Pequenas Biografias: DORIVAL CAYMMI_11

A ideia era antiga. Os amigos baianos estavam empenhados em trazer Caymmi de volta para a boa terra. 

Jorge Amado, incansável, voltava a insistir: "Vem pra cá, vem pra Bahia, fica aqui conosco, aí você morre de canseira".

Foi o que fizeram.

"Em 1968 ganhamos do Governo da Bahia uma casa na Pedra da Sereia, nos limites da Praia de Ondina com o Rio Vermelho, do lado do mar".

Apesar da excelente localização, o sobrado escolhido por Caymmi estava quase em ruínas (...), foi preciso 'reconstrui-lo'. Ele e Stella aguardavam o final das obras hospedados num apartamento cedido por Carlos Coqueijo. Era muito bom estar de volta e Dorival curtia o convívio com amigos de que há muito não desfrutava.

Porém...

"Quando a casa foi restaurada, a Prefeitura asfaltou, havia planos para a construção de uma praça. Aí começaram os embaraços. Nós fomos para a Bahia descansar e o nosso endereço virou ponto turístico. Não tínhamos sossego. Quando construíram um edifício enorme cercando a casa, não deu para aguentar. Acabamos perdendo o restinho de privacidade que ainda nos restava. Então, eu avisei às autoridades que ia vender a casa para comprar um apartamento na Pituba, defronte ao mar. Não houve nenhuma dificuldade. É a nossa morada da Bahia. Todo ano a gente está lá".

Caymmi e Stella, durante todo o tempo em que viveram na Bahia, se envolveram a fundo com o candomblé. Frequentavam o Gantois e o Axé Ôpô Afonjá, junto com os irmãos de 'esteira' Jorge Amado e Carybé.

O Gantois era dirigido por Mãe Menininha e o Ôpô Afonjá por Mãe Senhora, mães-de-santo muito respeitadas. Menininha  era a mãe-de-santo do casal, que cumpria religiosamente os seus ritos — chamados obrigações —, o que muitas vezes envolvia pernoitar no candomblé e ficar incomunicável por alguns dias. No Axé Ôpô Afonjá, Caymmi recebeu o título de obá de Xangô, um dos doze ministros do orixá. Seu título completo era obá Ónikôyi. Jorge Amado e Carybé já eram obás há mais tempo.

Sobre Mãe Menininha, Caymmi lembra:

"Ela me conquistou no dia em que cheguei lá e ela disse: 'O senhor está vendo aquela árvore ali? Fiquei horas, esquecida, conversando com ela'. Existe algo mais repousante que ouvir isto?".

Caymmi conta como entrou para o candomblé: 

"Foi no momento em que eu senti que não se tem direito de ser visceralmente daquela terra sem ser um participante da cultura negra do pobre baiano que veio para cá sem vontade própria e colaborou para esta cultura fantástica do Novo Mundo. É tudo tão consanguíneo, tão forte! A Bahia é uma cidade negra, cheia de atavismos. Em criança, eu observava o candomblé e gostava, mas para mim ele era apenas uma coisa percebida. Mais tarde, fui observando homens cultos, conhecidos internacionalmente, pessoas como Roger Bastide, Donald Pearson, Fernando Ortiz e Edison Carneiro, estudarem o candomblé. Aí eu estabeleci a diferença entre a coisa percebida e o objeto de estudo".

Jorge Amado completa a narrativa: 

"Carybé foi o primeiro obá. Eu, logo depois, em 1960, e Caymmi um pouco depois".

Carybé acrescenta: 

"A obrigação dos obás é cuidar da parte civil da casa. Nós temos um conselho que se reúne às primeiras quartas-feiras do mês. Nem todos são feitos no candomblé. Já há mais de vinte anos que eu, Jorge e Caymmi somos obás. Nós fomos obás em épocas diferentes".

Com a morte de Mãe Senhora, a ialorixá do axé passou a ser Mãe Ondina. Houve uma dispersão, vários seguidores da casa se afastaram, em virtude da determinação da mãe-de-santo em impor Oxum, seu orixá de cabeça, como o mais importante orixá da casa. Os atritos se sucederam, pois os obás de Xangô se opuseram tenazmente a Ondina...


BAHIA, 1966

Mãe Senhora

Na madrugada o telefone me desperta, a voz em lágrimas de Stela de Oxóssi, minha irmã de santo, quase não pode falar:

— Meu irmão, nossa Mãe morreu...

Era domingo, por acaso sou o único obá que se encontra na cidade, devo assumir sozinho os encargos da morte de mãe Senhora, a soberana. No axé reinam o desespero e a confusão, a iyakekerê, Ondina, a desafeta, que só aparece uma vez por ano na festa de Xangô, está presente, as rivais se olham de través, palavras de sotaque em meio ao pranto, a guerra dos santos pela sucessão já começou, devo decidir o que fazer, não penso tomar partido, se bem Stela seja minha irmã e candidata.

— Esta mulher não pode tocar na cabeça de minha mãe!

São quatro horas da manhã, vou ao Gantois buscar mãe Menininha, irmã-de-santo da morta, ambas de Oxum, única de seu porte, para que tome da navalha e venha retirar o oxu da cabeça de Senhora, libertar o egun. Menininha, Creusa, Carmem, as ebonins e as iaôs arrancam os cabelos, rojam-se no chão. Volto ao Opô Afonjá trazendo mãe Menininha, encontro Mário Obá Telá, abraço-o aliviado, agora somos dois a providenciar e resolver. Menininha entra no quarto onde está o corpo, descobre a cabeça de Senhora, ergue a navalha.

