Leitura Complementar: NOEL ROSA_11 / O Dom de Saber Iludir
Capítulo 42 O DOM DE SABER ILUDIR
A sala não é das maiores, mas tem aquela tal 'atmosfera montmartroise' de que falam os cronistas da Lapa. Pelo menos Max Darly se esforça para que assim seja, adotando gestos e mesuras de um cabaretier da Place Pigalle, arriscando até um pouco de francês ao recepcionar os habitués mais respeitáveis: "S'il vous plait, monsieur"... Como se a dizer consigo mesmo: "Já que os boêmios da Lapa não podem ir a Paris, por que não trazer um pouco de Paris aos boêmios da Lapa?". O mesmo pensamento, aliás, de Helena, que cuida das moças de modo tão parisiense quanto sua brasilidade permite.
A luz tímida entre o vermelho e o azul, as paredes em tons escuros, as cadeiras forradas de veludo, tudo procura 'afrancesar' o ambiente. Inclusive o som que vem da orquestra, o acordeom imprimindo a valsinhas e foxtrotes um acento tipicamente francês ainda que seus autores sejam músicos que jamais atravessaram as fronteiras da Lapa. É assim o lugar, pobre réplica de Montmartre. Pois tão logo entram, se sentam, pedem a primeira bebida e lançam um olhar à volta, por onde as mulheres circulam, tão logo os fregueses deixem que a primeira impressão dê lugar a um exame mais atento, serão forçados a concluir que o Royal Pigalle, por mais que Max, Helena, Gus Brown e outros pensem que não, no fundo não passa de um cabaré da Lapa.
Ceci, mais que os donos da casa, sabe que não há muita diferença entre um cabaré e outro, o Apollo dos primeiros tempos, o Royal Pigalle de agora. As luzes coloridas, a decoração fingidamente belle époque, os maneirismos de Max, a estudada finesse de Helena, nada disso a impressiona como antes. Talvez comece a se sentir cansada, os dezoito anos feitos há pouco pesando-lhe como se fossem trinta. Já é indisfarçável o tédio com que sente o champanhe borbulhar-lhe no rosto e ouve, noite após noite, os repetitivos galanteios que os fregueses sussurram-lhe ao ouvido. Como tudo é diferente de dois anos atrás! A menina que então se deixara seduzir pelos encantos da noite (e que divisara entre as luzes fracas de um cabaré os contornos vagos do que lhe parecia uma nova vida, repleta de emoções) é hoje uma mulher que se anima de outros desejos. O maior deles, rever o irmão, reconciliar-se com o pai, voltar para casa. O sonho em que começou a mergulhar, naquela "festa de São João", durou pouco. O brilho dos cabarés é fugaz e enganoso como o de uma estrela cadente.
Seja como for, é aqui, numa das noites de maior movimento do Royal Pigalle — as pessoas transitando por entre as mesas, dois ou três pares rodopiando na pista de dança, Max saudando clientes em francês, Helena perto do bar — que Ceci tem a atenção atraída por um moço alto, magro, elegante, simpático, a quem conhece de vista e de nome. Tem uns vinte e poucos anos e, dizem, enorme talento para escrever peças de teatro, algumas já encenadas com sucesso na Praça Tiradentes. Os dois se olham. Ele não fica indiferente à figura mignon, graciosa, da morena de poucas palavras e muitos sorrisos que o fita à distância. Aproxima-se:
— Eu me chamo Mário Lago.
Ao contrário dos demais fregueses que a tratam com extrema insensibilidade e até com autoritarismo (os homens que frequentam a Lapa têm a arrogância dos compradores, plenamente convencidos de que uma garrafa de champanhe francês lhes dá direito a tudo, inclusive a tratar mal as mulheres que lhes vendem atenções), Mário Lago chega-se a Ceci com as maneiras de um cavalheiro. E é justamente esse cavalheirismo, esse respeito tão raro por aqui, o que mais a impressiona.
— Saio lá pelas quatro da manhã.
— Não, não quero ver você na hora da saída. Quando é sua folga?
— Terça-feira.
— Pois vou buscá-la em casa para irmos ao teatro.
— Ao teatro?
— Sim.
— E você vai entrar comigo, vai se sentar ao meu lado?
— Claro.
