Pequenas Biografias: NOEL ROSA_11

(...) Mal desfez as malas, Martha veio trazer-lhe as novas, falar de seus sambas que as estações de rádio nunca deixam de tocar, os amigos que vieram perguntar por ele, os vizinhos que se interessavam por sua saúde, as visitas. Muitas, quase diárias. Martha enumera-as todas.

— Também esteve aqui uma moça. Bonita, bem-vestida, elegante. Perguntou por você, mas não quis deixar o nome. Parecia preocupada.

(...) Noel possivelmente não contava que Ceci o esperasse, que pensasse nele, que se preocupasse. Surpreende-se com o que a mãe relata.

(...) faz da surpresa motivo para novo samba, a descrença e a ironia [como de costume] saltando de verso para verso (...). A melodia, de grande beleza, é iniciada por Noel e completada por Vadico. (...) na sua apresentação de estreia ele lança o novo samba, rebatizado posteriormente como Só Pode Ser Você, com o título original, também irônico: Ilustre Visita.

    Compreendi seu gesto
    Você entrou naquele meu chalé modesto
    Porque pretendia
    Somente saber
    Qual era o dia
    Em que eu deixaria de viver.
    
    Mas eu estava fora
    Você mandou lembranças e foi logo embora
    Sem dizer qual era
    O primeiro nome de tal visita
    Mais cruel
    Mais bonita que sincera.
    
    E pelas informações que recebi
    Já vi
    Que essa ilustre visita era você
    Porque
    Não existe nessa vida
    Pessoa mais fingida
    Do que você.

Quando se reencontrarem, será menos amargo. E substituirá a ironia por um sorriso afetuoso e sincero.

— Ouviu o samba que fiz pra você?

Casamentos

(...) Ceci não lhe pede explicações. Aceita-o assim mesmo, solteiro ou casado, sem exigências. Noel diz que não ama Lindaura. Viverá com ela só para constar. É de Ceci que ele gosta.

— Por que não moramos juntos? — propõe.

Aluga um pequeno quarto mobiliado no primeiro andar de um velho prédio na primeira esquina, à esquerda, de Inválidos com Mem de Sá. Quer que Ceci se mude imediatamente. Para que esperar? Ela concorda. (...) O quarto vai afastar Noel demais do chalé. E torná-lo mais presente do que devia na vida da meiga e fugidia Ceci.

Continua agindo e reagindo como se as regras do jogo fossem umas para ele e outras para ela. Estará sempre envolvido com muitas mulheres, além da sua, legítima, invariavelmente em casa a olhar para o relógio, impaciente com sua demora. Mulheres do bairro, da Lapa, do meio artístico, maduras, jovens, profissionais, ingênuas, espertas. (...) Segundo suas regras, nada mais natural.

De sua parte, [Ceci] gosta de sair com alguns fregueses. Os mais distintos, principalmente. Também ela tem suas regras. (...) Noel se mortifica quando percebe que as coisas não são como quer. E que a mulher com quem acaba de alugar um quarto não é exclusivamente sua.

(...) Nem sempre suas conversas com Ceci a respeito de outros homens são mantidas em tom sereno. Fica zangado quando bebe. E ela também. As discussões podem se transformar em cenas violentas, ele dizendo coisas desagradáveis, ela preferindo agir a falar. Ou seja, agredindo-o a tapas.

Noel tem um modo muito particular de se conduzir, difícil de entender para uma Ceci de raciocínios diretos e lógicas elementares. Quando se zanga, quando se mostra ciumento, ofensivo ou até mesmo insuportável, é quando sabe que Ceci nada fez de errado, como se a cena fosse uma espécie de advertência, ela que não se atreva a passá-lo para trás. Mas quando sente que algo realmente aconteceu, um senhor distinto impressionando Ceci, ela passando a noite fora, saindo, divertindo-se, não arma cenas, nem reclama. Sequer faz perguntas. O silêncio fala por ele.

— Sabe como é que eu sei que você está mentindo?

— Não.

— Pelos olhos.