A notícia invade a cidade e a comove. O enterro sai no fim da tarde da Igreja do Rosário dos Negros, no Pelourinho, se estende pelas ruas, cortejo imenso no caminho do Cemitério das Quintas. Imenso e lento, enterro nagô: dois passos à frente, um atrás, o canto do axexê cobre o choro no adeus à iyalorixá que mandava e desmandava. O babalaô Nezinho recebe a notícia pelo rádio em seu Ilê em Muritiba, vem correndo para alcançar o enterro: depositário da confiança de Senhora, sentava à sua direita no terreiro. No rosto o espanto, não entende o que se passou.

— Eu sabia que a morte fora decretada, mas não era a Mãe quem devia morrer, não era ela que os encantados haviam condenado. Só tem uma explicação: para salvar o ente querido, ela trocou de cabeça, enganou o santo. Na véspera à tarde eu levara um médico, Menandro Novais, a ver Senhora que sofria, ele a encontrou cansada, agoniada, recomendou repouso. Mais que enferma, desesperada. Sabia que a morte ia golpear, não lhe restou outra solução, trocou as cabeças, conclui Nezinho, dois passos à frente, um atrás. Não me peçam para explicar o que significa a troca de cabeças, são coisas da Bahia, quem sabe sabe.

Jorge Amado. Navegação de Cabotagem: apontamentos para um livro de memórias que jamais escreverei. 1992. Companhia das Letras.


Nessa fase, os três irmãos de esteira passaram a frequentar o Gantois, onde pontificava Mãe Menininha. O colar de Caymmi foi, então, lavado no Gantois, numa belíssima cerimônia. Quando assumiu Stella de Oxóssi, foram todos retornando, felizes, à Casa de Xangô.

Mãe Stella, a segunda estrela da vida de Caymmi, assim fala do filho:

"Caymmi é o Obá Ónikôyi. Oni significa dono. Ele é dono de qualquer coisa: é dono da alegria, da sinceridade, da sensibilidade. Ele é muito querido e de muita fé. Ele é filho de Xangô e de Iemanjá".

No período em que o casal viveu em Salvador, Stella Caymmi também foi envolvida pela magia da cidade. Em 1971, 'assentou cabeça' no Gantois, com a mãe-de-santo Maria Escolástica da Conceição Nazaré, a Mãe Menininha do Gantois.

No momento em que Stella tornou-se filha-de-santo, mais um laço passou a unir o casal, o mesmo laço ancestral que atara o bisneto do italiano Enrico Balbino ao seu povo, no tempo em que perseguia, com Zezinho, o ritmo alucinante dos afoxés nas festas de largo da Bahia.

DISCAS DO HENFIL

Disco Odeon (Odeon grava melhor que as outras porque?) com 13 músicas de Dorival Caymmi

Papagaio — A capa é maravilhosa! sublime! É uma pintura do próprio Caymmi! O mestre é um primitivista de mão cheia!

Chapéu — Ridículo! Cantor não pinta! Cantor canta!

Papagaio — O disco apresenta dois Caymmis: um Caymmi que foi beber água na umbanda (ele agora é obá) e fez daí quatro músicas criativas, originais. Aí, é acompanhado pelo batuque forte e másculo do 'terreiro'!

Chapéu — Mas de vez em quando solta um 'ai' bobo, que só vendo...

Papagaio — O outro Caymmi, das outras 9 faixas, o Caymmi que recita letras, só com o violão e uma marcação ingênua. Lembrando sempre canção de ninar. Aliás, o Caymmi sempre parece que tá cantando com sol quente, depois do almoço. Coisa de baiano!

Chapéu — A criançada vai adorar. Tem "Dona Chi - ca - cá... Dimirô - se - sê"...

Papagaio — Olha o respeito! Olha a irreverência! Caymmi é o único cantor com moral para (em 1972) cantar "trouxe uns peixinhos do mar" sem parecer frescura.

Chapéu — Exato! Não parece. É!!!

Papagaio — Além do já divulgado Eu Cheguei Lá, o ponto de umbanda Canto de Nanã vai desencarnar Ibope fácil.

Chapéu — Segundo o IBGE, o disco fala 883 vezes em 'sereia do mar' e 729 em 'pescador'.

Disco indicado para leitores do Ziraldo!

JÚLIO HUNGRIA

De volta à Bahia e aos temas regionais/praieiros que foram os seus primeiros motivos, o velho Caymmi recebe, entre discursos oficiais e elogios de Jorge Amado, uma comenda do Governador. Em Salvador, o seu disco é apresentado com espetáculo e acontecimento promovidos pela fábrica gravadora. O LP é importante — ao marcar, no contexto da carreira do compositor, o reencontro de Caymmi com suas raízes. Mesmo que não fosse, no entanto, deveria ser procurado pelo aficionado. É a volta do velho pescador depois de um prolongado recesso fonográfico, e, depois de um longo tempo de silêncio, sempre é bom saber o que as pessoas têm a dizer (em tempo  entre as 13 faixas, há uma com letra de Jorge Amado).

Transcrito (com adaptações) de:

Caymmi Som Imagem Magia. © 1985, Marília T. Barboza & Vera de Alencar. Fundação Emílio Odebrecht.

Caymmi, o Mar e o Tempo. © 2001, Stella Caymmi. Editora 34.

Navegação de Cabotagem: apontamentos para um livro de memórias que jamais escreverei. © 1992, Jorge Amado. Companhia das Letras.

O Pasquim. Edição 176, pg. 23. 1972. Biblioteca Nacional Digital.

Imagens:

Jorge Amado, Caymmi, Mãe Menininha e Carybé. jobim.org

Print de O Pasquim, edição 176, pg. 23. 1972. Biblioteca Nacional Digital.