Pequenas Biografias: DORIVAL CAYMMI_o3

Em 1925, a família se muda para a Ladeira do Carmo. Próximo, ficava o Pelourinho, com seus sobrados coloniais e sua memória da escravidão.

A primeira providência do casal ao mudar foi matricular os meninos Dorival e Deraldo, com 11 e 13 anos, no Colégio Olímpio Cruz, para continuarem o primário. Dinah e Dinahir foram para o Colégio Emília Lobo, na Cruz do Pascoal, também próximo dali. Não havia colégios mistos na época.

O sobrado em que moravam tinha dois quartos amplos, um para o casal e outro para as crianças. Da sala de jantar, via-se o galinheiro que Durval construiu no quintal. A sala de estar era grande, com três janelões. A casa contava ainda com um sótão, de onde se tinha uma bela visão do mar.

"Dorival fez um desenho lindo da Igreja das Caridades e na parede caiada do galinheiro ele desenhou um galo perfeito. As pessoas se admiravam da habilidade dele. Ele gostava muito de desenhar e aprendeu sozinho", relata Dinahir.

Na escola, Dorival gostava especialmente das aulas de História Natural.

"O professor dava aos sábados uma aula ao ar livre mostrando o que a gente via nos livros: os insetos, as plantas, as flores. Uma aula caminhada, distraída".

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Todas as crianças sempre se sujam muito, mas Dorival era o terror das lavadeiras.

"Eu tenho o fascínio do chão... aí, eu andava cutucando, examinando isso de perto. Encontrava uma folha, um cisquinho, umas terrinhas, caquinhos de louça, lixazinha de caixa de fósforo, um palitozinho de cera, que antigamente se usava palito de fósforo de cera. E encontrava bombinha de lança-perfume jogada, de outro carnaval, encontrava continhas e coisas assim, encontrava as maiores bobagens, tudo que tinha jeito curioso, uma pedrinha, eu metia no bolso. E furava, né?".

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Luiz Rosado, seu primo por parte de mãe, filho da tia Pipi e do tio Antonino Rosado, iniciou Dorival na literatura. Emprestava os romances de José de Alencar, Os Sertões, de Euclides da Cunha, os livros de Alexandre Herculano, Machado de Assis, Eça de Queiroz...

"A Antologia Nacional, de Carlos de Laet, e a Seleção Literária, de Fausto Barreto, eram a minha paixão".

Domingo era dia de missa no Bonfim e de levar as crianças para pedir a bênção aos avós. 

"A gente vivia perto de umas 38 igrejas. Aí apareceu para mim, Deus. O que justificou entender o quarto de santos com três nichos. Na casa da minha avó, três nichos; lá em casa, dois. Muito bem esculpidos, com Nossa Senhora do Parto, naquele quarto onde nasceu minha irmã Dinahir. E o som de Deus na família: "Deus te acompanhe", "Deus lhe abençoe", "Vá com Deus"... Na leitura, eu ia comparando com o que via e o que eu vi dentro do clima mais baiano possível foi a presença da religião negra, o linguajar mesclado com o português, o linguajar afro, linguajar nagô, tudo mesclado".

ZEZINHO

O grande amigo de Dorival não foi nenhum colega de escola. Foi seu vizinho José Rodrigues de Oliveira, chamado Zezinho, que tinha a mesma idade, 11 anos, e morava numa casa mais humilde, do outro lado da Ladeira do Carmo.

Zezinho era um dos seis filhos de seu André, motorneiro de bonde. As duas famílias se aproximaram. Mas, amizade para toda a vida foi a de Zezinho e Dorival. Tinham muitas afinidades e passavam o tempo livre juntos, percorrendo as ladeiras de Salvador, suas ruas e becos. Iam juntos às festas de largo e do candomblé, às feiras de Salvador, e dividiam a paixão pela música, cinema e literatura. Quando descobriram que podiam frequentar a Biblioteca do Estado, não saíram mais de lá.

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Dorival aprendeu a tocar violão sozinho. Seu pai tinha além do violão, um bandolim napolitano, cheio de fitas, que ficava exposto na sala de visita. Durval tinha ciúme de seu violão, que encomendara por 18 mil-réis à loja A Guitarra de Prata, no Rio de Janeiro. O que ele não desconfiava é que o filho costumava pegá-lo escondido.

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Quem tocava um violão para ninguém botar defeito era Cici, Alcides Soares, irmão de Sinhá mais chegado a Durval.

"Era boêmio, gostava de uma bebidinha e não se envergonhava de tocar violão".

Dorival adorava quando o tio participava dos saraus em casa. Era um excelente solista de choro. Quando percebeu o interesse do sobrinho pelo instrumento, deu a dica:

— Quando seu pai puder, compra um método para você. Pelo método é só você olhar e aprender, lembra Dorival.

"Ah! Não deu outra! Eu juntei o dinheiro do método de Canhoto e comecei a tocar".