Neca

Sexta-feira, 3 de maio. Tão logo os raios de sol chegam através da janela gradeada, Neca se levanta. Ainda não são seis horas, toda a Casa de Saúde da Gávea parece dormir. Neca toma nas mãos grandes o lençol branco que cobre a cama. Dobra-o até formar uma tira comprida. Em seguida, em movimentos lentos mas vigorosos, torce uma das extremidades para a frente e a outra para trás. Constrói assim uma corda que começa a prender num dos pés da cama. (...) Pouco antes das oito, um dos enfermeiros o encontra. O corpo enorme, pesado, está estendido sob o leito. Em volta do pescoço, o lençol transformado em corda. Um quadro tão terrível quanto difícil de explicar. Preso e ajustado ao pescoço pelas próprias mãos de Neca, o lençol funcionou como um garrote que lhe tirou a vida. De acordo com os médicos, em poucos segundos.

As primeiras reações de Noel são de aparente serenidade. Pouca gente, além dos vizinhos, sabe do que aconteceu. (...) não haverá anúncios fúnebres nos jornais, não se participará a ninguém. Poucos irão ao chalé consolar dona Martha e Hélio. Poucos acompanharão o enterro.

Parentes e vizinhos rezam por Neca à beira do túmulo e depois deixam o local, cada qual com seu destino. Noel, por inexplicável impulso, vai até a casa dos Graça Mello. (...) É recebido com carinho, aquela mistura de ternura e piedade com que se cercam os enlutados. Estão todos na varanda, Noel sentado num dos degraus da escada. Súbito, ele, que aparentava tanta tranquilidade, começa a chorar.

 Eu sabia que ele jamais sairia daquela casa de saúde!

Chora muito, como nunca mais as pessoas o verão fazê-lo. (...) Fala com meiguice da mãe, agora mais sozinha que nunca. Lembra-se do bisavô que não conheceu. Suicidou-se. E da avó Bella, sempre tão quieta. Suicidou-se. E agora o pai. Pergunta, aflito, ao Dr. Graça Mello:

 O senhor acredita que essa história de suicídio seja hereditária?

 De forma alguma, Noel — tenta acalmá-lo o médico e padrinho, diante dos olhos interrogativos da mulher e dos filhos.

Noel já não chora. Retorna ao silêncio, põe-se a olhar para um ponto distante e impreciso.

Não falará do suicídio com ninguém, nem mesmo com Ceci. Trabalha normalmente, vai aos programas de rádio, às editoras, aos lugares de sempre. Como se nada tivesse acontecido. É muito solicitado para festas e espetáculos em clubes. (...) verdadeira maratona de recitais ocupará grande parte de seu tempo até o final de 1935.

Carnaval

(...) O compositor é de fato o grande nome do carnaval de 1936, seu último carnaval em condições de sair, olhar os blocos, beber, divertir-se, aceitar convites para festas, ser homenageado por clubes e sociedades.

É ainda com Ceci que na sexta-feira, 21 de fevereiro, vai aos Democráticos para um grito de carnaval do qual é o convidado de honra. Durante meia hora, canta seus sambas e marchas para este ano, ouve palavras elogiosas dos conselheiros da sociedade, acompanha do palco os foliões dançando. Ceci, de início sentada não muito longe dali, sente repentina vontade de sair, de saber como estão as coisas lá fora, os blocos, a alegria já dominando a cidade nesta antevéspera de carnaval. E sai mesmo, sem avisar Noel.

Às cinco da manhã, ao chegar em casa, encontra-o cercado de garrafas de cerveja. Uma cena que ela viveu muitas vezes, voltando com dia claro e o achando ali, imóvel, mudo, as garrafas se amontoando.

 Passou um bloco pela porta dos Democráticos e me deu vontade de ir atrás  diz ela sem que Noel lhe pergunte nada.

 O bloco rodou a noite inteira. Estava tão animado que não consegui sair.

Nestas horas, como de hábito, nada de brigas. Só o silêncio.

Descuido

Ceci talvez seja a primeira a perceber. Não que Noel tenha sido algum dia um homem elegante, aprumado, zeloso da aparência pessoal. Mas nunca foi tão descuidado como agora. (...) O que Ceci nota primeiro é o relaxamento com a roupa, golas e punhos das camisas puídos, o terno amarrotado, sapatos por engraxar. É verdade que o fato de ter duas casas acaba fazendo com que não tenha nenhuma, passando dias sem ir ao chalé, dias sem vir ao quarto de sobrado que montou com Ceci. Quem cuida de suas roupas? E de sua alimentação? O que importa nisso tudo é que Noel não cuida de si mesmo. (...)