Surpresa e encantamento se misturam no rosto bonito de Ceci. Tudo que ela sabe de teatro são aqueles festivais caipiras de Jararaca & Ratinho, espetáculos musicais com gente de rádio, coisas assim. Nenhum freguês lhe fez antes qualquer convite além do óbvio. Mesmo Noel Rosa jamais a chamou para um cinema, um programa mais divertido do que os jantares de madrugada, as festas ligadas a seus compromissos profissionais. Mário é diferente, atencioso, de trato cortês e carinhoso como só as namoradas de fé inspiram. Inteligente, também. Sabe poesias de cor, fala de coisas que nunca lhe passaram pela cabeça, assuntos sérios, complicados, adornados de palavras difíceis. E como conhece gente famosa!
— Ceci, quero te apresentar o Procópio Ferreira.
— O ator?
Procópio sorri. Está todas as noites no Teatro Regina, com Paulo Gracindo, Delorges Caminha, Elza Gomes, Restier Júnior, Abel Pera, o grande elenco de Tabu, comédia de Svoboda. Não gostaria de ir? Ceci não vai querer perder a oportunidade de ver todos aqueles artistas no palco e, depois, convidada a prolongar a noite de folga num jantar, conhecê-los pessoalmente. Mário promete apresentá-la a eles. E também a outros grandes nomes do teatro, autores, atores, diretores, gente interessante, culta, múltipla. Ficar confinada à Lapa, trabalhar de noite no cabaré e mal sair de dia, não é vida para ninguém. Mário diz isso a Ceci em tom afetuoso e não de reprimenda. Gente moça — e ela acaba de fazer dezoito anos — tem de se divertir, conhecer pessoas, aprender com elas. Ceci fica fascinada.
Seus programas, a partir do momento em que conhece Mário na quase penumbra do Royal Pigalle, passam a ser outros, teatro, cinema, ceias em restaurantes de primeira, a mesa sempre cheia de homens e mulheres do meio artístico, Procópio, Cordélia, Rodolfo Mayer, Modesto de Souza, Oswaldo Lousada. E também Walter Pinto, filho do produtor Manuel Pinto, ele próprio produtor em potencial, jurando que um dia ainda vai montar na Praça Tiradentes revistas ainda mais luxuosas que as do pai. É realmente múltipla essa gente de teatro. Engraçada como Grande Otelo, cujas caretas, os beiços tomando a forma de uma flor, matam Ceci de rir, ou altiva como Custódio Mesquita, cuja personalidade, pelo contrário, a assusta.
Grande Otelo, aquele mesmo que veio de Minas sonhando com o teatro, já não é um ator tão desconhecido, desses que vivem correndo coxia cavando pontas. Mas ainda tem os bolsos vazios. Permanentemente. Ceci gosta muito dele, costuma chamá-lo para dormir em seu quarto sempre que o sabe sem destino e sem teto — o que não é raro. Quando encontra Noel, Grande Otelo faz questão de esclarecer:
— Pernoite respeitoso. Na mesma cama, mas pés com cabeças.
Verdade. Ceci e ele são fraternos amigos. Um dia, sempre abusado depois do quarto trago, o crioulinho de um metro e cinquenta e poucos chama para briga um cidadão muito mais forte com quem se desentendeu no Primor. O outro avança para ele disposto a trucidá-lo! Mas, no meio do caminho, é atingido na cabeça por uma garrafada e cai. Só depois Grande Otelo vai saber que quem golpeou o adversário foi Ceci, salvando-o do pior. Naturalmente, também encorajada por um quarto gole.
Com Custódio Mesquita, não há dessas proximidades.
— Ele é meu parceiro — diz Mário.
Parceiro em Menina, Eu Sei de Uma Coisa, marchinha despretensiosa que os dois fizeram para o carnaval passado, gravada sem sucesso por Mário Reis. Parceiro, também, em peças de teatro que os dois ainda vão escrever a quatro mãos, Custódio referindo-se a elas como "minhas peças" e deixando para Mário e todos os outros eventuais colaboradores os papéis secundários dos espetáculos onde o astro terá de ser sempre ele, Custódio.
— Não sabia que você também fazia música — diz Ceci surpreendendo-se mais uma vez com os talentos de Mário.
Fazer, propriamente, não faz. Não ainda. Um dia Mário Lago ainda porá sua veia poética a serviço da música popular, criando algumas letras excelentes para sambas, valsas, foxes, canções, com melodias inspiradas de Custódio, Benedito Lacerda, Roberto Martins, Ataulpho Alves e suas próprias. Mas, por ora, seu negócio é mesmo o teatro, aquela marchinha não passando de uma tentativa, quase brincadeira, a que foi induzido por Custódio.