Canhoto era o apelido do célebre violonista Américo Jacomino, autor de Abismo de Rosas.

"E assim aprendi".

O pai seguiria estranhando o modo de seu caçula tocar.

"Acontece que eu preferia sempre a harmonia alterada, porque descobri, depois que fiz muita coisa de orelhada, que a harmonia realmente pode ser exótica, com as sétimas, as nonas, a inversão de acordes. Deve ser instintivo, porque desde pequeno acho que o som deve ter outra beleza, além do acorde perfeito. Foi assim que tive sorte na música. Papai dizia que não estava certo, porque o meu arpejo, a maneira que eu puxava as cordas do violão, não levava os dedos certos. Eu puxava as cordas de uma raspada só, com um dedo, o que tecnicamente era considerado errado. Mas, nesse sistema, embora errado, consegui tirar os acordes que sentia instintivamente".

O cinema atraía Dorival tanto quanto a música.

"Eu tinha cachaça por revista de cinema: Para Todos..., A Cena Muda, Selecta, Cinearte".

Gostava de ouvir música erudita, que escutava tocar nos pianos da família. Sentia-se inclinado sobretudo pela música de Debussy, Ravel e Bach. Começou a gostar de jazz e blues desde o final dos anos 20. Não tinha discos, mas os escutava em casa de amigos, já cativados pelos gêneros americanos. Nessa época, estava empolgado com o arranjo de Fredy Grove para Rhapsody in Blue, de George Gershwin, executada pela orquestra de Paul Whiteman.

SAUDADE DE ITAPUÃ

E aconteceu Itapuã. Um manancial de inspiração para o jovem compositor. Em 1931 não eram muitas as opções para se chegar na longínqua praia de Itapuã. Ia-se a cavalo. Os mais dispostos iam a pé. Mas havia o caminhão de seu Lisboa, um português que fazia o abastecimento das únicas casas comerciais da região, uma do seu Pio e outra do seu Chico.

"Fui pela primeira vez a Itapuã no caminhão de seu Lisboa. Era aquele paraíso, andava de canoa, via cardume. Aquele coqueiral e aquela quantidade de coco imensa. (...) Eu passei a amar o mar. Via a gente de lá com roupas simples, chapéu de palha, aquelas agulhas de tecer rede, tudo feito por eles mesmos. Fui me acostumando e vendo a poesia do mar, aquele processo de puxar rede, comer o peixe da hora, muito xaréu, porque o peixe congelado era considerado abominável na época".

 

A LAGOA

Diferente do imaginário solar da praia, a lagoa do Abaeté era povoada de mistérios e perigos. A origem do nome era indígena e o significado, 'lagoa tenebrosa', não dava margens a dúvida.

"O Abaeté ficou mais gravado em mim. As lavadeiras diziam que havia um baticum que se ouvia de noite, uma batida, que tinha lá um candomblé mal-assombrado debaixo da lagoa, e tinha bichos, fantasmas e coisas assim de histórias fantásticas para assustar crianças".

Com o tempo, foi ficando mais fácil chegar lá.

"Colocaram um ônibus aos sábados e domingos, o que garantiu o veraneio. A turma gostava de violão, de cantar as meninas cantavam muito  e a gente acompanhava, fazia aqueles choros, saía em noite de lua para a praia, namorando, brincando".

"Um pescador que nos conhecia nos convidava para sua casa e dizia 'deitem vocês aqui, tem umas esteiras, fiquem à vontade'. Eu dormia na varanda. Eu desconhecia tudo isso até meus 17 anos, essa vida rústica. Tudo que vivia fora dali era urbano".

Numa vez dessas, saiu um barco à noite.

"Eu era veranista e houve aquele burburinho, aquele movimento:

Óia, tá correndo o mau tempo lá fora.

De fato, houve um mau tempo com raios, trovões. Ninguém dormiu e eu também não, esperando o resultado. De manhã, um boato:

O barco de fulano virou e acho que morreu gente lá.

Até que veio a notícia. Levavam lençóis pra praia, pro lugar onde eu fui. Um corpo depois deu sozinho e o outro foi visto e arrastado pra dentro de um bote e trazido pra praia. Então foram dois dias de angústia no lugar e você sentia as dores das mulheres... dos velhos".

Transcrito (com adaptações) de:

Caymmi, o Mar e o Tempo. © 2001, Stella Caymmi. Editora 34.

Caymmi Som Imagem Magia. © 1985, Marília T. Barboza & Vera de Alencar. Fundação Emílio Odebrecht.

Imagens:

Os Absolutos da Bahia. Zezinho e Dorival, 1935. Autor desconhecido.

Dorival, Zezinho, violão e bandolim, 1935. Autor desconhecido.

Sereia. Dorival Caymmi. S.D.

Fonte das imagens:

https://www.jobim.org/