Pequenas Biografias: DORIVAL CAYMMI_o9

Entrevista de PAULO MENDES CAMPOS
Foto de DARWIN BRANDÃO
DIZER que Dorival Caymmi é um rapaz simples seria um lugar-comum de reportagem e uma inverdade. Caymmi não é de poses mas também não é simples. O modo com que fala, sua tortura para exprimir o que pensa, e se definir, suas irritações contra isso ou aquilo, mostram um homem subjetivo, de funcionamento emocional bastante complicado.
Encontramo-nos no bar, e falamos primeiramente sobre pintura. Outras reportagens já disseram alhures que Dorival Caymmi gosta de pintar.
— Comecei a desenhar no colégio, disse-nos ele. Em 1943, frequentei um curso noturno de desenho na Escola de Belas-Artes da Bahia. Só muitos anos mais tarde, comecei a usar o óleo, e a interessar-me realmente pela pintura, comprando livros e álbuns. Fui muito combatido, a principio, pelos meus amigos, principalmente em casa e por Jorge Amado. Achavam que a pintura poderia me desviar da música.
Gosto de conversar sobre pintura onde sou atendido: Pancetti, Portinari, Burle Marx, Di Cavalcanti, Bruno Giorgi, Gobis, Manoel Martins...
— E você já expôs?
— Apenas uma vez, numa exposição coletiva de radialistas-pintores, realizada na ABI, onde apresentei alguns trabalhos. Mas devo confessar, antes de mais nada, de que, de vez em quando, eu destruo quase tudo o que fiz tomado de um invencível desânimo. Já me arrependi muito de ter destruído certos quadros. Meus quadros são dados e furtados, aos amigos e pelos amigos, respectivamente.
— Qual a sua tendência em pintura?
— Bem, eu acompanhei toda essa querela entre abstracionismo e figurativismo. Mas não cheguei a uma posição definitiva. Sou um lírico em pintura, gosto da harmonia das cores. Por outro lado, não posso me desprender da forma. Meu ideal seria uma pintura que correspondesse em cores às harmonias de uma fuga de Bach.
Você quer saber de uma coisa? A pintura funciona em mim de um modo todo especial. Funciona para mim, isto é, não sou um pintor de domingos. como Churchill ou Eisenhower, mas também não chego a ser cem por cento pintor. Tenho um compromisso com a canção, que é de fato a minha maneira de exprimir. Em geral, com meus quadros satisfaço interiormente certas frustrações musicais.
PREFERE A POESIA AO ROMANCE
Caymmi fala em seguida sobre os pintores de sua preferência: Giotto, Masaccio, Utrillo, Cézanne, Gauguin, Tintoretto, Matisse, Guignard, Pancetti, Clóvis Graciano...
E passamos à literatura.
— Leio pouco. Li mais quando era jovem. Do folhetim de aventuras, passei a Victor Hugo. O Colégio Castro Alves me infundiu terror pela poesia por causa dos recitativos. Só muito mais tarde, comecei a ler novamente. Gosto dos romances brasileiros de sentido regionalista: Jorge Amado, José Lins do Rêgo, Graciliano Ramos... Gosto também de Erico Verissimo. Entretanto, me dou melhor com a poesia, que realiza uma síntese mais próxima da expressão musical. Sou admirador de Garcia Lorca, Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, Jorge Guilléen, Pablo Neruda.

INVENTANDO MÚSICA
— Comecei a gostar de música sem saber o que era isso, quando menino. Em certa época, cheguei a detestá-la: aos doze anos, doente de impaludismo, tinha que ouvir o dia inteiro a vitrola de um homem que morava em minha rua. Quando arranjei um violão, fui descobrindo um mundo novo na sonoridade. Como não aprendi música, descobrindo-a por mim mesmo, em companhia de um grande amigo, tive uma vantagem: fui levado por isso mesmo a inventar um pouco de música. Foi o que me fez compositor.
