Pequenas Biografias: LUIZ GONZAGA_11
O PASQUIM / 1971
Sérgio Cabral — Luiz Gonzaga, como é que você está se sentindo depois que você voltou à moda?
LUIZ GONZAGA — É danado, né? É melhor vocês falarem de mim por que eu mesmo não sei o que sou, não sei porque falam de mim. Eu não entendo nada, eu vou levando. Pra mim tanto faz. Que é bacana é, mas deixa o povo falar. Vocês me conhecem mais do que eu próprio.
Ziraldo — Na época que você esteve afastado aqui do Centro do Brasil você não sentiu falta? Você nunca parou de fazer sucesso. Quando os seus discos pararam de vender aqui no Sul você continuou a fazer sucesso no interior e no Nordeste, não é?
GONZAGA — Interessante, eu nunca me senti bem pra caitituagem. Chegar com o disco debaixo do braço e pedir pra tocar, eu sempre achei isso horrível. Eu sabia que se eu caitituasse, pedisse, se implorasse eu conseguiria alguma coisa, mas meu temperamento não permitia. Uma vez eu procurei um disque jóquei meu conhecido, pela afinidade de termos trabalhado na Mayrink Veiga juntos e ele ser madurão como eu, pedi pra ele tocar uma música minha no programa dele e ele me disse: "Gonzaga, você tem que compreender que agora é a juventude, você já era, isso já passou, me desculpe a franqueza". Ai eu botei minha viola no saco e fiquei com vergonha de chegar em casa. Fui pra Miguel Pereira, sumi. Então, daí pra cá eu fechei o balaio. Eu vou dizer só as iniciais do nome dele: Isaac Zaltman.
Ziraldo — Mas você continuava enchendo praça, auditórios, circo, teatro no interior do Brasil, não é? Ou você estava parado?
GONZAGA — Tem um provérbio que diz: Deus escreve certo por linhas tortas. Eu acho que eu estava fazendo um trabalho sério sem saber que estava fazendo. Eu pegava os patrocinadores, botava nas costas e ia cantar pro povo nas festas. Eu dificilmente dava espetáculo no cinema, no teatro, pra cobrar, pro povo me ver cantar. Eu cantava de graça na praça para o povo. Então, eu consegui reunir as maiores plateias. Daí os meninos iam me assistir, os futuros gênios, como Gil, Caetano e outros e daí saíam querendo tocar sanfona.
Sérgio — Você gostou da gravação de Asa Branca do Caetano?
GONZAGA — Comentar se eu não gostei ou gostei, pra mim não é muito fácil porque eu gosto demais do Caetano, gosto mesmo. Achei o trabalho dele Importante, mas eu não posso comentar porque eu gosto demais. Enfim, gostei.
Sérgio — Aquela história que acabou virando folclore aqui no Rio e ninguém sabe até hoje se é verdade ou mentira, que os Beatles iam gravar Asa Branca, é verdade?
GONZAGA — Gostem ou não gostem, eu vou explicar aqui o que aconteceu, porque é oportuno e O PASQUIM é o mais decantado. Aquilo foi uma brincadeira do Carlos Imperial. Ele tinha um programa no Canal 13 em que ele denunciava a semelhança do movimento jovem com a minha música, com o meu xote. Mas ninguém dava bola, ninguém ouvia. Um dia ele me convidou e eu fui lá pra ele tirar a prova dos nove. Eu cheguei e tal, até não me entusiasmei muito, mas ele realizou o trabalho dele. Mas ele ficou danado e um dia ele disse: esses caras vão me ouvir. Ele dizia que a jogada dos Beatles tinha uma semelhança muito grande com a nossa música nordestina. Aí um dia ele chegou no programa e disse: "eu falava, ninguém me ouvia, agora está aí! Quem vai me contradizer agora? Os Beatles acabam de gravar Asa Branca, do Luiz Gonzaga". Aí todo mundo correu em cima. Os Beatles vão gravar Luiz Gonzaga! Chama pra programa, paga cachê e não sei o que... Gravei programas, ganhei dinheiro e o Carlos Imperial na maior gozação do mundo. Ai fomos comemorar o negócio em Guarapari.
