Pequenas Biografias: NOEL ROSA_12

Friburgo

Bom clima, a montanha, o verde. O cheirinho de eucalipto perfumando o ar, as flores, a paz. Friburgo parece mesmo uma terra abençoada e milagrosa. Nem o trem que passa fumegando em plena rua principal, atravessando a cidade de ponta a ponta, consegue quebrar o sossego em que vivem mergulhadas as casas e as pessoas. Muitos doentes do pulmão têm vindo aqui em busca de cura  ou de esperança.

(...) Em março Noel e Lindaura instalam-se num pequeno hotel da rua que, ao lado da estação de trem, sobe para o cemitério. (...) Noel quase não sai, prefere ficar sentado na espreguiçadeira do hall, conversando com os outros hóspedes, lendo jornais e revistas do Rio. É ali que os amigos, da terra ou de passagem, vão encontrá-lo.

— Como é que está, Noel?

— Cada vez melhor  responde com nova mentira. A (...) amigos ou meros curiosos que querem conhecê-lo, não se nega a cantar um ou outro samba. O violão, naturalmente, veio com ele do Rio. Os amigos o ouvem com a voz muito fraca, sem sair da espreguiçadeira, num samba triste, banhado em dor, que só completará no Rio e a que dará o título de Eu Sei Sofrer.

Passam três semanas em Friburgo. A ideia era ficarem um, dois ou mais meses. Ou mesmo aproveitarem o inverno de frio seco e bom da cidade. Mas a nevralgia  somada à vontade grande de voltar  acaba mudando os planos. (...) O frio seco, o céu muito azul, as estrelas que brilham nas noites de Friburgo não fizeram a ele o bem que se esperava. Nem ao corpo, nem ao espírito. (...) Por isso decide mesmo voltar para Vila Isabel. Lindaura, como sempre, não se opõe. De que adiantaria?

A placa

É um monomotor, desses em que pilotos civis ou militares realizam seus treinamentos. Voa tão baixo que dá a impressão de que vai derrubar a chaminé da fábrica de tecidos. (...) Hélio olha para o céu, acompanha os movimentos do avião. Ao ver que o irmão também está atento aos ziguezagues do aparelho, vindo até o portão do chalé num esforço que já lhe parece demasiado, diz:

— Vai ver é alguém que sabe que aqui no chalé mora o grande Noel Rosa. Estas piruetas são uma homenagem ao maior compositor popular do Brasil. Noel sorri como se para agradecer a carinhosa brincadeira  elogio raro. Verdade é que Hélio sabe que a profecia de vó Rita falhou. Não estará ali a placa com o seu nome. A glória do chalé vai dever-se ao irmão.

Inéditas

Se já não faz novas músicas, ainda tem muitas guardadas, inéditas, prontas para serem lançadas no rádio ou gravadas em disco. Aracy de Almeida sabe disso. (...) aparece no chalé, acompanhada de Benedito Lacerda, querendo saber se ele não teria umas coisinhas para mostrar. Claro que tem. (...) Dois [sambas] Aracy decide gravar logo. Um é O Maior Castigo que Eu te Dou, (...) o outro é Eu Sei Sofrer, iniciado em Friburgo, terminado aqui.

(...) Nova visita de Vadico ao chalé, Noel cantarola para ele, nota por nota, o Último Desejo. O parceiro vai passando a melodia para a pauta, prometendo escrever a parte de piano e entregá-la [à editora] Mangione.

— Quero mais um favor seu, Vadico. Gostaria que você desse uma cópia da letra a Ceci. Vadico promete que o fará. O mais rápido possível. Sai dali, vai para casa, senta-se ao piano, passa as notas para o pentagrama. A melodia da segunda parte que Noel lhe cantou é um pouco diferente da aprendida por Aracy de Almeida, mas idêntica à que o mesmo Noel ensinou a Marília Baptista. (...) Vadico passa a pauta a limpo, tira uma cópia da letra e leva-a para Ceci. Exatamente como Noel pediu. O pianista encontra-a no Caverna, de noitinha, põe os versos sobre a mesa.

 Para mim?

 Sim, ele me pediu que eu te desse.

Vadico não consegue evitar o comentário:

— Acho que ele te castiga um pouco neste samba, Ceci.  

*

A notícia soa, em tom grave, na voz de um dos locutores da Rádio Cruzeiro do Sul: Noel Rosa morreu!