Mais tarde, descobri que a música tem vários sentidos. Ouvindo Bach e Mozart, por exemplo, tive um choque, e percebi que uma certa música pode resistir ao tempo. Descobri também aos poucos, a função exata da canção, pela qual tenho um amor devotado, por ser a crônica de uma época, a linguagem de uma gente.
Caymmi pensa um pouco e diz:
— A canção tem uma influência bonita! O folclore é uma das coisas mais sólidas do canto popular.
MÚSICA ERUDITA E JAZZ
Não me conformo de não ter tido uma boa educação musical. Creio que não poderia ser um grande músico erudito, mas acho uma coisa formidável um Haendel, um Haydin, um Bach, um Villa-Lobos.
— E quanto à música popular do Brasil?
— A nossa música popular recebe em cada fase muitas influências exóticas e de um caráter estritamente comercial. Há muitas falsidades, como o baião e a música do morro.
— E é possível fugir ao comercialismo?
— Não há como fugir: toda a nossa indústria musical é dirigida ao fácil, tanto por parte do público como dos editores. Eu, por exemplo, não posso pilotar um movimento de renovação de nossa música, eivada de vícios: sou cantor, apareço em exibições públicas e sou compositor. Tenho de ganhar a vida.
— E você gosta de jazz?
— Muito. Não há nada mais puro e espontâneo em nosso tempo do que o jazz. Amo no jazz a improvisação, o virtuosismo instrumentista e a criação. O jazz é, a meu ver, a expressão musical mais forte do meu tempo.
— Suas predileções?
— Para mim, o maior é Jelly-Roll Morton. Vou até Fats Waller e Louis Armstrong.
— E o bebop?
— De bebop não gosto. É uma espécie de 'dadaísmo' musical.
"ESTOU DE MAL"
Passamos a extrair de Caymmi a confissão de sua maneira usual de compor:
— A titulo de publicidade, costumo dizer em entrevistas que componho ao violão. Não é verdade.
Acredito que todo compositor como eu, que não sabe música, compõe imaginando a linha melódica, confrontando semelhanças com outras canções, pesando a força lírica, procurando as palavras. Faço minhas músicas em geral andando na rua, nos lugares em que posso falar sozinho, nos lugares em que haja muita gente e onde eu sinta uma certa indiferença pela minha pessoa.
Não acredito em inspiração. Posso lhe contar como nasceu Marina: ao sair de casa, meu filho Dorivalzinho me disse de cara zangada: "estou de mal". Na rua, essa frase ficou martelando minha cabeça:
Estou de mal, estou de mal, estou de mal...
Enquanto ia à rádio, comprava umas coisas, andava nas ruas, a melodia e a letra foram se compondo em minha cabeça. No fim do dia, a música estava pronta.
O RÁDIO RUIM
Dorival Caymmi diz não ter preferências entre suas composições:
— Acho que os outros cantores cantam mal a minha música. Isso imediatamente diminuiu o meu entusiasmo por elas.
Depois nos diz que ele é um mau artista de rádio:
— Sou capaz de cantar direito em um estúdio, mas não tenho jeito para me apresentar em um auditório: já em uma pequena casa de espetáculos me sinto à vontade. O rádio como é atualmente me desagrada. Devo no entanto muito ao rádio. Sou um produto do tempo em que o rádio cultivava as coisas sérias, do ramo do rádio como entendem Paulo Roberto, Almirante, Silvio Autuori, Fernando Lobo, Antonio Maria e outros poucos.
Caymmi se despede. Está se preparando para uma temporada na nova boate Meninão, de São Paulo. A estreia será por esses dias. Os ritmos e as lendas da Bahia estarão presentes na voz desse homem lírico e barroco chamado Dorival Caymmi.
