Pequenas Biografias: LUIZ GONZAGA_o3

Gonzaga ficou no quartel, esperando que o navio do Lloyd a destino do Norte atracasse no Rio de Janeiro. Ele, praticamente, não conhecia a cidade. (...) Amedrontado pela agitação e o tamanho da capital, não se atrevia a sair do quartel. Um dia resolveu limpar a sanfona. Estava no dormitório, com o instrumento no colo, quando entrou um soldado. Ao ver Gonzaga, falou:
— Oi, rapaz, e tu toca sanfona? Tem um lugar aí, o Mangue, que esse fole dá pra você ganhar dinheiro. Lá, tudo quanto é bar tem música ao vivo. Enquanto seu navio não vem, você pode conseguir um dinheirão.
O Mangue, que ficava na atual Cidade Nova, era o bairro mais 'quente' do Rio de Janeiro. O quartel onde Gonzaga estava hospedado ficava vizinho ao Mangue, então, à noite, ele se arriscou a uma voltinha por lá, com o soldado. (...) Nada, absolutamente nada do que conhecera, se assemelhava com o que descobriu naquela noite. Jamais vira um ambiente como o que reinava no Mangue.
O lugar fervilhava, com seus bares lotados, seus inferninhos, à porta dos quais as mulheres, praticamente nuas, esperavam os fregueses. Ao alarido da ruas, juntavam-se as vozes das prostitutas gritando obscenidades, palavrões ou convites libidinosos, e a cacofonia alegre dos inúmeros músicos que ali vinham animar a noite. A maioria dos bares tinha seu conjunto, e o músico que não conseguia ponto num deles tocava na calçada mesmo. Com aquele mundo de gente circulando por lá, sempre havia quem desse uma gorjeta.
O moleque do Araripe abriu um olhão desse tamanho, observou, analisou e, na noite seguinte, botou a Hohner branca de 80 baixos no ombro, caminhou até o Mangue e se atirou na vida: investiu numa esquina qualquer e puxou o fole. As músicas que tocava quando pequeno com o pai há muito tinham lhe saído da mente. Nem eram coisas pra se tocar na cidade, no Sul. Ali, ele tocava o que aprendera com Domingos Ambrósio em Juiz de Fora: valsas, foxtrotes, tangos, choros. Não faltou público e, quando Gonzaga passou a latinha que providenciara, as moedas caíram e ele gostou. Tornou-se rapidamente um habitué do bairro. Fazia sucesso. Em volta sempre havia muita gente parada, escutando os acentos alegres de sua sanfona. Tanto que esqueceu do navio, do Sertão e de ir embora.
SÃO CARLOS
Nas portas dos bares, os donos ficavam observando o movimento da rua, e em torno dos músicos, nas calçadas. Quando percebiam que um deles atraía muito público, então chamavam-no para tocar dentro do bar. Músico que parava gente era um tesouro para os donos dos botequins: garantia freguês. E para o músico era melhor, tinha gorjeta segura, cerveja grátis e, em caso de chuva, estava protegido. Gonzaga não demorou a ser chamado pelos botequineiros, de modo que começou a ganhar o suficiente para se sustentar. Também começou a fazer amizades. Entre as principais, destacou-se o baiano Xavier Pinheiro. Outrora, Xavier fora marujo. Depois casara com Leopoldina, uma portuguesa, e agora era músico. Tocava violão e guitarra portuguesa, acompanhava fado, fazia programas de rádio na Vera Cruz, vez por outra umas pontas em gravações, dava aulas de violão, tocava numa bodega portuguesa da rua Santa Clara e à noite tinha um ponto no Mangue. Xavier chamou o sanfoneiro para jantar na sua casa, no morro de São Carlos. Gonzaga, que já não ia poder continuar no quartel, estava procurando um lugar onde ficar, e Xavier convidou-o a morar com ele e Dina, como chamava a esposa. Pouco tempo depois o novo amigo se mudou para a residência da sogra de Xavier, dona Amélia, antes de ir morar finalmente na casa de dona Tereza, uma vizinha de Xavier e Dina, que além do quarto também dava comida.
