Pequenas Biografias: PIXINGUINHA_o4

 

Tia Ciata

1.

Depoimento de Bucy Moreira, neto da Tia Ciata, ao Museu da Imagem e do Som, RJ:

Eu vou contar a história. Aqui na polícia central tinha um sujeito que se chamava Bispo, quando eu era criança. Depois eu fui crescendo e eles continuavam aqui na polícia. Ele era investigador e chofer do chefe de polícia, esse Bispo. Então o Venceslau Brás tinha um encosto aí na sua relação, que tinha uma eczema aqui na perna que os médicos na junta médica diziam que não podia fechar.

"Se fechar, morre"!

O Bispo disse pro Venceslau Brás: "eu tenho uma pessoa que lhe cura disso". Ele disse: "mas eu vou falar".

"Ciata, você pode deixar, ele é um bom homem, é um senhor de bem, o presidente e tal...

Ela disse: "quem precisa de caridade que venha cá".

Aí o Bispo: "mas ele é o presidente da República"…

"Então eu também não posso ir lá, não tenho nada com isso, não, não dependo dele".

Às vezes ela era explosiva: "não conheço ele, eu vejo falar em Venceslau Brás mas não conheço, não".

"Ah, mas você tem que fazer alguma coisa, eu dei minha palavra que você ia".

Aí minha prima, uma tal de Ziza, cambonou, ela recebeu orixá, primeiro pra saber se podia curá-lo, o orixá disse: "isso não é problema, cura facilmente, não vai acontecer nada, pode deixar". Então foi que ele ordenou.

Então ela estabeleceu: "são dessas ervas que eu faço medicamento pra ele se curar, dentro de três dias tá fechado, ele não precisa botar mais nada".

Então mandou lavar com água e sabão e botar aquela coisa em pó, torrar aquilo e botar, ficou curado. Ela terminou mesmo indo porque o Bispo era pessoa didata, né, tava sempre lá em casa e fez, forçou a barra, e ela foi lá fazer o serviço.

Ela mesmo lavou o pé dele com água e sabão, "não mexa, não põe nada, amanhã lava outra vez e põe esse. Três dias, se não fechar põe mais três dias". E dentro de três dias estava curado. Quando ele tirou a faixa, tava limpo.

Agora perguntou a ela o que queria. "Não, não quero nada, desejaria para o meu marido, o senhor pudesse melhorar a situação dele. Minha família é numerosa".

Ele disse assim: "Que que eu posso fazer?". Compreende? "Qual o estudo que ele tem?". Ela disse assim: "lá na Bahia ele foi segundanista de medicina" e tal. "Ah! então eu tenho um lugar pra ele, vou botar ele aqui no gabinete do chefe de polícia". Foi ele quem botou, foi isso, foi assim.

2.

Em 1876, com 22 anos, Hilária Batista de Almeida, a Tia Ciata, chegara ao Rio de Janeiro.

A seu espírito forte, aliaria uma crescente sabedoria de vida, um talento para a liderança e sólidos conhecimentos religiosos e culinários. Doceira, começa a trabalhar em casa e a vender nas ruas (...), sempre paramentada com suas roupas de baiana preceituosa.

[No Rio] Hilária se casa com João Batista da Silva, negro bem situado na vida, também baiano, numa relação longa, fundamental para sua afirmação no meio negro. João Batista chega a cursar a Escola de Medicina na Bahia (...). Fora da universidade, mas enfrentando as dificuldades com vantagem, já no Rio, João Batista se mantém em empregos estáveis, como linotipista do Jornal do Commercio, e depois conseguindo um dos ambicionados cargos do funcionalismo público, na Alfândega (mais tarde [como vimos], graças à sua mulher e ao presidente da República, alcançaria posto privilegiado do baixo escalão, no gabinete do chefe de polícia).

Na vida no santo e no trabalho, Ciata não deixava de comemorar as festas dos orixás em sua casa da praça Onze, quando depois da cerimônia religiosa, frequentemente antecedida pela missa cristã assistida na igreja, se armava o pagode. Nas danças aprendera a mostrar o ritmo no corpo, e, como relembra sua contemporânea, d. Carmem, "levava meia hora fazendo miudinho na roda". Partideira, cantava com autoridade, respondendo os refrãos nas festas que se desdobravam por dias, alguns participantes saindo para o trabalho e voltando, Ciata cuidando para que as panelas fossem sempre requentadas, para que o samba nunca morresse.

(...) Havia na época muita atenção da polícia às reuniões dos negros: tanto o samba como o candomblé seriam objetos de contínua perseguição, vistos como coisas perigosas, como marcas primitivas que deveriam ser necessariamente extintas, para que o ex-escravo se tornasse o parceiro subalterno 'que pega no pesado' de uma sociedade que hierarquiza sua multiculturalidade. Quanto às festas, que se tornam tradicionais na casa de Ciata, a respeitabilidade do marido, funcionário público ligado à própria polícia como burocrata, garante o espaço que, livre das batidas, se configura enquanto local privilegiado para as reuniões. Um espaço de afirmação do negro onde se desenrolavam atividades coletivas tanto de trabalho — uma órbita do permitido apesar da atipicidade de atividades organizadas fora dos modelos da rotina fabril — quanto de candomblé, e se brincava, tocava, dançava, conversava e organizava.

