Pequenas Biografias: DORIVAL CAYMMI_o8

1945. Caymmi viajava com frequência para se apresentar em São Paulo. Costumava ficar hospedado na casa do pintor Clóvis Graciano. Jorge Amado, também em temporada de trabalho na cidade, morava num apartamento na Praça Júlio Mesquita.

Jorge estava apaixonado pela paulista Zélia Gattai. Numa festa, armou um clima romântico à custa do amigo para se declarar. Pediu a Caymmi que cantasse para a amada. 

Zélia recorda: "Por mais mal-afamado que o Jorge fosse, considerado o maior mulherengo de todos os tempos, um Barba-Azul, como dizia Oswald de Andrade, eu era uma de suas admiradoras incondicionais. Mas sempre com um pé atrás. De herói para namorado tinha um passo muito grande".

Jorge Amado a levou até onde estava o compositor tocando o seu violão.

"Aí, Jorge cochichou qualquer coisa no ouvido do compadre, ele olhou para mim, balançou a cabeça como quem diz muito bem e cantou Acontece Que Eu Sou Baiano'.

"Jorge apertou o meu braço com olho de peixe morto e disse: 'Tô fisgado'. Foi Dorival Caymmi o cupido".

Dali para a frente nada separaria Zélia de Jorge. Juntos, eles enfrentaram perseguições, exílio e graves dificuldades financeiras ao longo da vida em comum. Foram companheiros de vida inteira.

"Eu me integrei sempre com o que havia de mais intelectual aqui no Rio, e forçosamente tinha que cair no Partido Comunista, porque a maioria em evidência eram todos comunistas. Era um negócio idealista, com propostas muito bonitas para o desenvolvimento da cultura do povo. Minha 'envolvência' não era política, era apenas uma 'envolvência' de amigo, de admirador, e lidava com intelectual, publicidade, rádio, comunicação, que era a minha profissão, cantor e compositor. E lidando com o que eu gostava: imprensa. Gostava não, gosto". 

1946

As viagens a São Paulo continuaram, entrando pelo ano de 1946.

Na capital paulista, além dos shows em boates e apresentações no rádio, havia os amigos, velhos e novos.

A turma era comunista — como sempre —  e, conforme se lembra Caymmi, frequentava uma livraria na rua Barão de Itapetininga. O dono, o pintor gaúcho conhecido como Barros, o Mulato, cedeu uma parte do espaço para o bar, que recebeu o nome inicial de Clube dos Artistas, com direito a letreiro na porta.

"Mas logo se vendo que não havia dinheiro para manutenção, incorporou-se um capitalista notório, 'miliardário', que era o Ciccilo Matarazzo, um homem de dinheiro, né? Chamamos ele para sócio. E ele aceitou. Sem cor política, sem nada. Então, fundado o Clube dos Artistas, alguém lembrou: 'Mas como, se está Ciccilo Matarazzo?'. Logo apareceu a solução: 'Bota então Clube dos Artistas e Amigos da Arte. E que amigos da arte? Era o Ciccilo", diverte-se Caymmi. 

Não podia ser melhor. Literatura acompanhada de um bom whisky, servido por Aldo, garçom contratado para cuidar do bar.

"Tinha aquelas senhoras políticas, militantes, aquelas moças, todas intelectuais, um ambiente muito agradável, na livraria".

A turma não podia ser melhor: Clóvis Graciano, Rebolo Gonzales, Zanini, o economista Caio Prado Júnior, Volpi, o jornalista Mário Martins, Pancetti. O movimento cresceu tanto que o clube mudou-se para o subsolo do Edifício Esther, na Praça da República.

"Eu ia com Antônio Maria. Lembro que encontrei lá Vinicius de Moraes, Sérgio Buarque de Holanda, Rubem Braga, essa turma" — rememora o cartunista Millôr Fernandes.

"O 'Clubinho' foi a glória", resume o compositor.

