Pequenas Biografias: DORIVAL CAYMMI_o7

"Foi com grande satisfação que recebemos a notícia de 30, data do seu natalício, o telegrama do nascimento da nossa bonequinha. Ainda fiquei mais entusiasmada pelo prazer que você e a Stella me deram. De dar o meu nome à sua pequena. Foi uma grande surpresa para nós" (Dinahir, a irmã caçula, em junho de 1941).
Foi para a 'bonequinha', Dinahir Tostes Caymmi, a futura Nana, que o baiano fez Acalanto, que se tornaria a cantiga de ninar mais conhecida do Brasil quando passou a ser utilizada para encerrar as atividades diárias da Rádio Tupi e depois da TV Tupi.
Caymmi, impressionado com o desgaste de Stella com a neném, criou uma cantiga que a fizesse dormir para que a mãe pudesse descansar. Compôs a partir do motivo melódico repetitivo do Boi da Cara Preta e chegou a uma cantiga de ninar muito original, que embalaria gerações de brasileiros.
"Theófilo de Barros Filho foi quem sugeriu o título da canção".
Muitos anos depois, em setembro de 1952, contratado para se apresentar na festa do décimo aniversário de casamento de Maria da Graça e Benedito Anselmo Pierotti Filho, em Laranjeiras, Caymmi cantou Acalanto e a filha mais nova do casal bocejou no meio da apresentação.
"Eu me lembro que todos os convidados riram muito quando Dorival, ao terminar Acalanto, disse que essa era a intenção da música, causar sono", contava Graça Pierotti.
É Doce Morrer no Mar e A Jangada Voltou Só foram lançadas pela Columbia naquele 1941. É Doce Morrer no Mar nascera, um ano antes, parceria de Caymmi e Jorge Amado.
(...) "eu disse: Tem aí no Mar Morto uma citação de música que eu vou musicar".
No livro, além de "é doce morrer no mar", havia outros versos que foram aproveitados, "ele se foi afogar" e "nas ondas verdes do mar". Jorge ainda fez os versos:
Amado publicou, em março de 1941, seu novo livro, ABC de Castro Alves, com ilustrações de Santa Rosa, pela Editora Martins, e o dedicou aos amigos Dorival Caymmi, Otávio Malta, Samuel e Bluma Wainer. Uma grande homenagem e sinal de apreço.
No ano de 1941 o compositor ainda faria sucesso com dois sambas inéditos, interpretados pelo conjunto Os Anjos do Inferno: Requebre Que Eu Dou Um Doce e Você Já Foi À Bahia?, lançados num 78 rpm pela Columbia.

TURNÊ
Foi Almirante quem apresentou João Duma, proprietário da Ceará Rádio Clube, a Dorival, que foi então convidado para uma temporada de dois meses em Fortaleza. O contrato previa também quinze dias na Rádio Clube de Pernambuco.
Caymmi viu na viagem ao Ceará a oportunidade de dar a Stella a lua-de-mel que ela merecia.
Stella vai, mas vai dividida. Chora no navio com saudade da filhinha.
"Deixamos Nana, com 5 meses, sob a guarda de meus sogros, Dona Zulmira e Seu Candinho. Então fomos até Fortaleza, no Ceará, para ficarmos ali uns dois meses, em pleno movimento de guerra".
Em Fortaleza, uma festa! Foram recebidos euforicamente pela Mimosa Orquestra e hospedaram-se no Hotel Excelsior, na Rua Major Facundo. Tardes na Praça do Ferreira, farra, bebida, alegria e novos amigos.
Antes, porém, o navio atracou por dois dias em Salvador, dando a Caymmi a oportunidade de apresentar a esposa a seus pais, familiares e amigos, que não o viam desde 1938.
Stella, mãe de primeira viagem, inconsolável com o afastamento do bebê, queria voltar a todo custo. Cumprida a temporada em Fortaleza, seguiram para Recife. O navio ficaria parado no porto algumas horas antes de seguir para o Rio. Aí, Stella não aguentou mais: largou o hotel, despediu-se do marido e embarcou ao encontro da filha.
