Pequenas Biografias: LUIZ GONZAGA_o4

O tempo das calçadas do Mangue, do pires e até das humilhações (quando lhe atiravam um 'vai trabalhar, vagabundo' no lugar de gorjeta), estava longe. Um tempo do qual ele só voltaria a falar publicamente muitos anos mais tarde. É muito provável que não conviesse à moral da época ter começado a carreira em tão mal-afamado ambiente. Nas décadas de 40 e 50, nem nas reportagens, nem nas entrevistas, era revelada essa fase da carreira do acordeonista. 

Agora, cada vez mais solicitado, além do contrato na Victor, fora convidado por Genésio Arruda e Januário França a fazer a cortina deles na praça Tiradentes. Tocava ainda nos melhores dancings (Farolito, Avenida, Lorde, Copacabana Palace) e também nos melhores clubes e cinemas (Olinda, Colonial, Ópera, Paris...). 

No mais, até que enfim, conseguira ser contratado por uma emissora. Renato Murce, que se tornaria um verdadeiro mentor do sanfoneiro, o chamara para substituir... Antenógenes Silva, no badaladíssimo programa Alma do Sertão, na Rádio Clube. Seu contrato previa que ele tocasse ainda em outros programas, recebendo para isso um bom salário. O cunho musical nordestino de Luiz Gonzaga estava, pois, claramente definido. César de Alencar, o popularíssimo locutor de Alma do Sertão, não poupava elogios ao músico, a quem apresentava como "o maior sanfoneiro do Nordeste, e até do Brasil".

Já então, Gonzaga tinha saído da Rádio Clube. Após uma temporada na Mayrink Veiga, como integrante da orquestra de sanfonas de Muraro, passou para a Tamoio, uma das numerosas emissoras do império Chateaubriand. Fora contratado por Fernando Lobo, o novo diretor, que o descobrira através de Almirante. 

"O Almirante um dia me falou de um sanfoneiro extraordinário, muito diferente de todos os sanfoneiros que tinha ouvido até então; era o Gonzaga. O contrato dele comigo foi muito engraçado. Quando ele chegou no meu escritório e se apresentou, eu falei para ele: 'Olha, Gonzaga, eu quero que você trabalhe comigo, e quero lhe dar um bom ordenado. Mas no momento, eu ainda não tenho o dinheiro. Só daqui a dois meses é que eu vou ter. Mas não quero que você suma. Então, se você quiser, a gente assina uma carta, na qual você se compromete em vir daqui a dois meses para o nosso regional'. Gonzaga retrucou: 'Não, a minha palavra é uma só, não precisa assinar carta nenhuma'. Realmente, dois meses mais tarde, ele apareceu na Tamoio e assumiu o cargo de sanfoneiro no regional, com o ordenado enorme de um conto de réis por mês. Ele tanto acompanhava Carmem Costa, como as outras sambistas". (Fernando Lobo)

Até então, o conjunto regional da Tamoio era formado por dois violões, um cavaquinho, uma flauta e um pandeiro. Ao contratar Luiz Gonzaga, Fernando Lobo modificou essa estrutura, substituindo a flauta pela sanfona, que passou a ser solista. Segundo Lobo, o resultado foi ótimo.

Gonzaga estava garantido, mas, rapidamente, começou a querer ir mais adiante. 

"Eu gostava de tocar sanfona e, como tal, comecei tocando solo. Mas depois eu me saturei, achei que aquilo não tinha futuro. Eu não esperava ser cantor. Mas como eu andava nas gafieiras, nos cabarés, nos taxi-girls, comecei a observar aqueles cantores, como é que eles faziam, e fui repetindo. Decorei alguns sambas, alguns boleros... e tentei minha chance. Mas a voz não ajudava. Eu não era do samba, aí, eu não podia entrar no samba". 

