Pequenas Biografias: DORIVAL CAYMMI_o4
PELAS RÁDIOS DA BAHIA
A mais nova mania de Dorival e Zezinho era o rádio, a grande novidade tecnológica da época. Uma tarde, perambulando pelas ruas de Salvador, deram com um sobrado na avenida Sete, onde uma tabuletazinha indicava: Rádio Clube da Bahia. Avistaram uma escada e, não resistindo, subiram. Encontraram um rapaz de estatura mediana, muito gentil, chamado Vivi, que se apressou a mostrar as instalações simples da emissora.
"Na sala tinha apenas um microfone de pedestal e uns armários. Numa outra, tinha uma discoteca, uma coisa desarrumada, já é o feitio de rádio. Vivi mostrou aquilo tudo e de repente disse assim:
— Vocês fazem alguma coisa, cantam?
Zezinho, que não queria cantar, disse:
— Cante você, Dorival".
Como não havia gravador na época, Dorival não tinha a menor ideia de como era a sua voz.
— E aí, gostou?, perguntou a Zezinho.
— Sua voz é igual à do Francisco Alves, garantiu empolgado o amigo.
Vivi não cometeu os mesmos exageros, mas convidou-os para que voltassem no domingo.
*
Volney de Barros Castro, o dono da emissora, um sulista loiro, meio estrábico, era um capitão do Exército, apaixonado por rádio. Era um patriota, e tinha sempre uns pequenos textos de exaltação ao Brasil e coisas do gênero, que fazia veicular pela rádio. Ele mesmo os lia, pois não havia locutor na Rádio Clube. Aliás, como bem lembra o compositor, era ele para tudo.
"Ele corria para lá e botava o disco e corria para o microfone".
A partir daí, ir à rádio virou uma cachaça. Todos os domingos, Dorival estava lá, levando outros amigos.
"Todo mundo que tinha uma habilidadezinha vinha se encostando para cantar no rádio. A família ouvia em casa e dava opinião: 'você estava ótimo!', 'você não foi tão bom assim'. Uma graça!".
Num domingo, Dorival foi acompanhado ao piano por Mendel Azoubel, um pernambucano de passagem por Salvador, que lhe confidenciou que iria partir para o Rio de Janeiro no navio que se encontrava atracado no cais. Foi uma primeira semente que despertou no jovem o desejo de fazer o mesmo.
Dois outros acontecimentos marcaram Caymmi naquele comecinho dos anos 30. O filho de seu Damião e dona Fininha, vizinhos do compositor, um estudante de Medicina, ao ouvi-lo cantar em casa, levou-o à casa da professora de canto Amanda Costa Pinto, que morava em Brotas, um bairro de Salvador. A professora classificou a voz de Caymmi como baixo-cantante e o convidou para participar das três missas solenes que aconteciam anualmente na Igreja da Conceição da Praia, em maio, mês de Maria.
"Fiquei impressionado quando ela disse aos outros: 'a voz desse menino dá para o Kyrie direitinho'. Foi assim que nas três missas eu solei o Kyrie".
Dorival chegou a ter dois meses de aula com Amanda Costa Pinto.
"Aprendi a usar a voz, a respirar, inspirar, valorizar as palavras, noções que depois eu tentei aperfeiçoar sozinho".

O segundo acontecimento, Dorival Caymmi compartilhou com Zezinho. Foram juntos ao Teatro Jandaia assistir a Carmen Miranda, em temporada na cidade. Carmen cantava entre duas sessões. A temporada aconteceu em setembro de 1932 e a cantora vinha na esteira do estrondoso sucesso de Pra Você Gostar de Mim, de Joubert de Carvalho, mais conhecida do público como Ta-hí, que a tornou famosa no Brasil inteiro, a partir do lançamento da marchinha em 1930.
Como não havia microfone, Carmen, que tinha uma voz pequena, não foi aplaudida à altura do que merecia. Tanto que ela convocou Almirante às pressas, que veio do Rio para salvar a temporada. Ele veio, fez umas graças no palco, tocou pandeiro, cantou com ela...
PAUSA PARA ESCLARECIMENTOS
Segundo uma história contada por Almirante, e depois muito repetida [inclusive por Caymmi, que a contaria à neta Stella que, por sua vez, a registraria em O Mar e o Tempo] a estreia no Jandaia teria sido um desastre: o teatro era um poeira; não havia microfone; a acústica era péssima; e a plateia, muito grossa, infernizara Carmen durante o espetáculo, aos gritos de "Rebola! Rebola!". Diante disso — continua Almirante —, ela suspendera a temporada e mandara um telegrama para ele no Rio, convocando-o a ir salvá-la e a dividir o show com ela, cantando emboladas e contando piadas. Almirante teria tomado o primeiro vapor, passado fome na viagem (embarcara com pouco dinheiro) e chegado a tempo de Carmen reestrear o show no dia 26 de setembro, segunda-feira, dando início a uma temporada de sucesso.