DUTRA

O presidente Eurico Gaspar Dutra, exatos três meses depois de sua posse, assinou, em 30 de abril, o decreto que proibia o jogo no país. Caymmi fazia 32 anos nesse dia. A decisão do presidente mudou o panorama artístico do Rio de Janeiro e do Brasil: obrigou todos os cassinos a encerrarem suas atividades e, como consequência, deixou muitas centenas de pessoas desempregadas, incluindo todos os artistas  músicos, atores, cantores, dançarinos  que tinham nos shows de cassino sua principal fonte de renda. Além de tudo, foi um golpe mortal na noite carioca. Dutra havia cedido a pressões de setores conservadores da sociedade, entre eles a Igreja Católica, que tinha na esposa do presidente, Carmela Dutra, mais conhecida como Dona Santinha, uma fiel defensora da proibição. Quando a demanda por seus shows diminuiu, fato que se repetiu com a maioria dos artistas no período, Caymmi se refugiou na pintura. Ao menos até que a vida noturna carioca, e brasileira, se adaptasse aos novos tempos.

MARINA

Com Fernando Lobo, o baiano compôs Saudade, samba-canção gravado por Orlando Silva em 1947. O ano indicava ser alvissareiro: Marina, futuro clássico que, junto com Saudade, apontaria para uma nova fase, a das canções urbanas, teria no mesmo ano quatro gravações. Fato  como bem salientaram Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello, no livro A Canção no Tempo  que derrubava o tabu existente entre as gravadoras e que impedia que mais de um intérprete gravasse a mesma canção. Francisco Alves, o Rei da Voz, se renderia à beleza de Marina gravando-a originalmente pela Odeon, além de Nelson Gonçalves, pela RCA-Victor, do próprio Caymmi, que quis dar a sua versão à canção e Dick Farney, que vivia nos EUA, de onde retornaria no ano seguinte e que fez a gravação mais famosa, pela Continental.

"Aconteceu que eu fiz Marina. Fui até a Victor e disse: 'Quero gravar essa música'. Disseram: 'Canta aí. É uma beleza!'. Eu avisei: 'Não quero botar regional com flauta. Bastam dois violões, um cavaquinho, um bandolim e um pandeiro. Tem um rapaz que toca na Rádio Mauá, mas não tem chance, não tem oportunidade. Ele é um instrumentista solitário, que toca bandolim'. Era o Jacob do Bandolim, um virtuoso, que trabalhava numa Vara de Justiça ali perto. Fiz amizade com ele. Na família de minha mulher tinha pessoas apaixonadas por ele, como meu cunhado José Tostes, que sempre me avisava: 'Olha, não esquece de ligar na Rádio Mauá, que Jacob vai tocar hoje'. Era uma rádio sem grande audiência. Marina foi um negócio assim: Jacob abria com uma introdução muito refinada, eu cantava Marina, com ele fazendo aquele floreio, dois violões, o Dino Sete Cordas e o Meira, Canhoto II no cavaquinho, um pandeiro e um reco-reco. No contrabaixo, Tarzan. Eu eliminei da gravação o aspecto comum do regional. Ficava muito igual. Então, eu fiz assim: tira a flauta, tira o instrumento de sopro, saxofone, não bote excesso de ritmo, de bateria, surdo ou qualquer coisa exagerada. Deixa um pandeiro discreto, bota um cavaquinho para fazer o ritmo, e bote para colorir Jacob do Bandolim. Aí foram no Palácio da Justiça e apanharam o Jacob na hora. A gravação de Marina foi feita assim.

CHEDIAK  Uma época muito rica da sua carreira foi a década de 50.

CAYMMI  Foi uma época muito especial. Havia a influência do Juscelino Kubitschek, aquela marca do moderno. Aliás, conheci a Pampulha quando ainda estava em construção. Fiz um show lá. Juscelino era o governador de Minas Gerais.

CHEDIAK  Uma fase muito rica para o Brasil. 

CAYMMI  Tudo foi mudando para melhor. Isso é indiscutível. Em qualquer documento que você pega, no jornal ou mesmo em conversa com pessoas da época, sobretudo com quem vivia no eixo Rio-São Paulo, você verá que foram anos muito importantes. A cada momento estourava uma novidade, uma ideia nova, um luminar das artes. Se um falava de Ivan Serpa, outro citava um fulano do cinema. A noite parecia melhor. Você podia conversar nas boates chiques, você ia ao Vogue, ao Sacha's, ao Au Bon Gourmet, ao Arpège. Trabalhei muito no Au Bon Gourmet. O rádio é que dava sinal de um declínio leve, por causa da televisão. O Costalima é uma pessoa de quem pouco se fala atualmente, mas foi um camarada muito importante para a televisão, a TV Tupi de São Paulo, naquela época. Se você conversar com pessoas como Lima Duarte e vários outros, eles vão lhe dizer quem foi Costalima. 

