Pequenas Biografias: NOEL ROSA_1o

Depois que Ceci parou de resistir-lhe ao assédio, Noel está cada vez menos no sobrado da Rua do Acre.

Esperando a nova paixão todas as madrugadas no Apollo, ficando com ela até de manhã, trocando mais do que nunca a noite pelo dia, alimentando-se pouco, não tendo ao lado de Lindaura os mesmos cuidados que recebia em casa nos bons tempos em que Martha lhe servia refeições que não exigiam esforço na mastigação, Noel emagrece.

Ainda por cima, (...) gosta de uma cerveja além da conta. Aparecem-lhe olheiras que se acentuam e que só dona Martha, quando ele vai ao chalé, parece notar.

Neca

Manuel Garcia de Medeiros Rosa já não dorme direito. Acorda com frequência, anda pela casa, vai até o portão, volta, deita-se outra vez, desassossegado. A insônia mina-lhe a saúde, mas ele finge resistir. Chega a dizer que essas horas em claro no meio da madrugada trazem-lhe grandes ideias, inspiração para novos inventos.

(...) A família se preocupa. Neca é cada vez menos o homem de antigamente. As mudanças não são notadas apenas por Martha. Hélio, os outros parentes, os amigos que frequentam o chalé, todos já perceberam que ele não está bem. (...) quase não se ouve sua voz. Passa horas e horas perdido num silêncio indevassável, os olhos distantes. Sequer responde às perguntas com que Martha tenta trazê-lo de volta ao mundo nesses momentos de alheamento. Quando sai de casa  o que faz cada vez menos  é com destino incerto. Anda de bonde em viagens que incluem complicadas baldeações. Tanto pode puxar conversa com o desconhecido passageiro ao lado, como encontrar um velho amigo e nem ao menos o cumprimentar. Numa das muitas viagens, acontece de sentar-se no mesmo banco Almirante, que o saúda tirando o chapéu.

— Como vai, seu Medeiros?

Desta vez reconhece o amigo do filho, cumprimenta-o, pergunta-lhe pelo rádio, a música, as novidades. A conversa vai indo muito bem até que a voz de seu Medeiros começa a diminuir, a tornar-se pouco a pouco mais fraca, imperceptível quase, obrigando Almirante a chegar mais perto num esforço para ouvi-lo. Os lábios de seu Medeiros se movem mas já não emitem nenhum som. Almirante não sabe o que fazer, limita-se a mover a cabeça num sinal de que está compreendendo, mas com a leve desconfiança de que o pai de Noel na verdade fala apenas para si mesmo.

Certa manhã, a escolinha em pleno funcionamento, ouvem-se gritos no fundo do chalé. (...) Na cozinha, dona Martha agarra-se desesperadamente ao marido, procurando conter-lhe as mãos grandes com que ele tenta levar ao pescoço o fio de luz que pende do teto. Dona Martha grita por socorro. Logo chegam os vizinhos e dominam um seu Medeiros irreconhecível, desvairado, teimando em enforcar-se com o fio que quase lhe corta as palmas das mãos.

'Psicose maníaco-depressiva'. Os médicos que vão ao chalé a pedido de Martha, entre eles os Graça Mello, recomendam tratamento sério, assistência psiquiátrica permanente.

A Casa de Saúde da Gávea é bom lugar, limpo, tranquilo e não muito caro: 800 mil réis por mês. E os médicos são competentes e atenciosos. Aqui, no chalé, Neca com ideia fixa de suicídio, quem poderá vigiá-lo as 24 horas do dia? Sim, a solução é o internamento. Oitocentos mil-réis por mês é mais do que dona Martha talvez possa pagar. Mas, se todos fizerem um sacrifício, se Eduardinho ajudar um pouco, Noel outro tanto, pode-se dar um jeito. A família se reúne no chalé para discutir o assunto, Noel inclusive. O que tiver de ser feito será.

