Pequenas Biografias: PIXINGUINHA_o2

Os Oito Batutas

"Ar de loucura"

"Foi o maior carnaval que houve, o carnaval depois da Espanhola. Respirava-se um ar de loucura. Os blocos de sujo invadiam as casas, mexendo com todo o mundo. Eram como almas, lençóis andando, não se sabia se homem ou mulher".

Foi assim que o jornalista Mário Filho descreveu o carnaval de 1919, o primeiro depois dos horrores da gripe espanhola.

A pandemia havia levado à morte 5% da população do planeta — mais de 75 milhões de pessoas. No Brasil morreram 35.000, quase a metade delas no Rio de Janeiro.

A vida retomava seu curso no ano em que Pixinguinha chegaria aos 21 anos de idade.

Na tarde de 29 de maio, no Estádio das Laranjeiras, a Seleção sagra-se campeã sul-americana de Football, nosso primeiro título.

Inspirado na vitória do Brasil sobre o Uruguai, decidida com um gol do atacante paulistano Arthur Friedenreich quase no final do segundo tempo da prorrogação, Pixinguinha compõe o que viria a ser um clássico inesquecível não só do choro, mas da música popular brasileira: Um a Zero (que vai esperar até 1946 para sair em disco, já na fase do duo de sax e flauta com Benedito Lacerda).

Os Oito Batutas

Em 7 de abril estreava o recém formado conjunto que Pixinguinha arregimentou para se apresentar no Cinema Palais, um dos mais elegantes da cidade, instalado na esquina da Avenida Rio Branco com a Rua Sete de Setembro.

Isaac Frankel, gerente do Palais, foi quem batizou o novo grupo: Orquestra Típica Oito Batutas.

O anúncio no jornal convidava para ver o "admirável repertório de música vocal e instrumental brasileira. Maxixes, lundus, canções sertanejas, corta-jacas, batuques, cateretês etc." dos Batutas.

A temporada é um sucesso, com boa repercussão nos veículos impressos e presenças ilustres na plateia: Ernesto Nazareth, Rui Barbosa e o empresário Arnaldo Guinle, entre outros. Isso não impede que se manifeste o proverbial racismo brasileiro e no jornal A Rua, o crítico se dirá "escandalizado": um conjunto que toca música popular, usa trajes sertanejos e, como se não bastasse, tem quatro negros em sua formação.

Vida de Artista

Os Batutas excursionam por São Paulo, Minas Gerais e Paraná, chegando a Salvador e Recife. No Rio participam de montagens teatrais, animam festas e saraus, além de gravar, apenas em 1919, seis discos para o selo Odeon. Convidados pela Presidência da República, tocam em homenagem a ilustres estrangeiros em visita ao Brasil, entre eles os reis Albert e Elizabeth da Bélgica, que aqui permaneceram por 30 dias em 1920.

No final de 1921, numa série de participações no Assírio, elegante cabaré instalado no subsolo do Teatro Municipal, os Batutas conhecem o casal de dançarinos Duque e Gaby.

Duque percorrera o mundo desde 1909, dançando o maxixe, estilo considerado imoral por boa parte da sociedade brasileira. No início de 1921 assumira a direção artística do elegante dancing Sheherazade, em Montmartre, na capital francesa. O milionário Arnaldo Guinle tinha mesa permanente na casa, mesmo quando não estava na cidade. Por sugestão de Duque, Guinle organizou e patrocinou a viagem: começava ali a temporada  que se estenderia por seis meses  de Pixinguinha e seus companheiros em Paris, doravante chamados de Les Batutas.

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Ouça a playlist contendo 6 gravações de Pixinguinha para o selo Odeon, feitas entre 1917 e 1919.

Bibliografia:

Pixinguinha, Vida e Obra. © 1978 Sérgio Cabral. FUNARTE, Rio de Janeiro.

Filho de Ogum Bexiguento. © 1979 Marília T. Barboza da Silva & Arthur L. de Oliveira Filho. FUNARTE, Rio de Janeiro.

pixinguinha.com.br / IMS

Vídeos:

Um a Zero (Pixinguinha & Benedito Lacerda). 1946.

Imagem no vídeo: Jogo de Futebol em BrodowskiDi Cavalcanti, 1933.

O Urubu e o Gavião (Pixinguinha). 1930.

Imagem no vídeo: Os Oito Batutas. Acervo Tinhorão / IMS.

Playlist Pixinguinha na Odeon. Gravações realizadas por Pixinguinha entre 1917 e 1919.

Imagem nos vídeos: Chorinho. Candido Portinari, 1942.

Imagens:

Os Oito Batutas: Jacob Palmieri (pandeiro), Donga (violão), José Alves (ganzá), Nelson Alves (cavaquinho), Raul Palmieri (violão), Luiz de Oliveira (reco-reco), China (violão) e Pixinguinha (flauta). 1919, Acervo Tinhorão / IMS.

Da esquerda para a direita, Duque, Donga e Pixinguinha (entre dois homens não identificados), no porto do Rio de Janeiro, possivelmente no embarque dos Oito Batutas para Paris, em 29 de janeiro de 1922. Coleção Pixinguinha / Acervo IMS.

Rumo a Paris, 1922