Pequenas Biografias: LUIZ GONZAGA_o1

         "Eu tenho tanta coisa pra contar, nem preciso pensar, já sei de cor...
         Eu sempre fui um papagaio! Passei a vida inteira comendo, dormindo e mentindo".

         Luiz Gonzaga, para Dominique Dreyfus, sua biógrafa.

Por volta de 1860, fugindo da epidemia de cólera que estava devastando o Nordeste e matara a maior parte de sua família, dona Januária saiu de Missão Velha no Ceará, passou a serra do Araripe, chegando, acompanhada de sua filha Ifigênia, na fazenda da Caiçara, onde se empregou. Quando moça, apesar das marcas de varíola no rosto, Ifigênia tornou-se formosa e bem feita. José Moreira Franca de Alencar apaixonou- se por ela.

José era um moço bonito, alto, de cabelo louro e olhos verdes. Além de muito míope. Poeta, cantador, José tocava viola e gostava de farra. Montado no cavalo, com a viola a tiracolo, ele percorria a região, fazendo suas serestas...

Efigênia e José se casaram, sem dúvida contra a vontade da família Alencar, donos de terras na região, pois a noiva, além de pobre, era preta. Desta união nasceram quatro filhas: Maria (que todos chamavam Baía), Vicença, Josefa (apelidada Nova) e em 1893, Ana Batista (conhecida por Santana).

Santana não tinha quatro anos quando o pai saiu de casa para fazer uma compra e só voltou dois anos mais tarde, doente. Morreu pouco tempo depois.

Do pai, Santana herdou o corpo esguio e alto, a pele muito alva, os olhos claros, a vista curta e o gosto de cantar.

Ela estava completando 15 anos quando chegaram na fazenda da Caiçara, fugindo da seca, à procura das terras mais clementes do pé de serra, Januário e seu irmão mais velho, Pedro Anselmo.

As filhas de Ifigênia eram charmosas. Pedro Anselmo deitou olho em Baía, e Januário ficou gostando de Santana.

Em setembro de 1909, na Igrejinha do Araripe — o povoado da fazenda Várzea Grande, criado em 1868 — Januário e Santana casaram-se, assim como Pedro Anselmo e Baía. Santana tinha, então, 16 anos e dizem que estava toda contente e sorridente. A irmã, mais velha, chorava tudo o que podia.

Mais tarde, Vicença e Nova casaram, e as quatro irmãs ficaram vivendo no Baixio dos Doidos, povoado da fazenda da Caiçara. Antônio Jacó, marido de Nova, era vaqueiro da fazenda da Gameleira; Pedro Anselmo era carpinteiro; José Rufino, o marido de Vicença, e Januário, agricultores.

Normalmente, os moradores deviam três dias de trabalho por semana aos fazendeiros. De Januário, porém, os Alencar não exigiam muito, pois sabiam que, mais que tudo, ele era Mestre Januário, sanfoneiro famoso na região toda. Tal indulgência por parte dos Alencar era provavelmente devida também ao fato de ele ser o marido de Santana, uma Alencar.

Conforme a tradição naqueles latifúndios ainda hoje feudais, os donos da Caiçara, João Moreira de Alencar e sua esposa Maria Florinda, apadrinhavam a criançada toda.

E assim foi com Luiz Gonzaga do Nascimento, segundo filho de Januário dos Santos e de Ana Batista de Jesus, neto de José Moreira Franca de Alencar, nascido na fazenda da Caiçara, em 13 de dezembro de 1912 e batizado na matriz do Exu no dia 5 de janeiro de 1913. O padre, José Fernandes de Medeiros, sugeriu chamar o menino Luiz por ter nascido no dia de Santa Luzia; Gonzaga, porque o nome completo de São Luiz era Luiz Gonzaga, e Nascimento porque dezembro é o mês em que nasceu Jesus.