O sotaque e o balanço de Gonzaga não se encaixavam no ritmo do samba e ninguém o aceitava como cantor. Porém o sanfoneiro era teimoso, possuía uma intuição do seu talento e parece que nada o desencorajava a seguir essa intuição. Não podia cantar samba e bolero? Pois cantaria outra coisa. Começou a pensar em fazer suas próprias músicas. Não sentindo nem talento nem vocação para letrista, precisava encontrar um parceiro que pudesse escrever versos para as músicas que ele vinha compondo, desde que chegara ao Rio. 

Uma noite, num dancing, esperava a hora de subir ao palco, quando chegou Miguel Lima, um músico que conhecia de vista. 

Foram dali para um bar, começaram a beber e a conversar. Ao se despedirem no final da noite, tinham decidido fazer parceria. Miguel voltou para casa com missão de pôr uma letra no Vira e Mexe. Alguns dias mais tarde, Vira e Mexe chegou às mãos de Gonzaga, com letra e novo título: Xamego. Em pouco tempo, Gonzaga já formara um repertório razoável. 

"Quando eu comecei a cantar minhas músicas nos cabarés, nos dancings, o povo achou graça. E quem vende graça, ganha dinheiro".

CONTRATOS

Meados do ano de 1943, assinou o seu primeiro contrato para se apresentar fora do Rio. Tratava-se de uma temporada no Cassino Ahú, em Curitiba. A imprensa local entusiasta noticiou então que "Luiz Gonzaga, o maior acordeonista brasileiro, tendo atuado com sucesso durante 45 dias no Cassino Ahú, nos proporcionou uma grande surpresa quando, nos dias em que cantou sambas, animando as danças, revelou-se um ótimo intérprete de músicas populares". Ainda ganhou, depois dessa mesma temporada, um longo e elogioso artigo intitulado Luiz Gonzaga, o acordeonista que venceu, publicado por uma das grandes musicólogas brasileiras, Mariza Lira, na revista Galeria Sonora. 

Segundo dizia Luiz Gonzaga, nessa ocasião ele encontrara seu caminho. Havia muito obstáculo para enfrentar, e muito diretor artístico para convencer. Na Tamoio, a resistência foi insuperável, como lamentaria Fernando Lobo, anos mais tarde: 

"No que diz respeito a Luiz Gonzaga, há um crime imperdoável cometido por mim. Eu soube pelo contrarregra que, quando faltava um artista, Gonzaga cantava no lugar. Eu então chamei Gonzaga e falei que ele não fora contratado para ser cantor. Ele era sanfoneiro, e sanfoneiro continuaria a ser. Nada mais. Eu nem procurava saber como ele cantava. Eu era um menino de trinta e poucos anos e já era diretor de rádio. Então eu achava que tudo tinha que encaixar com a disciplina. E lá vinha aquele nordestino querendo quebrar a disciplina. Depois eu fui para os Estados Unidos e só voltei quatro anos mais tarde, quando Gonzaga já se tornara aquela figura".

Ao contrário do chefe, na Tamoio, muita gente acreditava no talento de cantor de Luiz Gonzaga, gostava da voz quente dele, do tempero sensual e cheio de graça que havia no seu swing. Tanto que, com o apoio dos colegas, entre outros, de Átila Nunes, continuou cantando nos programas. Até o dia em que, ao chegar à rádio, viu que Fernando Lobo mandara colocar cartazes nas paredes, avisando ao pessoal da emissora que "Luiz Gonzaga está terminantemente proibido de cantar, por ter sido contratado como sanfoneiro". Gonzaga teve que adiar o projeto de ser cantor de rádio. Fernando Lobo ganhara uma batalha, mas a guerra continuou. 