É difícil saber como nascem certas lendas — e essa é uma história mal contada em toda linha. Entre outras coisas, o Jandaia não era um poeira. Na verdade, era um teatro de luxo, novo em folha, inaugurado um ano antes. A falta de microfones era normal na época, donde a acústica era planejada de acordo. É possível que, num teatro daquele tamanho (2260 lugares), a voz de Carmen não chegasse bem a certos setores da plateia e, justamente desses — as galerias, onde ficavam os estudantes universitários, de pé e sem pagar —, partissem gritos de "Rebola! Rebola!". Mas seria essa uma crise com que a tarimbada Carmen não soubesse lidar? O importante, no entanto, não é isso. É a participação de Almirante.
Muito antes do início da temporada, o jornal A Tarde já anunciava a presença de Carmen e de Almirante em Salvador para uma série de shows no Jandaia. O anúncio, falando de ambos, saiu diversas vezes. Ou seja, Almirante iria de qualquer maneira. A estreia, marcada para o dia 24, foi transferida para o dia 26 e, segundo todos os jornais, lá estava Almirante ao lado de Carmen. Em nenhum jornal baiano do período se lê sobre uma estreia desastrada no dia 24. Mas, supondo que tenha havido, como seria possível a Almirante, no Rio, receber um telegrama nesse dia, embarcar correndo e chegar a Salvador menos de dois dias depois? A resposta, levantada pelo pesquisador baiano Waldir Freitas Oliveira nos arquivos de A Tarde, é simples: Almirante perdeu o vapor em que deveria ter embarcado com Carmen no dia 14, e o navio seguinte deve ter levado dois ou três dias para sair. Donde Carmen chegou a Salvador no dia 20, e Almirante não conseguiu chegar antes do 24. E só por isso a estreia passara para o dia 26. Enfim, nenhum mistério, exceto o de que a memória de Almirante, sempre tão acurada, lhe faltou nesse episódio.
Transcrito de: Carmen, Uma Biografia. © 2005 Ruy Castro. Companhia das Letras.
No palco, acompanhando Carmen desde o início da turnê, que a levaria ainda a Pernambuco, estavam o violonista e compositor baiano — e seu descobridor —Josué de Barros com o filho Betinho (Alberto Barros), também violonista. Caymmi recorda a música que mais gostou na apresentação de Carmen. Foi a marcha de carnaval Goodbye, de Assis Valente, que seria sucesso no ano seguinte.
Dorival e seus amigos frequentavam a Guarani e a Milano, as mais importantes casas de música de Salvador, em busca das novidades que vinham do Rio. Assim, quando as rádios divulgavam a canção, eles já a estavam cantando. Além da Rádio Clube, Dorival participava de programas na Rádio Comercial e na Rádio Sociedade. A Rádio Comercial era dirigida por um pernambucano, conhecido como dr. Lyra, que costumava realizar sorteios, porque sabia que isso atraía o público.
"Ele tinha uma máquina de bater palma curiosíssima, era de folhas de couro. A gente acabava de cantar e ele corria lá depressa e metia a mão na manivela da máquina e dava a impressão que tinha gente aplaudindo: taca-taca-taca. Eu sempre sonhei em ser herdeiro daquela máquina de bater palma".
A Rádio Sociedade da Bahia, por ser do Estado, tinha melhores condições. Na sua programação havia concertos, cantores amadores, meninos prodígios e anúncios.
"O primeiro anúncio de Toddy foi feito nessa estação, nos anos 30, numa pergunta assim:
— 'Toddy, o que será Toddy?'.
Então ficou um tempo essa pergunta no ar".
Esganados, Caymmi e seu grupo iam às três rádios no mesmo domingo.
"Foi quando surgiu a ideia de montar um conjuntinho para o carnaval, o Três e Meio, à maneira do Bando da Lua. A gente fazia o treino, organizava o repertório".
O Três e Meio cantava o repertório de Francisco Alves, Carmen e Aurora Miranda, Aracy de Almeida, Aracy Cortes, Noel Rosa, Sylvio Caldas, Luiz Barbosa, Moreira da Silva, além de versões de canções americanas.
"Zezinho, no cavaquinho, Deraldo, no tambor, e eu, no violão, formávamos o Três e Meio. O meio era Luiz, o irmão menor de Zezinho, que fazia o ritmo no pandeiro".
Caymmi fazia planos. Queria terminar o ginásio interrompido no Colégio Olímpio Cruz e em seguida pretendia fazer os exames preparatórios para ingressar na Faculdade de Direito. Mas não conseguiu vaga no Ginásio da Bahia. Foi em meio a essa incerteza que seu primo Luiz Rosado tirou da cartola o que parecia ser a solução.
"Ele e meu pai me estimularam a fazer um concurso para escrivão da coletoria de impostos em Irecê, no interior".