"Era uma vida de menino pobre, sem escola, sem gordura, mãe puxando a enxada. Se o inverno vinha bonzinho, a gente até melhorava a panela. Quando chegava a Semana Santa, a gente já tinha colhido as vagens, então começavam as trocas. Vinha uma vizinha: 'Ô, dona Santana, eu trouxe um queijinho de coalho, pra trocar com vosmicê'. Mãe pegava o queijo, dava um jerimum, um feijão verde. Daqui a pouco chegava outra: 'Ô, minha filha, queijo eu já tenho, preciso não'. Talvez porque os patrões dali não eram tão tiranos, sempre sobrava um leitinho deles pra gente".

Na casa de Januário, era Santana quem cuidava da roça: cultivava feijão-de-corda, vagem, macaxeira, batata-doce, algodão. Uma parte ela vendia, outra era para alimentar a família. Santana também fiava varanda de rede, coxim pra forrar sela, e corda de caroá, que vendia na feira do Exu. No sábado, ela carregava tudo no lombo do jumento e saía de casa às cinco horas da manhã. Eram duas horas de caminhada para chegar à feira. Passava lá o dia, vendendo suas mercadorias, comprando mantimento para a casa, e à noite regressava, exausta.

Enquanto Santana tinha a responsabilidade da casa, Januário ganhava a vida da família com o fole. Tocava nas festas e nos forrós — naquela época dizia-se 'os sambas' — de toda região. Segundo a filha Chiquinha:

"Pai passava a noite todinha tocando, chegava em casa de madrugada. Aí ele mandava minha mãe preparar uns ovos, comia, se deitava, e dormia até o meio-dia. De manhã cedo, minha mãe saía pra roça com todo mundo, pra deixar ele dormir. Quando ele acordava, ele almoçava e ia pra roça ajudar mãe".

Ele não era só tocador, também consertava 'fole', 'pé-de-bode', 'concertina' ou ainda 'harmônica', como chamam no Sertão a sanfona de oito baixos. Hoje em dia, a palavra 'sanfona', usada originalmente no Sul, se popularizou no Nordeste, por influência de Luiz Gonzaga, que passou a empregá-la quando, vivendo no Rio de Janeiro, tornou-se famoso. Mas, naqueles anos, famoso era Januário, que atendia a região inteirinha.

Priscila, vizinha e amiguinha da criançada, vivia metida na casa de Santana, e já então notara o fascínio que a sanfona exercia sobre o menino Gonzaga:

"Ele gostava de entrar na tenda de Januário. Mas ele sempre foi muito organizado, então deixava tudo em ordem. As meninas, não. Elas entravam lá e deixavam tudo à moda delas. Aí, Januário se zangava".

Em 1917, a família já contava com quatro filhos: Joca, Gonzaga, Maria Ifigênia (Geni) e Severino. A pobreza era grande, mas Gonzaga dizia que, para os meninos, a vida era maravilhosa:

"Tinha o riacho da Brígida, que todo mundo lá aprende a nadar muito cedo. A gente tomava banho, pescava de balaio ou de gandua, no riacho ou nas lagoas, jogava búzios, brincava de amarelinha, que lá se chama 'gata', brincava de cavalo de pau.

Quando eu era pequeno, gostava também de correr no mato, de caçar. Antes tinha muita caatinga, hoje acabou. Foram queimando, cortando, tirando lenha. Agora só tem essa capoeirinha. Caatinga é capoeirão, emaranhado de aroeira, de caroá, de macambira, de xiquexique, difícil de cortar. Rasga as canelas, a roupa"...

Porém do que o menino Gonzaga mais gostava, era da sanfona. Nascera para ser músico e não faltavam oportunidades para exercitar seu talento.

Januário percebeu que o filho tinha dom para a música. Passou a chamá-lo para o conserto das sanfonas. Viu que o moleque tinha bom ouvido. Formou-o, e o menino se tornou piloto de provas do pai: "Experimenta aí, Luiz, vê se a afinação tá boa"... Aos poucos, Gonzaga ia aperfeiçoando sua técnica no fole. Até que Januário achou que o filho podia acompanhá-lo nos bailes. Santana relutou. Mas Januário insistiu, implicou, brigou e passou a levá-lo consigo aos 'sambas'. Feliz, Gonzaga animava o baile com seu fole, revezando com Januário, até cair de sono. E nisso, o fole também caía!