Carlos Leonam — Você não acha que o baião é o som realmente mais internacional de todos os ritmos que nós temos?
GONZAGA — Eu acho que sim, porque ele não dificulta nada. É um ritmo ao alcance de todos. Muitas vezes a gente escuta no rádio um baião super moderno, eu fico doido pra que termine a música pra dizerem o nome do intérprete, mas não sei porque, atualmente não se dá mais o nome de quem está cantando. Isso é uma moda infeliz.
Sérgio — Mas o do patrocinador eles não esquecem.
GONZAGA — Mas vez por outra eu escuto o nome do intérprete e é sempre um estrangeiro. E é baião mesmo, gostoso, do bom. Se o baião tivesse a promoção que o samba tem, ah, meu irmão, o Brasil estava muito bem servido!
Ziraldo — O gênero baião, a batida, existia já no Nordeste antes de você e Humberto Teixeira trazerem pro Sul?
GONZAGA — Existia.
Ziraldo — Com esse nome?
GONZAGA — Com esse nome. Eu tirei justamente do bojo da viola onde o cantador faz o tempero para o improviso, para o repente. Ele costuma cantar fazendo o ritmo no bojo da viola, o dedão vai comendo nos bordões. Eu peguei essa batida, criei um jogo melódico e Humberto Teixeira botou a letra.
Ziraldo — Qual é a diferença entre baião, xaxado e xote?
GONGAZA — Xaxado é dança de cangaceiro. Os cangaceiros de Lampião, por não terem mulher pra dançar, quando eles comemoravam um feito qualquer, eles faziam aquela roda e dançavam batendo no rifle e faziam o xaxado. Depois de eu ter criado o xaxado eu vim saber que não era nada mais, nada menos do que o corta-jaca. Se eu não tivesse criado uma batida e um tipo de música eu tinha me lascado todo. Do corta-jaca só saiu o joguinho da ponta do pé. Eu criei o xaxado que hoje é o que vocês chamam de moderno que tem aí. Se você diminuir o ritmo do xaxado vai cair na toada moderna que tem aí. O xaxado lento deu essa toada moderna que o mundo inteiro está cantando por aí. O Luizinho pode confirmar isso.
Ziraldo — E o xote?
GONZAGA — O xote veio do estrangeiro. Então, nós lá no sertão, criamos o xote malandro, xote de pé de serra, xote de forró, de dança de matuto que não é mais do estilo do escocês. E um xote mesmo nosso porque ele tem uma jogada completamente diferente e tem as letras jocosas, como "Vem cá, cintura fina, cintura de pilão". Ele conta sempre uma poesia bonita, ou então uma história jocosa, humorística.
GONZAGUINHA — Ovo de Codorna é xote. E uma história jocosa como ocorre em quase todas as letras do xote. São geralmente histórias de auto gozação, na qual o nordestino é mestre.
Leonam — Corta-jaca é o quê?
GONZAGA — Corta-jaca é esse passo do xaxado. Mas não tinha música, não tinha ritmo. Quando se falava em corta-jaca, tanto fazia no choro, no samba. Era só um passo. O cangaceiro fazia Isso no xaxado. Eles cantavam Mulher Rendeira fazendo esse passo.
Ziraldo — Quando foi que apareceu pela primeira vez a palavra baião num disco no Brasil?
GONZAGA — Foi justamente no Baião número 1, que eu me considero criador dele junto com Humberto Teixeira. Foi em 45, gravado por Quatro Ases e Um Coringa, pois Carmen Miranda gravou, Roberto Inglês e outros estrangeiros por aí.
Leonam — Você falou em Mulher Rendeira. É possível se dizer de onde surgiu Mulher Rendeira? Foram os cangaceiros que fizeram, ou eram os cantadores que cantavam?
GONZAGA — Mulher Rendeira é música que saiu do bando de Lampião. Muita gente quis pôr a mão, mas o Lima Barreto não permitiu. Ele sabia, tinha certeza que era folclore autêntico. Era dança de cangaceiro.