Ceci passa a viver, nos últimos meses de 1936, seus melhores tempos desde que chegou ao Rio. E não apenas por encontrar em Mário Lago o amante gentil e atencioso que a leva a teatros e ceias, passeios e reuniões agradáveis, jamais limitando seus encontros às mesas do cabaré ou às quatro paredes de um quarto de sobrado. Isso também conta. E muito. Mas o que de fato a sensibiliza é a forma pela qual ele sempre lhe abre espaços em sua vida, fazendo-a participar de tudo, atribuindo-lhe uma importância que já supunha não ter, dividindo com ela amigos, hábitos, ideias, coisas ligadas ao trabalho. O que faz Noel Rosa quando não está aqui? Por onde andará durante seus costumeiros sumiços? Ceci não sabe. Mário é homem aparentemente sem mistérios. Nem mesmo de suas posições políticas faz segredo.
— Você não tem medo?
— De quê?
— Ouvi dizer que muita gente foi morta ou presa no ano passado.
Mário não tem medo. Ele mesmo foi preso durante as perseguições ao pessoal da esquerda. E já havia sido preso antes, em 1932, quando andou metido em greve de operários, sendo obrigado a fugir para o Uruguai. É um dos poucos, nesse meio de teatro e música, que parecem se importar com política. Os amigos às vezes se preocupam ao ouvi-lo chamar Getúlio Vargas de caudilho. E mais ainda ao vê-lo erguer-se inflamado, à mesa de um restaurante, e discursar, para quem quiser ouvir, sobre a exploração do homem pelo homem, a luta do proletariado, as injustiças sociais. Tirando ele e Alberto Ribeiro, praticamente ninguém por aqui se interessa por política. Podem contar à meia-voz uma anedota sobre Getúlio. Podem fazer músicas de carnaval gozando veladamente os homens da política. Podem até, os mais sérios, comentar a Guerra Civil que acaba de eclodir na Espanha. Mas a revolta dos comunistas, aqui mesmo, no ano passado, é assunto proibido. Só Mário Lago parece lembrar-se dela:
— Os inocentes estão presos. Os criminosos, no poder!
Ceci fica impressionadíssima com tal arrebatamento. E se sente ainda mais importante ao saber-se incluída entre as pessoas nas quais Mário confia o bastante para dizer-lhes o que pensa. Na verdade, ele a inclui em quase tudo, nos debates políticos, sérios, ruidosos, e nas pequenas molecagens que seu humor eventualmente concebe para gozar um amigo, um companheiro de teatro. Ceci será sua cúmplice numa dessas brincadeiras. E a vítima, Oswaldo Sampaio, cenógrafo da companhia de Procópio. A ideia tem um pouco de Mário, um pouco de Modesto de Souza. Sendo Oswaldo um homem solitário, fechadão, sempre trancado no seu quarto de hotel na Avenida Gomes Freyre, Modesto e Mário inventam uma admiradora para preencher, senão a vida, ao menos a imaginação do amigo. Uma admiradora que teria se apaixonado pelos cenários de Oswaldo e graças a isso passado a escrever-lhe cartas de amor. Cartas de uma mulher sensível para um grande artista. Mário capricha nos textos e pede a Ceci que, com sua caligrafia bonita, passe-os a limpo. Tem início então uma correspondência que mudará por algum tempo a vida de Oswaldo Sampaio, ele escrevendo cartas ainda mais apaixonadas à admiradora. O endereço? Também isso terá a cumplicidade de Ceci, que concorda em emprestar o seu próprio. Mário e Modesto, a cada nova carta de Oswaldo, dobram-se de rir. Até que exageram na brincadeira fazendo com que a admiradora desconhecida proponha ao cenógrafo um encontro em frente ao relógio da Glória, a uma da manhã. Um encontro ao qual, evidentemente, só Oswaldo irá, tendo quase um acesso de loucura quando, de um carro estacionado mais adiante, Mário, Modesto e Restier Júnior aplicam-lhe impiedosa vaia.
— Foram vocês, seus filhos da puta! Seus malditos filhos da puta!
Sim, de todas as formas Ceci participa da vida de Mário. Não há entre eles ao contrário do que é comum nos casos de amor nascidos na Lapa — qualquer relacionamento que envolva dinheiro. Fazendo questão de representar, impecavelmente, seu papel de amant de coeur, Mário não presta nem recebe favores materiais. No máximo, ajudará Ceci a restabelecer-se de assustadora gripe.
— Gripe? — especula apreensivo o médico que Mário chama para examiná-la. Esta moça tem mais que gripe. Vamos tirar uma radiografia.