Passando o Mestre Januário para trás, Gonzaga, com apenas 14 anos, era cada vez mais chamado para tocar nas festas. Por isso, apesar de a família continuar crescendo — em 1925 nascera Francisca (Chiquinha), seu nível de vida ia melhorando. Gonzaga já estava ganhando bem com o fole, o que lhe permitia ajudar a família.

"Quando começou a ganhar dinheiro, Gonzaga passou a mandar fazer as roupas dele. Ele ia muito arrumadinho: calça e paletó branco, porque quem não andava de branco não era boa gente. Era terno de brim, sapato — que ele nunca gostou de andar de chinelo ou alpercata — e chapéu de massa, que na época ele não usava chapéu de couro. E você pensa que ele andava a pé? O pai dele, sim, andava a pé, com as sanfonas nas costas. Gonzaga não. Sempre arranjava um cavalo, um jumento. E a sanfona ia numa sacola de pano, bem feita, abotoada"... (Sofia, prima)

Tocava nos bailes das redondezas, dançava e encantava as moças. Noivava, desnoivava, e o tempo ia passando. Até que descobriu o grande amor, o primeiro... ou pelo menos o único que Gonzaga revelou publicamente e com emoção:

"Meu primeiro grande amor... O campo do amor do homem da roça é muito restrito. Quando aparece uma pessoa que a gente simpatiza, é o grande acontecimento da nossa vida. Mas eu acho que a gente se apaixona mais pela carne, e dificilmente se consegue chegar a um bom termo com calma. O namoro é um agarrado, uma xamegação da moléstia e aquela vontade, e quando chega a noite de núpcias, chegam as desilusões porque ninguém estava preparado. As histórias de amor no Sertão são muito complexas, muito complicadas...  (...) Eu conheci Nazarena em Exu. Ela muito simpática, eu me apaixonei. Nunca tinha visto uma moça vestida de colégio!".

O namoro começou, mas Nazarena pertencia à família Olinto, mais ou menos importante e, sobretudo, branca. O Sertão tem suas formas de racismo: dificilmente seu Raimundo iria suportar o namoro da filha com um filho de morador, 'sem futuro' e negro, além do mais. Assim mesmo, os dois jovens se amavam e o namoro foi forte. Gonzaga, com quase 18 anos, já estava pensando, mais uma vez, em noivar. Até que contaram a ele que seu Raimundo soubera do caso, e dissera que não admitia o namoro da filha com "um sanfoneirozinho de nada, sem futuro". Como um bom machão sertanejo, o jovem músico não vacilou:

"Pensei: 'Eu pego ele!'. Eu sabia que ele ia para a feira todo sábado. Eu também ia, com minha mãe, vender as cordas que a gente fazia lá no mato. Minha mãe trazia as cordas no jumento, depois comprava umas coisinhas pra casa, e voltava no final da tarde. No sábado, quando nós chegamos, eu comprei uma faquinha mixuruca, escondi no bolso, tomei uma lapadas de cana porque no Sertão, quando um cabra quer fazer um malfeito, é muito comum ele tomar uns goles de cachaça para ficar brabão... Uns valentões de merda! — e saí à procura de seu Raimundo. Encontrei o homem:

— Ô, seu Raimundo, o senhor me conhece?

— Conheço sim, você é Luiz, o filho de Januário.

— É verdade que o senhor andou aí me descompondo, dizendo que eu sou um sanfoneirozinho de merda, sem talento aí para casar com a sua filha?

— Ora Luiz, conversa desse pessoal. Eu sou amigo de seus pais. Não vai atrás desse povo, não!

Mas ele percebeu que eu tinha bebido e estava desmantelado. Quando encontrou com a minha mãe, contou o que sucedera comigo.

Eu estava no meio dos meus amigos, todo metido a besta, contando que seu Raimundo tinha se afrouxado, com medo de mim, quando avistei minha irmã Geni:

— Gonzaga, mãe está te chamando lá na feira das cordas.