CHEDIAK  E a nossa música popular evoluindo. 

CAYMMI  Evoluindo muito. Havia o samba-canção, sem falar nas ironias dos boleros. Havia o Beco das Garrafas, a Marisa Gata Mansa, o Miltinho... 

CHEDIAK  O Johnny Alf... 

CAYMMI  (cantando):

    Você bem sabe, eu sou rapaz de bem
    E a minha onda é do vai e vem
    Pois com as pessoas que eu bem tratar
    Eu qualquer dia posso me arrumar
    Vê se mora...

CHEDIAK... já era moderno...

CAYMMI  (cantando):

... no meu preparo intelectual

Aí, o "intelectual" foi muito empregado. 

O Johnny Alf era do Tudo Azul, naquele bequinho atrás do cinema Rian. Ah, garoto, a noite era boa! Apareceu aquele caldo verde na Prado Junior, o Casablanca funcionava na Praia Vermelha... Eu trabalhei no Casablanca. Apareceu uma revelação, a Ângela Maria. O Fernando Lobo, o Paulinho Soledade (cantando): "Vê, estão chegando as flores", os dois bolando coisas e eu participando. Era Coisas e Graças da Bahia, que enchia o Casablanca todas as noites. Depois foi o Carlos Machado.

CHEDIAK  O Carlos Machado?

CAYMMI  Ele fez comigo o show Acontece Que Eu Sou Baiano, que tinha aquele grupo, o Conjunto Farroupilha, com o João Gilberto participando, fantasiado de pescador. Em 1957, gravei Maracangalha na Odeon, com o Aloysio de Oliveira na direção artística. Em 1958, ficou declarado o momento da bossa nova. A gente ficava muito num bar perto da casa do saudoso Rubem Braga. Todo mundo ia lá. O Ylen Kerr, que fazia gravura e fotografava, a Tônia Carrero, a nossa Mariinha... 

CHEDIAK  Ela era sua amiga?

CAYMMI  Sempre mereci a amizade dela. Aliás, mereço. Nosso último encontro foi no dia em que fui ver Dona Doida, com a grande e querida Fernanda Montenegro, ali no Humaitá, com a direção do Naum Alves de Souza. Eu morava no Leblon e a Tônia morava na Vieira Souto. A gente se encontrava na praia, nas festinhas. Foi uma época que borbulhava. A década de 50 mudou um bocado de coisas. Não sei explicar por quê. Eu não sou pesquisador.

CHEDIAK  Você lembra de uma música da época que lhe tenha marcado? 

CAYMMI  Olha, por mais que se queira, não se pode fugir de Tom Jobim. Ele fazia dupla com aquele rapaz que morreu cedo, o Newton...

CHEDIAK  Newton Mendonça.

CAYMMI  E surgiram DesafinadoSamba de Uma Nota Só... O Tom com Vinicius, Chega de Saudade. Depois, vieram o Carlinhos Lyra, o Menescal... Uma surpresa minha foi quando fui à Odeon e o Aloysio me disse: "Ouve isso aqui". Pegou um acetato, botou num toca-discos e ouvi aquilo: (cantando) "Vai minha tristeza / E diz a ela que sem ela não pode ser". Perguntei: "Quem é que está cantando?".

CHEDIAK  João Gilberto.

CAYMMI  Pois é. Não era ainda um disco comercial. Eu queria contar o seguinte: logo depois, o Costalima juntou aquela meninada na televisão. Pode perguntar ao Manoel Carlos, este talentoso e velho amigo, ele estava lá. Era um tempo muito bom. Miltinho dominava no Drink... 

CHEDIAK  Dick Farney.... 

CAYMMI  Dick Farney vinha dos tempos dos cassinos, assim como uma porção de crooners da orquestra do Carlos Machado, do Cassino da Urca. Dick era cantor de música norte- americana. Foi o Braguinha quem fez dele um cantor de música brasileira.

CHEDIAK  Braguinha?

CAYMMI  É, mestre Braguinha, faz favor! Foi ele quem fez Copacabana, com Alberto Ribeiro, para o Dick Farney cantar. Mas, voltando aos anos 50, foi uma época inesquecível. Você encontrava Dolores Duran aqui, Elizeth Cardoso ali...

CHEDIAK  Elizeth gravou o disco Canção do Amor Demais, quando João Gilberto tocou pela primeira vez o violão já com o som de bossa nova.