Ceci tem mudado de emprego com frequência, Apollo, Roxy, Assyrius, já pensando em aceitar proposta para ganhar um pouco mais no Royal Pigalle. E quando Noel não está por perto, muda também de companhia. Continuam brigando muito, vivendo cenas, trocando insultos. (...) Ceci, nos momentos de paz, procura cuidar dele. Repreende-o:

 Você é um artista de rádio, Noel. Tem de se vestir bem, se preocupar com a aparência. Olha essas unhas.

[Noel] tampouco cuidará dos dentes, a ida ao dentista sendo um suplício maior para ele do que para qualquer outro, obturações e curativos tornando-se mais dolorosos pela dificuldade em abrir a boca. O defeito agravou-se com o tempo.

Mário

(...) Em parte pelas repetidas brigas que acabaram amornando sua convivência com Ceci, em parte por seus próprios problemas de saúde, Noel anda sumido da Lapa. E é justamente no vazio dessa ausência que um novo personagem se instala no corpo desta longa história: Mário Lago. Os autores de Noel Rosa, Uma Biografia dedicaram a ele e ao período, um capítulo inteiro. Vale a pena ser lido em toda a sua riqueza de detalhes. Dom de Iludir

O filho

Um ano-chave. O trabalho, as perdas, os primeiros sintomas de um íntimo processo de entrega, de desinteresse pela vida. Brigas com Ceci, problemas em casa. Descuido com a aparência, descuido com a saúde. A mãe se queixa, a mulher também. E ainda por cima, num fim de tarde, Lindaura se chega e diz:

— Noel, estou esperando um filho.

A nova situação não vai durar, no entanto, mais que poucas semanas: Lindaura, de gestos e impulsos infantis, sobe na goiabeira do quintal, estica a mão para um galho distante, desequilibra-se e cai. Perde os sentidos.

(...) Martha manda que chamem o médico, Heleno Brandão, o velho Graça Mello, Renato Baptista, o primeiro que estiver disponível. O médico chega. Lindaura está bem, mas perdeu o bebê. Nunca se saberá o que Noel sente em relação a isso.

O álbum

Compõe pouco neste 1936.

A febre indo e vindo, nos dias em que [se abriga no chalé], (...) decide, finalmente, entregar-se à tarefa que vinha adiando há tanto tempo: organizar os recortes de jornais e revistas, os programas de cinema e teatro, os suplementos de gravadoras, todos os impressos, enfim, que falem bem ou mal de Noel Rosa. (...) Compra um caderno de capa dura, verde, de duzentas páginas tamanho almaço, sem pauta, e nele vai colando tudo que guardou.

Na folha de rosto, uma advertência de próprio punho sob o título Este Álbum:

Despedida

Chega o 11 de dezembro. Seria um aniversário como outro qualquer, sem festejos, abraços ou presentes, não fosse a vontade grande de rever Ceci. (...) É sexta-feira, noite de grande movimento na cidade. (...) À porta do dancing, pede ao porteiro que a chame. Quer dizer-lhe duas palavrinhas. Ceci vem.

— Você vai sair muito tarde?

 Hoje é dia do seu aniversário  lembra ela antes de responder.

Mas não, não sairá tarde. Isto é, se ele quiser que deixe o trabalho mais cedo. Talvez para jantarem juntos. Que tal lá pela meia-noite?

 Ótimo. Espero na Taberna da Glória.

Quando Ceci chega, meia-noite em ponto, encontra Noel sozinho, sentado a uma das mesas de calçada. As garrafas de cerveja à sua frente mostram que ele está ali há muito tempo.

 Não esqueci seu aniversário  diz ela tentando ser carinhosa.  Só não sabia que você ia aparecer.

Os dois conversam com certa cerimônia, Ceci esforçando-se para ser o mais agradável possível. Sabe que ele não fará cenas de ciúme, que não tocará no nome de Mário Lago, que evitará bate-bocas. Mas também não quer que se tranque, que fique naquele silêncio que tanto a perturba. Puxa conversa, mas as respostas são, no máximo, irônicas.

