Pequenas Biografias: LUIZ GONZAGA_o2

Luiz Gonzaga chegou a Fortaleza em meados de julho de 1930. Completaria 18 anos em dezembro. Legalmente, não tinha idade para se alistar.

"Quando eu me apresentei ao sargento, ele perguntou quantos anos eu tinha, e eu respondi 21 anos, que era a idade aceitável. Eu era taludinho, trabalhava na enxada, então ele acreditou... Eu menti porque se desse minha idade, não ingressava".

A verdade é que na época a situação política no país estava extremamente confusa e o Exército precisava de homens.

"O governo estava chamando recrutas para servir na Revolução. O assunto era Revolução, então era fácil entrar no Exército. Eu ingressei e mandei avisar meus pais que tinha sentado praça". 

Gonzaga não teve nenhum problema em integrar o 23º Batalhão de Caçadores, onde descobriria maravilhado um mundo de cuja existência jamais suspeitara. Tudo era diferente, as pessoas, as roupas, a comida... Tudo parecia tão imenso: a cidade, o movimento nas ruas, e o mar, que viu pela primeira vez.

Mas ainda faltavam as fardas. O recruta, que gostava de fazer pose, já se via de uniforme, andando garboso pela rua, e as moças olhando para ele, maravilhadas. Depois de alguns dias, enfim, chegaram. E foi aquela decepção! O corte era não importa o quê, e não havia uma única roupa que desse num único soldado. Desesperado, Gonzaga pensou que ia ter que aturar aquele figurino ridículo. Felizmente, sempre havia um jeitinho: umas costureiras que, por um preço razoável, reformavam os uniformes, e faziam dos soldados verdadeiros lordes.

Mas não chegou a exibir sua elegância pelas ruas da cidade...

Na Paraíba, Princesa estava fervendo com o assassinato de João Pessoa, vice-presidente de Getúlio Vargas na chapa da Aliança Liberal. No dia 4 de agosto de 1930, o batalhão de Gonzaga, sob comando do coronel Pedro Ângelo, embarcou num trem especial, a caminho da cidade de Souza, na Paraíba. Gonzaga ia viver, então, um dos capítulos mais importantes da História do Brasil, participando da chamada 'Revolução de 30', da qual, evidentemente, como a grande maioria dos soldados, não entendeu nada, como ele mesmo contava: 

"Eu me alistei em julho. Início de agosto, já estava no mundo, na Paraíba, defendendo uma fronteira. Eu, recruta analfabeto, sem jeito pra nada, no meio dessa revolução!"...

Cumprida sua missão em Souza, Gonzaga regressou ao Ceará. De lá a companhia se deslocou para a zona do Cariri, depois para Teresina, cumprindo a ordem de desarmar e prender os que insistiam em resistir à revolução.

A essa altura, Gonzaga havia completado doze meses no Exército. Podia voltar à vida civil, ou então engajar-se por mais alguns anos. Foi o que ele fez, escolhendo ir servir no sul do país. Em dezembro, embarcou para o Rio de Janeiro e de lá para Belo Horizonte. Em agosto de 1932 passou a integrar o 12° Regimento de Infantaria. 

"Porque o 12° RI tinha resistido à revolução, estava todo esfarelado e precisava de completar seu contingente. Aí fui para Belo Horizonte. Foi quando me falaram que Nazarena tinha casado, e estava morando no Mato Grosso. Aí eu pensei: bem, acabou-se minha paixão, não vou mais encontrar com ela; e fui levando minha vida de soldado". 

Passado algum tempo, pediu transferência para Juiz de Fora, para onde seguiu no mês de novembro. 

A situação política do Brasil continuava agitada, mas no quartel, a vida seguia seu curso normal e tranquilo, apenas interrompido, em março de 1933, por uma missão no Mato Grosso. Na guerra do Chaco, que opunha, numa questão de fronteira, a Bolívia ao Paraguai, o Brasil, que apoiava a Bolívia, enviou o 12° RI para Campo Grande, sede de uma guerra incentivada sem dúvida pelas poderosas Shell e Standard Oil. Tais detalhes escapavam totalmente ao entendimento da soldadesca, que ninguém informava com clareza. Mais uma vez, recebiam ordens, cumpriam ordens, estavam lá para isso.

"Houve no Mato Grosso um problema com a fronteira, e a esposa do presidente do Paraguai veio para Campo Grande: um problema político, e Getúlio Vargas mandou uma tropa de fora para guarnecer a fronteira, e eu fui com esse batalhão". 