Conheço Dorival Caymmi desde o início da década de 40, quando cheguei da Inglaterra, onde estudava, fugindo à 2ª Grande Guerra. Encontrava o baiano ali pelo Leblon, que nessa época estava começando apenas a dar um ar de sua graça. Minha casa ficava na Rua General San Martin, e entre uma sortida e outra à praia, nossa patota (naquele tempo se dizia turma) descansava o espírito num bar-mercearia que havia na esquina da Ataulfo de Paiva com a Carlos Góis: éramos eu, Rubem Braga, Moacir Werneck de Castro, Jimmy Abercrombie, Carlos Leão, Juca Chaves (o engenheiro e futuro dono do famoso Juca's Bar, de saudosa memória) e outros aderentes eventuais, alguns dos quais já se mandaram há muito. Caymmi morava numa casa de aparência estranha, no fim da Ataulfo de Paiva, que, se não me engano, ainda existe. Nada prenunciava ainda que o Leblon se fosse tornar um bairro tão em voga. O baiano gostava de tomar um conhaquinho, devagar e sempre. Nós éramos do chope e da cerveja. O verão carioca eliminava tudo na transpiração.
Desde então ficamos amigos. Nossas vidas eram diferentes. Caymmi era mais da patota de Jorge Amado. Eu tinha tido um período de compositor, aí pelos 16 anos, com os Irmãos Tapajós, dupla vocal famosa na época, mas depois deixei. Só o viria a retomar 27 anos mais tarde, quando Antônio Maria entrou de sola em nossas vidas. Já o forte de Caymmi era a composição. Alguns de seus mais belos sambas e canções datam dessa época.
Quando, em 1950, regressei de meu posto de vice-cônsul em Los Angeles, depois de cinco anos de ausência, Caymmi e Antônio Maria começaram a frequentar assiduamente minha casa. As facilidades diplomáticas então existentes induziram-me a trazer 30 caixas de uísque que tiveram o poder de aguçar extraordinariamente o faro de meus amigos. A casa vivia cheia, dia e noite. Lembro-me que uma tarde estava com Paulo Mendes Campos no Juca's Bar, na cidade, quando ouvi um cara desconhecido, na mesa ao lado, convidar um outro para ir à minha casa onde, assegurava ele, o uísque corria. Só sei dizer que 360 garrafas do mais puro escocês foram absorvidas em cerca de dois meses: o que representa uma média de 6 unidades por dia. E, a moçada já era sadia.
Entre 50 e 53, ano em que parti em posto para Paris, Caymmi e eu nos víamos com bastante frequência, em companhia de Antônio Maria, Aracy de Almeida, Paulinho Soledade, Fernando Lobo e outros encaixotadores de sereno. Encontrávamo-nos à noite, no finado Vogue, depois íamos para o Sacha's, depois ainda para o Clube da Chave, onde conheci, pouco antes de partir, meu parceiro Antônio Carlos Jobim. A conversa era ágil e maledicente. Caymmi seguia compondo. Quando, posteriormente, começou a trabalhar no Trinta e Seis, da Rua Rodolfo Dantas, nós não saíamos de lá. Era uma época boa e descompromissada, com a voz de Aracy, Elisete, Nora Ney, Doris Monteiro, Angela Maria e depois Maysa enlanguescendo as madrugadas...
Eu fizera, sozinho, meus primeiros sambas. Amávamos a noite como se ela fosse uma mulher.
Nosso último reduto era o Pescadores, na Francisco Otaviano, onde se comia os melhores ovos com presunto da madrugada e, eventualmente, saia cada pau de meter medo, por isso que a turma já vinha de muitas horas de voo.
Em 57, estando eu em Paris, soube que Caymmi ia chegar. Sem poder ir ao aeroporto, pedi à relações-públicas da velha Panair que o localizasse para mim em Orly, e falamos ao telefone. Fiz questão de assinar o ponto da amizade, e muito bem obrei, pois os baianos residentes, à frente dos quais se colocou Odorico Tavares, que viajara com ele, o sequestraram de tal modo, que só o pude ver uma noite, no Calavadoes, onde ele tocou violão e cantou para o trio local, Los Latinos: nome a que nós, os frequentadores de sempre, acrescentávamos maldosamente a letra R.