Caymmi levou-a ao cais. Despediram-se emocionados. Depois que Stella se foi, a viagem para Caymmi não foi mais a mesma. Saiu do lugar onde estava, que lhe trazia recordações da mulher, na intenção de se hospedar no Grande Hotel, cheio de oficiais americanos, completamente lotado. Ficou num bar, esperando vagar aposento, como lhe prometeram na recepção que aconteceria logo.
Mergulhado na saudade e na melancolia, foi trazido à tona, de repente, por um autêntico arrebatamento — um bloco, o Pão da Tarde, passava, ao som da mais esfuziante das bandas, arrecadando donativos para o carnaval. Das ondas do frevo, rodopiando com o estandarte da agremiação, emergia uma afrodite mulata, descalça, fazendo o passo, numa explosão de beleza plástica e rítmica a um só tempo.
A mulata virou a cabeça de Caymmi.
De Recife seguiu para Maceió, onde cantou em cinemas. Um bom dinheirinho.
Lá, terminou Dora, sucesso incrível. De Alagoas, seguindo para o Rio, o navio faria a habitual parada em Salvador. Seria possível não saltar?
O prefeito da cidade, Durval Neves da Rocha, patrocinou cinco programas de rádio com Dorival, dois deles realizados em praça pública. Wilson Lins, baiano de Pilão Arcado, jornalista e político, ajudou o prefeito.
Conta Wilson Lins:
"As festividades do retorno de Caymmi foram organizadas por mim. Promovi um recital no Guarani. Depois ele fez uma temporada na Rádio Sociedade. Veio passar uma semana, passou quatro meses. Quase não volta. Stella ficou assustadíssima. Ele foi recebido como um herói, fez shows em outros lugares, Feira de Santana. Havia um inspetor de caça e pesca, o Inspetor Tanajura, 'dono' das praias. Ele adorava farra. O Tanajura mandava nos buscar no táxi do Inglês, um crioulo que cobrava quinze mil réis para nos levar até Itapuã. O Inspetor Tanajura pagava tudo. Nessas farras tinha uma mulata linda, cor de mel, chamada Berenice, que andou sendo candidata a musa de Caymmi. Por coincidência foi aí que ele fez aquele samba, Doralice.
Os companheiros de Caymmi, antigos e novos, a participar dessas farras, eram intelectuais, literatos, políticos, gente importante mesmo. O [amigo de infância e adolescência] Zezinho, pobre, comprava sacos no Recôncavo para revender. Quando Caymmi voltou para o Rio, Zezinho continuou amigo de toda a 'inteligência' baiana. Aproveitou bem a oportunidade. Era um porreta".
1944
Nada, em termos profissionais, pode se comparar ao ano de 1944 na carreira de Dorival Caymmi. O barão Von Stuckart, diretor-artístico do Copacabana Cassino Teatro, do Copacabana Palace, telefonou-lhe marcando um encontro no hotel. O barão o queria como atração principal do espetáculo daquela temporada no grill-room do Cassino.
Caribé da Rocha, assistente do barão, tratava da parte financeira. Caymmi, se sentindo com força, fez seu preço:
"Eu só canto, Caribé, se me pagarem 1 conto de réis por dia e mais o táxi para me levar em casa".
Os preparativos para a produção de Jangadeiros — título do espetáculo cujo tema era centrado nas canções praieiras do compositor — tomaram todo o tempo de Caymmi. A casa colocou seu elenco fixo à disposição do artista: Carmen Costa, Quatro Ases e Um Coringa, Nuno Roland e Nelson Gonçalves, entre outros. Sem falar, é claro, das inúmeras coristas.
O espetáculo foi um enorme sucesso, com casa cheia todos os dias. O salário de Caymmi na Rádio Tupi pulou de 1.800 para 4.500 cruzeiros.