Quando minha mãe me viu, ela me disse:

— Vai buscar o jumento agorinha, que nós vamos embora nesse instante, e não boqueje.

Do Exu até nossa casa eram doze quilômetros. Ela deu uma passada, todo mundo a pé, andando, 'pei, pei, pei'. Chegamos em casa ao meio-dia; eu, com uma dor de cabeça da moléstia... nunca tinha bebido! Em casa, ela cochichou não sei o quê com meu pai, e eu de olho nela, longe. Ela então entrou no quarto, me chamou. Quando eu entrei, ela trancou a porta e meteu a chave no bolso da saia:

— Então tu agora é valente, anda armado e tudo? Quer até matar homem. E bebeu, hein? Pois vamos ver se tu é valente mesmo!

Ela estava com uma daquelas cordas na mão e começou a bater: 'tão, tão, tão!'... 'Safado! Sem-vergonha! Desgraçado!' E eu, chorando: 'Me acode meu pai!', e ela: 'Eu vou matar esse sem-vergonha!'. Bem, acabou me largando. Quando eu saí do quarto, meu pai, que nunca batia na gente, ainda me deu um chute nos traseiros, e falou: 'Seu cabra!'. Aí, eu saí de casa, fui me esconder nos matos, e lá passei a noite. Eu estava desmoralizado. O povo é muito tagarela, Nazarena ia saber da pisa que eu tinha levado. Foi então que eu comecei a arquitetar um plano para fugir de casa".

Na realidade, essa surra, que foi um marco importantíssimo na vida de Luiz Gonzaga, foi crescendo na lembrança dele com o passar do tempo.

Suas irmãs e primas lembram que Santana se zangou, com efeito, mas a surra não passou de uns tapinhas, "surra de língua", como dizia a irmã Muniz.

O certo é que Luiz Gonzaga estava ficando grande, em idade e ambição. O afã do filho de Januário já não cabia no Exu. Independentemente do incidente da 'surra', Gonzaga já andara dizendo aos amigos que "o jeito mesmo era dar no pé", porque senão não ia se arranjar na vida. A dita surra o incentivou, portanto, a tomar a decisão de ir embora logo. Ele então procurou José de Elvira, que era tangedor, e ia frequentemente para o Crato, entregar mercadorias:

"No sábado eu estive com Zé de Elvira. Ele me perguntou por que é que Santana estava braba. Eu expliquei o que tinha acontecido, disse que queria fugir de casa e precisava da ajuda dele. Ele ia no dia seguinte para o Crato, levar uma carga de farinha, e sugeriu que fôssemos juntos. Voltei para casa, e disse à minha mãe que tinha sido chamado para tocar no domingo, numa festa no Crato; peguei a sanfona e fui embora. Dormi na casa da sogra de Zé de Elvira, no Exu, e no domingo de manhã saí cedo".

Hoje, a bela estrada de asfalto que une Ouricuri, em Pernambuco, ao Crato, no Ceará, permite fazer o caminho em quarenta minutos. Mas, em 1930, era uma estradinha de terra vagabunda, e a viagem era bem mais demorada. Dormiram no mato, e, na segunda-feira de manhã, chegaram ao destino. Lá, se separaram. A ideia de Gonzaga era ir até Fortaleza para sentar praça. Apesar de Exu estar situado em Pernambuco, os exuenses são tradicionalmente muito mais vinculados ao Ceará, que fica bem mais próximo. Por isso Luiz Gonzaga foi para Fortaleza e não para o Recife, que só viria a conhecer no final dos anos 40. No Crato, Gonzaga vendeu a sanfona para conseguir o dinheiro da passagem de trem... e foi até a estação.

Naquele dia, só havia trem cargueiro para Fortaleza:

"Conversei com o chefe do trem, e ele deixou que eu embarcasse. Ô viagem ruim! Sofri demais!".

Transcrito (com adaptações) de:

Vida do Viajante: a saga de Luiz Gonzaga. © 2012, Dominique Dreyfus. Editora 34.

Imagens:

Luiz Gonzaga. Wikipédia

Luiz Gonzaga. https://luizluagonzaga.com.br/retratos/