Pequenas Biografias: PIXINGUINHA_o1

 "Se você tem 15 volumes para falar de toda a música popular brasileira, fique certo de que é pouco. Mas, se dispõe apenas do espaço de uma palavra, nem tudo está perdido; escreva depressa: Pixinguinha". (Ary Vasconcelos)

Choperia La Concha, 1911

A Pensão Vianna

Na virada do século XIX para o XX, ilustres chorões do Rio de Janeiro costumavam se reunir em saraus que iam até tarde no imóvel de oito quartos, quatro salas e um quintal enorme onde Alfredo da Rocha Vianna e a esposa, Raimunda Maria da Conceição, moravam com o caçula Pixinguinha e mais 13 filhos no bairro do Catumbi.

A 'Pensão Vianna', como o casarão carinhosamente era chamado, também tinha espaço para acolher amigos músicos em dificuldades financeiras. Por exemplo, Irineu de Almeida, requisitado trombonista, e a mãe, D. Generosa, ocupavam o 'quarto dos agregados', no fundo do terreno. Foi Irineu quem vaticinou: "Esse menino promete", ao ver Pixinguinha procurando tirar numa flauta de folha de flandres as melodias que escutava nas reuniões organizadas pelo pai.

Irineu de Almeida ensinou Pixinguinha a ler e escrever música e, diante do progresso fulminante do aprendiz, incorporou-o ao conjunto com que animava festas e bailes, indicou-o diretor da orquestra do rancho Paladinos Japoneses e levou-o para gravar as partes de flauta de uma série de seis discos para o selo Favorite Records, da Casa Faulhaber & Co.

O instrumento usado nas gravações já não era mais de lata, veio da Itália por encomenda do seu Alfredo que, além de músico, era funcionário da Repartição Geral dos Telégrafos e desde sempre entusiasta da carreira do filho. Custou uma pequena fortuna: 600 mil-réis.

O conjunto, batizado de Choro Carioca, tinha, além do líder Irineu de Almeida tocando oficleide, dois irmãos de Pixinguinha nos violões: Otávio (o China) e Léo. O cavaquinho, salvo engano, ficou a cargo de Luís de Faria.

Nascido em 1897, Pixinguinha ainda não havia completado 14 anos.

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Ouça uma das seis faixas gravadas, São João Debaixo d'Água, composição do próprio Irineu de Almeida.

Curiosidade: na terceira parte de São João Debaixo d'Água o autor se apropriou de um trecho do conhecidíssimo tanguinho Brejeiro, de Ernesto Nazareth.

"Imensa vantagem"

O velho Alfredo Vianna acompanhava a evolução artística do filho, mas exigia que ele não largasse o colégio. Tratou de matriculá-lo numa das melhores escolas do Rio de Janeiro, o Mosteiro de São Bento, "mas a música levava imensa vantagem sobre os estudos no coração do menino Pixinguinha", como observou Sérgio Cabral, um de seus biógrafos.

Ainda em 1911, ele começa a se apresentar na casa de chope La Concha, no bairro da Lapa, como flautista do conjunto do pianista Pádua Machado e, poucos meses depois, toma o lugar de Antônio Maria Passos, flautista de grande prestígio, na orquestra do Teatro Rio Branco, dirigida por Paulino Sacramento.

Trabalho não haveria de faltar a um músico tão talentoso, e Pixinguinha não parou mais.

Cabôca de Caxangá

Em 1914, inspirado no sucesso da embolada Cabôca de Caxangá, de João Pernambuco e Catulo da Paixão Cearense, saiu pela primeira vez o bloco carnavalesco Grupo do Caxangá, constituído apenas de músicos, todos vestidos com trajes típicos do nordeste. Pixinguinha, João Pernambuco, Donga, Caninha, Raul Palmieri e outros nomes hoje lendários da música popular brasileira, desfilaram pelo centro da cidade nos três dias de carnaval tocando não só a Cabôca de Caxangá, como também outras músicas dos demais integrantes.

