Pequenas Biografias: DORIVAL CAYMMI_o5

O baiano Dorival Caymmi, fininho, moreno e sestroso, foi levado à casa de Carmen por Almirante. Era outubro de 1938, domingo, noite de primavera. Carmen os recebeu de plataformas, short cavadinho nas virilhas, camisa amarrada na cintura e um lenço colorido na cabeça. Nenhuma maldade nisso. Era como andava pela casa e recebia todo mundo — repórteres, fotógrafos, compositores, amigos. Os menos habituados a pernas de fora e a um naco de barriga deviam desejá-la em sofrido silêncio; mas Caymmi tinha 24 anos, era moleque de praia na Bahia e diria depois que, naquele dia, só enxergara nela "a estrelíssima". Presentes também, na casa de Carmen, outros dois famosos: Aloysio de Oliveira, do Bando da Lua (que, Caymmi ouvira dizer, era o "namoradinho dela"), e Braguinha. Nitidamente não estavam ali para jogar buraco.
Carmen mandou Caymmi sentar-se e pediu-lhe que cantasse O Que É Que a Baiana Tem?.
Caymmi pegou o violão e começou:
Carmen nem o deixou acabar:
— Batatal, Almirante. É muito melhor do que no disco!
Que disco? O Que É Que a Baiana Tem? nunca saíra em disco!
Nenhum dos presentes ainda havia contado a Caymmi, mas seu samba era a música de que estavam precisando desesperadamente na Sonofilms para o longa metragem que iam começar a rodar.
O filme, Banana da Terra, era um musical carnavalesco na linha de Alô, Alô, Brasil! de 1935 e Alô, Alô, Carnaval! de 1936, ambos produzidos por Wallace Downey, proprietário da Sonofilms.
Braguinha e Mário Lago, autores do roteiro, certificaram-se de que Banana da Terra contaria a história mais bisonha possível: uma monarquia fictícia, a ilha da Bananolândia, produz mais bananas do que consegue comer; o primeiro-ministro (Oscarito) sugere que a rainha (Linda Batista) venha ao Brasil para vender o excesso; ela chega ao Rio em pleno Carnaval e... Downey não queria nem saber. O que importava era o repertório musical.
Para Banana da Terra, ele já garantira, além de bons sambas, a posse de boas marchinhas e intérpretes, como Menina do Regimento, com Aurora Miranda; A Tirolesa, com Dircinha Batista; e uma que prometia ficar para sempre, A Jardineira, de Benedito Lacerda e Humberto Porto, com Orlando Silva.
Acima de todos esses, os dois principais números, com caprichos de Hollywood na produção, seriam Boneca de Piche, de Ary Barroso e Luiz Iglesias, com Carmen e Almirante, e Na Baixa do Sapateiro, também de Ary, só com Carmen. Com boa parte da produção já encaminhada, Downey calculava que poderia acabar de filmar tudo em um mês.
Só que, de repente, sem um muxoxo prévio e sem nada que fizesse prever tal atitude, Ary Barroso mandou dizer que, para assinar o contrato autorizando o uso de suas duas composições no filme, queria cinco contos de réis por cada uma.
Não adiantaram os telefonemas de Carmen e de Braguinha, a pedido de Downey, para dissuadir Ary. Ele não arredava pé. Dez contos de réis equivaliam a perto de quinhentos dólares, muito arame em 1938. Downey, habituado a conseguir as músicas na bacia das almas, parecia apoplético: não fora isso que combinara com Ary semanas antes. E não fora mesmo — mas, então, Ary talvez ainda não tivesse se tocado para o fato de que, uma vez 'cedida' para uso no filme, a dita composição se tornava propriedade do produtor, e ia fazer a América por conta própria. Assim, para garantir um mínimo de retorno financeiro no caso de suas obras baterem asas, Ary resolvera pedir alto de saída. Se Downey pagasse, ótimo; se não, que fosse para o diabo.
Downey não pagou, Ary não cedeu as músicas, e abriu-se um rombo na produção de Banana da Terra — porque os cenários para os dois números já estavam prontos e os figurinos e a maquiagem, decididos. Em Boneca de Piche, Carmen apareceria de 'nega maluca', com vestido e lenço quadriculados, e Almirante, de jaquetão branco e chapéu-coco, ambos em blackface, num cenário tipo 'senzala'. Em Na Baixa do Sapateiro, o cenário era uma rua da Bahia, com lua, casario e coqueiros, e Carmen estaria usando uma baiana estilizada. Mas, sem as canções de Ary, o que fazer?
