Pequenas Biografias: PIXINGUINHA_o3

Rua do Catete, RJ, 1903

1.

Em 1584, o padre Anchieta faz uma estimativa: existiam já três mil negros apenas na Bahia. Na verdade, o tráfico se inicia logo que uma intenção prática de exploração da terra descoberta é definida e o primeiro navio negreiro atraca em terras brasileiras antes mesmo que se estabeleça o governo geral.

Homens ajuntados, vindos de diversas procedências, irmanados pela cor da pele e pela situação comum, os negros escravizados não perdem seus hábitos coletivistas, penosamente mantidos ao longo dos séculos, mas os vínculos de linhagem e família são inevitavelmente destruídos.

A própria sobrevivência do indivíduo dependia de sua repersonalização, da aceitação relativa das novas regras do jogo, inclusive para que pudesse agir no sentido de modificá-las, ou pelo menos de criar alternativas para si e para os seus, dentro das possibilidades existentes.

O negro passa a ser fundamental para a economia da colônia e a Abolição só será assinada quase 400 anos depois, quando pressões internacionais e internas tornarem o regime insustentável.

2.

No final do século XIX, o crescimento urbano-industrial e as migrações inter-regionais provocadas pela Abolição acarretariam uma reconfiguração populacional acelerada.

Centenas de negros libertos vindos de todas as partes aportam no Rio de Janeiro, fundando-se praticamente uma pequena diáspora na capital da República.

Migrantes europeus vêm para a indústria, migrantes internos chegam ainda estropiados pela seca, soldados das lutas de Canudos inventam suas casas no morro da Providência.

A cidade, que se desenvolvera até então de forma não planejada, é objeto das primeiras intervenções urbanísticas e dotada de nova infraestrutura de serviços urbanos e transporte.

3.

Construir a avenida Central custa a demolição de cerca de setecentos prédios ocupados pela população trabalhadora, por casas de artífices e pelo pequeno comércio. A Saúde Pública bota abaixo seiscentas outras habitações coletivas que alojavam mais de 14 mil pessoas, afastando do Centro e da zona do porto a gente pequena vinda do Império, assim como negros, nordestinos e europeus recém-chegados à cidade.

A falta de perspectiva da República do que fazer com as grandes massas populares que o país herdava da Colônia, associada ao racismo de suas elites e à demanda crescente de mão-de-obra barata para as fábricas e para os serviços domésticos das famílias burguesas, faz com que a sociedade 'pragmaticamente' aceite a popularização da miséria em termos ainda inéditos no país e que a prefeitura assista impassível à formação das então nascentes favelas próximas ao Centro e dos guetos na Zona Norte, cindindo a cidade entre partes irregulares: os bairros propriamente ditos e zonas subalternas e marginais.

São Conrado, RJ, 1920

4.

Esta fase de transição faz com que indivíduos de diversas experiências sociais, raças e culturas se encontrem nas filas da estiva ou nos corredores dos grandes cortiços, gestando uma cultura popular carioca que, embora quase omitida pelos meios de informação da época, se mostraria fundamental para o nascimento de uma personalidade moderna do Rio de Janeiro.

Surgem novas sínteses culturais — formas de organização de grupos, inicialmente heterogêneos e disformes, gêneros musicais, dramáticos, festeiros, processionais, esportivos — como novas paixões populares. Em sua plasticidade, essa cultura incorporaria elementos de diversos códigos, sobre os quais as tradições dos negros teriam liderança, e dariam coesão e coerência. Tradições redefinidas por uma gente que realmente funda uma [espécie de ambiente democrático] propiciado pela marginalização, pela miséria e pela tortuosa experiência nacional com a proletarização.

5.

A complexidade crescente da cidade do Rio de Janeiro e a diversificação social de sua população geraria nos últimos anos do século um público novo, a quem não mais satisfaria, em sua ânsia de divertimentos, os dias do entrudo e as festas religiosas ao longo do ano cristão oferecidas pelas paróquias. Esses anos assistiriam à abertura de uma infinidade de teatros de revista e vaudevilles, de cafés-concertos, cafés-dançantes, chopes-berrantes e cinemas para o entretenimento, principalmente, das novas classes médias urbanas e das elites, em suas noites e fins de semana afastadas da rotina das repartições e do comércio. Começa a se configurar uma indústria de diversões, de início comercializando produtos estrangeiros, mas progressivamente absorvendo artistas e gêneros musicais do povo antes circunscritos a grupos particulares.

6.

Do encontro do trabalho de artistas vindos com as companhias estrangeiras ou reproduzido em pauta, disco e filme, com a experiência musical brasileira, de negros, indígenas e portugueses, surgiriam as novas sínteses musicais da modernidade carioca. No entanto, paralelamente a este mundo aberto, oferecido e anunciado de espetáculos, subsiste e dialoga um Rio de Janeiro subalterno com ritmos e interesses próprios, que se reorganiza e redefine nesse novo movimento da sociedade carioca. João da Baiana, um dos talentos que aparecem naquele momento, fala das tradições festeiras e musicais que seriam uma das fontes primordiais dessa 'cultura popular carioca' que se montaria depois a partir do impulso e dos interesses da indústria cultural, se apropriando do que era antes desvalorizado e mesmo perseguido:

"As nossas festas duravam dias, com comida e bebida, samba e batucada. A festa era feita em dias especiais, para comemorar algum acontecimento, mas também para reunir os moços e o povo 'de origem'. A festa era assim: baile na sala de visitas, samba de partido alto nos fundos da casa e batucada no terreiro. A festa era de preto, mas branco também ia lá se divertir. No samba só entravam os bons no sapateado, só a 'elite'. Quem ia pro samba, já sabia que era da nata. Naquele tempo eu era carpina (carpinteiro). Chegava do serviço em casa e dizia: mãe, vou pra casa da Tia Ciata. A mãe já sabia que não precisava se preocupar, pois lá tinha de tudo e a gente ficava lá morando, dias e dias, se divertindo. Eu sempre fui responsável pelo ritmo, fui pandeirista. Participei de vários conjuntos, mas era apenas para me divertir. Naquele tempo, não se ganhava dinheiro com samba. Ele era muito mal visto. Assim mesmo, às vezes nós éramos convidados para tocar na casa de algum figurão. Eu me lembro que em certa ocasião, o conjunto de que eu participava foi convidado para tocar no palacete do senador Pinheiro Machado, lá no morro da Graça. Quando o conjunto chegou, o senador foi logo perguntando aos meus colegas: cadê o menino? O menino era eu. Aí meus companheiros contaram ao senador que a polícia tinha tomado e quebrado o meu pandeiro, lá na Penha. O senador mandou que eu passasse no Senado no outro dia. Passei e ganhei um pandeiro novo, com dedicatória, peça que tenho até hoje".

Rio de Janeiro, 1870

Bibliografia:

Tia Ciata e a Pequena África no Rio de Janeiro. © 1995, Roberto Moura. 2ª edição, revista e ampliada. Rio de Janeiro, RJ. Secretaria Municipal de Cultura, Dep. Geral de Doc. e Inf. Cultural, Divisão de Editoração.

Imagens:

Augusto Malta. Rua do Catete: aspecto parcial em direção a Botafogo e vista da esquina com Largo do Machado. 1903. Rio de Janeiro, RJ. Coleção Família Passos. Museu da República.

Marc Ferrez. São Conrado, 1920 circa. Brasil, Rio de Janeiro, RJ. Acervo IMS.

Georges Leuzinger. Porto do Livramento, Centro, 1870 circa. Brasil, Rio de Janeiro, RJ. Acervo IMS.