Pequenas Biografias: DORIVAL CAYMMI_o2

SOM IMAGEM MAGIA
O século XIX ia pelo meio quando o jovem italiano resolveu deixar a terra e tentar a vida no novo mundo. Enrico tinha vinte e poucos anos e conhecia as artes da construção civil. Era solteiro. Sonhava. Fora contratado para trabalhar no Elevador Lacerda. A viagem naquele tempo era longa, muito longa. Tão longa que Enrico Balbino Caymmi teve tempo suficiente para conhecer e até se apaixonar por Maria da Glória, moça portuguesa que também vinha para o Brasil. E foi assim, pelas portas do mar e conduzidos pelo amor, que o primeiro casal Caymmi tocou a Bahia de Todos os Santos. A velha Bahia envolvente começou, naquele instante, a preparar as mezinhas, a queimar ervas de cheiro e a chamar os orixás: mais duas gerações e seu poeta maior iria nascer. Só que era preciso um trabalho cuidadoso — como as velhas baianas envolvem de magia o ritual de preparo dos quitutes — para que tudo saísse perfeito. O filho de Enrico e Maria da Glória, um baiano de sangue europeu, de nome Henrique Balbino Caymmi, não é que foi amar e se casar com Saloméa de Souza, deusa baiana cheirando a cacau, de pele bem negra e olhar de mistério?
Henrique formou-se contabilista e trabalhava na Recebedoria de Rendas. Saloméa fora criada por família branca, da classe média baiana.
Dorival Caymmi recorda:
"Na casa de vovô Henrique e vovó Saloméa tinha um local com mobiliário nobre: era um quarto de santo enorme, com três consoles e uma grande mesa lateral, com três nichos muito bonitos, cheios de flores. Uma parenta distante, chamada Estefânia Rosado, era beata, encomendava defunto, puxava sentinela. Sentinela era o velório à noite, sem nenhum canto, só reza. O armador (papa-defunto) trazia uma capela (coroa de flores) e pendurava na porta da casa. O quarto de santo era tradição nas famílias católicas, não tinha nada com candomblé. Foi nesse ambiente que papai foi criado".

O pai de Dorival Caymmi era um belo mulato chamado Durval. O sangue europeu lhe correndo nas veias recebia afluentes do sangue africano e ele sucumbia ao canto das baianas, à atração das ruas, ao assovio dos valentes e aos capoeiras. Aquele Durval, sempre esporreteado, amante das festas de Largo, frequentava a Igreja Católica nas festas tradicionais e pedia bênção aos pais no Natal e na Semana Santa. Mas se diziam "estão batendo um candomblé aí, tem uma comida", lá ia pelos becos e vielas, atrás do som de atabaques, de Jubê e de Pulchéria, de Bernardino do Bate Folha, de Procópio e de Aninha. Era devoto de Xangô — São João e de Oxóssi — São Jorge.
A paixão pelas ruas da Bahia fez com que recusasse emprego de bom nível, na repartição onde o pai trabalhava, preferindo "cargo menor mas dentro das características de seu temperamento". Era fiscal em navios mercantes, posição que lhe permitia usar farda e revólver quando em serviço. Assim, no exercício da função, Durval podia usufruir da companhia de dois tipos que o fascinavam: as prostitutas e os marinheiros. E ficar perto do mar.
Durval gostou de Aurelina, chamada dona Sinhá, "mulher avançada para a época, de família de Salvador, com habilidades de enfermagem e costura". Casaram. Casa na Rua do Bângala, distrito da Palma, Salvador: o sobrado de dona Joaquina, mãe de Sinhá. Quatro filhos em seis anos: Deraldo (1912), Dorival (1914), Dinah (1916) e Dinahir (1918).
Com Enrico Balbino os Caymmi tinham entrado na Bahia; com Durval, a Bahia entrava nos Caymmi.
A HISTÓRIA (1)
Dorival nasceu em 30 de abril de 1914, na Rua do Bângala. Foi o segundo filho de Durval Henrique Caymmi e de Aurelina Soares Caymmi, a dona Sinhá.
Mais ou menos aos seis meses era uma criança linda. Foram morar no Campo da Pólvora.
"Onde eu gatinhei até ficar em pezinho".

Na casa ao lado morava Zózimo, um alfaiate de apelido Zozó. Calçada larga, Zozó botava a máquina de costura na porta de casa, costurava na calçada mesmo.
O menino Dorival atravessava a praça e ficava encantado vendo Zozó costurar.
A primeira visão do mar, foi no Rio Vermelho, na casa de tia Pipi, irmã de dona Sinhá:
"Eu queria ver o mar, subi num monturo para alcançar o muro. Cortei o pé num caco de vidro".