A primeira foi fácil: no lugar de Boneca de Piche havia a marchinha Pirolito, que Alberto Ribeiro e Braguinha tinham acabado de compor para o Carnaval. Sem muito esforço, ficaria bem no cenário da 'senzala'. Mas, e a do cenário 'baiano'? Nesse caso, foi Alberto quem salvou o dia: acabara de ouvir pela Rádio Transmissora um samba, O Que É Que a Baiana Tem?, pelo próprio autor, um sujeito de voz grossa chamado Caymmi. Era tiro e queda. Braguinha consultou Almirante e este deu seu aval: conhecia o samba e o sambista, e ambos eram bons.
Uma minioperação de guerra foi montada. O compositor Newton Teixeira, autor de Errei... Erramos, amigo de Braguinha e Alberto, e já por dentro da história, perguntou a Caymmi se ele não queria ouvir "sua voz gravada". Caymmi disse que sim, queria muito. Newton o levou ao estúdio quase deserto da Sonofilms no sábado e fez-se a gravação, tendo de um lado O Que É Que a Baiana Tem?. Caymmi pediu, mas inventaram uma desculpa e não lhe deram o disco. Sem que ele soubesse, a cópia única foi mandada no mesmo dia para a casa de Carmen — que a ouviu e não gostou, pelo excesso de langor no andamento escolhido pelo cantor. Mas aceitou que Almirante levasse o rapaz à sua casa na noite seguinte.
Ao vivo, cantado por Caymmi, o samba caiu-lhe muito melhor. Carmen achou-o 'batatal' e começou a ver as possibilidades de sua interpretação. Caymmi explicou-lhe o significado de certas referências da letra. O torço de seda era o turbante; o pano-da-costa, o xale.
Quando Caymmi e os outros foram embora, por volta da meia-noite, estava decidido que O Que É Que a Baiana Tem? entraria no filme em lugar de Na Baixa do Sapateiro, e que Caymmi participaria da gravação do playback, além de assessorar Carmen na produção da fantasia e dirigir sua coreografia durante a filmagem do número. Tudo isso pela eloquente quantia de cem mil réis — cinco dólares —, a serem pagos à vista ao senhor Dorival Caymmi na assinatura do contrato. Um valor cinquenta vezes menor do que Ary Barroso pedira para autorizar cada música. Mas nada de contar isso a Caymmi, recomendou Downey: o que ele não soubesse não lhe podia fazer mal, e o problema de Ary não era da conta dele.
Dois dias depois, com Caymmi e Almirante no coro, Carmen gravou na Sonofilms o playback de O Que É Que a Baiana Tem?, usando uma roupa comum, e Caymmi lhe ensinando as impostações — porque a fantasia que ela vestiria no filme ainda não existia. Mas estava por pouco.

Carmen imaginava uma baiana tal qual a descrita por Caymmi, inspirada na roupa que, desde os primórdios, as negras e as mulatas da Bahia usavam para acompanhar procissões ou vender quitutes nas ruas.(...) uma postura municipal carioca do século XIX exigia que elas só podiam trabalhar nas ruas como quituteiras se mantivessem suas roupas de baiana absolutamente alvas.
A venda de cocadas e acarajés costumava ser apenas a fachada legal dessas senhoras gordas e joviais que, na verdade, eram as líderes religiosas de suas comunidades nos entornos da Praça Onze. Essa religião, naturalmente, era o candomblé. Mas elas eram também as animadoras dos sambas e choros que se tocavam em suas casas. Quando as escolas de samba foram fundadas, em fins da década de 1920, as baianas foram das primeiras a formar uma ala e conquistar o seu lugar nos desfiles — ala essa oficialmente obrigatória desde 1933. E a baiana como fantasia — uma bata de algodão, uma saia de renda, alguns colares e pulseiras de pedraria e um turbante, com ou sem a cestinha de frutas de cera — já existia havia muito entre as moças da classe média no Carnaval.
Por ser uma fantasia simples, e que podia ser feita até de chita, a baiana não era bem recebida nos bailes de gala do Carnaval. Daí que as atrizes, ao usá-la em seus números 'baianos' no teatro de revista e nos cassinos, tivessem de estilizá-la, para que parecesse mais luxuosa. E isso não começou com Carmen, mas muito antes. A primeira baiana estilizada de que se tem notícia no teatro de revista foi a da estrela Pepa Ruiz — em 1892. E, desde então, as baianas nunca saíram do palco. As duas maiores atrizes de seu tempo as usaram: Ottilia Amorim, desde 1926, e Aracy Cortes, desde 1928. Em 1933, as baianas pareciam tão integradas à paisagem teatral carioca que o filme Voando para o Rio (Astaire e Rogers, lembra-se?) mostrava um coro delas no show do Copacabana Palace. Elisinha Coelho usou uma no Cassino da Urca, em 1935; Heloísa Helena vestiu outra, para cantar a marchinha Tempo Bom, dela e de Braguinha, no filme Alô, Alô, Carnaval!, em 1936; e, no mesmo ano, a mulata Déo Maia exibiu a sua, dizem que lindíssima, ao cantar No Tabuleiro da Baiana com Grande Othelo na revista Maravilhosa!, de Jardel Jércolis. Não seria por falta de baianas que o mundo acabaria naquela época.