*

Novas mudanças na vida de todos. Martha volta a carregar sobre os ombros pesada carga, o marido ausente, a casa para manter, um filho estudando, outro vagando. Por que paragens andará Noel? Pesada carga que esta mulher carrega com estranha força e coragem. Queixas? É coisa que ninguém ouvirá de seus lábios, mesmo que sofra e sofra muito.

Também muda a vida de Noel. Trabalha mais, aumenta o número de apresentações em cinemas e programas de rádio. Pela primeira vez contém-se um pouco nos gastos.

Pensando bem, nunca teve rotina tão intensa, cada minuto do dia tomado, a música, os programas de rádio, o disco, Ceci, Lindaura, o chalé. Compõe menos, sua produção musical caindo à metade em relação ao ano passado. A correria em que se transformou sua vida pode explicar a queda de produtividade.

Uma noite, canta no Cine Grajaú, na Rua José Vicente, que liga a Barão de Mesquita à Theodoro da Silva. O espetáculo vai chegando ao fim. Súbito, sente o mundo rodar à sua volta. O corpo mirrado flutua como se levado pelo vento, a vista se turva, os sentidos lhe fogem. E cai.

Mancha

Como terá vindo parar no chalé? (...) Tudo aconteceu muito depressa, o desmaio no palco, as pessoas correndo para acudi-lo, o alvoroço, a apreensão, alguém sugerindo que o melhor seria trazê-lo para os cuidados da família.

 Você não deve estar se alimentando direito  acredita Martha. É impressionante a magreza de Noel. Toda a família finalmente se dá conta do que Martha vinha notando há tempos: o filho não se cuida, perde peso, depaupera-se. Não há quem resista a vida tão desregrada.

 Chamem o Edgar.

Edgar Graça Mello, filho do padrinho de Noel, é médico como o pai. Tisiologista, não precisa fazer exame meticuloso para constatar que Noel está mesmo debilitado. Edgar cola o ouvido nas costas magras onde costelas salientes traçam mórbido contorno.

— Melhor tirarmos uma radiografia.

Edgar Graça Mello é franco:

— Uma lesão no pulmão direito.

E já há qualquer coisa também no esquerdo. Mas tenta tranquilizar a todos. Não há razão para pânico, desespero ou algo assim. A doença está no começo, pode ser contida. Noel é jovem, a idade sempre ajuda. O problema maior é o seu estado geral, a magreza. Quantos quilos? Quarenta e cinco? Definitivamente isso não é peso que se possa levar a sério. Ou melhor, é peso para se levar a sério até demais, especialmente em alguém que tem os dois pulmões afetados.

— Vamos tratar disso, Noel.

[dias depois] Edgar visita o chalé. O desmaio, o susto daquela primeira noite já passou. Uns dias em casa devolveram a Noel algumas forças. Ele já está saindo, vai até a esquina, conversa com amigos. Mas Edgar alerta dona Martha para as mudanças que se impõem à rotina do paciente. Além dos remédios que receitou, dos exames periódicos, da superalimentação e da supressão de gelados, é necessário que as madrugadas sejam abandonadas. A tuberculose é difícil de curar com todos esses cuidados. Sem eles, o difícil se torna impossível. Recomendável seria outro clima, outra cidade. Assim como Teresópolis ou Friburgo. Ou Belo Horizonte.

Martha lembra-se da irmã. Carmem está morando em Belo Horizonte, tem uma boa casa no bairro da Floresta. Ela e Mário Brown hão de receber de braços abertos o sobrinho. Lá não há boêmia, nem botequins, nem estações de rádio. Nada dessa agitação em que o filho vive metido no Rio. Fala com ele. De início Noel reluta. Não consegue se imaginar em Belo Horizonte. (...) Um carioca habituado ao burburinho da Lapa, onde a vida só começa depois de meia-noite, na certa morreria de tédio na acolhedora mas inerte capital mineira. A relutância, contudo, acabará sendo vencida no dia em que Noel se convence de que a melhora foi apenas passageira: Edgar encontra-o em casa ardendo em febre.