Gonzaga foi tentar sua chance na Victor. Falou com Vitório Lattari, o diretor artístico. E foi o mesmo fiasco, a mesma obstinação: Gonzaga fora contratado como sanfoneiro, e sanfoneiro seguiria sendo, gravando seus discos solos, e acompanhando os colegas da Victor: Carmem Costa, Bob Nelson, com quem faria várias temporadas pelo Brasil, tornando-se, os dois, inseparáveis amigos, Marilu, Ademilde Fonseca... pois ninguém melhor que o homem que colocou a sanfona no choro, gênero predominante no seu repertório então, podia acompanhar a mulher que inventou o 'choro cantado'. Também acompanhava Benedito Lacerda e seu regional, cujo guitarrista, um certo Dino (futuramente 'Sete Cordas'), divertindo-se com aquela cara redonda de sertanejo, o apelidou de 'Lua'. Apelido que seria popularizado mais tarde por Paulo Gracindo e César de Alencar, na Nacional. Em suma, Gonzaga era sanfoneiro, e, pelo gosto de seus patrões, de sanfoneiro não passaria. Vale apontar que ele era considerado por todos como um grande instrumentista. A imprensa não poupava elogios ao virtuosismo, ao talento, à técnica do artista, afirmando que "entre os sanfonistas aparecidos recentemente no rádio carioca, Luiz Gonzaga é o de melhor classe sem dúvida. É digno substituto do notável Antenógenes Silva"... e previam-lhe longa carreira, dando aí razão ao instinto de Ernesto Matos. Mas quanto a cantar, isso não. 

"Quando eu falei em cantar na minha gravadora, ninguém aceitou. Aí eu comecei a dar minhas músicas para outras pessoas cantarem".

Sua primeira intérprete foi Carmem Costa, que gravou Xamego em fevereiro de 1944.

Mas Luiz Gonzaga queria chegar ao Nordeste de qualquer jeito. Intuitivamente, pedra por pedra, estava construindo os alicerces da sua grande obra.

Miguel Lima, que gostava do jeito de Gonzaga cantar, aproveitou para dar-lhe mais uma força, incentivando-o a interpretar suas músicas. Isso e mais a dificuldade em conseguir um intérprete adequado, convenceram Gonzaga de que tinha chegado a hora de soltar a voz. Ele imaginou então um estratagema, com a cumplicidade de Felisberto Martins, diretor artístico da Odeon. Foi pedir mais uma vez a Vitório Lattari que o deixasse cantar. Ao receber (mais uma vez) o veto de seu diretor-artístico, disse que, nessas condições, ia aceitar o convite de Felisberto para cantar na Odeon. Assinaria contrato na gravadora concorrente, com um pseudônimo, e lá faria carreira de cantor, enquanto na Victor, sob seu próprio nome, seguiria como sanfoneiro. Com esse argumento, ganhou a guerra. Vencido e furioso, Lattari xingou: 

 Você não vai para a Odeon coisa nenhuma. Você vai cantar é na Victor. E aí, já tem alguma coisa para gravar? 

Era o que não faltava. Já constituíra vasto repertório com Miguel Lima. No dia 11 de abril, Luiz Gonzaga entrou no estúdio da Victor para gravar o vigésimo-quinto disco de sua carreira de sanfoneiro. E, sobretudo, o primeiro como cantor. Gravou Dança Mariquinha, uma mazurca de sua autoria, com letra de Miguel Lima. Na face B do disco, por via das dúvidas e com Vitório Lattari à espreita, registrou um instrumental, Impertinente, polca também composta por ele mesmo. O lançamento de Dança, Mariquinha não provocou nenhum terremoto. Tampouco arrombou as finanças da Victor. A verdade é que os primeiros passos de Luiz Gonzaga como cantor passaram desapercebidos, sem vivas nem vaias. Em junho do mesmo ano, estava de volta ao estúdio, para fazer seu segundo disco cantando. Gravou então o xamego Penerô Xerém, outra parceria com Miguel Lima, e Sanfona Dourada, um instrumental. Ainda em 1945, no mês de setembro, gravou a deliciosa mazurca Cortando o Pano. A letra, inspirada pelo gosto do cantor em vestir-se à última moda (dizem até que ele foi dos primeiros a usar o paletó com fenda atrás), era de Miguel Lima e de um novo parceiro, Jeová Portella. Gonzaga estava chamando muita atenção no meio, e começava a ser procurado para parcerias. Foi o caso de Jeová, mulato bonachão, que trabalhava na estrada de ferro, assim como Miguel Lima, e fazia letras nas horas vagas (ou seria o contrário?). Entre 1945 e 1946, Gonzaga e J. Portella fizeram lindas parcerias, e até sucessos importantes, como o Calango da Lacraia.