Estava certo o médico: mais que gripe, uma afecção pulmonar, uma 'sombra' como se diz. Um mal que se pode tornar mais sério se não for tratado logo. É hora de Ceci se cuidar, de ficar algum tempo sem aparecer no Royal Pigalle, repousando, comendo bem, trocando os remédios caseiros recomendados pelas colegas de trabalho, o peitoral de mel, guaco e agrião, por algo mais forte e eficaz. Pérolas Tonka, por exemplo, que Mário vai comprar depressa na farmácia da esquina.
Noel não está por perto quando Ceci adoece. Como não estava por perto naquela noite em que Mário entrou na vida dela:
— Não, não quero ver você na hora da saída...
Em parte pelas repetidas brigas que acabaram amornando sua convivência com Ceci, em parte por seus próprios problemas de saúde, ele anda sumido da Lapa. E foi justamente no vazio dessa ausência que Mário se instalou. Edgar Graça Mello, paciente, incansável, obstinado médico e amigo, recomendou-lhe ficar em casa por alguns dias, depois que dona Martha o chamou ao chalé, assustada com a tosse, a falta de ar, a febre que mais uma vez derrubam o filho.
— Por favor, Noel, tome juízo e trate de se cuidar.
Conselho inútil, sabe o médico. Mas nem por isso deixa de repeti-lo, sempre acompanhando-o de receitas e instruções que Noel porá de lado na primeira oportunidade. Passada a febre — a temperatura sendo a determinante de seu comportamento — lá estará ele novamente na rua, dando uma espiada no Ponto de 100 Réis, procurando velhos amigos e até se sentando despreocupado a uma das mesas do Rio Club.
— Martinez, que tal uma cerveja?
Anselmo Seixas, um dos empregados do bicheiro Lourenço, o vê de longe. A garrafa de Cascatinha, bem gelada, ali posta pelo Martinez, chama sua atenção. Não lhe tinham dito que Noel estava doente, com febre, de cama? Então como é que agora se enchafurda numa cerveja? Aproxima-se.
— Me faz companhia, Anselmo?
— Obrigado, Noel. Mas você não estava de cama?
— Estava, mas agora estou mais forte que um leão. Anselmo pergunta-lhe se a cerveja gelada não fará mal aos pulmões, se não poderá provocar uma recaída, trazer a tosse de volta.
— Pelo contrário.
Diante da estranheza de Anselmo, Noel expõe sua teoria:
— Quanto mais gelada a cerveja, melhor. O gelo, não sei se você sabe, paralisa os micróbios. Congelados, os bichinhos sossegam. E não me fazem tossir. Como vê, cerveja é um santo remédio.
E, virando-se para o Martinez, ordena:
— Doutor, mais um xarope pra tosse. Bem gelado!
Por esses dias, o máximo que pode fazer para não contrariar Edgar é dormir cedo, não ir à cidade, evitar certos lugares, principalmente a Lapa. Fica pelo bairro, visita velhos amigos, quando muito dá uma esticada até o barraco de Cartola, em Mangueira. Mas nada de saídas muito prolongadas. Mesmo porque às vezes o fôlego lhe falta. Quanto a largar os botequins do bairro, a cerveja, isso não pode prometer a Edgar, que agora, quando o encontra entre garrafas vazias nos cafés do Ponto de 100 Réis, já não se chega como antes. Guarda sua zanga de médico e amigo, os conselhos, tudo que tem a dizer. Prefere passar ao largo, cumprimentar Noel com um aceno, seguir em frente.
A teoria do congelamento dos micróbios não é a única que expõe entre uma Cascatinha e outra a companheiros que acham graça em tudo o que diz, não percebendo o quanto de irônico e sinistro há em tais histórias. Alguns têm consciência de seu estado. Como Floriano Belham:
— Não acha que está se matando, Noel?
— Ora, Floriano... Senta e toma uma cerveja por minha conta.
Ou como Nássara, que ouve outra de suas teorias ao encontrá-lo, já de manhã, a intercalar goles de cerveja com outros de conhaque.
— Por que não come alguma coisa, Noel? Beber assim, cerveja e conhaque, de estômago vazio, não faz bem. Você tem de se alimentar.
— E o que pensa que estou fazendo?
É então que se põe a discorrer sobre o alto valor nutritivo da cerveja, o poder sedativo do lúpulo, a riqueza da cevada que é até usada para engordar gado, os glicídios e as enzimas contidos no malte. Pensando bem, uma cerveja vale por um almoço.