O morro de São Carlos, bairro tranquilo, era na época um reduto português, onde soavam os acordes nostálgicos do fado e das modinhas lusitanas, as modulações chiadas dos gajos e das raparigas e o cheiro gostoso do bacalhau à trasmontana e do caldo verde.
Gonzaga gostou do clima aconchegante e familiar do morro, do modo de ser tão gentil dos portugueses. Com aquele jeitão desembaraçado e simpático dele, em pouco tempo já dominava o bairro.
Por sua vez, tinha em Xavier um protetor e um mestre, que lhe ensinou os truques da vida de músico e boêmio. Ainda que Gonzaga demonstrasse mais talento para músico do que para boêmio. Xavier se queixava do companheiro, que queria ir dormir assim que acabava o serviço, que não bebia, não fumava e receava ser trapaceado pelas prostitutas.
O sanfoneiro estava trabalhando um repertório mais comercial, baseado nos sucessos do momento: blues, foxtrote, valsas, canções, enfim, todos os sucessos da época, que ele "massacrava no fole, sem a mínima reponsabilidade", como gostava de lembrar mais tarde. E precisava aprender a tocar tango.
Foi bater na porta de Antenógenes Silva, o melhor e mais famoso acordeonista da praça no início dos anos 40. (...) Gonzaga, que era admirador de Antenógenes desde o tempo em que estava em Juiz de Fora, fora apresentado a seu ídolo por Xavier. Antenógenes o recebeu na sua residência.
"Ele me procurou e me pediu se eu podia lhe ensinar a tocar pelo menos dois tangos. Aí, eu ensinei La Cumparsita e Mano a Mano. Com isso ele estava feito. Depois eu ainda dei umas aulas para ele. Ele era muito inteligente. Tudo ele aprendia com facilidade. Na sanfona, em pouco tempo ele já sabia mais do que eu. Eu não tinha mais o que ensinar".
Gonzaga começou então a pensar nos programas de calouros. Criados em meados dos anos 30, esses programas tinham por vocação revelar talentos. Estavam ganhando aos poucos grande popularidade, e todas as emissoras queriam ter o seu programa de calouros. Gonzaga, descobrira o rádio em Minas Gerais, conhecia de nome tudo quanto havia de emissora, de programa, de locutor, de artista. Era fã do Calouros em Desfile, de Ary Barroso, que ia ao ar nos domingos à tarde, na Tupi. Também conhecia Papel Carbono, de Renato Murce, na Rádio Clube. Para os candidatos ao estrelato que compareciam nos programas de calouros, os objetivos podiam ser muitos: impressionar papai-mamãe, a vizinhança ou o(a) namorado(a), que iam ouvi-los cantar no rádio, conquanto não fossem vergonhosamente gongados; ganhar um prêmio, quando prêmio havia; tentar um 'abre-te Sésamo' à carreira artística. Um sucesso junto ao público, ou a obtenção de um 5, a nota máxima de Ary, podiam proporcionar um contrato na rádio. Não faltam exemplos de estrelas que foram reveladas em programas de calouros.

Interessado em qualquer uma das possibilidades, Gonzaga começou a frequentar os programas de Renato Murce e Ary Barroso. No primeiro imitava Augusto Calheiros, Antenógenes Silva, Carlos Gardel. No segundo, tocava uma valsinha, um tango, um chorinho, ou até mesmo um samba. Nunca era gongado. Tinha técnica suficiente para chegar até o final da música que apresentava. Mas a nota jamais passava de um 3. Ary Barroso concluía a apresentação com um daqueles implacáveis sarcasmos, e a coisa ficava por isso mesmo. Gonzaga não era músico para tocar sucesso comercial. Muitos anos mais tarde, ao se auto definir, resumiu perfeitamente o motivo de suas malogradas tentativas radiofônicas:
"Quando eu toco, falo, faço arranjo, é tudo com meu sotaque. O meu sotaque não me permite cantar valsa, bolero, samba. A minha sanfona é parecida comigo".