Cortando o Pano foi lançado em novembro de 1945, com Caxangá, um instrumental, na face A. Mas dessa vez o 78 rpm estourou, fazendo com que ele se firmasse como cantor e derrubasse as últimas muralhas de resistência à sua voz no rádio. 

A Tamoio, cujo novo diretor, Gilberto Martins, não renovara o contrato de Luiz Gonzaga, não pôde aproveitar o seu talento de cantor. Quem se beneficiou do sucesso do sanfoneiro-cantor acabou sendo a Rádio Nacional, com a qual assinara contrato em setembro de 1945, realizando o sonho da vida de qualquer artista nas décadas de 40/50. Victor Costa, que dirigia o barco da grande emissora, o contratara conquanto... se limitasse a tocar sanfona e não cantasse!

Verdade é que sua voz singela e alegre não correspondia em nada aos critérios estéticos da época. Não se podia comparar aos empostados vibratos de Chico Alves, Orlando Silva ou Nelson Gonçalves... 

Porém, com o sucesso de Cortando o Pano, Luiz Gonzaga modificou os critérios, e entrou no time dos artistas conceituados da Nacional. Tinha seu programa, seu prefixo   Vira e Mexe, a música que lhe deu sorte   seus fãs (ou melhor, suas fãs)...

GONZAGUINHA

Foi aí que sua companheira de então, Odaléia Guedes, mais conhecida por Léa, deu à luz Luiz Gonzaga do Nascimento Júnior. 

Eles tinham se conhecido em 44. 

"Léa era carioca, sambista, e fazia parte do coro de Erasmo Silva, que gravava comigo. Um coro muito bom, muito conhecido. Tudo quanto é gravadora chamava Erasmo Silva e seu coro. Odaléia era a mais novinha de todas as cantoras do coro. Erasmo já tinha estado em casa para ensaiar umas músicas comigo, e sabia que eu morava sozinho num apartamento arrumadinho. Ele então me sugeriu que hospedasse Odaléia, pois ela tinha sido expulsa de casa, e estava muito perdida. 'Leva ela, assim ela faz a limpeza de seu apartamento, faz a cabeça pra ver se pega outro caminho'. E daí, eu muito sozinho e tal"...

Não se sabe se Léa fez a limpeza da casa, mas tudo indica que a cabeça ficou para outro dia. Como tampouco se sabe se Gonzaguinha era ou não filho biológico do sanfoneiro. O certo é que Gonzaga se apaixonou pela cantora, com quem iria escrever um capítulo ardente de sua vida amorosa. Os amigos e familiares recordam que o casal viveu uma história cheia de paixão e ódio, de separações e reconciliações, de brigas e beijos. Diziam deles que eram dois temperamentos fortes. 

No início da relação, Gonzaga estava morando na rua Buarque de Macedo, no Catete. O espaço era pouco, precisavam se mudar. Gonzaga arranjou um apartamento no porão de um prédio, no Estácio. Foi lá, no dia 22 de setembro de 1945, que nasceu o menino, que era a cara da mãe. Gonzaga não era casado com Léa, mas reconheceu a criança, dando-lhe seu nome completo. Xavier e Dina foram convidados para padrinhos do menino. 

"Quando Gonzaguinha nasceu, Gonzaga escreveu pra Santana, dizendo que tinha tido um filho e ia botar o nome dele no menino. Aí, Santana mandou dizer para ele que procurasse casar com a mãe. Foi uma sugestão que ela fez. Mas Gonzaga, sabendo da moça, do ambiente dela, não quis. Era uma artista, só não era artista de nome, era artista de boate, de dancing, era uma moça que sabia fazer alguma coisa na vida". (Priscila, vizinha e amiga de infância)

A paternidade de Gonzaga foi publicamente contestada após a sua morte, no livro de Assis Ângelo Eu Vou Contar pra Vocês. Segundo testemunhos daqueles que conheceram Luiz Gonzaga e Léa, a dúvida sempre pairou na cabeça de todos. Aliás, para a maioria dos amigos que o conheceram na época, nem dúvida havia. Nas entrevistas realizadas para este trabalho, os testemunhos foram unânimes, afirmando que todo mundo sabia que Gonzaguinha não era filho de Luiz Gonzaga.

