PENSAR A BOSSA_o9: Antonio Brasileiro (II)
Ernani, Juquinha, Maurici
Nesse tempo, então, comecei a mostrar minhas músicas. Havia um cantor pouco famoso que viajava com o Ary Barroso, o Ernani Filho, filho do Ernani do clarone, que tocava clarinete baixo, aquele vasto clarinete de ébano que dava aqueles sons graves. Ernani gravou a primeira música que fiz: Pensando em Você. Compus a música logo depois que me casei pela primeira vez. Aquilo começou a brotar em mim, a revelar-se, qualquer coisa que estava reprimida há muito tempo. Fiz letra e música, gravando um disco de 78 rotações para a Sinter, cujo diretor era o Paulo Serrano. Do outro lado havia uma música de parceria com o Juquinha, o João Batista Stockler Pimentel, que até hoje toca bateria na noite, com o pianista Galo, e toca muito bem. Logo depois, o Maurici Moura, cantor de São Paulo residente em Santos, gravou música minha de parceria com o Newton Mendonça, Incerteza.
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O caminho da música estava decidido, para mim. (...) Era bem casado, feliz com a Thereza. Minha vida boêmia era inocente, porque eu era fiel a ela. Bebia só cerveja, mais folclore para fim de dia. Com o pretexto da hora do rush, alegando evitar o congestionamento do tráfego, ia para o Villarino e ali encontrava o pessoal: Lúcio Rangel, Sérgio Porto, Dorival Caymmi, Vinícius de Morais, Sílvio Caldas... todo mundo esperando o trânsito melhorar. Os mais novos tomavam cerveja, os mais velhos, melhor estabelecidos na vida, tomavam uísque. O Alcazar era outro ponto de encontro nosso.
Irineu e Elizeth
O João não gravou logo minhas músicas, porque as gravadoras não aceitavam um cantor que ainda não havia firmado nome. Canção do Amor Demais foi gravado pela Elizeth, e o violão era do João Gilberto — já com aquela batida que tomaria conta do mundo. O disco foi gravado na etiqueta Festa, porque a Elizeth não garantia, ainda naquele tempo, uma grande vendagem. Era uma boa voz que cantava na noite. Pois bem, esse disco vendeu muito. O Irineu Garcia, dono da etiqueta, insistiu nessa ocasião para que eu gravasse O Pequeno Príncipe, do Saint-Exupéry, e logo em seguida produziu o Por Toda Minha Vida, com a Lenita Bruno, que cantou com som de câmara.
Lúcio e Vinicius
O Vinicius de Morais, eu conheci ainda jovem, em 1954. Era um rapaz do Clube da Chave, que quando chegava atraía todo mundo. Simpático, espirituoso, muito inteligente e culto, era espantosamente simples para um diplomata. O grupo gostava muito do Vinicius. O Antônio Maria, o Fernando Lobo, o Paulo Mendes Campos, o Paulinho Soledade, o Carlinhos Niemeyer, o Sérgio Porto, formavam uma turma constante. Antes, no Villarino, o Lúcio havia me apresentado ao Vinícius, mas confesso que fiquei um pouco tímido. O Lúcio Rangel explicou, nesse dia, que o diplomata queria fazer o Orfeu Negro, que era o Orfeu grego transportado para o morro carioca. Fiquei ouvindo a história, com a minha pasta sob o braço, e me lembro que perguntei: "Tem um dinheirinho nessa história?". Lúcio reclamou: "Este é o poeta e diplomata Vinícius de Morais". Fiquei sem jeito com a brincadeira.
Os franceses
O pessoal ficou entusiasmado com a ideia. Eles haviam chamado o Vadico, famoso parceiro do Noel Rosa no Feitiço da Vila, mas o Vadico tinha sofrido um enfarte e não quis pegar aquela imensidão de trabalho. Hoje entendo isso: há tarefas que podem matar um homem, se ele não está completamente em forma. Mas na época eu estava bem e aceitei o convite. O Vinícius sentiu logo que íamos ser amigos, e foi lá pra casa, na Nascimento Silva, onde começamos a trabalhar. Fizemos dois ou três sambas ruins, enquanto tínhamos um resto de cerimônia. Logo que nos entrosamos, começou o trabalho sério, e saiu Se Todos Fossem Iguais a Você, Mulher Sempre Mulher, Lamento no Morro. Infelizmente, essa música do Orfeu não foi para o exterior, na época. Mais tarde o Sinatra gravou Se Todos Fossem Iguais a Você. Um outro Orfeu saiu no que todo mundo chamou de "quinta invasão francesa ao Brasil": a filmagem do Orfeu Negro do Camus, com músicas todas inéditas, a serem editadas. Era tudo uma grande esperteza, no fundo. Os franceses do Marcel Camus punham quatro nomes de parceria em cada música, de modo que o dinheiro não saísse da França. Tive parceiros que nunca existiram, dividindo com eles todos meus direitos. Era a velha relação colonizador-colonizado.
(...) Dinheiro, no entanto, não ganhamos com o Orfeu. Quando chegou a notícia da Palma de Cannes, o Jacintho de Thormes garantiu que era a glória e a fortuna. O editor francês ficou com 60%, os 40% foram divididos por seis parceiros, o Imposto de Renda francês comeu uma fatia, e o que chegou aqui foi uma insignificância. A verdade é que só ganhei algum dinheiro muito mais tarde, com a bossa nova, com Garota de Ipanema. Deu para comprar uma casa na Rua Codajás, que já não é mais minha.
Transcrito (com adaptações) de:
A Vida de Tom Jobim: Depoimento. © 1983 Editora Rio. Pesquisa: Faculdades Integradas Estácio de Sá.
Imagens:
Tom, anos 1950, autor não indicado.
Breno Mello e Marpessa Dawn em cena de Orfeu Negro, dirigido por Marcel Camus em 1959.