— Está certo — conforma-se Nássara.
— Mas e o conhaque?
— Bem, o conhaque é porque não gosto de comer sem beber.
Noel não pode ou talvez não queira ver o que lhe vai por dentro, os dois pulmões castiga-os por um mal que se alastra mais rápido do que seus companheiros de botequim imaginam. A temperatura é de fato o que determina seu comportamento diante da doença. Se está com febre, deixa-se frear um pouco, recolhe-se, concorda em tomar os remédios. Se a febre se vai, é hora de voltar a viver sua vida. Quer dizer, reconciliar-se com as madrugadas, rever a Lapa, Ceci.
— Como estão as coisas?
— Na mesma. Uma vez mais ela prefere não dizer a verdade. Para quê? Recomeçar as discussões, tornar ainda mais penoso o diálogo entre eles? Talvez Noel ainda não saiba de Mário Lago. Melhor, portanto, que outros lhe contem. E mesmo que já saiba resta a possibilidade de pensar que o outro é apenas mais um de seus tantos namorados ocasionais, daqueles a que ela, 'por gentileza', não sabe dizer não. Namorados que sempre fizeram Noel crispar-se de ciúme, mas só por pouco, até que a voz suave de Ceci lhe viesse segredar:
— Gostar, mesmo, só gosto de você...
Ceci espera que ele custe a perceber que Mário não é um namorado ocasional. Tenta adiar, tanto quanto possível, o impensável momento em que Noel descobrirá que não é só dele que ela gosta. Frágil esperança, ingênua tentativa. Então não se lembra que Noel a conhece pelo olhar, pelo modo de dizer as coisas, pelo tom de voz?
— Você ainda não aprendeu a mentir... — disse ele tantas vezes.
Algo mais, porém, a perturba nesse dividir-se entre Noel e Mário. Mais que a antevisão de um possível desenlace, ela, Noel, todos sofrendo, o que a incomoda, de verdade, é a dúvida. Antes, Noel sem aparecer na Lapa, Mário sempre presente, sentia-se mais segura de seus sentimentos, feliz como nunca, tudo muito simples. Agora, Noel de volta, ela alternando entre os dois seus começos de tarde ou fins de noite, a situação muda, tudo muito complicado. Sente-se repartida, fracionada, feita em pedaços. Por quê? Qual a razão de tanta dúvida, de não poder se decidir logo entre os dois, sempre pensando em um quando está nos braços do outro? Uma dúvida tão grande, tão angustiante, que mesmo daqui a muitos anos, os amores de hoje já convertidos em longínquas lembranças, ainda se sentirá presa dessas interrogações.
Seus pensamentos voam. Flutuam incertos entre o amor que acaba de chegar e o amor que ainda não se foi. Decolam de um, pousam em outro, invertem tudo mais adiante. Vão de um Noel fugidio, volta e meia batendo asas, amando-a hoje, desertando-a amanhã, para um Mário cada vez mais aqui. Oscilam entre um Noel inatingível, não só por ser casado (o que já seria o bastante para eliminá-lo como provável salvo-conduto à sonhada reconciliação com o pai), mas também por não querer se prender a ninguém, e um Mário solteiro, livre, dizendo-lhe palavras tão gentis que alimentam nela a esperança de que a tire daqui para fazê-la sua mulher. A ideia do casamento não a abandona. Em sua lógica simplista, no dia em que se tornar uma 'senhora casada', o casamento como atestado de respeitabilidade, o pai a receberá de volta. E por que não como 'senhora Mário Lago'? Jamais falará a ele sobre esse projeto, quase sonho, mas lá no íntimo espera que se realize.