Jardim de Infância com a prima Adalgisa. Altos e baixos, temperamentos fortes, brigas frequentes, explosões de alegria, o dia-a-dia da família Caymmi.
"Eu me vejo sempre desde muito cedo ligado com música. Tínhamos em casa violão, bandolim e, em casa dos meus avós, piano. Meu pai, além de cantar, tocava violão. E piano. As músicas cantadas na época, tenho certeza de que se cantava de Catullo da Paixão Cearense a Chiquinha Gonzaga. Os números que eu me lembro de minha mãe e meu pai cantarem, eram desses autores e até música de Ernesto Nazareth, não só tocadas nos instrumentos, mas também cantadas por meus pais, tios".
Um dos números preferidos de dona Sinhá era a modinha Eulina, de Catullo. Ela a entoava com sua bela voz "mais para contralto":
(...) Quando o bisavô de Dorival chegou, vindo da Itália para trabalhar na construção do elevador hidráulico, Salvador já possuía 130.000 habitantes. A obra foi inaugurada em 8 de dezembro de 1875, dia de Nossa Senhora da Conceição, recebendo por esse motivo o nome de Elevador da Conceição.
Só mais tarde foi eletrificado e recebeu o sobrenome do construtor, Antonio de Lacerda, que gastou na obra a fortuna pessoal herdada do pai, ficando na ruína.
Enrico Balbino Caymmi, construtor civil, chegou a Salvador no governo do Visconde de S. Lourenço, época em que se realizavam importantes trabalhos de drenagem nos terrenos baixos em torno da cidade, construíam-se os paredões que limitam a Ladeira da Montanha, introduziam-se os transportes coletivos de tração animal e construíam-se os arcos para facilitar a ligação entre os bairros. Foram também dessa época a expansão ferroviária até Juazeiro e o caminho de ferro ligando o Campo Grande ao Rio Vermelho.
A HISTÓRIA (II)
Casa de tia Pipi, Rio Vermelho, bem na Ladeira do Papagaio. Além da primeira visão do mar, foi lá também que o pequeno Dorival surpreendeu-se com a beleza plástica do jogo de futebol: "um grupo muito colorido se movendo em cima de campo verde. Predominavam o vermelho, o verde, o preto e o branco".
Nova mudança, para a Rua Direita da Saúde. Casa simples, de cuja lembrança só restaram "talhas e porrões, os depósitos de água da minha infância". A permanência mais longa. Foi nessa rua que nasceu Dinahir, a irmã caçula, de apelido 'a francesinha'. Lá viveram nove anos.
"Eu me lembro do dia do parto de mamãe. Quem fez foi dona Quinquinha, parteira antiga da família, que aparou papai e nós todos. Morava na Quitandinha do Capim. Quando eu saí da Bahia, antes de vir para o cais, fui me despedir de dona Quinquinha".
A vida da família se marcava não pelos relógios, mas por costumes ancestrais. "A hora da missa, a hora da ladainha, o rosário". Vida aparente calma. Só nas aparências.
"Meus pais brigaram forte duas vezes, chegando a se separar. Na primeira vez, a separação durou dois meses. Ela foi ser dama de companhia numa família e ele ficou conosco. Para termos melhores condições de atendimento, papai nos levou para a casa de dona Menininha e seu Misael Nascimento, na Rua do Alvo. O casal tinha quatro filhas mais velhas, que cuidavam de mim e de meus irmãos. Mas, como eu disse, essa situação só durou dois meses. Findo esse tempo, papai já estava de novo com mamãe, misteriosamente".
Para evitar o diz que diz dos vizinhos, mudaram reconciliados para a Ladeira do Carmo n.º 35. Era fim do ano de 1923. Aí, Dorival se fez homem.
"Em 1925 eu fiz primeira comunhão. Me lembro das platibandas das casas muito cuidadas, das calhas por onde a água da chuva escorria. Das meninas brincando de roda, as vozes como acordes de quatro notas, uma oitava acima. Até hoje eu harmonizo aquelas vozes. Foi por aí que Zezinho entrou na minha vida. Zezinho é aquele companheiro de infância, inesquecível. Menino da minha idade, filho de gente simples, de moradia desumana, só tinha claridade na sala de visitas. Eu morava no 35 e ele no 32 da mesma rua. Zezinho era filho de seu André. Eram seis irmãos: Antoninho, Celina, ele, Bárbara, Luiz e Mariinha. Eu estudava no Colégio Olímpio Cruz, e ele no Colégio Público da Ladeira do Pelourinho. Era um moleque de rua. Foi com ele que passei aquela fase da vida de menino para homem".
Além do encontro com Zezinho, o maior e mais efetivo de todos os amigos, esse período marcou-se pelo encontro com outro amigo, do qual Dorival jamais se separou. O amigo violão.