Ziraldo — Quando foi feito o filme com Mulher Rendeira você já estava na praça?
GONZAGA — Já. Fui eu quem lançou o chapéu de couro no Rio de Janeiro. Naquela época, quando aparecia um filme de cangaceiro, muita gente via a minha cara no filme. Tinha gente que dizia assim: eu vi, você trabalhou muito bem. Eu dizia: mas eu não trabalhei. Naquela época já existia baião.
Leonam — Você estava falando de como surgiu Mulher Rendeira.
GONZAGA — Era a música padrão de Lampião, mas ela veio um pouco diferente. Ela era assim:
Sérgio — Eu quero fazer um depoimento. Eu estava com Luiz Gonzaga o mês passado em Goiânia e uma plateia de três mil pessoas, só de garoto, cantou junto com ele todas as músicas dele. Eu queria que você falasse mais dessa sua atividade com o patrocinador nas costas e cantando para o público. Eu queria que você contasse mais coisas dessa sua experiência. Como é que você consegue patrocínio e as coisas que acontecem?
GONZAGA — Devido eu viajar quase sempre com patrocinadores, eu me habituei a cantar para um público tão numeroso que não me sentia bem em cantar para uma plateia pequena, mesmo pagando bem. Eu me sentia sozinho. Então, era um martírio pra mim ter que dar um espetáculo. Até hoje eu me sinto assim. Quando me convidam pra trabalhar numa festa, a primeira coisa que eu digo é: vão cobrar ingresso pra me ver? Se dizem vamos, eu não vou. Eu não gosto. Eu gosto de cantar para o povo livre. Eu acabei achando que fiz bem, que cobrei bem, porque todo mundo me viu cantar de graça. Os patrocinadores que eu tive, maiores, foram: o Moura Brasil, Alpargatas Roda, Martini, Cinzano, Café Caboclo. Isso no Sul. Para o Norte, Aguardente Chica Boa, Serra Grande, Pitú, Casas Pernambucanas, Lojas Paulista...
Ziraldo — Qual foi o maior sucesso seu, o dia mais glorioso seu, na praça?
GONZAGA — Aconteceu comigo em Recife. Devido a eu estar habituado a cantar pra milhares de pessoas por mais que eu pedisse pra fazer o espetáculo em praça pública, os diretores da rádio teimaram e me botaram dentro da rádio. Então, quando eu fui pra rádio, eu cheguei na rua onde estava a emissora, e vi uma concentração de pessoas enorme interrompendo o trânsito. Eu não sabia o que estava acontecendo. Achei que podia ter sido um incêndio, qualquer coisa. Parei o meu carro e vim de pé pelo meio do povo. Aí eu perguntei a um popular: "escuta, o que houve ai?". Ele me disse: "O Luiz Gonzaga vai cantar aí hoje e o povo não pode entrar por que não coube". Aí eu tive a curiosidade de observar o tamanho do público, mas eu não podia, tinha que trepar em alguma coisa. Era um mar de gente. Ai eu não me contive e cantei na rua.
Leonam — Você é um homem rico?
GONZAGA — Não. Sou um homem que não botei fora o que eu ganhei.
Ziraldo — Quer dizer que Luizinho tá garantido?
GONZAGA — Luizinho tem uma reguenguela muito boa.
Ziraldo — Você deu um conselho pro seu filho na televisão, mandando ele não compor nem gravar, pra ele ser economista e juntar dinheiro. Você tem medo do futuro?
GONZAGA — Eu não dei esse conselho a ele. Eu disse pra ele fazer música como passatempo. Ele se formou em Economia. Se existem milhares de rapazes fazendo o diabo pra se formar em Economia, pra serem financistas, por que que Luizinho, que se encontra formado, vai abandonar uma coisa que todo mundo deseja?
Ziraldo — Mas ele é um grande compositor, rapaz!
GONZAGA — Mas ele pode ser um grande compositor e trabalhar também.
Ziraldo — Mas você só compunha e gravava. Você nunca trabalhou na sua vida?
GONZAGA — E fazer show, carregar sanfona nas costas? E pular de bonde andando com sanfona na mão e pegar bonde andando com sanfona na mão, não é trabalho?