Foi nessa ocasião que Caymmi conheceu Carlinhos, jovem empresário da família Guinle. Segundo Stella, foi quando o marido caiu na esbórnia para valer. A mulher do compositor se refere 'carinhosamente' às moças que acompanhavam Carlinhos como "as putas internacionais". De fato, Carlinhos gostava das starlets, mas não mais que seu irmão, o playboy Jorginho Guinle. Caymmi recorda que enquanto Jorginho gastava o dinheiro, Carlinhos trabalhava e multiplicava os bens da família.
Mas, inegavelmente, o que uniu Carlinhos e Caymmi foi uma grande amizade. Tinham em comum, entre outras coisas, o amor pelo mar. Carlinhos se tornou o parceiro mais frequente em sua obra, junto com Jorge Amado, apesar das más línguas que concordavam com Stanislaw Ponte Preta quando dizia que na parceria Caymmi entrava com letra e música e o playboy com o whisky.
Anos mais tarde, Caymmi confessou:
"A verdade é que Carlinhos não fez nenhuma dessas músicas. Eu queria mesmo era homenageá-lo".
Para completar a maré de sorte de Caymmi, naquele ano de 1944 é lançado Serenata Boêmia (Greenwich Village), o sétimo filme de Carmen Miranda, nos Estados Unidos, pela Fox. Na película, a cantora interpreta mais uma vez O Que É Que a Baiana Tem?.
Aloysio de Oliveira animou-o com boas novas: o samba era um fenômeno nos Estados Unidos, sua baiana era uma febre, seus adornos influenciaram os costureiros da Quinta Avenida, e eram vistos espalhados pelas vitrines de Nova York.
"Uma das mais importantes lojas de Nova York, a Sacks Fifth Avenue, dedicou todas as suas vitrines aos lançamentos da moda baseada na baiana de Carmen" escreveu Oliveira em suas memórias. Acrescentou:
"E as joalherias passaram a criar pulseiras e colares de fantasia à la balangandãs".
PÁTRIA LEBLON
Em maio de 1945, Stella e Caymmi se mudaram para o apartamento 202 da rua Bartolomeu Mitre, 330, no Leblon. Finalmente, o compositor poderia aproveitar mais o mar do Rio de Janeiro. Nana tinha 4 anos e Dori era um bebê de 1 ano e meio. A vida no bairro era muito melhor e Stella podia conviver mais com os amigos de Caymmi.
A praia aproximava as pessoas, tornava tudo muito espontâneo. O casal convivia com uma turma grande e animada. Um amigo do peito era Antônio Maria.
O jornalista, em crônica de 9 de janeiro de 1952, escreveria sobre esse período de Caymmi no Leblon:
"Antigamente na pátria Leblon, uma das coisas melhores do mundo era ficar no Bar do Costa, o Clipper, e beber o scotch mais gostoso do mundo. Lá estava o Jimmy, quase sempre vinha o Rocha. Caymmi chegava e sentava ao lado. Era o melhor papo da margem do Atlântico".
O compositor fazia amigos com muita facilidade e cultivava uma erudição que não era comum encontrar num músico popular daquela época. Seu interesse por aprender e se informar não tinha limites. Além de pintar, lia, a ponto de manter uma conta com um livreiro do centro da cidade, que fornecia para ele o que havia de melhor. No bairro, teve oportunidade de conviver com personagens importantes do meio intelectual carioca.
Antônio Maria, no início de sua crônica Roteiro Leblon, escreveu:
"Se Caymmi não fosse preguiçoso como uma procissão, ninguém melhor que ele para escrever esta história".
Transcrito (com adaptações) de:
Caymmi, o Mar e o Tempo. © 2001, Stella Caymmi. Editora 34.
Imagens:
Caymmi e os amigos Carlos Guinle e Fernando Lobo, na Boate Casablanca, na Urca, Rio de Janeiro. 1952. jobim.org
Dora. Dorival Caymmi. Do portfólio assinado de próprio punho com 11 reproduções de desenhos do artista com textos de Carybé. Álbum editado pela FUNARTE, 1984.
Três Mulheres. Dorival Caymmi, 1954. jobim.org