Pois foi por aí que Dorival começou, sozinho, a procurar os sons e a tocar, depois, com um dedo só, no primeiro traste do violão. Experimentou cantar Tatu Subiu no Pau. Não deu. Aí, Durval chegou e o ensinou a completar a primeira... (tônica de Dó maior) e a segunda (sol 7) de Dó. Foi lindo!
Tatu subiu no pauÉ mentira de você
Isto sim que pode ser
O aprendizado se completou com o tio Cici (Alcydes Soares), irmão de dona Sinhá, um bom violonista.
Enquanto Dorival ia aprendendo violão e Zezinho, bandolim, a vida da família mais uma vez sofre o impacto: a segunda separação de Durval e dona Sinhá.
"Papai tinha uma 'escrita' na rua. Mamãe tinha um temperamento forte. Ela causava um certo olhar de inveja às outras mulheres, que diziam:
— Sinhá é que sabe!
E sabia mesmo. Nessa separação, ela, que já tinha aquela ideia de não ser pesada à família, arranjou um emprego numa maternidade. Era uma espécie de administradora. Algum tempo depois, voltaram a se reconciliar".
Dona Sinhá tinha duas irmãs: tia Pipi (Maria da Piedade), então morando na Rua São Raimundo, e tia Vivi (Fredesvinda), morando na Ladeira da Poeira. Duas velhas negras baianas, siá Inocência e siá Teresa, eram agregadas das três irmãs. Eram as 'mulheres de saia, assim chamadas por ainda usarem os mesmos trajes das parentas africanas do passado, torso na cabeça, saia comprida engomada, anáguas, bata branca de renda, pano da costa, colares. Quando mais tarde Dorival compôs O Que É Que a Baiana Tem?, certamente se inspirou na lembrança das velhas que chegavam mastigando dandá e falando:
— Oi, dona Sinhá. Hoje eu tô batendo coxia. Cheguei cedo, que visita de velho é de manhã. Vim dar uma mãozinha. Ontem eu tive na casa de iá Cuncum".
Iá Cuncum era dona Joaquina, mãe de dona Sinhá.
Era uma fala bonita, toda cheia de segredos. Expressões que o menino Dorival não entendia bem, mas o deixavam fascinado:
— Tomar uma buginginha!
— Tomar uma pura!
— Levar um dinheirinho, comer uma coisinha...
— Trouxe uma latinha, trouxe o mocó...
Ao se moverem pela casa, ficava tudo impregnado do cheiro das ervas, da alfazema, o patchouli exalando dos corpos e das roupas das velhas baianas.
Para curar dor de cabeça, usavam passar na fronte folhas de guiné. Do lado do pai, Durval, mais duas negras, siá Fausta e siá Afra, completavam o quadrilátero dentro do qual o menino-poeta recebia as radiações negras da cultura africana, que tão bem repassaria na magia dos versos, na suavidade das melodias e das telas nascidas do seu talento.
Quando uma criança ficava doente, Durval trazia o médico, dr. Carlos Lopes. Dona Sinhá, contraditoriamente, é quem chamava o rezador. O mulato Estêvão chegava de terno, colete, chapéu coco cobrindo a carapinha branca, e sapato polido. Curava tosse convulsa, espinhela caída e mau-olhado.
"Tudo isso tirando do bolso do colete aquele raminho misterioso".
Nas casas das famílias da Bahia era comum o encontro de um padre com uma rezadeira. Sinhá, entretanto, não se conformava com o fato de Durval viver sempre com 'aquela gente'. Dizia:
— Você vive metido na casa de Pulchéria!
Pulchéria era mãe-de-santo, tia legítima da famosa Mãe Menininha do Gantois. As advertências da mulher em nada modificavam a conduta de Durval Henrique Caymmi. Suas demoras na rua eram cada vez mais longas.
Em 1928 aconteceu a separação definitiva do casal.
"Nós ficamos com papai, e mamãe foi para a casa do irmão caçula, tio Nonô. A casa desse irmão era uma verdadeira babilônia, de tantos agregados".
Enquanto isso, o homem ia nascendo dentro do menino Dorival. A descoberta das meninas do colégio, Zuleika e Ivone, Vera e Ruth.
"Eu encontrei e conheci tudo isso e, anos mais tarde, coube tudo na Marina".
Transcrito (com adaptações) de:
Caymmi Som Imagem Magia. © 1985, Marília T. Barboza & Vera de Alencar. Fundação Emílio Odebrecht.
Imagens:
Caymmi. Divulgação TV Brasil.
Caymmi aos seis meses. Autor não identificado. 1914.
Baianas. Dorival Caymmi, 1966. Coleção particular de Radamés Gnattali.