Noel nunca se importou muito com sua situação familiar. Mário, ao contrário, vive a perguntar-lhe pelo pai, pela madrasta, pelos parentes menos ou mais chegados. Não fosse ele, não teria se reaproximado do irmão, Mário indo descobrir Didito para que ficassem mais perto um do outro e assim começassem a vencer juntos as difíceis etapas da viagem que poderá levá-la de volta a Friburgo. O irmão aceita-lhe a vida. E promete, sempre que estiver com o pai, minar-lhe a resistência para que o velho reabra à filha o coração endurecido pelo desgosto. Mas Noel tem algo que Ceci não sabe definir, uma certa candura, um ar desprotegido que se converte em estranha força que a envolve. Nada que possa explicar, é verdade, mas alguma coisa que a prende tanto quanto a Mário. Este é bem-apessoado, veste-se com capricho, tem mesmo o porte de um artista de cinema. Noel é o oposto, feio, descuidado com as roupas. No entanto, de tal forma ela o vê que não raro surpreende-se a dizer para si mesma: "É um homem bonito..." Nestes momentos, não pensa no queixo, na boca deformada que se enfeia ainda mais nas poucas vezes em que Noel mastiga (ultimamente, então, ele parece viver em constante jejum). Pensa apenas nos olhos, na metade do rosto poupada pelo fórceps do Dr. Heleno Brandão. Mário também foi extraído a ferro, mas Deus tem lá os seus caprichos na hora de traçar o destino das pessoas, Mário tão bonito, Noel tão dolorosamente marcado desde o dia em que veio ao mundo. Terá pena dele? Não, Ceci o ama. Da mesma forma que está amando Mário. Ou um pouco diferente. Os pensamentos voam. Mas de onde para onde? Os dois são bons, a tratam bem, mas se Mário a distingue com atenções só concedidas a uma verdadeira dama, Noel talvez a compreenda melhor. Por exemplo, naquelas terríveis noites em que, por saudade de casa ou lá o que seja, Ceci mergulha com desespero no champanhe. E não só no champanhe, mas no conhaque, no pernô, no que lhe puserem nas mãos. Não é comum embriagar-se, mas quando acontece, o álcool transfigurando-a, nada ou ninguém consegue aquietá-la: xinga, quebra copos, atira garrafas na cabeça de valentões como aquele que quis trucidar Grande Otelo. Normalmente tão doce, tão incapaz de altear a voz, passa a provocar pessoas, a ameaçar agressões que só não se consumam porque, pequenina, um "pingo d'água" como costuma dizer Mário, bastam dois braços fortes para conter-lhe o ímpeto. Nessas horas, Ceci deixa de ser Ceci. E é difícil gostar dela. Mário mesmo é um dos que não lhe toleram os escândalos ("Esta mulher, quando bebe, é uma chave de cadeia...", resmunga). Noel nada diz. No fundo, também ele, quando bebe, pode virar chave de cadeia. Mário é elegante, educado, exigente na hora de escolher os amigos, tudo gente culta, de teatro, aprumada como ele. Procópio Ferreira, que a trata com a maior deferência ("A senhora aceita mais um pouco de vinho?"), ou Custódio Mesquita, que se senta à mesma mesa em que janta com Mário. Amigos selecionados que Ceci acredita conferirem a ela certa distinção. Pois as colegas do cabaré, como a belíssima Thereza, não vivem pedindo-lhe que use sua 'influência' junto a Mário Lago para que lhe consiga um encontro com Custódio? ("Ele é um encanto, Ceci, faça isso por mim...") Já os amigos de Noel são sempre os boêmios da Lapa, malandros, bêbados, mendigos, compositores desconhecidos que saem de suas tocas na esperança de que os ajude a 'encaixar' um samba no repertório de algum cantor famoso, samba que talvez o próprio Noel terá de completar (se não acontecer de fazê-lo todo, música, letra, primeira e segunda partes, renunciando desprendidamente à autoria). Quantas vezes Ceci se viu obrigada a partilhar sua mesa com toda sorte de marias-fumaça e joões-ninguém que compõem o círculo de amizades de Noel? Ela ainda dá graças a Deus quando, a essa roda de pobres coitados, vêm-se juntar um Vadico, um Sílvio Caldas, gente educada que costuma lançar algumas luzes nas águas turvas em que Noel divide seu tempo com os habitantes de uma Lapa marginal. Mas também isso — os pensamentos sempre voando, confundindo Ceci, impedindo-a de se decidir entre os dois amantes — não é necessariamente um trunfo de Mário contra Noel. Mesmo em sua lógica simplista, em sua maneira quase sempre superficial de olhar a vida, uma contradição não lhe escapa: é Mário quem fala na igualdade entre os homens, no quanto é injusta esta sociedade que deixa desamparados tantos pobres, tantos inocentes, conclamando todos a lutarem para que a injustiça tenha fim; no entanto, seus amigos são todos da alta, bem-vestidos, dinheiro no bolso, frequentadores de lugares chiques, que não parecem nada interessados em acabar com a pobreza. Ceci nunca viu Mário sentar-se com um daqueles mendigos que tantas vezes aliviaram o estômago com pratos de sopa pagos por Noel ("Vem cá, come com a gente...", costuma dizer fazendo o miserável sentar-se ao seu lado, em vez de mandá-lo embora, a consciência tranquilizada por dois ou três tostões depositados no fundo de um velho chapéu). Mário teoriza sobre o quanto é preciso fazer pelos desvalidos. É sincero, acredita nisso. Contudo, é Noel quem exerce na prática, todas as noites, em todos os lugares, os verdadeiros gestos de igualdade.