Prestou o concurso em 1936, passou em segundo lugar e ficou aguardando a nomeação.
Para garantir o dinheiro do fim do mês, foi nas águas de Zezinho e resolveu entrar para o comércio.
"Ele era vendedor nato. Eu era otário, não tinha jeito para vender. Então, tocou a mim vender fio, cordão para amarrar embrulho, na venda, na padaria. Quando eu ia oferecer, eles diziam assim: 'não interessa'. Eu não tinha bossa para oferecer".
Zezinho, que, pela própria natureza de vendedor, era insistente, ofereceu:
— Quer experimentar vender um negócio para a firma Bandeira Duarte?
"Era bebida, mas uma bebida visivelmente falsificada. O dono fazia imitação no rótulo para enganar os otários. Foi isso que estourou na minha mão para vender".
Insatisfeito com a carreira recém-começada, assim que encontrou Zezinho, trataram de se consolar bebendo o mostruário.
O jovem Caymmi ainda tentou a vida pintando tabuletas para o comércio, mas isso tampouco vingou.
O fato é que não havia mais nenhuma perspectiva de trabalho em Salvador para ele. Desempregado, a única luz no fim do túnel era ser nomeado para o serviço público em Irecê. Mas a situação era desanimadora. Ao cabo de dois anos de espera, já não via mais razões para acreditar que seria nomeado.
O desejo de ir para a Capital Federal ganhava cada vez mais força.
Procurou seu pai, que teve dúvidas em deixar o filho partir. Durval sabia que em Salvador as possibilidades de trabalho eram poucas, mas mesmo assim relutava. Resolveu dividir com a mulher, de quem estava separado havia onze anos.
— Pé que não anda não dá topada, Durval, aconselhou Sinhá, dando sinal verde para a viagem.
Decisão tomada, a questão que se colocava era de natureza prática. Durval precisava arranjar dinheiro para o filho se manter nos primeiros meses e não sabia de onde tirar. Comentou com um colega de repartição, bem mais moço que ele, sobre suas dificuldades. Não acreditou quando, dias depois, o rapaz contou que seu sogro emprestaria o dinheiro de que precisava. Coisas do destino. O céu parecia — ou seria o mar? — querer Dorival Caymmi no Rio de Janeiro.
José Brito Pitanga, sobrinho de Vivi (Fredesvinda Soares), irmã de Sinhá, que morava no Rio de Janeiro, foi avisado para receber e tomar conta do primo na cidade.
"Houve um certo silêncio, um temor entre as mulheres da família. Despedidas daqui e dali. Fui me despedir da parteira que me trouxe ao mundo, dona Quinquinha. Dona Quinquinha debruçava na janela, velhíssima, vetusta, aquela figura:
— Dona Quinquinha, sou eu, filho de Sinhá com loiô, digo eu.
— Ah! Meu filho, o que é que foi?, ela perguntou.
— É que eu estou indo morar no Rio de Janeiro, expliquei.
— Ah é? Então que Deus te acompanhe!".
Embarcou no dia 1 do mês de abril, o dia da mentira. Deve ter sido por isso que, excetuando Zezinho, nenhum amigo apareceu, pensando que fosse piada. Levava a mala e o violão bem embrulhado, disfarçado para não comprometê-lo. Durante a despedida, seu pai deu-lhe um presente para ser aberto no navio e um sem número de recomendações. De Zezinho, o amigo de todas as horas, ganhou o livro Três Poetas de Sua Vida, de Stefan Zweig, para ler durante a longa viagem de três dias até a Capital. Se naquele instante lhe revelassem que da próxima vez que pisasse em solo baiano seria na condição de um compositor famoso e respeitado, certamente devolveria entre gargalhadas:
— 1º de abril!
A bordo do navio Itapé, Caymmi não enjoou. Quando abriu o presente do pai, a surpresa: uma caixa de charutos. Riu. Pensou que ele não soubesse que fumava.
No navio, dividiu o tempo lendo, chupando laranja e sondando o destino sobre seu futuro. Pensava que faria 24 anos dali a poucas semanas. O que viria a seguir, ninguém sabia. Não tocou no violão, que precisava chegar disfarçado ao Rio. Não adivinhava que naquele humilde embrulho estavam todas as respostas...
"E por fim a esperança, que é a meninice do mundo".*
Transcrito (com adaptações) de:
Caymmi, o Mar e o Tempo. © 2001, Stella Caymmi. Editora 34.
Imagem:
Conjunto Três e Meio, ensaiando no quintal. Deraldo (surdo), Zezinho (bandolim), Luiz, o "Meio" (pandeiro), Caymmi, segundo à esquerda, agachado (violão) e mais quatro companheiros. Autor desconhecido, 1935. jobim.org
Durval, pai de Dorival Caymmi. Autor: Não identificado, 1907. jobim.org
* Esaú e Jacó. Machado de Assis (citado por Stella Caymmi).