(...) A casa alugada era bastante grande, fosse um pouquinho maior o senhorio teria logo feito um albergue, uma cabeça-de-porco para arranjar mais dinheiro.

Planta baixa da casa

Depois de uma sala de visitas ampla, que nos dias de festa era reservada para o baile, a casa se encompridava para o fundo, num corredor escuro onde se enfileiravam três quartos intervalados por uma pequena área que deixava entrar luz através de uma claraboia. No final, uma sala de refeições, a cozinha, grande, e a despensa. Atrás da casa, um quintal com um centro de terra batida para se dançar e depois um barracão de madeira onde ficavam ritualmente dispostas as coisas do culto.

Na sala, o baile onde se tocavam os sambas de partido entre os mais velhos, e mesmo música instrumental quando apareciam os músicos profissionais, muitos da primeira geração dos filhos dos baianos que frequentavam a casa. No terreiro, o samba raiado e às vezes, as rodas de batuque entre os mais moços. No samba se batia pandeiro, tamborim, agogô, surdo, instrumentos tradicionais que vão se renovando a partir da nova música, confeccionados pelos músicos, ou com o que estivesse disponível, pratos de louça, panelas, raladores, latas, caixas (...). As grandes figuras do mundo musical carioca, Pixinguinha, Donga, João da Baiana, Heitor dos Prazeres, surgem ainda crianças naquelas rodas onde aprendem as tradições musicais baianas a que depois dariam uma forma nova, carioca.

3.

(...) Simbolizando a prosperidade dos baianos, as festas na casa de Ciata eram frequentadas principalmente pelos 'de origem' e pelos negros que a eles se juntavam, estivadores, artesãos, alguns funcionários públicos, policiais, mulatos e brancos de baixa classe média, gente que progressivamente se aproxima pelo lado do samba e do carnaval, e por 'doutores gente boa' atraídos pelo exotismo das celebrações.

Além da venda dos doces, Ciata passa também a alugar roupas de baiana feitas com requinte para os teatros, e no carnaval para as cocotes chiques saírem nos Democráticos, Tenentes e Fenianos, as associações carnavalescas da pequena classe média carioca. Mesmo homens, gente graúda, iam se vestir de baiana, liberdades que se permitiam os másculos rapazes da época nos festejos momescos. Sua neta Lili Jumbeba conta que Ciata gostava muito do trabalho, era consciente do poder do dinheiro, e da necessidade de viabilizar uma vida que, mesmo devotada ao trabalho, não perdesse sua grandeza.

Com o comércio de roupas, muita gente de Botafogo vai até a casa. Se torna folclórico para alguns assistir a um pagode no reduto da baiana, onde só se entrava através de algum conhecimento. Do mesmo modo, passa a interessar à alta sociedade da época a consulta com os 'feiticeiros' africanos, como eram estereotipados aqueles ligados aos cultos negro-brasileiros, e mesmo a frequência aos candomblés, mais fechados à curiosidade de estranhos. A partir dos conhecimentos do marido e de seu prestígio no meio negro, reconhecido mesmo fora dele, Ciata começa a manter relações com gente do outro lado da cidade, a ponto até de eventualmente contar, segundo a neta Lili,  com 'seis soldados' [enviados por um certo] 'coronel Costa', que ficam garantindo dubiamente a festa africana, provavelmente alguns deles negros, o que dá maior espanto à situação.

Enfim, era necessário aprender a se relacionar de alguma maneira com os brancos, ter aliados, conhecer gente de outras classes, como os jornalistas pioneiros que cobriam nas páginas secundárias dos jornais os acontecimentos das ruas que ganhavam algum destaque nas proximidades do carnaval. Os brancos das elites não eram vistos como inimigos, nem claramente responsabilizados pela escravatura. Dele o negro 'de origem' se opunha por sua diversidade cultural, pelo devotamento à sua vida separada, onde um graúdo podia chegar e ser bem recebido, só para olhar, apesar da sabida ignorância deles das tradições e preceitos.

"Eles gostavam mesmo é de comer" — diziam os negros — quando a comida, anteriormente consagrada, depois de separadas as partes dos orixás, era servida à assistência. Podiam se chegar: era gente de que um negro podia se valer em caso de precisão. Já outros, principalmente brancos não tão diferenciados racial ou socialmente (...), chegavam de outro jeito, acabavam virando gente de casa e até participando do samba. Isso, com seus limites.

Bucy e Manuel

Bibliografia:

Tia Ciata e a Pequena África no Rio de Janeiro. © 1995, Roberto Moura. 2ª edição, revista e ampliada. Rio de Janeiro; Secretaria Municipal de Cultura, Dep. Geral de Doc. e Inf. Cultural, Divisão de Editoração.

Imagens:

Hilária Batista de Almeida, a Tia Ciata. Wikipédia.

Planta da casa de Tia Ciata conforme depoimento dos parentes que lá conviveram. Arquivo Francisco Duarte.

Bucy Moreira e Manuel Macaco, 1972. Wikipédia.