CAYMMI  O João, naquele disco, está fazendo no violão um som de trombone, discreto. Ninguém percebeu que ele fazia aquela picardia. Mas não me lembro de tudo. Estou ficando esquecido. Sei que, naquele disco, há muita novidade, muita coisa bonita, muita invenção e muita procura. E Elizeth estava ali, como uma estrela muito bem condicionada. Você sente o ritmo, a modificação do ritmo. Foi um ponto de partida. Os arranjos eram do Tom Jobim. Quem falava muito do Tom, no início de carreira, era o Marino Pinto. Quando a gente se encontrava na SBACEM, vinha logo falando do Tom Jobim. Ele foi parceiro do Tom. 

CHEDIAK  O João Gilberto sempre gravava uma música sua nos discos dele. 

CAYMMI  É verdade. Rosa Morena, depois Doralice

CHEDIAK  Você estava em todas.

CAYMMI  Estava. Cantei no Clube 36, que ficava ali na Rua Rodolfo Dantas e pertencia a um grego, que se dava com o meu saudoso amigo Carlinhos Guinle. Fiz lá uma temporada de quatro meses e, depois, renovei por mais quatro. Mais tarde, levei a Maysa para cantar lá. Havia também o Jirau, da Silvia Autuori e do marido dela, o Leônidas, que era violinista da Orquestra Sinfônica e da orquestra da Tupi. Tinham dois filhos que conheci meninos: o Dante, que foi para São Paulo, para fazer engenharia, ou coisa parecida, e o Silvinho, que ficou trabalhando em estúdio, metido em publicidade.

 

CHEDIAK  Depois, você compôs Das Rosas e foi para os Estados Unidos. 

CAYMMI - Fiz Das Rosas ainda nos anos 50, mas só gravei em 1965. Um dia, eu estava em Maracangalha...

CHEDIAK — Maracangalha?

CAYMMI  Era uma chácara que ficava nas proximidades da Estrada Rio-Petrópolis. Botamos o nome dela de Maracangalha. Era um lugar quietíssimo, onde se podia fazer música, conversar, andar à vontade, uma maravilha essa chacrinha nossa.

Numa tarde, eu estava tranquilo quando apareceu Danilo, meu filho, que eu pensava estar na escola, na universidade. Vi um carro assim, na estrada, e disse: "Não parece o Danilo que vem ali?" Quando se aproximou, perguntei: "Aconteceu alguma coisa?" Estava todo mundo assustado.

Quando Danilo chegou, foi dizendo: "Aloysio de Oliveira está lá em casa, com uns americanos, atrás do senhor, e quer vir aqui de qualquer maneira".

Eu disse: "Oh, meu filho! Você fazer essa viagem?". "Não tem problema, papai. Tomo um ônibus e volto com eles pra cá". Stella tratou de fazer uma comida mais avantajada para esperar os convidados.

CHEDIAK  Eles foram para Maracangalha? 

CAYMMI  Danilo voltou com eles. Junto com o Aloysio estava o Ray Gilbert, autor da versão em inglês de Das Rosas. Eles trouxeram uma gravação da música com o Andy Williams, mas eu não tinha aparelhagem para tocar. Aliás, não havia nem luz elétrica em Maracangalha. Foi quando Ray Gilbert me disse: "Você tem que se arrumar, pegar os papéis, passaporte, para, em abril, estarmos nos Estados Unidos". Foi um corre-corre danado. Viajei e fiquei hospedado na casa de Ray Gilbert. 

CHEDIAK  Você conheceu o Andy Williams? 

CAYMMI  Dias depois, no estúdio da NBC, um estúdio imenso. Ele entrou no estúdio de bicicleta. Um tipo bonito, de bom trato e cantando muito bem. Era um programa daqueles coast to coast, como era moda na época. No dia 9 de abril, cantei no programa dele, com a colaboração do Aloysio Ferreira, do conjunto Anjos do Inferno, no ritmo. Tinha também o Doum Romão. A casa do Ray Gilbert, onde fiquei hospedado, ficava num lugar muito agradável em Los Angeles. Estive lá um tempo, mas, depois, passei a viajar pelos Estados Unidos, hospedando-me sempre nos motéis... quer dizer... motéis no bom sentido. Ainda não havia motel no Brasil, desse jeito que a gente conhece agora.

CHEDIAK  Tom Jobim estava lá, naquela época? 

