Pequenas Biografias: DORIVAL CAYMMI_o1
O MAR E O TEMPO
José Brito Pitanga corria apressado na direção do cais do porto, na esperança do Itapé ter chegado atrasado naquela segunda-feira, 4 de abril de 1938. Caso contrário, estava lascado.
Eram pouco mais de sete da noite, hora prevista para a chegada do navio. O cais do porto não era para principiantes e o passageiro a quem veio recepcionar não estava acostumado com as manhas da capital. Zé Brito prometera à tia Vivi que ajudaria o rapaz e ela o cobrira de recomendações. Não podia falhar.
Lá estava ele. Magro, mulato, com 1,66 m de altura, modesto e asseado. Ao seu lado, uma mala de tamanho médio e um pacote grande e quadrado. Chamou: Dorival!
Aliviado, Dorival se aproximou, recebendo um forte abraço do primo, a quem não via fazia muitos anos. Entre notícias apressadas dos parentes da Bahia, Zé Brito apanhou a mala.
— Como você conseguiu desembarcar com tanta bagagem?
— Um português ajudou, mas me cobrou caro, 5 mil-réis.
— Um atraso de dez minutos e olha o resultado: roubado mal desembarcaste!, resmungou Pitanga, sentindo culpa.
Trataram de sair rápido dali.
ALMIR CHEDIAK — Você chegou ao Rio de Janeiro em 1938, às vésperas de completar 24 anos. O começo foi difícil para um jovem baiano que não sabia exatamente que atividade iria garantir a sua sobrevivência?
DORIVAL CAYMMI — No início, saí à procura de emprego na imprensa, usando a influência da pessoa que me recebeu no Rio, um amigo da minha família chamado José Brito Pitanga. Cheguei a ir à redação da revista O Cruzeiro. Antes disso, o meu amigo me disse: "Eu tenho informações de que você tem um negócio de cantar e tal, que lida com música". Respondi: "Eu sou um amadorzinho do tipo caseiro, de estilo conhecido e que canta umas coisas, toca um violão, essa coisa toda". Um dia — lembro-me bem, eram 10 e meia, 11 horas da noite — eu estava na pensão em que morava, na rua São José, quando bateram na porta do meu quarto. Abri a porta e vi uns caras que já conhecia de vista. Um deles era o Ubirajara Nesdam, que eu havia visto no auditório da Rádio Mayrink Veiga, um dia em que lá estive para espiar os artistas. O outro chamava-se Cid Prado e o terceiro me fez levar um grande susto: era Lamartine Babo, um camarada que, para mim, era como se fosse um deus. Uma surpresa danada. E maior ainda quando Lamartine me convidou para participar do programa dele, à meia-noite, na Rádio Nacional, chamado O Clube dos Fantasmas.
O MAR E O TEMPO
José Brito Pitanga, ou simplesmente Pitanga como era conhecido, levou Dorival para a pensão de dona Julieta, uma portuguesa, na rua São José, número 35, no Centro do Rio (...). A estadia com direito a refeições custaria ao baiano 175 mil-réis por mês.
A pensão, além dos hóspedes que abrigava, abria para o almoço, quando ficava bastante movimentada. Os hóspedes eram, na sua maioria, estudantes e profissionais em início de carreira, provenientes de outros estados, principalmente do Nordeste. Dorival assistia a tudo com olhos de primeira vez. "Agora estou senhor da minha vida" — concluiu para si mesmo.
(...) Costumava andar à noite. Batia a avenida Rio Branco até a Praça Mauá.
"Eu ia sentir o cheiro do mar ali na Praça Mauá".
(...) Caymmi preferia suas andanças solitárias ao burburinho da Lapa.
"Sentia uma solidão distraída, vislumbrando de longe a Cinelândia, vazia, perdida na noite".
Costumava ir à Rádio Nacional e à Rádio Mayrink Veiga assistir aos programas de auditório, encantado com as novidades. Por vezes "subia no edifício de A Noite, no auditório da Rádio Nacional, para ver meus artistas preferidos de perto".
A paixão pelo rádio estava viva, mas não ousava pensar seriamente nessa possibilidade de trabalho.
Em fins da década de 1930, ainda sobrevivia um forte preconceito contra o violão. Caymmi tratava de esconder o seu, com medo de ser tomado por malandro ou coisa pior. Mas não conseguiu manter seu pacote misterioso por muito tempo.
Foi quando conheceu... o Rocha.
Em pouco tempo, todos da pensão sabiam do violão de Caymmi. Por fim, a história do violão foi parar nos ouvidos de Pitanga (...).
Pitanga era um sujeito simpático e de muitos amigos. Por trabalhar na área médica, conhecia o baiano Assis Valente, que era protético, com um amplo laboratório no Largo da Carioca, 9.
Preocupado em ajudar Caymmi, pediu a Assis que o recomendasse a César Ladeira na Mayrink Veiga. Ladeira foi muito atencioso com o rapaz baiano, mas acabou por despachá-lo com a clássica alegação da falta de recursos para novas contratações.
ALMIR CHEDIAK — E como foi o programa?