 Dona Martha está certa, Noel. Belo Horizonte te fará bem.

Concorda. Ficará lá alguns meses, seguirá as regras que tia Carmem estabelecer, nada de madrugadas, de bebidas, de mulheres. (...) Ganhará alguns quilos, fará a vontade da mãe e de Edgar. Cinco, seis meses no máximo.

Mas... e Lindaura?

No meio dessa confusão toda, desmaio, correria, idas ao hospital, chapas de raio X, conselhos de Edgar, ninguém se lembrou de Lindaura. Noel sente-se na obrigação de levá-la com ele. O que seria dela sozinha?

 Só vou se ela for, mãe.

Martha (...) mais uma vez deixa claro ao filho que, sem certidão de casamento, ele não trará a moça para o chalé. Muito menos a levará para a casa dos tios em Belo Horizonte.

 Só vou se ela for, mãe.

 Então vamos resolver logo tudo isso.

 Como?

 Só há um jeito: o casamento.

Fraco, vulnerável. Como dizer não? Os proclamas correm mais rápido do que de hábito (...). Dona Martha está satisfeita, até que enfim o problema se resolve. Está satisfeita Lindaura, o casamento vai devolver-lhe a respeitabilidade, tornar possível a reconciliação com dona Olindina, quem sabe até fazer com que Noel sossegue (...).

*

Sábado, 1º de dezembro de 1934. É acanhada, escura e fria a sala do escrivão Santiago, a 2ª Pretoria Cível em que acabam de se casar Noel de Medeiros Rosa, carioca, 23 anos, e Lindaura Martins, sergipana, 18 completados no último 9 de junho. (...) Dona Olindina, ainda magoada, não veio desejar sorte à filha que passa a assinar-se Lindaura de Medeiros Rosa.

Terminada a cerimônia, os dois posam para a única fotografia em que aparecerão juntos. Ela num vestido azul-marinho, meias de seda, buquê de rosas na mão direita, aliança de ouro na esquerda e um ligeiro sorriso nos lábios. Ele de terno de algodão cinza riscado, gravata borboleta, nenhum sorriso. (...) Não haverá festas. Nem doces, nem convidados, nada.

O ano chega ao fim. Noel e Lindaura têm viagem marcada para os primeiros dias de janeiro. O Natal é passado em casa, em torno da árvore e do presépio que todos os anos dona Martha arma segundo tradição que vem de longe, dos Corrêa de Azevedo.

Este é um Natal triste, especialmente porque o pai está longe, sozinho. De Ceci despede-se laconicamente. Diz que a polícia obrigou-o a casar-se. Anda adoentado. Vai sair do Rio por algum tempo, atrás de bom clima. Ou de um milagre.

Belo Horizonte é mesmo um lugar deserto nessas horas tardias. A última sessão de cinema acaba às dez, nas esquinas resta apenas um ou outro cidadão comum à espera da condução que o levará para casa. Mas o boêmio não é um cidadão comum. Sua casa é a rua, o botequim, os poucos cantos que nunca dormem. Solitário, vive permanentemente à procura de uma alma gêmea, um parceiro de noitada, como Noel Rosa. Noel de fato será parceiro de muitos boêmios da terra, descobrindo com eles o que fazer depois das onze. Vai peregrinar ao seu lado, beber em sua companhia, cantar-lhes novidades como Amor de Parceria, composição que revela seu interesse, nestes dias, por um gênero relativamente novo: o samba-choro. Isto é, um samba que utiliza certo fraseado do choro. Ou um choro que, cantado, pede emprestado ao samba a sua pulsação rítmica. Sem que deixe de estar presente o humor de Noel:

    Saiba primeiro que fulana é minha amiga
    E comigo ela não briga com ciúme de você
    Você provoca briga entre rivais
    Para depois ver nos jornais seu nome e seu clichê
    
