Leitura complementar: DORIVAL CAYMMI_12 / Pequeri


DORIVAL CAYMMI, O 'MINEIRO': UM LAR SERENO E ÍNTIMO EM PEQUERI

27 de abril de 2014

RIO — Entre a Salvador cidade-mito que viveu e inventou em igual medida e o Rio cidade-encontro que permitiu que o mundo conhecesse sua música, Caymmi achou um refúgio longe do mar. No fim de 1943, alugou uma casa para passar o verão em São Pedro de Pequeri, interior de Minas Gerais, cidade natal de Stella Maris. Anos depois, criaria com a cidade uma relação de intimidade tranquila, cercado pelo silêncio de suas montanhas. Construiu uma casa lá na década de 1980 e — antes de ficar doente (ele foi diagnosticado com um câncer renal em 1999) e ter que reduzir o ritmo das viagens — tornou o lugar seu espaço de calma na maturidade, ao lado de Stella. Levou para lá sua biblioteca e montou um ateliê para pintar seus quadros.

"Até 2007 eles ainda iam para lá, levando enfermeiros. Adoravam o cheiro, a maneira do lugar", lembra o filho Danilo.

Hoje, Nana conserva o espaço como um memorial pessoal.

"Ficou sagrado", define a cantora. "Foi a forma que encontrei de preservá-los, eles e suas coisinhas. A louça da mamãe, suas panelas, a roupa de cama. Tem muita coisa de papai lá. Quando estou lá, leio, ouço música, vou para a piscina, ao pomar. Sento na varanda como eles sentavam, sentindo o cheiro de rosa e jasmim. E não se ouve barulho nenhum de cidade. Só os pássaros, que às 18h calam a boca, depois começam os outros bichinhos e depois mais nada".

Caymmi costumava contar que, nos anos 1940, apreciava a viagem de trem que fazia com o cunhado, a caminho de Pequeri. Pegava o trem às 6h na Leopoldina, no Rio, e seis horas depois chegava à estação mineira.

"Da janela do quarto deles, hoje, vejo essa nossa casa de infância. Vejo as vacas indo para o pasto... Pequeri é um paraíso", diz Nana.

Como a neta Stella Caymmi conta na biografia de Dorival, O Mar e o Tempo (Editora 34), depois de um período afastados da cidade da Zona da Mata Mineira, Caymmi e Stella se reaproximaram dela na década de 1980. Em 1987, mais precisamente, receberam uma carta 'aos pequerienses ausentes', do historiador Júlio Cezar Vanni. O texto convidava o casal para visitar o local, onde o compositor seria homenageado no Festival de Música de Pequeri. Eles foram e se hospedaram na casa do padrinho de Stella. No ano seguinte, Caymmi já atuou em favor do festival, ajudando os organizadores a levar Elba Ramalho e Dominguinhos para o evento.

Em 1993, Caymmi escreveu um poema para a cidade, clamando que ela voltasse a ter o nome original, São Pedro de Pequeri. Os versos de São Pedro reproduziam o conhecido humor, o gosto pela coloquialidade. E ele aproximava o santo de sua Salvador e o da cidade mineira:

    São Pedro de Pequeri
    Stella nasceu aqui
    Em São Salvador, na Bahia
    De Todos os Santos nasci

    Por direito adquirido
    De santos sempre entendi
    É por isso e humildemente
    Nesta reza, boa gente
    Que vos peço, por favor:

    Vamos juntar novamente
    Ao nome desta cidade
    O do Santo Pescador

    E... rezando pra que rime
    Pede Dorival Caymmi
    Com devoção, com amor”

No pé, reforçava o apelo ao datar o texto: 'São Pedro de Pequeri, Minas Gerais. 1º de novembro de 1993. Dia de Todos os Santos'.

Em entrevista ao Jornal do Brasil em 2004, Caymmi descreveu seu cotidiano em Pequeri da forma mais caymmiana possível:

"É ser preguiçoso. É um lugar muito agradável. Tem coisas como essas, que me vêm ao coração: lembrar da minha mulher, a Stella Maris do rádio, que nasceu aqui. Aqui é um ponto de Minas Gerais daqueles de muita paz, muita tranquilidade, noites muito agradáveis, amizades também boas, tudo muito sereno".

Caymmi contava que, na cidade, acordava cedo, com o sol ("Não pulo da cama como fazia jovem", ressalvava). Ao responder sobre o que gostava de observar ali, ia na mesma simplicidade reconhecível em seus versos: "Ah, observar a paisagem, essas colinas, as flores, a floresta, os pássaros, a natureza em si, que eu respeito e amo. Porque a natureza nos dá momentos de rara felicidade".

Alice Caymmi, neta de Dorival, também traz recordações do avô em Pequeri:

"A gente ia para a varanda e ele entrava naquele estado de contação de histórias. Falávamos muitas coisas de criança", contou em entrevista a O GLOBO no fim do ano passado.

Os 80 anos de Caymmi, celebrados em discos e homenagens mil, também foram comemorados em Pequeri. A Agora Vai, escola de samba local, desfilou em 1994 com o enredo Caymmi e Stella — De Salvador a Pequeri, contando com a participação de vários familiares.

Turistas apareciam eventualmente no portão, pedindo para visitar, tirar fotos. Caymmi muitas vezes deixava-os entrar. Hoje, a casa — e o fato de Pequeri ter abrigado o compositor por tantos anos — é um orgulho da cidade e aparece como ponto turístico de destaque em qualquer referência que se faça a Pequeri na internet.

No próximo dia 30, a prefeitura da cidade vai colocar uma placa na porta da casa, em homenagem a Dorival e Stella. Um gesto simples e significativo, à maneira do lugar, o ambiente longe do litoral que Dorival escolheu para ser um espaço de repouso quando se aproximava o fim da vida, tantas vezes cantado por ele usando a metáfora 'oceânica', como em Sargaço Mar...

    Quando se for esse fim de som
    Doida canção
    Que não fui eu que fiz
    Verde luz, verde cor de arrebentação
    Sargaço mar, sargaço ar...

Transcrito de:

O Globo Cultura, 2014.

Texto: Leonardo Lichote.

Foto: Dorival Caymmi na janela da casa de Pequeri. © 2005, Fernando Rabelo.

Imagem: 365 Igrejas. Revista O Cruzeiro, 1974.