 Você está suando.

 É o calor.

Ela põe a mão na testa molhada.

 Mas isso é febre, Noel! E você bebendo cerveja gelada...

 Não seja por isso. Garçom! Por favor, uma cerveja sem gelo.

(...) Noel pergunta-lhe o que tem feito, ela responde com clichês. Ele não lhe faz perguntas embaraçosas, Ceci não responde o que não lhe é perguntado. (...) A conversa é volta e meia interrompida por longos silêncios. Noel tenta dizer coisas engraçadas, às vezes retoma o ar irônico. Até que, depois de um dos silêncios mais prolongados, faz-se tristemente solene:

 Hoje eu tenho certeza.

 De quê?

— De que tudo acabou.

Ceci não retruca. Mesmo se disser que não é bem assim, Noel não acreditará. Sabe que ele sabe de Mário, mas desconfia de que jamais teve ideia do quanto ela realmente o amou. Ou do quanto talvez ainda o ame. Novo silêncio.

— Quero te fazer um pedido, Ceci. Gostaria que passássemos a noite juntos.

Repouso absoluto

Os últimos dias de 1936 são passados em casa. Janeiro chega e, com ele, os dias mais quentes do verão. Alguém sugere que Noel e Lindaura saiam do Rio por algumas semanas. Não precisam ir muito longe, como a Belo Horizonte de tia Carmem. Basta que seja um lugar tranquilo, fresco, de ar puro. Por que não Friburgo? Bom clima, a montanha, o verde. E é perto, apenas algumas horas de trem e já se está numa terra abençoada, milagrosa.

Fica sem sair do chalé por algum tempo. Febre alta, tosse, falta de ar. Edgar Graça Mello já não perde tempo em se dirigir ao doente. É inútil. Prefere fazer as recomendações a dona Martha:

— Repouso absoluto. E estes remédios nas horas certas.

O repouso e os remédios  alguns contendo bálsamos para aliviar a tosse  o deixam fora de combate. Dorme a maior parte do tempo, não sente vontade de fazer nada. (...) Ainda pensa em Ceci. Pensamentos que podem se tornar mais fortes, a ponto de perturbá-lo, de levá-lo a impulsos inesperados. Como sair de casa, ir ao Ponto de 100 Réis e entrar no primeiro táxi.

 Vamos ao Café Nice  diz ao motorista. Encontra Vadico bebericando com Floriano Machado, capitão do Exército, amigo comum. Vadico era exatamente quem procurava. Noel está visivelmente abatido, os olhos mais tristes do que nunca. Floriano nota isso assim que o parceiro se aproxima da mesa.

— Vadico, precisamos conversar.

 O que houve, Noel?

— Tem um piano por aí?

(...) Vadico nota-lhe a ansiedade, o ar angustiado. Floriano sugere que usem o piano de um clube da esquina, a poucos passos do Nice. Os três se dirigem para lá. No caminho, Noel explica que tem um começo de samba que quer que Vadico o ajude a concluir. É algo que eles têm que fazer logo, o samba está preso dentro dele, como um nó na garganta.

— Está bem, Noel  diz Vadico.

Noel começa a desabafar, a falar de Ceci, de suas queixas de amor. Nesses dias  talvez pela doença  são também confusos os seus sentimentos.

Noel vai passar a letra a limpo em seu caderno de folhas soltas. Anotará o gênero e a autoria (samba de Vadico e Noel Rosa), o titulo (Pra Que Mentir?) e a data (8 de março de 1937). É apenas um esboço. Conseguirá vê-lo concluído?

Transcrito (com adaptações) de:

Noel Rosa, Uma Biografia© 1990, João Máximo & Carlos Didier. Editora UNB.

Imagens:

Retrato 3X4 feito em 1935, no Foto Câmara da Praça Tiradentes, para a carteira de trabalho do compositor. Encontrada 87 anos depois pelo pesquisador Rafael Cosme, a foto pode ser vista, entre outras raridades, no perfil villlalobos / Rafael Cosme, no Instagram.

Primeira página do álbum de recortes organizado em setembro de 1936. Acervo dos biógrafos.