Mas para que todas essas comparações? De que adianta colocar os dois amantes nos pratos de uma balança que não lhe dirá nada além do que já sabe? Ceci ama os dois. E ainda que a cada dia se afaste mais de um para se chegar ao outro, os pensamentos continuarão voando. E ela será, para sempre, uma mulher permanentemente em busca de respostas.
Mas tão transparente aos olhos de Noel que tais dúvidas não tardam a ser intuídas por ele. Não é necessário que lhe conte nada, que se perca em explicações ou tenha de passar pelo constrangimento de dizer que tem outro amor. Como, quando e por quem Noel vai saber de Mário é impossível precisar. As mesas dos cabarés da Lapa não guardam segredos, todos sabem de tudo que se passa à sua volta. É inevitável que, animado por goles de vermute sorvidos numa madrugada qualquer, alguém lhe diga — talvez em tom de intriga, fato comum nessas rodas de botequim — da nova aventura de Ceci. Afinal, já aconteceu outras vezes, incômodos falastrões vindo lhe perguntar, cobertos de malícia: "Sabe com quem ela saiu na noite passada?". A história teria de se repetir. Mas a verdade, mesmo, a importância que esse novo caso tem na vida dela, Noel há de saber olhando-a nos olhos.
Ele e Mário Lago só se conhecem de vista. Embora tenham quase a mesma idade (Noel é mais velho um ano menos quinze dias), parecem-se bastante separados no tempo. Pelo menos em termos de boêmia, Noel já se pode considerar um veterano, um velho frequentador do Mangue, do Estácio, dos botequins do Centro, desses cabarés que se dispõem ao longo da Mem de Sá e da Visconde de Maranguape. E só agora Mário começa a aparecer pela Lapa. Encontraram-se algumas vezes no Nice, outras em reuniões com amigos comuns, outras mais aqui e ali. Trocaram meia dúzia de palavras, nada mais. Hoje, que os dois sabem existir uma mulher entre eles, tornam-se ainda mais estranhos, olhando-se à distância, cismados. Jamais serão amigos. Nem poderiam. A impedi-los, Ceci e o tempo. Ceci que não sabe o que quer, tempo cada vez menos generoso para com um Noel doente e cansado.
— Mas ainda gosto muito de você, Noel.
O silêncio como resposta é o suficiente para que Ceci saiba que ele não acredita. Sempre foi assim, as queixas, as zangas fingidas, nas horas em que Noel não vê em seus erros mais do que travessuras de criança, perfeitamente perdoáveis, e o silêncio, um silêncio frio, cortante, se algo que ela faça o machuque de verdade.
É durante esse período difícil para todos — ele, Ceci, Mário — que Noel rabisca os primeiros versos de um novo samba. Nada mais do que rabiscos sobre os quais ajusta um começo de melodia, sementes que guardará até que tenha forças para fazê-las brotar:
Versos interrogativos para uma interrogativa Ceci:
Vadico está todas as noites no Lido com seu piano, o sax-tenor de Quincas, o sax-alto de Lupercílio Lyra, o pistom de Gumercindo Mello, o contrabaixo de Lilico e a bateria de Busquet. Um conjunto de formação jazzística que toca choros e sambas porque os dançarinos assim o exigem, mas que se sente bem mais à vontade num fox dolente, melodioso, sobre cujas frases Vadico improvisa harmonias, enquanto Quincas e Lupercílio perdem-se em complicados solos. Terminado o trabalho, o pianista costuma passar pela Lapa para um trago com algum amigo que esteja vagando por ali. Amigos como Noel Rosa. Eles tanto podem se encontrar no Indígena como no Leitão, no 1900 como no Siri, mas é geralmente no Café Club que se reúnem para falar de samba. Porque Vadico, se é jazzístico no Lido, nem se atreve a pensar em música americana quando está com o parceiro. Nesses momentos, o assunto é mesmo samba. E samba triste, pois nada além de tristeza sabe cantar Noel neste crepúsculo de 1936.