Mas foi somente em fins de 64 que nossa amizade se solidificou para valer, graças a um convite de Aloísio Oliveira e Paulinho Soledade, proprietário do Zum-Zum, para que fizéssemos um show juntos, escorados pelo Quarteto em Cy e o conjunto de Oscar Castro Neves. O show constituiu um grande sucesso, e nele lançou Caymmi sua bela valsa... das Rosas, cuja criação me anunciara uns 7 anos antes, uma tarde em casa de Jorge Amado: isso para dar uma pala de como o baiano curte o que compõe. Nós todos o acompanhávamos na belíssima História de Pescadores. Eu dizia sempre O Dia da Criação, com a boate no mais absoluto silêncio, e isso para mim foi muito bom, esse contato poético com o público, que me certificou de que a poesia ainda não havia morrido. Nosso bate-papo entre os números, na base do improviso, ficou muito popular na noite carioca, e Aloísio pensou mesmo em dele tirar um LP, que afinal não foi avante. Mas as fitas existem por aí, para documentar de sua espontaneidade, e das maravilhosas e sábias tiradas de Caymmi, que faziam o público morrer de rir.
De pouquíssimos seres humanos eu gosto tanto. Não há amigo mais perfeito, se não se exigir mais do que ele, em sua baianidade, pode e sabe dar: e não é por acaso este o segredo da amizade, a gente não forçar a barra do amigo, deixá-lo ser ele mesmo, usufruir do seu convívio no que ele tem de mais saboroso e autêntico?
"Acontece que eu sou baiano", disse ele num de seus melhores sambas. E é realmente difícil encontrar alguém mais baianamente dengoso que Caymmi, apesar de sua grande quilometragem carioca. Sua barriga redonda e cheia de ritmo, que parece dançar por conta própria quando ele canta — a barriga de um homem que viveu e amou a vida — é o retrato de sua Bahia. Como, de resto, sua cor; a malemolência brejeira de seus olhos, quando interpreta, e o balanço gordo e descansado do seu samba; samba que parece ter o visgo gostoso do ar da Bahia, feito de calor e brisa; o quebranto de suas ladeiras, por onde as baianas descem desmanchando as ancas; a untuosidade pungente de suas comidas e seus pirões afrodisíacos, onde o dendê, o amendoim, o gengibre e a pimenta-de-cheiro são condimentos obrigatórios; a pátina de seu casario, como no Pelourinho; e a misteriosa claridade de seu lar, que o fez dizer, num verso da mais alta síntese poética, em sua canção sobre a Lagoa do Abaeté:
A noite tá que é um dia...
Caymmi constitui, a meu ver, com Pixinguinha, Noel Rosa, Antônio Carlos Jobim e já agora, despontando no amanhecer, Chico Buarque de Holanda, um dos grandes cinco cimos solitários da música popular brasileira. Canções como O Mar, Dora, João Valentão, É Doce Morrer no Mar, Lenda do Abaeté, Saudade de Itapuã e Rosa Morena são obras-primas sem jaça, das maiores de todos os tempos no populário nacional ou estrangeiro. E assim é meu Caymmi: grande, sábio, vasto, intenso... um excelso mandarim baiano, que ainda representa melhor que ninguém esse maravilhoso berço mestiço da nacionalidade que é sua Bahia nativa — a terra onde os preconceitos não têm cor e a falta de bossa não tem vez.
Transcrito de:
Coleção Revista da Música Popular. Edição n. 4, janeiro de 1955. © 2006, FUNARTE e Bem-Te-Vi Produções Literárias.
O Pasquim, Edição 00064.1970. memoria.bn.gov.br