O sotaque da sanfona de Gonzaga era aquele swing e aquele som inimitáveis, inconfundíveis, que se destacam com incrível evidência já na primeira gravação que ele fez. Um sotaque que atravessou os anos, as décadas, e que nada tem a ver com as modas. Um sotaque que fez de Gonzaga 'O Gonzaga'. Mas, em 1940, nem ele, nem Ary Barroso, nem o público sabiam disso. Nem podiam. Obcecado pelo desejo de integração no Sul, o pernambucano fazia na época tudo o que podia para se fundir na multidão carioca, imitando o modo de ser dos rapazes do Mangue, e afastando tudo o que havia de nordestino nele.
"Ninguém sabia que eu era nordestino. Eu já era um malandro, me atirava no meio dos crioulos, vestido igual a eles, até cantava samba nas gafieiras. Eu tinha interesse em me adaptar ao sotaque carioca. Sotaque nordestino, havia muito tempo que eu já tinha perdido. Também, já tinha saído do Nordeste há mais de nove anos. Quando dei baixa do Exército e fui embora de Minas Gerais, já estava ficando mineiro".
E dava mesmo para disfarçar... enquanto não falasse um 'e', aquele 'e' aberto, que não enganava ninguém. E que não enganou o grupo de estudantes cearenses que frequentavam o bar Cidade Nova, onde Gonzaga costumava tocar em dado momento. Saudosos da terra natal, os cearenses ficaram emocionados ao perceber a pontinha de sotaque nordestino do sanfoneiro valsista e tangueiro do bar. Puxaram conversa, acabaram ficando amigos dele. Gonzaga passou até a frequentar a pensão onde viviam, na rua Visconde de Paranaguá, na Lapa, verdadeira 'república' estudantil, à moda do século XIX. O exuense tocava sanfona para os estudantes; os estudantes pagavam com refeições... mas, um dia, reclamaram: basta de valsas vienenses! Por que diabos Gonzaga não tocava umas coisas lá da terra dele, do Nordeste?
— Não, não dá. Já faz muito tempo que eu saí de lá, não sei mais nada. E lá eu só tocava aquelas coisas de pé de serra.
— Mas é isso mesmo que nós queremos, rapaz!
Gonzaga tentou argumentar que as músicas do Sertão ele aprendera a tocar num fole mixuruca, que não tinha nada a ver com a sanfona dele; que essa música não ia interessar os fregueses dos bares onde ele costumava tocar, que etc. e tal. Mas os cearenses implicaram e, finalmente, ameaçaram não botar mais moedas no pires se ele não tocasse uma coisinha do Nordeste. Gonzaga acabou prometendo que, na próxima vez, tocaria alguma coisa lá daqueles pés de serra.
No dia seguinte, em casa, pegou a sanfona e começou a pensar nas músicas que tocava com o pai. Polcas, mazurcas, quadrilhas, valsas, chorinhos, coisas que existiam por todo o Brasil, mas que, no Sertão, eram tocadas com o 'sotaque' local. Gonzaga foi procurando, dedilhando os baixos e as teclas, revolvendo o passado, reconstituindo a memória musical.
"Eu passava o dia inteiro, tocando, procurando, ensaiando. Dona Tereza até reclamou: 'Ô, Gonzaga, toca uns fados, que essa música aí, a gente não entende'. Aí eu esperava ela sair para continuar treinando. E preparei duas músicas. Vira e Mexe e Pé de Serra. Caprichei nas duas composições e esperei os cearenses. Até que uma noite eles apareceram para 'trocar o óleo'. Aí eu pensei comigo mesmo: 'É hoje!' Quando terminou a música que eu estava tocando, dei uma pirada, recolhi as moedas na caixa de charuto, sem dar atenção aos estudantes, ajustei a sanfona no peito... E toquei Pé de Serra. Ti... tiririri-tiririri-tiririri...
Registrado mais tarde sob o rótulo 'xamego', Pé de Serra na realidade é uma polca charmosa e alegre, que encantou os fregueses do Cidade Nova e até os passantes na rua, que pararam à porta do bar para curtir o som fascinante da sanfona. Gonzaga nunca esqueceria a felicidade que sentiu ao ver o público rindo, aplaudindo, gritando, pedindo bis.