    Há muito tempo minha amiga me avisava
    Que ela sempre conversava com você no seu jardim
    E começou a nossa parceria
    Eu fui por ela e ela foi por mim
    
    Você pensou que fomos enganadas
    Marcando encontro em horas alternadas
    E nós fizemos a sua vontade
    Dentro daquela escrita eu e ela não tivemos prejuízo na sociedade
    
    Quando você se atrasava uma hora
    Eu fingia não saber a razão dessa demora
    E muita vez você perdeu a fala
    Quando estava sem tostão e eu pedia bala
    
    Nós aturamos os seus modos irritantes
    Mas filamos bons jantares nos melhores restaurantes
    Você não sai do nosso pensamento
    Você foi negócio e foi divertimento

No dia 27 de janeiro, visita a tia no Conservatório de Música, onde ela leciona violino, e lá mesmo, em papel timbrado, escreve aquela que será a sua carta mais original e conhecida. O destinatário é Edgar Graça Mello. O assunto, a doença e o tratamento. A forma, poesia. Mas, a exemplo de muito do que Noel disse em seus sambas, uma poesia feita de ironias e simulações, o paciente chamando o médico de paciente e dizendo-lhe que está seguindo à risca as instruções, que se deita às nove horas, que abandonou o cigarro, que já apresenta melhoras. E não faltam os duplos sentidos, como no verso "trepei de várias maneiras"...

    Meu dedicado médico e paciente amigo Edgar.

    Um abraço.

  Se tomo a liberdade de roubar mais uma vez seu precioso tempo, é porque tenho certeza de que você se interessa por mim muito mais do que eu mereço. Assim sendo, vou passar a resumir as notícias que se referem à marcha do meu tratamento. E, para amenizar as agruras que tal leitura oferece, resolvi fazer uso das quadras que se seguem:

    Já apresento melhoras
    Pois levanto muito cedo
    E... deitar às nove horas
    Para mim, é um brinquedo!

    A injeção me tortura
    E muito medo me mete;
    Mas... minha temperatura
    Não passa de trinta e sete!

    Nessas balanças mineiras
    De variados estilos
    Trepei de várias maneiras
    E... pesei cinquenta quilos!

    Deu resultado comum
    O meu exame de urina
    Meu sangue: — noventa e um
    Por cento de hemoglobina

    Creio que fiz muito mal
    Em desprezar o cigarro
    Pois não há material
    Pra meu exame de escarro!

    Até agora, só isto
    Para o bem dos meus pulmões
    Eu nem brincando desisto
    De seguir as instruções

    Que meu amigo Edgar
    Arranque deste papel
    O abraço que vai mandar
    O seu amigo Noel

*

Mas, para tristeza dos boêmios mineiros, a estada de Noel em Belo Horizonte não vai durar muito mais. Os tios não se conformam com suas noitadas, não querem ser responsáveis por uma recaída. É verdade que ele ganhou preciosos quilos aqui. Mas como estarão os pulmões? Carmem escreve à irmã dizendo que não pode mais cuidar dele. O próprio Noel não pode cuidar de si mesmo. Além disso, há as saudades. O Rio, Vila Isabel, Ceci, os amigos, o pai internado. É hora de voltar. Nos primeiros dias de abril, começa a fazer as malas. Despede-se dos amigos, faz com eles a última farra, tomam juntos as últimas cervejas. Dá adeus a Belo Horizonte.

Transcrito (com adaptações) de:

Noel Rosa, Uma Biografia© 1990, João Máximo & Carlos Didier. Editora UNB.

Imagens:

Foto de casamento de Noel e Lindaura, dezembro de 1934. Autor desconhecido.

Belo Horizonte, Avenida Afonso Pena em 1935. Ao fundo, o Edifício Ibaté, o primeiro arranha-céu da cidade, então recém-inaugurado. Arquivo Público Mineiro, via blog Curral Del Rey.