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Ouça a gravação original da Cabôca de Caxangá, cantada em 1913 por Eduardo das Neves, Bahiano e Júlia Martins com acompanhamento do Grupo da Casa Edison.

No carnaval de 1917, o Grupo do Caxangá voltou a ocupar o noticiário, tendo como peça de resistência de seu repertório o Pelo Telefone, considerado o primeiro samba gravado e que tinha como autores (em meio a uma grande polêmica sobre a verdadeira autoria) Donga e o jornalista Mauro de Almeida.

Após o carnaval, Pixinguinha (agora com 19 anos) foi convidado por Luís de Souza para trabalhar na orquestra da sala de projeção do Cinema Palais, na avenida Rio Branco, acompanhando os filmes mudos. Luís Souza, compositor e um dos mais importantes instrumentistas brasileiros do início do século, aposentara-se como pistonista profissional e dedicava-se apenas à direção da orquestra do Palais.

O emprego de Pixinguinha, na verdade, andou ameaçado, porque o dono do cinema, coronel José Gustavo de Matos, não gostou de ouvir o som do flautim utilizado em determinadas músicas — achou-o muito estridente — e pediu a Luís de Souza que dispensasse o garoto. O veterano pistonista preferiu contornar o problema, sugerindo a Pixinguinha substituir o flautim pela flauta.

No ano seguinte, porém, fecharam-se os cinemas, os teatros, os colégios, as repartições públicas e foram raras as lojas comerciais com coragem de abrir suas portas.

A gripe espanhola matou, no Rio de Janeiro, em 1918, um total de 12.720 pessoas, sendo que somente em outubro morreram 8.817.

Desde que se começou a fazer o censo da população carioca, 1918 foi o único ano em que o número de mortes superou o de nascimentos na cidade: para 29.512 nascidos, foram registrados 35.113 óbitos.

As autoridades da Saúde Pública recomendavam, sobretudo, que fossem evitadas as aglomerações, a fim de reduzir o contágio. O compositor Caninha criou uma marcha alertando sobre o perigo de se realizar a tradicional e sempre muito concorrida Festa da Penha naquele ano:

A Espanhola está aí
A coisa não está de brincadeira
Quem tiver medo de morrer
Não venha mais à Penha...                   

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Ouça a playlist contendo sete solos do jovem Pixinguinha com o Choro Carioca, gravados entre 1911 e 1914.

Bibliografia:

Pixinguinha, Vida e Obra. © 1978 Sérgio Cabral. FUNARTE, Rio de Janeiro.

Filho de Ogum Bexiguento. © 1979 Marília T. Barboza da Silva & Arthur L. de Oliveira Filho. FUNARTE, Rio de Janeiro.

pixinguinha.com.br / IMS

Imagem:

Bonfiglio de Oliveira, Pádua Carvalho, Otaviano (ou Otávio Silva) e Pixinguinha. Choperia La Concha, Lapa, Rio de Janeiro, 1911. Acervo Tinhorão, IMS.

Vídeos:

São João Debaixo d'Água (Irineu de Almeida):

Conjunto Choro CariocaLançado em 1911.

Imagem no vídeo: ChorinhoCandido Portinari, 1942.

Cabôca de Caxangá (João Pernambuco & Catulo da Paixão Cearense):

Cantam Eduardo das Neves, Bahiano e Júlia Martins.

Acompanhamento do Grupo da Casa Edison. Lançado em 1913.

Imagens no vídeo: Grupo do Caxangá, criado em 1914. Do núcleo central do Grupo do Caxangá surgiriam Os Oito Batutas.

Playlist Pixinguinha e o Choro Carioca (vários autores):

Sete músicas gravadas pelo conjunto Choro Carioca tendo Pixinguinha como solista entre os anos 1911 e 1914 para o selo Favorite Records da Casa Faulhaber e para a gravadora Phoenix, ambas no Rio de Janeiro.

As faixas para o selo Favorite registram a primeira vez que Pixinguinha, então com 14 anos de idade, trabalhou em estúdio.

Imagem nos vídeos: ChorinhoCandido Portinari, 1942.