Pequenas Biografias: DORIVAL CAYMMI_o6

"Naquela época, no Brasil, havia dois nomes que todo mundo conhecia: Getúlio Vargas e Carmen Miranda. Depois que O Que É Que a Baiana Tem? fez sucesso, passei a ser identificado, saí em revistas, jornais. A Rádio Nacional me fez uma proposta excelente. Depois a Mayrink Veiga, uma melhor ainda. Então, eu fui para a fama direto, sem tropeços".

Em meio às novidades de sua vida profissional, Caymmi foi fazendo amigos, principalmente entre o pessoal da imprensa. Conheceu Osório Borba, Carlos Lacerda — ainda na esquerda no período —, Samuel Wainer, Moacyr Werneck de Castro, Emil Farhat, Graciliano Ramos e aquele que viria a se tornar mais que amigo, um irmão para a vida toda, Jorge Amado.

Theófilo de Barros — o primeiro a contratá-lo, na Rádio Tupi, um ano antes —  morava com um amigo num apartamento na Rua do Passeio, no Edifício Souza, 10º andar, apt. 1005. Um dia, o amigo foi embora. Theófilo convidou Caymmi para ocupar a vaga.

"Era um apartamento grande, bom mesmo. Theófilo passava o dia todo na rua, e eu em casa; lia, me divertia, tocava, compunha. No Edifício Souza conheci Antônio Maria, Augusto Rodrigues e Fernando Lobo. O Augusto morava no 1015. Dormia fora de hora e de manhã bem cedo me chamava para ir à praia. Eu pensava que ele acordava cedo, mas um dia ele me disse que chegava era de manhã mesmo. Mais tarde apareceu vindo de Recife Fernando Lobo, que fora contemporâneo de Theófilo na Faculdade de Direito de lá. Veio morar conosco. Posteriormente chegou Antônio Maria. Quando eu saí para casar com Stella, entreguei minha parte ao Fernando e ao Antônio Maria. Que não pagavam, é evidente. Quem pagava era o Theófilo!".

A Cinelândia era o ponto fervilhante das noites do Rio. Letreiros luminosos dos cinemas. Metro, Palácio, Odeon, Pathé, tantos... O Teatro Municipal, imponente. As casas de chá grã-finérrimas, A Brasileira, A Americana, frequentadas por lindas mulheres perfumadas que saíam das sessões de teatro ou cinema.

Em cima do cinema Palácio, a sinuca. A turma toda reunida: Augusto Rodrigues, Aidano do Couto Ferraz, Villa-Lobos, Evandro Pequeno, Genolino Amado, Guilherme Figueiredo, Brício de Abreu, Joracy Camargo e Osório Borba.

Era elegante que os rapazes mostrassem erudição, vasta cultura nas conversas sobre as coisas mais variadas, quase todos bacharéis. Dorival não era bacharel. Mas, dizia Fernando Lobo que ele "já trazia uma sabedoria lá da Bahia, de coisas um pouco misteriosas, que a gente não sabia de nada: histórias de candomblé, coisas do mar, além do que, ninguém sabia contar uma história melhor do que ele. É um contador de histórias com uma graça muito grande. A ironia do Caymmi é tão bem feita, que não dói".

DISCO

(...) quando Dorival gravou seu primeiro disco  com Carmen Miranda  pela Odeon, a gravadora tratou de assegurar em contrato mais seis. O baiano se assustou. E não era para menos: numa das cláusulas ele se comprometia a lançar seis discos de sucesso em dois anos. Em cada 78 rotações cabiam duas músicas, uma em cada face. Caymmi ainda tentou argumentar com o diretor: "Senhor Strauss, o senhor nunca vai ter de mim os seis sucessos anuais, porque eu me sinto incapaz de garantir isso".

Ouviu do diretor uma resposta otimista: "Você faz, você tem talento". O compositor retrucou uma vez mais: "Eu conheço a minha capacidade de trabalho e meus limites de talento".

"Eu fiquei muito amedrontado com contratos com gravadoras, embora ser exclusivo de uma companhia desse um certo prestígio, não há dúvida, artista exclusivo e tal da Odeon, da Victor, da Columbia". Sequer foi ouvido. Acabou por assinar, mas saiu dali angustiado.

Em setembro de 1939, Dorival Caymmi lançou seu primeiro disco solo, pela gravadora Odeon, com Rainha do Mar e Promessa de Pescador, que não alcançaram o sucesso de O Que É Que a Baiana Tem?.

"Já encontrei dificuldades para agradar meu público na linha do sucesso que eu vinha fazendo".

Como não logrou a repercussão esperada pela gravadora, teve o contrato rescindido. Poderia soar estranho, mas saiu dali aliviado.

"Nunca mais eu fiz contrato com ninguém. (...) Eu tinha vocação de homem livre e fiz de tudo para não ter contrato de obrigação com disco. Logo depois consegui fazer dois avulsos pela Columbia".