"Foi uma loucura. Respirei fundo, agradeci e joguei o Vira e Mexe... Tiiiiiii... tiririri tiririri tiririri tiriririrum... tchan tanran tan tan.... Ah! foi mais loucura ainda. Parecia que o bar ia pegar fogo. O bar tinha lotado, gente na porta, na rua, tentando ver o que estava acontecendo. Aí peguei o pires. Na terceira mesa já estava cheio. Aí eu gritei: 'Me dá um prato!'. Daqui a pouco o prato estava cheio. Aí pedi uma bandeja. E pensei: agora a coisa vai".
Qual a surra de Santana, com o passar do tempo, na memória de Gonzaga, o sucesso que fez naquela noite foi provavelmente crescendo, a história se embelezando. No entanto, mais de 50 anos depois de tê-la vivido, seus olhos ainda brilhavam de felicidade e emoção quando relembrava a cena, cantarolando o célebre xamego, que seria aproveitado durante anos como prefixo dos mais diversos programas sertanejos de rádio.
O certo é que Luiz Gonzaga estava começando a tomar consciência do valor de sua cultura musical.
Animado com o sucesso que fizera no Mangue tocando as músicas de pé de serra, resolveu tentar mais uma vez sua chance no Calouros em Desfile. Já que falhara lamentavelmente com os hits do repertório moderno, ia tentar Vira e Mexe, número um da sua parada de sucessos pessoal. Ao ver mais uma vez o sorriso resplandecente do sanfoneiro, Ary já foi ironizando: 'E aí, o que é que vai tocar hoje, valsa ou tango?'.
Nem valsa, nem tango, ia tocar uma coisa lá do Norte, o Vira e Mexe. Ary achou graça no título, fez um trocadilho qualquer como de costume, e mandou Gonzaga tocar: "Então arrevire e mexa aí!".
Quando soou o último acorde da música, Gonzaga notou a expressão séria, surpresa, admirada do Ary, ouviu o clamor no estúdio, o estrépito dos aplausos, e uma voz dizendo: "Luiz Gonzaga, nota 5".
Nesse dia, saiu da Tupi feliz da vida. Conseguira realizar vários sonhos de uma vez só: tocar numa rádio importante, tirar nota máxima no mais exigente dos programas de calouros, ganhar 150 mil réis e impressionar Ary Barroso.
ZÉ DO NORTE
Gonzaga admirava Zé do Norte, desde a época em que morava em Minas Gerais, quando não perdia A Hora do Guri, na Tupi. Emocionado ao ser apresentado ao ídolo, certa noite num bar do Mangue, manteve a cabeça fria e tocou o Vira e Mexe, seguido de Saudade de Ouro Preto. Depois, aproveitando a oportunidade, meio encabulado talvez, mas bem esperto, foi falar com Zé do Norte, e perguntou-lhe se tinha condições de ajudá-lo a tocar em rádio.
Por sorte, pouco tempo depois desse encontro, Zé do Norte se mudou da Tupi para a Rádio Transmissora (futura Globo), com a responsabilidade de dois programas: A Hora Sertaneja e Diz Ligue. Nordestino solidário, Zé do Norte lembrou-se do pedido do sanfoneiro pernambucano, e convidou-o para trabalhar com ele n'A Hora Sertaneja. A temática sertaneja das músicas apresentadas no programa correspondia exatamente ao que Gonzaga fazia de melhor. Ele conhecia bem o repertório regional paulista, mineiro, nordestino, evidentemente, e até gaúcho. Os cinco mil réis que ganhava por programa, quando muito, pagavam o bonde e uma cerveja. Mas Gonzaga tocaria até de graça, desde que integrasse uma estação de rádio, como era o caso. Sabia que assim podia fazer nome, tornar-se conhecido dos profissionais do planeta radiofônico. No limiar da década de 40, o sanfoneiro do Araripe sabia aonde queria chegar, e como tinha que agir para conseguir.
A sorte é que ele havia chegado ao Rio na hora certa. O desenvolvimento do rádio criava espaço para mais diversidade musical. As emissoras tinham no seu cast tanto orquestras sinfônicas quanto conjuntos regionais. E, na praça Tiradentes, onde existiam vários teatros e cinemas, não eram raros os espetáculos de sabor caipira. As gravadoras não relutavam em seguir a moda e também tinham seus artistas 'do interior'.