Como, quando ou através de quem chegou à emissora, ninguém sabe. Na pressa de divulgá-la em primeira mão, não se teve o cuidado de confirmá-la. E no entanto, Noel Rosa está vivo. Vivo mas muito doente.

A reportagem da revista Carioca desloca-se até o chalé para saber como está ele. Repórter e fotógrafo vão encontrá-lo na desordem do pequeno quarto, entre papéis velhos, começos de samba, esboços de desenho. Está muito agasalhado, o pijama de flanela abotoado até o pescoço.

É a última entrevista de Noel Rosa. A fotografia no pijama de flanela ilustrará a matéria de Carioca. Mas não será a última. Dois dias depois também vai ao chalé o pessoal de A Noite, talvez por sugestão de Orestes Barbosa. Noel posa para o fotógrafo em outro pijama, muito magro, abraçado ao violão.

Todos se preocupam, os jornais, os parentes, os amigos, o médico, os vizinhos.

— Por que não o levam para fora do Rio?

— Já fizemos isso. Esteve em Friburgo, mas não se deu bem.

— Friburgo é muito frio, dona Martha. Por que não tentam Piraí?

A cidade é mesmo pequena, meia dúzia de ruas, uma pracinha central, botequim, armazém, padaria, açougue. Mas nem cinema, nem clube. Para repousar, excelente.

Noel e Lindaura passam aqui uma semana. Ele realmente descansa, quase todo o tempo trancado, portas e janelas fechadas para evitar que o vento de outono o incomode.

Há no quarto uma velha escrivaninha. É sobre ela que, logo no domingo, dia 25, Noel escreve para a mãe sua última carta. (...) Para tranquilizar Martha quanto à quietude da cidade, ressalta que nela não há sabiás (seresteiros), pardocas (mulheres), nem feitiçarias (farras e outras tentações).(...) Ao fim, em vez da assinatura, rabisca-se de perfil.

Sobre a mesma escrivaninha, fica até altas horas trabalhando em novas composições. Simples esboços de letra para serem musicados depois? Ou obras já acabadas, versos e melodias devidamente casados? Nunca se saberá.

Crise

No sábado, 1º de maio, sente-se realmente melhor. Sai do quarto, conversa com os outros hóspedes. Alguém sugere, a ele e a Lindaura, um passeio na manhã de sol. Por que não uma visita ao sistema hidrelétrico de Ribeirão das Lajes? Fica aqui pertinho, na Serra das Araras, num dos distritos de Piraí. Há muito para ver no caminho, o campo, as árvores, o gado pastando. Sem falar na represa, na usina, naquela obra que, embora feita pelos canadenses da Light, enche de orgulho os habitantes do município.

Noel e Lindaura aceitam a sugestão. Visitam o imenso reservatório, ficam sabendo que há ali mais de setecentos milhões de metros cúbicos de águas vindas pelos leitos do Paraíba do Sul, do Piraí e do Ribeirão das Lajes. Decidem conhecer de perto a usina, construída lá embaixo, no vale. Têm de tomar o bondinho que desce, em trilhos de bitola estreita, da estaçãozinha da represa. No caminho, um vento úmido começa a soprar, invade o bondinho, castiga os passageiros. Noel, com arrepios, pede a Lindaura para voltarem.

Na pensão, o frio parece ainda mais cortante. Está com febre, vai direto para a cama. De noitinha, outra melhora aparente. Volta à escrivaninha, rabisca alguma coisa, para, deita-se de novo. Lindaura está a seu lado, deitada também. [Os amigos] tinham razão, Piraí é um lugar sossegado. Tão logo a noite cai, um manto de escuridão e silêncio envolve ruas e casas.

Por volta das nove horas, Lindaura quase pegando no sono, Noel debruça-se sobre ela na tentativa de alcançar o abajur na mesinha de cabeceira do outro lado. Tudo se passa muito depressa, Lindaura sentindo sobre o rosto um líquido denso e quente, Noel tateando no escuro sem achar o interruptor. Há desespero neste gesto. Ainda sem entender o que está havendo, a própria Lindaura acende a luz. É tomada de pânico ao ver o marido sentado, o sangue a lhe escorrer pela boca, as mãos levadas à garganta como se algo o asfixiasse. Numa inexplicável presença de espírito, empurra o corpo dele para trás, enfia-lhe o indicador goela adentro, tira de lá um enorme coágulo que impedia Noel de respirar. E grita:

 Socorro! Meu marido está morrendo!