DORIVAL CAYMMI — Foi bem. Lamartine perguntou o meu nome e eu disse que era Dorival Caymmi. Ele gostou e brincou, dizendo — "É um nome musical: cai-em-mi". Achei muita graça e cantei Noite de Temporal, uma das canções que fiz na Bahia. Lamartine brincou: "Isso é meia-noite mesmo", lembrando de outro programa que ele fazia na Mayrink Veiga, com o nome de O Clube da Meia-Noite.
ALMIR CHEDIAK — O programa repercutiu?
DORIVAL CAYMMI — Sei que repercutiu na Bahia. Meus companheiros de escola ouviram, minha família ouviu. Na pensão, eu sei que ninguém me ouviu, pois não houve comentários. Mas quando fui à Revista O Cruzeiro, à cata de emprego...
ALMIR CHEDIAK — O que é que você pretendia fazer na revista?
DORIVAL CAYMMI — Desenhar, fazer coisas pequenas na redação, letras para cabeçalho... Qualquer coisa, enfim, que justificasse um emprego para pagar a pensão.
O MAR E O TEMPO
Por indicação do incansável Pitanga, Caymmi foi ao encontro do desenhista Edgar Pereira, diagramador d'O Cruzeiro, nas instalações da revista, rua 13 de Maio, tão perto da pensão que Dorival foi a pé, "sentindo o cheiro das amendoeiras".
Um funcionário já estava preparado para sua chegada: "Você é o recomendado pelo Zé Brito Pitanga, não é?" — perguntou. "Sou eu", respondeu Caymmi.
Em seguida, chegou o diretor da revista, Antônio Pinto Nogueira de Accioly Neto.
Mas quem definiria mesmo a situação de Dorival Caymmi seria Edgar Pereira, que chegou um pouco depois.
O que Dorival não sabia era que o primo tinha pedido ao Pereira que o convencesse a trabalhar no rádio.
— Eu tenho um amigo que vai resolver seu caso.
Foi direto ao telefone e, quando a ligação se completou, pediu para falar com Theófilo de Barros Filho, na Rádio Tupi.
"Theófillo, é o Pereira. Escuta, tem um baiano aqui do meu lado, recomendado por um amigo meu, que canta, toca e faz as músicas dele. Posso mandá-lo pra você? Quando? Quarta? — olhou para Dorival, que confirmou com a cabeça. Tá bom, quarta-feira está ótimo".
*
Theófilo de Barros Filho, um alagoano boa-praça, excelente jornalista, levou-o para o seu escritório. Convidou Isaac Feldman, maestro da orquestra da rádio, para ouvir o teste. Naquela tarde decisiva de 1938, o compositor cantou Noite de Temporal e No Sertão.
"Você tem voz educada" — comentou o produtor. "Foi você que quem fez essa letra?". "A letra e a música", apressou-se Caymmi em esclarecer.
Theófilo ficou tão impressionado que foi buscar nada mais nada menos que Assis Chateaubriand em pessoa para ouvi-lo. Sem desconfiar quem era aquele senhor de terno cinza, Caymmi se soltou ainda mais nessa segunda audição.
Chateaubriand, impressionado, repetiu várias vezes: "Este homem é um telúrico, é um homem da terra, um poeta!... Quantos anos você tem?". "Vinte e quatro" — respondeu Caymmi, agora boquiaberto, ao perceber quem era aquele sujeito moreno, atarracado, com o cabelo repartido do lado e pose de rico. Era o proprietário dos Diários Associados, um império da comunicação. "Mas seu Theófilo, ele é um menino, ele tem que ficar na Taba", ordenou Chateaubriand, referindo-se aos Diários Associados. Caymmi à essa altura estava nas nuvens.
Combinaram 30 mil-réis de cachê por apresentação e a promessa de se apresentar duas vezes por semana, quartas e sextas.
A estreia foi no dia 24 de junho, no especial junino da Tupi.
Foram muitos os telefonemas querendo saber quem era o artista que acabara de cantar, incluindo profissionais curiosos.
Glória mesmo foi chegar à pensão e encontrar dona Julieta alvoroçada: "Seu Dorival, o senhor é um artista!".
Comprou vários exemplares de O Jornal na edição que trazia seu retrato e mandou para a família e amigos na Bahia. "Eu não disse que você ia longe?", cumprimentou José Lago da Rocha. Pitanga estava também satisfeito com o rumo dos acontecimentos.
Logo chegaram notícias de Salvador, parentes e amigos que haviam escutado sua apresentação. A carta de seu pai continha uma ordem clara: "Corte esse cabelo, Dorival!".
Transcrito (com adaptações) de:
Caymmi, o Mar e o Tempo. © 2001, Stella Caymmi. Editora 34.
Songbook Dorival Caymmi. © 1994, Almir Chediak. Lumiar Editora.
Imagens:
Retrato de Dorival Caymmi. Studio Mamed, Rio de Janeiro, 1939.
Barco Vermelho na Praia. Dorival Caymmi, 1950.
Vídeo:
MPB Especial. TV Cultura, 1972. Apresentação e direção de Fernando Faro.