Por sua vez, Gonzaga nunca fez mistério de sua esterilidade, apesar de, nas conversas que tivemos em 1987, ele sempre ter sido muito ambíguo ao tratar desse assunto. 

Na intimidade da relação, à sua segunda esposa, Edelzuita Rabelo, ele revelou que tinha hospedado Odaléia em sua casa porque, justamente, ela estava grávida, abandonada, sem ninguém para cuidar dela e precisando de ajuda. Segundo Lúcia e Neusa, irmã e sobrinha de Dina, o próprio Gonzaguinha estava a par desta dúvida, e morreu sem saber exatamente se Luiz Gonzaga era ou não seu pai biológico. 

A verdade é que, na medida em que Luiz Gonzaga, pai e filho, nunca fizeram teste de DNA, o mistério permanece inteiro e inviolável.

O nascimento da criança não amansara o casal, cuja paixão seguiu seu caminho todo em ziguezagues tempestuosos.

Pouco tempo depois, Léa adoeceu. Gonzaga esqueceu seus rancores, e a levou para o médico. 

"Ele examinou, ela estava tuberculosa e eu não sabia. Aí providenciei uma casa de saúde em Petrópolis para ela. Depois, peguei o garoto e levei para casa de Xavier e Dina. Contei o caso e pedi para eles ficarem com ele uns tempos. Dali a uns quinze dias, Léa fugiu do sanatório e veio bater lá onde eu estava morando. Eu falei que ela estava cometendo um erro, levei-a para outra casa de saúde lá em Minas Gerais, para ver se ela ficava. Eu ia vê-la, levava flores, levava frutas, pagava a mesada dela. Ela ficou lá até 1946. Quando o médico mandou dizer que eu podia ir buscá-la, eu fui pra pagar a derradeira, dei um dinheiro a ela e avisei que ela podia pegar o rumo dela, que eu já estava no meu. Não tive mais notícias dela, até que soube que ela estava cantando num dancing e vivendo com um pistonista".

Léa nunca mais se encontrou com Gonzaga, apesar de continuar amiga da família, frequentando a casa de José Januário e sua esposa, Clara. 

Quanto à criança, ficou com os padrinhos, que o criaram, com o apoio financeiro constante de Luiz Gonzaga. 

Mas nem os dissabores conjugais, nem as responsabilidades de pai, nem as aventuras amorosas, afastavam ou distraíam Gonzaga do seu projeto artístico. 

"Eu me lembrava do Nordeste, eu queria cantar o Nordeste. E pensava que o dia em que encontrasse alguém capaz de escrever o que eu tinha na cabeça, aí é que eu me tornaria um verdadeiro cantor. O Miguel Lima fora o primeiro parceiro que me apareceu. Mas o seu raio cultural não era nordestino. O Dezessete e Setecentos foi fácil de fazer, porque não tinha compromisso regional".

Essa inquietação em trazer a música do Nordeste para o Sul, Gonzaga não era o único a senti-la. Na verdade, ele participava de uma tendência geral que vinha se desenvolvendo. A presença de artistas nordestinos na capital brasileira e o interesse do público pela música que eles faziam, se bem que de modo restrito, não era novidade. 