É com Vadico que ele escreve mais um inspirado em Ceci, a mentira, a traição colorindo tudo, os carinhos, as frases sem sentido ditas por ela ao seu ouvido:
O samba, Quantos Beijos!, reflete o estado de espírito de Noel nos últimos meses do ano. O inspirado Vadico é seu parceiro ideal nestes dias. Ideal e derradeiro, já que Noel não se ligará a nenhum outro a partir de agora. Vadico conhece Ceci, tem acompanhado de perto o romance dela com Noel, sabe bem do que vai no coração do amigo. Talvez por isso esteja tão afinado com a tristeza de seus versos.
Mais uma vez Noel se afasta da Lapa, escapulindo sorrateiramente de uma arena na qual não quer estar. Jamais acreditou nas lutas de amor, em batalhas que de uma forma ou de outra são sempre perdidas. Daqui por diante, enquanto forças tiver, será visto em muitos lugares, Vila Isabel, Maracanã, Mangue, Estácio, mas não na Lapa. Nem no Nice, do qual Mário Lago virou frequentador, desses de dois expedientes, de tarde e de noite sentado à mesma mesa.
Pode ser visto, também, nos corredores das emissoras de rádio. Já não pertence a nenhum cast em especial, suas atividades reduzidas a esporádicas apresentações na Educadora, na Mayrink Veiga ou na Club do Brasil. Nunca foi exclusivo de nenhuma delas, quanto mais agora. Por isso os ouvintes bem podem ser surpreendidos ao sintonizarem a Cruzeiro do Sul ou a Transmissora e lá captarem a voz miúda, frágil, de Noel Rosa em um de seus sambas. Canta numa ou noutra em troca de irrisórios cachês. Ou de convites feitos em nome da 'velha amizade'.
Nessas andanças pelos corredores das rádios, constata que há muita gente nova surgindo na música popular. E gente boa. Já não são apenas Francisco Alves, Sílvio Caldas, Mário Reis, Gastão Formenti, Vicente Celestino, João Petra de Barros os únicos cartazes do microfone. Nem as irmãs Miranda, Elisinha Coelho, Aracy e Marília. Começa-se a fazer uma renovação por toda parte. Orlando Silva, que até bem pouco não passava de um trocador de ônibus transformado em cantor pelas mãos de Chico Alves, está prestes a alçar voo rumo às estrelas. Outros começam a conquistar lugar nas rádios e nas gravadoras. São bons ventos que sopram.
É na Club do Brasil que certa noite Noel atenta para uma morena que canta de olhos fechados um sucesso do ano passado:
É pequena, magra, o rosto mal se podendo ver por trás do imenso microfone RCA colocado a meio palmo de distância. Jovem, dezessete anos no máximo, alguém diz que foi trazida por Jacob Bittencourt, o do bandolim. Noel fica ouvindo a moça em silêncio, atrás do vidro do aquário. O número termina, ela sai do estúdio.
— Você tem uma bonita voz.
A cantora para, meio assustada, paralisada quase pelas palavras com que o compositor famoso a surpreende no corredor. É a sua primeira noite aqui. E ninguém menos que Noel Rosa lhe vem elogiar a voz fina, suave, mas ainda insegura de cantora principiante.
— Mas me diz uma coisa: por que diabos você canta música do repertório de Carmem Miranda?
— Ainda não tenho meu próprio repertório.
— Vem cá.
A história se repete como há três anos, Aracy de Almeida cantando música do repertório de Carmem, ele chegando, elogiando-lhe a voz, chamando-a para ensinar-lhe novos sambas. Quem sabe não dê a mesma sorte? Leva a moça pela mão até um canto do corredor, vê um violão encostado, tira-o da capa, afina-o, tudo muito rápido.
— Vou te ensinar um samba. É novo. Se você quiser, pode lançá-lo no próximo programa.
E ele próprio canta, não um novo samba, mas uma pequena joia:
Noel escreve a letra de Quem Ri Melhor numa folha de papel e a entrega à moça. Repete que ela pode lançá-lo no próximo programa. Se quiser, é claro.
— Mas eu quero!
A moça mal pode acreditar no que está acontecendo. Um samba inédito para ela cantar em primeira audição! E não um samba qualquer, mas um samba lindíssimo. Bons ventos sopram também para ela. Noel talvez não lhe note o contentamento. Deseja-lhe sorte e pergunta:
— Como é que você se chama?
A moça, tímida, responde:
— Elisete... Elisete Cardoso.
Transcrito de:
Noel Rosa, Uma Biografia. © 1990, João Máximo & Carlos Didier. Editora UNB.
Imagem:
O jovem Mário Lago. Anos 1930.