CAYMMI  Isso mesmo, o Tonzinho estava lá. A gente se via muito. Naquele tempo, eu bebia e havia sempre um Chivas Regal para nós. Tom tinha todos os livros, todos os dicionários, mesmo sabendo falar naquele inglês dele.

CHEDIAK  Você fez mais coisas nos Estados Unidos? 

CAYMMI  Fiz. Fiz um documentário, a convite de uma brasileira casada com um americano da Columbia Pictures. Havia também uma outra brasileira, amiga do Tom, que fazia um leva-e-traz de encomendas pela Varig, que me convidou para uma conversa com estudantes brasileiras na casa que fora da grande atriz Ethel Barrymore. A Ethel, você sabe, pertencia àquela família chamada de 'família real' de Hollywood. Era ela, era o John Barrymore, era o Lionel Barrymore...

CHEDIAK  Você fala inglês?

CAYMMI  Um inglês caseiro, um inglês de emergência. Quebrava um galho. Cheguei a estudar inglês na Bahia.

CHEDIAK  E o que mais você fez nos Estados Unidos? 

CAYMMI  Fui algumas vezes aos estúdios para cantar e dei muitas entrevistas, todas em inglês, no meu inglês, é claro. Lembro-me de uma festa que celebrava o fato de Los Angeles e Salvador serem cidades irmãs. Cantei numa feijoada na casa daquela brasileira casada com um americano. Tive muitas festas. Depois, o embaixador brasileiro nos Estados Unidos, Juraci Magalhães, me convidou para cantar em Washington, no Instituto Brasil-Estados Unidos. Lá, encontrei um querido amigo, locutor da Voz da América, o José Roberto Dias Leme, irmão do Reinaldo Dias Leme, que vivia no Brasil como locutor e era poeta também. Dias Leme fez questão de me mostrar tudo em Washington. Depois, fomos até Nova York, onde me filiei à sociedade de direito autoral, a ASCAP. Fiquei nos Estados Unidos exatamente quatro meses e cinco dias. 

CHEDIAK  Depois, você fez outras viagens. 

CAYMMI  Nos anos 70. Quer dizer, um pouco antes, em 1968, fui à Argentina com Vinicius de Moraes e o Quarteto em Cy, para uma série de apresentações patrocinadas pelo Instituto Brasileiro do Café. A Stella também participou dessa viagem. Foi ida e volta de navio, pois Vinicius não queria saber de avião. Estava na época do medo. Foram muitos shows. Nos anos 80, Chico Buarque de Holanda me fez um convite tentador: "Vamos pra Angola?". Gostei muito. Fiz vários shows com o Chico, o Martinho da Vila, o João Nogueira, o Francis Hime... 

CHEDIAK  E ainda teve mais viagens?

CAYMMI  Quando voltei de Angola, conheci uma moça chamada Anike, uma moça muito agradável, muito inteligente, muito aculturada. Anike me convidou para ir à Martinica. Fui com Dona Ivone Lara, o conjunto dela e uma senhora da Bahia, professora, uma antropóloga que fazia conferências. Foi também uma mãe-de-santo famosa, a Olga de Alaketo. 

CHEDIAK  E depois? 

CAYMMI  Depois, teve a festa dos meus 70 anos, que foram muito comemorados. Estive na Bahia, no Rio Grande do Sul, em Pernambuco. Isso tudo me deu muito cansaço. E teve também os shows da Família Caymmi. Não gosto muito dessa história de 'família Caymmi'. Dori, Danilo e Nana têm cada um a sua personalidade. São artistas com seus estilos pessoais.

CHEDIAK  Agora, às vésperas dos 80 anos, você está mais tranquilo, não é isso? 

CAYMMI  Fico no meu canto com a Stella, que é também uma grande cantora, mas abandonou a carreira com o nosso casamento. Mas ela é lembrada até hoje. Anteontem, uma pessoa encontrou a minha neta e perguntou: "É verdade que você é neta do Dorival Caymmi?". Ela disse que sim e a pessoa comentou: "A sua avó é que cantava bem!".

Transcrito (com adaptações) de:

Caymmi, o Mar e o Tempo. © 2001, Stella Caymmi. Editora 34.

Songbook Dorival Caymmi. © 1994, Almir Chediak. Lumiar Editora.

Imagens:

Caymmi "entre 30 e 40 anos". 1944-1954 jobim.org

Edifício Esther. Praça da República, SP, 1943.

Caymmi e Jobim, 1964. jobim.org