Se houve tiros e batalhas nessa guerra, Gonzaga não contou. Para ele, o que ficou de sua participação na guerra do Chaco foi a polca paraguaia, cujos acentos alegres ele descobriu — mais tarde aprimoraria o ritmo na sanfona. 

Os anos iam passando, Gonzaga demorando nas Forças Armadas. A vida no quartel era só instrução, montar guarda, cumprir algum serviço para as famílias dos comandantes. Começou a achar os dias monótonos e pediu transferência para o 11° BC, em São João del-Rei. (...) Passou no concurso de corneteiro, o que lhe permitiu adquirir algumas noções de harmonia, aprender a tocar corneta, ser elevado a tambor-corneteiro de 1ª classe em janeiro de 1933, e ganhar o apelido de Bico de Aço. 

Mas tocar corneta para despertar um batalhão não correspondia à ideia que Gonzaga tinha da música. Ele começou a estudar violão.

 

"Até cheguei a tocar alguma coisa. Ia bem, apesar do violão ser vagabundo, aprendi um pouco mais de harmonia. Mas violão era um instrumento cheio de problemas, desafinava, não tinha o volume que eu precisava. Não vi futuro no violão. E minhas origens eram de pai sanfoneiro mesmo!".

Desde que vendera seu fole em 1930, para comprar a passagem de trem para Fortaleza, Gonzaga nunca mais tocara num oito baixos. Tentara integrar a banda do seu batalhão ao chegar em Minas Gerais, sem sucesso: a primeira coisa que o mestre da orquestra lhe pediu, foi que desse um mi bemol. Gonzaga nunca ouvira falar nessas coisas, e sua carreira de sanfoneiro-militar abortou ali mesmo.

Para preencher as horas vagas, escutava o rádio, tanto que conhecia todos os sucessos e os músicos da época. Era fã incondicional dos programas da Rádio Tupi, que conseguia sintonizar sem mais problemas, e não perdia um programa de Zé do Norte. Assim, se encantaria em 1938 com um baiano que estava começando a fazer sucesso no rádio, chamado Dorival Caymmi. 

Mas, ainda em 1936, ele fez amizade com um soldado da polícia, Domingos Ambrósio, que tocava sanfona e era até conhecido nas redondezas. Gonzaga, que na realidade só sabia tocar sanfona de oito baixos, começou a estudar sanfona com Domingos, aprendendo a tocar as músicas que ouvia no rádio e tanto apreciava. O problema é que lhe faltava uma sanfona própria para treinar. Domingos apresentou-o então a um amigo, Carlos Alemão, fabricante de sanfonas. 

"Conversei com Alemão, que trabalhava mal demais. E ainda demorou uns três meses em fazer o serviço. Quando, até que enfim, ele me entregou a sanfona, eu peguei no instrumento, fiz 'fon' e pensei: pois é, dá pra fazer 'fon', então está boa. Foi com ela que eu comecei. Tinha 48 baixos, era ruim demais, mas deu para o que eu queria".

Efetivamente, a sanfona, ainda que medíocre, possibilitou a Gonzaga aprimorar a técnica, e até aproveitar seus dias de folga para tocar nas festas de Juiz de Fora e, mais tarde, de Ouro Fino, para onde foi transferido em 1937.

Em Ouro Fino, justamente, havia um advogado, o Dr. Raul Apocalipse (sic), grande amante de teatro e revistas musicais, que costumava organizar espetáculos no clube Éden. Precisando de músicos, o advogado e teatrólogo pediu licença ao comandante para liberar Gonzaga, que já estava dominando melhor a sanfona. Diante da inatividade da tropa, não foi problema aceitar o convite. O advogado mostrou como se movimentar, como se apresentar, e Gonzaga fez seu début num palco, diante de um público urbano. Raul Apocalipse não imaginou um só minuto que estava iniciando no métier uma das maiores figuras da música brasileira! Satisfeito e feliz, Gonzaga tocou, cantou para o público de Ouro Fino. No repertório, Faustina, um choro de Gadé que Almirante havia gravado em 1937, os sucessos do grande astro da época, Augusto Calheiros, além de algumas músicas do famosíssimo acordeonista Antenógenes Silva, ídolo de Gonzaga.

