e profundo rio, antes de viajar para a América do Sul.
Edições
Meu contato com as gravadoras americanas havia sido difícil, mais por uma questão de temperamento do que outra coisa. Nunca fui homem de cair na estrada, propagar minhas músicas, discutir minha participação. Pode provocar muita dor essa coisa de um brasileirinho entrar num mercado como o americano. Meu inglês foi aprendido no colégio, nos filmes de cowboy, e o pessoal lá queria colocar letras incríveis nas minhas músicas, falando de café, banana e coco. Uma vez cheguei até a chorar. Comecei, então, a lutar pela preservação do que era meu, brasileiro, original. Tinha negociado as músicas com editores brasileiros que, por sua vez, haviam negociado com editores americanos. Ninguém queria ouvir minhas opiniões a respeito.
Esse negócio de editor no Brasil é um caso sério. Já falei com o Danilo Rocha, que é filho do Daniel Rocha da SBACEM — um dos fundadores, sobre o que penso disso tudo. Ele tem lutado para mudar as coisas, esse drama que é editar música no nosso País. Você edita seu trabalho, dá 50% a um desconhecido, ele altera muita coisa do que você fez, e que vai revender para ganhar 50% de seus direitos em todo o Brasil e 50% de tudo o que vier do exterior. É um parceiro monstruoso, que edita errado e presta um desserviço. Cheguei a pensar em fazer novas editoras no Brasil, a reunir compositores, mas fui desaconselhado. Aqui isso não funciona, com os controles oficiais. Num país verdadeiramente capitalista, onde o editor provoca, promove a música, distribui partituras, oferece nas lojas, toca com orquestra e protesta se for preciso, num país assim isso funciona. Entre nós, o ECAD, Escritório Central de Arrecadação de Direitos, faz absolutamente tudo, engloba todas as sociedades, abarca toda ação. Vamos ver o caso de Chega de Saudade, minha e de Vinícius. A música vai para os Estados Unidos, começa a ser gravada lá. Rádio, TV, os bons broadcasts tocam a música, e pingam lá uns direitinhos. Digamos que essa música tenha rendido mil dólares. O editor americano já segura 600 dólares desse total. No envio para o Brasil dos 400 dólares restantes, 30% ficam no Imposto de Renda norte-americano. Sobram 280 dólares. O editor brasileiro fica, então, com a metade, 140 dólares. Isso se for irrepreensivelmente honesto, o que nem sempre acontece. Esse resto é dividido para os autores: 70 dólares para cada um. Como as músicas não rendem muito mais de 100 dólares por vez, o comum é o autor receber uma dezena de dólares. Com direito autoral é muito difícil ganhar algum dinheiro.
Transcrito (com adaptações) de:
A Vida de Tom Jobim: Depoimento. © 1983 Editora Rio. Pesquisa: Faculdades Integradas Estácio de Sá.
Imagens:
Tom e o filho Paulo em Ipanema. © 1964, Otto Stupakoff. Acervo IMS.
Cartaz do show do Carnegie Hall. IACJ.