Não foi difícil, pois lá estava Braguinha como diretor-artístico, que tratou de aproveitá-lo, sem pressões ou contratos. No dia 7 de novembro de 1940, gravou O Mar, em duas versões.

"Depois desses dois discos, eu, sem contrato, fiquei zanzando por aí. Gostava muito de viajar. O que me prendia era o rádio. O rádio é que me mantinha".

A ESTRELA DO MAR

Aos domingos, Caymmi frequentava o auditório da Rádio Nacional, que ficava no 22º andar do edifício do jornal A Noite. Uma tarde, assistindo um programa de calouros, uma loira de olhos verdes, alta e bonita, chamou sua atenção. Apostou consigo mesmo que a caloura iria cantar um fox americano. Cumprimentou alguns colegas e acomodou-se no auditório. Não conseguia tirar os olhos da moça, hipnotizado.

"Caí para trás ao ouvi-la cantar Último Desejo, de Noel Rosa. Morri de emoção".

Ao término da apresentação, foi atrás de Haroldo Barbosa para saber quem era aquele 'avião', que ainda por cima cantava Noel divinamente bem.

"Ela se chama Stella Tostes"  informou Haroldo.

Logo que o último calouro se apresentou, Caymmi não aguentou esperar pelo resultado e correu para os bastidores para saber da colocação da cantora. Quando soube que ela tinha vencido, ficou orgulhoso como se a vitória fosse dele.

Stella, que adotaria o nome artístico de Stella Maris, na verdade, se chamava Adelaide Tostes.

Stella começou a trabalhar muito cedo. Com 14 anos já estava no comércio. Mas gostava mesmo era de cantar. Sempre que podia, frequentava as rádios com as amigas, participando dos programas de calouros, e, aos poucos, foi se profissionalizando. Cantou nas rádios Cajuti e Transmissora.

"Virei cantora profissional na Rádio Guanabara e comecei a ganhar um cachezinho"  relembra Stella.

"Eu costumava cantar versões de canções americanas e o repertório mais antigo de Sylvio Caldas, que ele já não cantava mais, além de canções de Noel como Pra Que Mentir? e Último Desejo".

A essa altura, Caymmi, deixando a timidez de lado, já dera um jeito de ser apresentado a ela. Stella estava apaixonada na época por um certo Aloísio, mas não resistiu à corte do baiano. Esperto, Dorival tratou de pedir permissão ao pai da pretendida. Não foi fácil enfrentar o sogro, que além de policial, tinha 1,94 m de altura. E os irmãos de Stella não eram diferentes: todos muito altos. Caymmi não se deixou intimidar. (...) E não esperou muito para pedi-la em casamento. (...) O período de noivado também foi curtíssimo, menos de dois meses.(...) Todo domingo lá ia o baiano fagueiro ver sua Stella, na casa 6 de uma vila situada na rua Conde de Leopoldina, número 480, em São Cristóvão. O romance não ficou em segredo por muito tempo. Em 15 de setembro, saiu na coluna Vanguarda:

"Tivemos notícia de um princípio de romance entre Dorival Caymmi, autor de O Que É Que a Baiana Tem? e Stella Maris, elemento do cast da Rádio Mayrink Veiga".

Noivo de Stella Maris, Caymmi foi motivo de gozação por parte de Jorge Amado. Trazia o retrato da namorada na carteira e o escritor descobriu. Fez um alvoroço no Bar da Brahma: "É a noiva dele! Caymmi tá noivo!", repetia aos gritos com a foto nas mãos, constrangendo o noivo discreto. Foi forçado pela turma a descrever a moça. "Dê o relatório"  ordenaram os amigos liderados por Jorge, cujo divertimento principal era espicaçá-lo.

"Aí eu caí na asneira de dizer que namorava Stella, que a conheci no rádio, no programa de calouros, que ela cantou e eu era um assistente de ouvido, ficava na plateia. Fui obrigado a apresentar a noiva. Ficou combinado que eu levaria Stella para a casa de Jorge Amado, que ia fazer um vatapá chamado 'quede a noiva?'. O vatapá saiu, e estava aquele pessoal todo"

O vatapá 'quede a noiva?' — serviram ainda uma frigideira, outro prato típico da Bahia — aconteceu num sábado, na Urca, onde Jorge vivia com a família. A farra foi completa e Stella foi apresentada à turma: os anfitriões, Carlos Lacerda e Ziloca com Serginho, Moacyr Werneck de Castro, Emil Farhat, Theófilo de Barros Filho, Samuel e Bluma Wainer, Remi Fonseca, Otávio Malta, entre outros.

"Cheguei lá e apresentei: 'Aqui está minha namorada'. Aquele 'avião'. Loira, usando uma rede no cabelo, um vestido estampado, a cintura bem acentuada. Muito bonita. Como era de esperar, ela fez sucesso".