Para Gonzaga, parecia que as coisas estavam se organizando, tomando o rumo que ele queria. Tinha seus hábitos, seus pontos, onde conhecia todo mundo e todo mundo o conhecia. No meio da música profissional, ele já estava ganhando certa fama, principalmente como sanfoneiro, ou melhor, como 'sanfonista', como diziam então.
Justamente naquele momento, chegara ao Rio de Janeiro o paulista Genésio Arruda, para uma temporada em um cinema que ficava na praça Tiradentes, com um parceiro carioca, Januário França. Além do show, a dupla estava gravando um disco. A primeira música, uma valsa, já fora gravada, sem maiores problemas. Mas a segunda, de feitio sertanejo, não estava conseguindo sair. O sanfoneiro contratado não acertava fazer o que Arruda queria, e o dia tinha terminado sem que a gravação ficasse pronta. Januário França lembrou-se, então, de um sanfoneiro conhecido dele que era excelente e que, sem dúvida alguma, saberia tocar como Arruda estava querendo. Dito e feito, Januário foi para o Mangue procurar Gonzaga.
"Eu estava num bar tocando, quando apareceu Januário França. Eu o conhecia bem, ele sempre passava por lá e, inclusive, nunca me dava dinheiro, porque, segundo ele, não sabia dar gorjeta a artista por ser um deles. Ele me disse que vinha me fazer um convite, para eu gravar com ele e Genésio Arruda".
A dupla gravava pela Victor, que ficava na rua do Mercado, no mesmo prédio que a Rádio Transmissora, junto à Bolsa de Valores. Genésio explicou o que queria, Gonzaga fez o que lhe pediram com a maior facilidade, e ainda sugeriu botar uma introdução. Genésio aceitou a proposta e adorou o resultado. A gravação, que com o outro sanfoneiro não conseguira sair num dia inteiro, com Gonzaga ficou pronta em duas horas, deixando Arruda encantado. A música, intitulada A Viagem do Genésio, que conta as peripécias de uma viagem de trem entre São Paulo e o Rio, tem duas partes. A primeira é um diálogo falado entre Genésio e Januário. Na segunda, Genésio passa a cantar, acompanhado pela sanfona de Gonzaga e por um violão, num ritmo semelhante ao das rancheiras sulistas. Na época, as músicas sempre tinham indicação do gênero — samba, choro, polca etc. No caso de A Viagem do Genésio, está marcado no rótulo do disco: 'cena cômica'. Gravado no dia 5 de março de 1941, o disco foi lançado em maio, sob a referência 'Victor 34741'.
Vale observar que em nenhum lugar está indicado o nome dos músicos que tocam no disco. Sabe-se que o sanfoneiro é Gonzaga através do seu testemunho. Mas, mesmo que ele nunca tivesse evocado esse episódio sumamente importante de sua carreira, não é difícil detectar no som da sanfona aquele famoso sotaque gonzagueano. A personalidade do sanfoneiro já está nitidamente afirmada nessa gravação, que revela a impressionante maturidade do estilo e da técnica. É dizer que, em 1941, a grife Gonzaga já se impunha ao ouvinte. E isso não escapou à atenção de Ernesto Augusto Matos, que era chefe do setor de vendas da Victor, mas que, por ser um dos mais antigos na casa, assessorava os diretores artísticos da gravadora. Ernesto mandou chamar Gonzaga quando terminou o trabalho no estúdio.
"Eu fui ver seu Ernesto e ele pediu para eu fazer uma prova. Se ela fosse aceita, a gente fazia um disco. Aí toquei uma rancheira e ele gostou. Toquei uma valsa, ele gostou. Propus uma coisa lá do Norte, mas ele não quis. Disse que, conforme andassem as coisas, a gente ia ver depois. Mas eu insisti. Ele acabou aceitando, e eu toquei Vira e Mexe e Pé de Serra".
