Leitura Complementar: LUIZ GONZAGA_1o / A Missa do Vaqueiro

A MISSA DO VAQUEIRO

O Sertão estava sofrendo, nesse verão de 1970, uma seca braba. Gonzaga ficou muito preocupado com o velho Januário, cuja saúde andava extremamente combalida. Toda vez que podia, ia até o Araripe visitar o pai. Foi numa dessas viagens que conheceu João Câncio, um padre fora do comum.

"Eu ministeriava na região de Granito a Serrita desde 1964. Gostava muito de vaquejada e, a partir de 66, comecei a correr boi. Isso chamava atenção e o povo começou a falar de mim. Uma vez eu fui correr no Exu e Luiz chegou no palanque, riu comigo dizendo que eu estava ficando mais famoso do que ele em Exu, e nós ficamos conversando. Depois disso, toda vez que ele passava pelo Araripe eu ia visitá-lo. Inclusive, eu sempre levava meu gravador para gravar as músicas dele". (João Câncio)

Entre sacerdócio e vaquejadas, o padre percorria a região na sua Rural. E nas solitárias andanças, escutava os cassetes. Do seu ídolo Luiz Gonzaga, prezava mais que tudo a belíssima toada A Morte do Vaqueiro, sensível à beleza da melodia, à poesia dos versos e talvez, mais ainda, à revolta contida na música.

"Tudo deixava pensar que Raimundo Jacó, ligado aos Alencar, tinha sido assassinado por um vaqueiro dos Sampaio. Não se sabe se houve pressão lá de cima, mas acabou que botaram uma pedra em cima do caso, suspenderam o inquérito, não houve processo, o suspeito foi solto e a coisa ficou por isso mesmo. Gonzaga ficou muito chateado com essa história, desmoralizado, pois ele viu que, apesar do sucesso e da fama dele, quem mandava eram os coronéis". (João Câncio)

João Câncio, que fazia parte daqueles padres engajados, politizados, muito ativos, que agitaram o Nordeste nos anos da ditadura, não podia ficar indiferente à indignação do sanfoneiro. Por sua vez, Luiz Gonzaga dificilmente podia resistir à inteligência e à originalidade do personagem 'desajustado', que se tornou um dos seus mais fiéis amigos e, também, uma das poucas pessoas que tinha ascendência sobre ele. João Câncio, calmo, tranquilo, determinado, e Luiz Gonzaga, impulsivo, criativo, versátil, souberam rentabilizar a complementaridade de seus temperamentos. Por isso, as ações que ambos empreenderam pela região tiveram real impacto, a começar pela Missa do Vaqueiro.

"Naquela seca de 70, que matou gente à pampa, foi organizada uma frente de serviço. O pessoal trabalhava o dia todo e recebia dois cruzeiros. Eu fiquei revoltado com isso, e tive a ideia de celebrar missas com o pessoal, que na realidade eram reuniões informais. Era para que o povo pudesse falar. Numa dessas conversas, alguém comentou que existia missa pra toda categoria de gente, mas não havia missa para os vaqueiros. A gente então começou a falar do que poderia ser uma missa para os vaqueiros, e um deles sugeriu que fosse na Laje onde Raimundo Jacó fora assassinado, no dia 9 de julho de 1954"... (João Câncio)

O projeto do padre era fazer não uma missa para os vaqueiros, mas uma missa dos vaqueiros, isto é, uma liturgia inspirada na própria vida desses homens. Com ajuda e conselhos de Luiz Gonzaga e dos irmãos Bandeira, conhecidos repentistas cearenses, a missa foi tomando corpo. Sua preparação levou um ano. João Câncio viveu o dia-a-dia dos vaqueiros, observou seus costumes, seu linguajar, suas crendices e foi elaborando, a partir disto tudo, uma missa absolutamente inovadora:

"Eu transmiti o que eu queria dizer aos cantadores, para que eles pusessem no linguajar certo do povo, com a mensagem que eu queria dar. Isso era a parte litúrgica da missa. Quanto à eucaristia, eu me inspirei nos costumes dos vaqueiros. Por exemplo, na época de levar o gado lá pra serra, acabavam as rivalidades, as inimizades entre os vaqueiros. Havia então um senso da comunidade e uma solidariedade muito fortes. Por exemplo, eles juntavam o gado de todo mundo, não queriam saber de quem era, e colocavam nos currais até a apartação, no dia de descer. E enquanto estavam lá em cima, a comida era dividida entre todos. Quem tinha um patrão pobre, que só dava rapadura, dividia a rapadura, e quem tinha um patrão mais rico, que dava carne, dividia a carne também. Assim, todos comiam igual e à vontade... e eu peguei isso como a divisão dos apóstolos".

Tudo isso com o apoio de Luiz Gonzaga, que financiou a missa até 1974, quando a Impetur entrou no  projeto. E, mesmo depois disso, Gonzaga continuou a garantir, durante anos, comida e transporte aos vaqueiros vindos dos quatro cantos da caatinga sertaneja para assistir à missa. Com os irmãos Bandeira, ele animou a missa durante vários anos. Carro-chefe dos cantos apresentados, havia, evidentemente, A Morte do Vaqueiro, que inspirara tudo e que passou a ter, na voz de seu criador, um tom sumamente subversivo, inclusive na prosa violentamente antigovernamental — contra o poder, qualquer que fosse — que ele desenvolvia ao interpretar a toada.

Gonzaga, o Rei do Baião e dos tropeços ideológicos, estava promovendo, nessa ação, a criação (efetiva) da primeira associação de defesa dos interesses dos vaqueiros desde que o Sertão era Sertão!

Transcrito de:

Vida do Viajante: a saga de Luiz Gonzaga. © 1996, Dominique Dreyfus. Editora 34.

Imagem:

Padre João Câncio e Gonzaga. gonzagaodobrasil.blogspot.com/