Todos acordam na pensão. Os que vão até o quarto ficam impressionados com o que veem, a cama coberta de sangue, o rosto de Lindaura também. E Noel deitado, imóvel, respiração fraca. Alguém corre atrás de um médico. Quantos existirão neste fim de mundo?

Lindaura permanece ao lado do marido. (...) O médico chega, examina o doente.

— Uma hemoptise.

Coisa séria. Chama Lindaura a um canto e adverte: Noel não pode continuar aqui. Não há recursos na cidade, ninguém garante que outra crise desta não seja fatal. O melhor é levá-lo de volta ao Rio. Amanhã mesmo. Que se chame um táxi de modo a que viaje no maior conforto possível. Sim, coisa muito séria, acentua o médico.

O táxi para na porta da pensão. Lindaura tem as duas mãos presas ao braço magro do marido. (...) todos os hóspedes vão levar até a calçada o casal que se despede. Há no ar um pressentimento que ninguém ousa mencionar, o silêncio no lugar de tudo, até mesmo no das lágrimas que Lindaura abafa na garganta. 

(...) A viagem para o Rio, apesar de tudo, é boa. O motorista sabe exatamente quem é o passageiro do banco de trás.

— Fique tranquilo, seu Noel. O senhor vai ficar bom. Ainda tem muito samba pra fazer.

Na manhã seguinte

A manhã de terça-feira, 4 de maio, não é tão ensolarada. O doente passou a noite saindo de sonos leves, breves, para frequentes crises de dispneia. Lindaura, paciente, velou por ele. (...) Edgar tinha razão, é preciso repouso, qualquer excesso causando-lhe desconforto no peito. A mãe manda que não se mexa. Já não desobedece, está sem forças, mal pode falar.

(...) Alguns amigos vêm ver Noel, entram devagar, olham da porta do quarto para o corpo consumido, cansado, a palidez disfarçada pela pouca luz. Depois se afastam em silêncio, trocam palavras com dona Martha e Hélio, saem como entraram, mansamente. Orestes Barbosa e o Dr. Renato Baptista, bons amigos, estão entre as visitas cautelosas. (...)

Hélio prepara a injeção, [alguém] vem da cozinha com uma xícara de café bem quente. Noel, a cabeça no colo de Lindaura, parece dormir um sono calmo, profundo. Um fio de respiração é todo o vestígio de vida que há nele. Por pouco tempo, porém. A mãe já se despediu das visitas e está agora de pé à porta do quarto. Chega a tempo de ver aquele fio de respiração se extinguir. Pouco antes das onze da noite, no mesmo quarto em que veio ao mundo há exatamente vinte e seis anos, quatro meses e vinte e três dias, morre Noel Rosa.

(...) Aracy de Almeida e Benedito Lacerda, sem saberem de nada, chegam com a prova do disco que gravaram há duas semanas na Victor: Eu Sei Sofrer e O Maior Castigo que Eu te Dou. Ficam perplexos. Ouvem, como todos, relatos imprecisos sobre os últimos momentos de Noel: "Estava nos braços da mulher"... "Parece que cantava um samba"... "Morreu batucando na mesinha de cabeceira"... "Ouvi dizer que estava numa festa da casa em frente".

(...) O noticiário dos jornais e tudo que se escrever depois sobre o assunto refletirão essa mistura de lenda e realidade, destino afinal de todo grande personagem, seja ele um vulto da História, seja um poeta do povo. A todos, Martha repete a sua versão, singela e sucinta:

 Morreu como um passarinho.

Sepultura

As carteiras da sala de aula são afastadas. Sobre quatro delas improvisa-se uma mesa. Em cima, coloca-se o caixão de pinho barato, o único que a família pôde comprar (um dinheiro recolhido durante o velório por gente do rádio, com o intuito de ajudar nos funerais, desapareceu das gavetas da cômoda de Martha, impossível saber, neste entra-e-sai, nos bolsos de quem). O corpo será velado durante toda a madrugada e parte da tarde de quarta-feira, 5 de maio. Martha tem esperanças de que Carmem, o marido e os filhos cheguem a tempo de Belo Horizonte. Não quer que o enterro seja antes das cinco.

Os que passam pelo caixão nunca esquecerão este último olhar. Noel, o corpo mirrado, exaurido pela doença, quarenta quilos no máximo, tem a aparência de um menino. Apesar dos olhos encovados, dos ossos salientes, dos fios de barba ruiva no queixo torto. É um rosto sem vida, mas sereno. Vestiram-no com um terno branco, a gravata borboleta de que tanto gostava, os sapatos fantasia.