Caymmi teve de pedir licença aos seus futuros sogros para levar Stella. Ao saberem que se tratava de Jorge Amado — já consagrado com os romances SuorCacauO País do CarnavalJubiabáMar Morto e Capitães de Areia  permitiram a ida da filha ao tal vatapá. Se Seu Candinho, como era chamado pelo futuro genro, soubesse que a menina estava com a nata do comunismo, não teria facilitado tanto assim.

No carnaval de 1940, Caymmi fez questão de receber em seu apartamento, no Edifício Souza, a família da noiva. Fez o possível para agradá-los. Improvisou um recipiente com gelo para a cerveja e o refresco. Providenciou uma ceia. Da janela, viam os folguedos e foliões de carnaval na rua do Passeio. A família o considerava um bom partido para a caçula dos Tostes.

Pouco tempo depois, Dorival envergou um terno e foi solenemente pedir a mão de Stella Maris a Dona Zulmira e Seu Candinho. Marcaram a data. Os noivos decidiram casar somente no civil, por motivos financeiros. Nem Dorival nem a família da noiva tinham condições de custear um casamento religioso, com tudo o que isso envolve: vestido, convidados, festa.

Um mês antes de casar, Stella tomou uma decisão que deixou o noivo desconcertado. Pediu ao pai que desfizesse o contrato com a Rádio Mayrink Veiga, pois não queria mais cantar.

"Quem leu A Estrela Sobe, de Marques Rebelo, terá uma noção do que era o meio do rádio naquele tempo. As coisas não eram diferentes do que eram para Lenise Maia [a personagem principal do livro]. Era preciso se submeter a coisas sórdidas. Por isso naquele tempo eu só tive um disco gravado, com Saudade Profunda, a valsa de Antenógenes Silva. Eu era muito jovem na época e me assustei", explica Stella.

Caymmi jamais desrespeitou a decisão da futura mulher, mas pagou o pato, pois não havia quem se convencesse de que não fora ele o responsável pela sua decisão. Alguns o consideravam um machista, certos de que Caymmi forçara Stella a abandonar a carreira. Chegavam a cobrar por que ele havia tirado Stella Maris do rádio. Foi um inferno.

"O maior fã que eu tive foi Caymmi. Dorival não queria mesmo que eu deixasse de cantar, sem sacanagem. Tanto que nas festas ele fazia questão que eu cantasse e os amigos também. Ele sempre me acompanhava ao violão e cantávamos juntos Linda Flor (Ai, Ioiô) e Último Desejo".

Mas, por mais que Caymmi falasse a verdade, não acreditavam nele. A explicação era simples: Stella preferiu a segurança da vida familiar à competição do meio artístico. 

Casaram-se numa terça-feira, às 14 horas do dia 30 de abril de 1940, no dia em que Dorival Caymmi completava 26 anos. Stella estava com 18 anos. (...) Caymmi não sabe por que Seu Candinho o registrou como escritor na certidão. Talvez o sogro considerasse a profissão mais respeitável. Constam também no documento Jorge Amado e Samuel Wainer — que chegou atrasado, vindo do jornal  como testemunhas. Jorge se autointitulou padrinho de Stella e sempre alardeou o fato pelo mundo afora.

Não tiveram lua-de-mel pelas mesmas razões por que não puderam se casar no religioso. Faltava grana. Foram viver num imóvel recém-alugado no Grajaú, Zona Norte do Rio de Janeiro. Suas despesas mensais, na época, somavam Cr$ 3.080,70, como escreveu em seu caderno de anotações. Só o aluguel saía por Cr$ 1.140,00.

Sobre Stella, Fernando Lobo deu um depoimento para a biografia Caymmi Som Imagem Magia, de Marília Barboza e Vera de Alencar:

"A vida do Caymmi sem Stella seria muito engraçada: um vagabundo que tocava violão no meio da rua. Stella é aquela mulher que, se ele ganhava 50 mil-réis, ela roubava 35. Grande mulher, minha comadre Stella. Ela, que é uma pessoa desorganizada, organizou o Caymmi. Stella a vida toda mandou nele. Ele saía da linha, teimoso, ela puxava. No carinho ou na porrada. Ela manda nele, sim, graças a Deus".

O padrinho Jorge Amado contou certa vez: "Ele não teria feito nem um terço do que fez, se não tivesse tido ao lado dele Stella Maris, que o sustentou, que lhe deu os pés na terra. Porque ele é um sonhador, está no ar, ele é um ser muito especial, muito extraordinário, preguiçoso, vive da amizade, da ternura. E ela é que amarrou Caymmi".

Transcrito (com adaptações) de:

Caymmi, o Mar e o Tempo. © 2001, Stella Caymmi. Editora 34.

Imagens:

Caymmi. Cartão com dedicatória, 1940. Autor desconhecido. jobim.org

Villa-Lobos, 1941. Autor desconhecido. brasiliana.museus.gov.br

Stella no Sofá. Desenho a lápis. Dorival Caymmi, 1946. jobim.org