As oportunidades de exercitar sua arte não faltavam, e Gonzaga progrediu rapidamente, sentindo então a necessidade de adquirir um instrumento de maior qualidade. Foi quando apareceu um caixeiro-viajante no quartel:

"Isso em 1938. Ele vendia louça, pano, e um bocado de coisas... Ele ficou sabendo que eu tocava sanfona nas festas. Me procurou e me mostrou um catálogo com o retrato de todos artigos que ele vendia. Tinha uma sanfona alemã, uma Hohner branquinha, de 80 baixos. Fiquei doido por ela. Custava um conto e duzentos. Era caro demais pra mim. Ele então me explicou que eu podia comprar a sanfona à prestação. Era só ir mandando o dinheiro cada mês, e, quando a sanfona estivesse paga, eu ia buscar em São Paulo. Eu então me inscrevi. Ele preencheu uma ficha, que eu assinei, me deu o recibo do sinal, o endereço da loja em São Paulo e foi embora. A partir de então, eu fiquei mandando o dinheiro certinho, todo mês, e contando quanto faltava para completar. Até que resolvi vender a sanfona velha e, com o dinheiro, completar de uma vez o pagamento da nova".

Gonzaga resolveu ir a São Paulo, saldar a nova sanfona. Comprou uma roupa civil, botou na malinha, pois não tinha direito de andar sem uniforme em Ouro Fino, e, no trem, trocou de roupa. Ao chegar em São Paulo, hospedou-se no Hotel Toscana, próximo da estação, recomendação do comerciante que lhe vendera a sanfona. 

"O dono do hotel era italiano. Cheguei lá à tardinha, pedi um quarto, tomei um banho e me deitei na cama, esperando a hora do jantar. Daqui a pouco, escutei alguém tocando sanfona. Saí do quarto e fui seguindo o som. Cheguei na cozinha, uma cozinha grande, e lá estava o velho, meio escondido por um armário, tocando. Quando ele me viu, ele parou e me contou que sempre tocava para chamar os hóspedes para jantar. O cozinheiro era ele. E perguntou se eu tocava. 

— Toco um pouco; inclusive eu vim para São Paulo buscar uma sanfona que comprei.

 Então amanhã a gente faz um chorinho, com meu filho, que também toca. 

Jantei, fui dormir. No dia seguinte, cedinho, saí pra rua, todo bem vestido. Tem até um retrato meu vestido à paisana. Botei um cigarro para fazer pose! Estou de paletó e chapéu. Estava fazendo um frio danado, e eu vestido de lorde. Foi nesse dia que eu tirei o retrato, a caminho da loja. Quando cheguei no endereço que o caixeiro-viajante tinha me dado, decepção!

— Bom dia, eu vim buscar uma sanfona que eu comprei.

— Sanfona? Que história é essa? Aqui ninguém vende sanfona, não senhor!". 

Gonzaga fora simplesmente vítima de uma trapaça que lhe custara 500 mil réis. 

Voltou para o hotel desesperado, e contou o sucedido para o toscano, que perguntou: 

— O senhor tinha pago todas as prestações? 

 Tinha não, ainda faltavam 700 mil réis para completar, que eu trouxe.

Ele então chamou o filho e falou: 

— Ô, Armando, você está com um problema de coluna, o médico já proibiu você de tocar sanfona. E você já tem um piano, um órgão, não precisa de harmônica, não. Você vai vender sua Hohner para esse moço, por 700 mil réis. 

E Gonzaga regressou a Ouro Fino com uma Hohner branquinha de 80 baixos, igualzinha à que ele tinha 'comprado' do caixeiro-viajante! Só que essa aí existia. 

O comandante do quartel não se sensibilizou com a beleza da sanfona, e castigou o soldado n.º 122, que fugira do quartel. Gonzaga cumpriu, pois, quatro dias de prisão. E no mês seguinte, forçado pela lei dos dez anos, deu baixa do Exército. 

"Me mandaram embora. Um soldado não pode se tornar soldado profissional. Aí o Exército, pra fazer economia, de vez em quando manda um magote fora". 

Na verdade, um decreto recente proibia os soldados de se engajarem por um período superior a dez anos. Gonzaga, com um tempo de serviço de quase nove, resolveu então colocar um ponto final à sua carreira militar. 

No dia 27 de março de 1939, embarcou num trem para o Rio de Janeiro. Na bagagem levava uma passagem de navio para o Recife, um passe da Great-Western que o levaria até o Exu, um dinheiro para as despesas que teria até chegar em casa, e uma ordem de permanência num quartel do Rio, no Batalhão das Guardas, onde ficaria aguardando a chegada do navio do Lloyd no qual devia embarcar.

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Transcrito (com adaptações) de:

Vida do Viajante: a saga de Luiz Gonzaga. © 2012, Dominique Dreyfus. Editora 34.

Imagens:

1. https://luizluagonzaga.com.br/retratos/

2, 3 e 4. Vida do Viajante: a saga de Luiz Gonzaga.