(...) É um estranho velório. Exatamente como na integradora democracia dos botequins de Vila Isabel, que Noel frequentou desde garoto, reúnem-se aqui pessoas das mais importantes famílias do bairro, os artistas mais conhecidos do rádio, as figuras mais representativas da vida mundana da cidade. E ao lado delas, chorando mais que todos, compositores de pés descalços, bêbados em raro instante de sobriedade, mendigos como o Bela Ideia, sambistas humildes como o Osso, que não tardará a fazer aquele que talvez seja o primeiro samba em memória de Noel Rosa.

Uma chuva miúda molha os caminhos de terra do cemitério. Há muita gente aqui, parentes, amigos, cartazes da música popular. Francisco Alves não veio, detesta enterros, é supersticioso, acha que morte atrai morte. Mas vieram Mário Reis, Lamartine Babo, Almirante, César Ladeira, Marília Baptista, o pai e os irmãos, Pixinguinha, Celso Guimarães, Patrício Teixeira, Orestes Barbosa, Benedito Lacerda, Vadico, Orlando Silva, Nássara, Christovam de Alencar, Nuno Roland, João de Barro e Alvinho, Jayme Britto, Aracy de Almeida, Joel e Gaúcho, representantes da Mangueira e do Salgueiro, os irmãos Barbosa, os irmãos Petra de Barros, um grande elenco de amigos.

A cova é rasa e fica ao lado de uma árvore copada numa das alamedas do fundo. Ary Barroso faz o discurso, de improviso, eloquente, por vezes inflamado. (...) Há mesmo muita gente aqui. Uns se aproximam da sepultura, atirando lá dentro sua pá de cal. Outros, ao contrário, ficam de longe. Como a dama de tailleur escuro, a aba do chapéu a cobrir-lhe os olhos, que aproveita a semiescuridão do cemitério para não ser notada. É Ceci. Por que terá vindo? Pensa na madrugada que passou em claro, bebendo, chorando sem parar, depois que alguém se aproximou dela no Caverna e disse:

— O Noel, Ceci...

— Já sei!... morreu agora há pouco.

Pensa também nas duas palavras meio sem sentido que deixou escapar baixinho, como se ditas para si mesma:

— Pronto... acabou.

Sem sentido porque, afinal, tudo parecia ter acabado há algum tempo, naquele adeus feito de escusas e silêncios. Por que só agora ela admite o fim definitivo, como se apenas o irremediável da morte pudesse sepultar o velho amor? Haveria em seu coração uma oculta esperança de que ainda pudessem se reencontrar numa dessas esquinas que o destino costuma pôr no caminho das pessoas? Não sabe dizer. Sabe apenas que acabou. Sente isso enquanto vê, olhos úmidos, as pessoas se comprimirem sob a chuva em torno do caixão de Noel.

Coberta de terra a cova rasa, começa-se a sair do cemitério. A alameda principal é margeada por árvores frondosas. As pessoas, em grupo, ainda falam do amigo que acaba de se ir. Cada qual tem uma definição mais ou menos fácil para este personagem de suas vidas: um boêmio, um sambista, um poeta. É destino dos poetas morrer na flor da idade, lembram uns. O maior compositor brasileiro de todos os tempos, dizem outros. O Bernard Shaw do samba, acrescenta alguém. Um humorista ou um filósofo? Um gênio. Especula-se: a morte do pai e as desilusões amorosas teriam lhe abreviado a vida? Ou terá sido o queixo defeituoso, impedindo-o de alimentar-se direito, a causa de tudo? Era um sujeito alegre. Não, era um triste.

Lado a lado, pela mesma alameda, vão Eduardinho e o Dr. José Rodrigues da Graça Mello. Pensativos, num silêncio que o primeiro quebra:

— Sabe, Graça Mello, acho que ele próprio causou a sua morte.

Novo silêncio.

O médico que o ajudou a nascer, naquele domingo ensolarado de 1910, pensa no menino que acaba de enterrar nesta quarta-feira chuvosa:

— Não, Eduardo. Noel apenas viveu a vida que quis viver.

Transcrito (com adaptações) de:

Noel Rosa, Uma Biografia© 1990, João Máximo & Carlos Didier. Editora UNB.

Imagens:

Nova Friburgo, década de 1930. Estação de cargas e passageiros. Neste terreno, fica o atual palácio Barão de Nova Friburgo, sede do governo municipal. Fonte: Revista Êxito Rio.

Foto da última entrevista, para a revista Carioca.