O país já havia tomado conhecimento da expressão musical nordestina, no início do século, através das parcerias de João Pernambuco e Catulo da Paixão Cearense, como Caboca de Caxangá ou Luar do Sertão, que hoje são grandes clássicos da música brasileira. Na década de 20, surgiram grupos como Os Turunas Pernambucanos, ou Os Turunas da Mauriceia, que fizeram imenso sucesso no Rio e em São Paulo. Vestidos à moda dos sertanejos (chapéu de abas largas, que seriam popularizados pelos cangaceiros, calça e camisa de brim branco, sandália de couro), apresentavam ao público urbano do Sul, emboladas, desafios e outras cantigas do Sertão. O público sulista, maravilhado, foi descobrindo tesouros melódicos do patrimônio musical brasileiro. Um dos grandes sucessos do carnaval de 1930 foi a embolada Pinião, d'Os Turunas da Mauriceia.

Depois, com a explosão do samba, a música do Nordeste foi perdendo sua força e também se deturpando. Aos poucos, uma certa tendência em apresentar o Nordeste como coisa matuta, e em assimilar matuto com grotesco, atingiu a interpretação da música nordestina, que passou a ser feita de modo caricato, embora existissem artistas de grande fama, como Augusto Calheiros, Manezinho Araújo, digno herdeiro do criador da embolada, Minona Carneiro, a dupla Jararaca e Ratinho e outros mais... Porém, observando bem, se havia os nordestinos, não havia realmente a música. Salvo a embolada, que encontrara aceitação do público urbano do Sul, as outras expressões musicais do Nordeste rural  desafio, repente, banda de pífaros  dificilmente podiam ser difundidas. 

Resumindo, havia um vazio musical no coração dos nordestinos que, em meados dos anos 40, vários artistas procuravam preencher, inventando, criando, lançando novos gêneros musicais. 

Foi o caso do cearense Lauro Maia, que trocou o Direito pela música e que criou, com relativo sucesso, o 'balanceio' a 'ligeira', o 'remelexo'. Foi o caso de Luiz Gonzaga ao inventar o 'xamego'. Esses ritmos novos tinham graça, agradavam, mas não tinham força, carisma, ou potencial para ficar. Luiz Gonzaga sabia disso, ele "tinha aquela música no coração, procurava encontrar expressão para ela, mostrar o quanto valia, o que tinha de autêntico. Queria mostrar, sobretudo, que não eram só aquelas emboladas mal arranjadas por certos artistas que tinham vindo do Norte, mas não a conheciam realmente". 

Luiz Gonzaga sabia que para realizar o que ele tinha na cabeça, precisava de um parceiro que o entendesse, e que entendesse o Nordeste. Ou seja, um parceiro nordestino. Ele conhecia Lauro Maia de nome. Além de terem um parceiro comum (Jeová Portella), o cearense, que chegara pouco anos antes ao Rio, tinha muitas músicas gravadas por Quatro Ases e Um Coringa, que se apresentavam frequentemente no rádio. Pensou que o cearense Lauro seria o parceiro ideal. Procurou-o então. Conversaram, falaram de música, de Nordeste, de criação, Gonzaga explicou sua ansiedade em relação à música, seus projetos... mas não o convenceu a trabalhar com ele. Por um lado, Lauro Maia era mais compositor, arranjador e pianista do que propriamente letrista, apesar de ter feito algumas letras. Além do mais, ele era muito boêmio e não gostava dessa coisa de compromisso a longo prazo com ninguém. Gonzaga tinha planos, ideias para campanhas promocionais. Isso não era com Lauro, não podia ser. Porém o cearense, desejoso de ajudar Gonzaga, falou-lhe de seu cunhado, com quem fazia parceria desde que chegara no Rio, no ano anterior. Esse sim, era um excelente letrista, e era cearense da gema. Recomendou a Gonzaga que o procurasse. Chamava-se Humberto Teixeira, e era advogado. Seu escritório ficava na avenida Calógeras.

Transcrito (com adaptações) de:

Vida do Viajante: a saga de Luiz Gonzaga © 2012, Dominique Dreyfus. Editora 34.

Imagens:

Luiz Gonzaga. s.d. Autor desconhecido.

Luiz Gonzaga. https://luizluagonzaga.com.br/

Turunas da Mauriceia. https://brasiliana.mus.br/

Gonzaga e Humberto Teixeira. s.d. Autor desconhecido.