Na época, a Victor queria contratar um artista para fazer concorrência a Antenógenes Silva, o famoso e extremamente rentável acordeonista da Odeon, a grande companhia rival. O que explica o entusiasmo de Ernesto Augusto Matos ao descobrir a maestria de Gonzaga, a orientação do repertório que ele deu para o teste, assim como o pouco interesse que demonstrou quando Gonzaga se propôs a tocar uma coisa do Norte. Em suma, Gonzaga passou no exame e, no dia 14 de março de 1941, pouco mais de uma semana após a gravação com Genésio Arruda, estava de volta à rua do Mercado, no estúdio da Victor. Mas agora já não ocupava a posição de anônimo acompanhante de algum artista. Não, desta vez o artista era ele, que ia pela primeira vez gravar solo. Anônimos eram os músicos do conjunto que o acompanhava. Ainda que o guitarrista fosse... Garoto. A agilidade de Gonzaga e, convenhamos, a simplicidade técnica das gravações na época fizeram com que, num só dia, fossem completadas quatro músicas, ou seja, dois 78 rotações. O primeiro foi lançado em maio, com a mazurca Véspera de São João e a valsa Numa Serenata; o segundo, em junho, com Vira e Mexe, um xamego, e Saudades de São João del-Rei, uma valsa.
A simples audição dessas quatro músicas revela a impressionante determinação do sanfoneiro. Gonzaga, que, apesar dos dois anos já passados no Rio, continuava sendo um matuto encabulado — o que, de certa forma, nunca deixaria de ser —, acabava de fazer seu primeiro disco solo para uma gravadora que lhe pedira rancheiras e valsas. Ora, ele conseguira impor um repertório no qual entravam duas músicas de sabor nordestino e, como se não fosse suficiente, ainda inventava, sem dar a mínima satisfação à gravadora, um gênero musical. Pois a verdade é que o xamego nunca existiu enquanto gênero musical, e, ainda hoje, não está registrado em lugar nenhum, sequer na memória popular. Vira e Mexe era na realidade um chorinho. Segundo contou mais tarde Gonzaga, ao ouvir a música pela primeira vez, seu irmão José Januário falou: "Oxente, isso é xamego!". Gonzaga gostou do conceito, apropriou-se dele, e utilizou-o para rotular músicas de sua composição, sem que o xamego tenha qualquer característica própria do ponto de vista rítmico. No mais, o comentário de José Januário salientava, com suma fineza, a dimensão sensual da interpretação de Gonzaga.
Os dois discos foram lançados no mesmo ano e valeram a Gonzaga a primeira reportagem de toda sua vida. A matéria, publicada na revista carioca Vitrine, tinha por título Luiz Gonzaga, o virtuoso do acordeom. Dizia que "por se tratar de música popular dançante, e dada a felicidade de seu executante, que é Luiz Gonzaga, antevemos o sucesso que as mesmas farão" e era assinada por Aldo Cabral, jornalista e compositor.
Ainda em 1941, Gonzaga lançou mais dois 78 rotações. No primeiro gravou Nós Queremos uma Valsa e um choro de sua autoria, Arrancando Caroá, título que faz referência à planta fibrosa que cresce no Sertão; no segundo, gravou, trinta anos antes de João Gilberto, Farolito, do mexicano Agustin Lara e Segura a Polca de Xavier Pinheiro. Esta última aparece quase que como um 'presente de separação'. Sim, tornara- se impossível para Gonzaga continuar a dupla com o amigo que tanto o ajudara. Ele atingira um nível profissional que Xavier já não podia acompanhar. Além do mais, os interesses dos dois agora divergiam demasiadamente. Xavier sentiu-se magoado, traído com o abandono do parceiro, mas nem por isso deixou de ser seu amigo.
Transcrito (com adaptações) de:
Vida do Viajante: a saga de Luiz Gonzaga. © 2012, Dominique Dreyfus. Editora 34.
Imagens:
Luiz Gonzaga, anos 1940.
https://luizluagonzaga.com.br/
Ary Barroso e Tião Macalé.
https://cbn.globoradio.globo.com/
Selo de Meu Pinhão. Zé do Norte. 1953.
https://www.ebay.co.uk/itm/126604221613
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