A baiana de Banana da Terra foi a primeira de Carmen e uma criação dela própria, seguindo o figurino da letra de Caymmi. E o que é que essa baiana tinha? Tudo que a letra dizia, mas foram os toques pessoais de Carmen que fizeram a diferença.
Os penduricalhos, assim como a cestinha de frutas, foram comprados por Carmen, com assessoria de Caymmi, na já veneranda Casa Turuna, especializada em fantasias para o teatro e para o Carnaval, na avenida Passos. Mas o importante é que, pela primeira vez na saga das baianas estilizadas, surgiam os balangandãs.
Carmen filmou os dois números de Banana da Terra em novembro. Por se ouvir a voz de Caymmi no coro de O Que É Que a Baiana Tem?, imaginou-se que ele fosse um dos rapazes de camisa listrada e chapéu de palhinha que assessoram Carmen em cena. Mas não era — aqueles eram dançarinos profissionais da Urca. O que Caymmi fez foi servir de 'ponto' para Carmen fora da câmera, fazendo os gestos com as mãos ao apontar para cada parte da roupa e ensinando-lhe outros dengos, como o de revirar os olhinhos.
Em Banana da Terra, Carmen inaugurou uma prática que nunca mais abandonaria: terminada a filmagem, conservou a baiana para usar em seus shows. E, pressentindo a força de O Que É Que a Baiana Tem?, dois meses antes de o filme ser lançado, resolveu incluir uma nova baiana em seu guarda-roupa.
Mas, dessa vez, encomendou-a ao versátil artista J. Luiz, como ele se assinava — ou Jotinha, para os amigos, como ela.
Jotinha era de sobrenome Borgerth Teixeira, família nobre no Rio, e morava com os pais numa mansão na rua Sorocaba, em Botafogo — não que eles aprovassem 100% suas opções profissionais. Foi um pioneiro da maquiagem no Brasil. Numa época em que pancake e rímel não existiam por aqui, Jotinha improvisava com pó-de-arroz, maquiava com guache, e aplicava Cilion, uma espécie de brilhantina. Os cílios postiços de suas clientes eram colados por ele um a um. Mas Jotinha era também pintor de retratos e figurinista da revista Fon-Fon, e foi nessa última condição que Carmen, com Caymmi, o procurou em seu ateliê, também em Botafogo.
Quando ela lhe pediu que desenhasse uma baiana, não imaginava que, sem querer, Jotinha iria abrir o caminho para todas as liberdades tomadas pelos estilistas que lhe sucederiam trabalhando com Carmen. Se se tratava de estilizar a baiana, Jotinha exorbitou, e fez bem. A bata e a saia foram feitas em material e cores diferentes. A saia era agora de veludo, com retalhos de losangos de várias cores, num eco modernista de Di Cavalcanti. O turbante começou a crescer, passando a acomodar duas cestinhas, e as frutas deram lugar a arranjos de folhas ou do que se quisesse. A palavra mágica eram os balangandãs: se eles existiam, tudo era permitido. A baiana tornou-se apenas um veículo para o que se quisesse pôr em cima dela.
Foi com a baiana de J. Luiz e uma maquiagem facial mais escura que Carmen se apresentou na Urca em fins de novembro, e recebeu de outro visitante ilustre — o astro do cinema Tyrone Power — a certeza de que, se tentasse a sorte em Hollywood, teria grandes chances de vencer. Quando Tyrone, com seus cílios do tamanho daquelas plumas que os núbios usavam para abanar, se levantou para dizer-lhe isso e lhe dar um beijo na face, a Urca inteira ouviu e tomou nota. Este, pelo menos, devia saber o que dizia. Afinal, era o galã número um da 20th Century-Fox e considerado o rosto mais bonito de Hollywood — incluindo os das mulheres.
Transcrito (com adaptações) de:
Carmen, Uma Biografia. © 2005 Ruy Castro. Companhia das Letras.
Imagem:
Frame de Banana da Terra. 1938.