Ziraldo — Tem uma história do Paulo Mendes Campos, não sei se você conhece. Um cara chegou na casa dele e ele estava na máquina escrevendo. Aí, ele virou pro Paulinho e disse assim: se eu soubesse escrever, eu ia ser igual a você. Nunca ia trabalhar na minha vida.
GONZAGA — Vocês são formidáveis, vocês bagunçam o negócio.
Ziraldo — Mas você estava falando negócio de dinheiro. O que que você tem? Atenção, declaração de bens!
GONZAGA — Dinheiro eu não tenho. Quem guarda dinheiro, eu acho que é um besta. Hoje tem essas financeiras por aí, mas não dá pra entender por que o Luizinho não me explica. Quando eu estava no apogeu, o artista não ganhava tanto dinheiro assim. Agora que eu ouço falar que fulano ganha bilhões, que sicrano gravou um disco e já comprou um Galaxie. Eu nunca usei um carro do ano. Eu sempre usei uma caminhonetezinha, uma Rural, porque eu sempre respeitei o meu público. Eu tenho escola no sertão. Eu mantenho uma escola lá até hoje. Ela havia se acabado o ano passado porque o governo construiu lá um grupo escolar com o meu nome, então minha escolinha ficou em segundo plano. Mas quando foram conferir os alunos, não cabia no grupo escolar que o governo construiu. Então, a minha escolinha se impôs e continua.
Sérgio — Onde é?
GONZAGA — Em Exu, na minha terra. Numa fazenda onde eu nasci. Exu é o município e a fazenda chama-se Araripe, onde eu nasci e me criei. Hoje é uma simples fazenda, onde mora só gente pobre, trabalhadores rurais, e nós temos cento e tantos meninos estudando. Isso não é de hoje. Já tem mais de dez anos. Em Miguel Pereira eu também tenho uma escolinha. Eu tenho mania de escola porque eu não tive escola, então eu tenho que dar escola porque eu sei a falta que me faz. Eu gasto, tenho família numerosa. Quando eu vou pro Norte eu levo sanfona, duas, três no carro pra distribuir praquelas pessoas. Eu dou muita esmola, mas não gosto de meter a mão no bolso e dar pro povo ver. Eu faço minhas caridades escondido, pra fugir da exploração.
Ziraldo — Eu quero saber o que que o Gonzaguinha vai herdar.
GONZAGA — Ele não vai herdar. Ele já é dono de tudo. Então, você acha que vou deixar os meus filhos pra herdar alguma coisa? Quando eu morrer está tudo no nome deles.
Ziraldo — Você tem quantas fazendas?
GONZAGA — Minhas fazendas são deficitárias. Não rendem, porque eu sou besta de estar dando duro aqui e os meus capatazes lá gozando a vida às minhas custas. Eu tenho terras. Tenho um bom sítio em Miguel Pereira, tenho um bom apartamento na Ilha do Governador, que é a sinfonia inacabada porque eu estou sempre trabalhando nele. O Luizinho tem um bom apartamento dentro do meu apartamento. É um apartamento dentro do outro.
Leonam — Eu quero saber o seu nome todo, onde você nasceu, como que você começou, esses dados todos por que você deve ter histórias ótimas.
GONZAGA — Eu nasci no dia 13 de dezembro de 1912, portanto vou fazer 59 anos. Nasci na fazenda Araripe, município de Exu. Fazenda da família Alencar, todos sabidos como o diabo, mas eu não aprendi a ler lá, porque não deu. Eu aprendi a ler no mundo. Nas placas de rua, decorando os nomes de jornais, decorando tudo por aí. Eu sou filho de Dona Santana e de velho Januário, macho velho que me fez.
Sérgio — Que que eles eram da fazenda? Eram donos da fazenda?
GONZAGA — Donos da fazenda e cedem pedaços de terra para os pobres da fazenda plantarem.
Sérgio — Seu Januário era o quê?
GONZAGA — Meu pai trabalhava lá. Morava num alugado. Éramos agregados da fazenda.
Ziraldo — Não é sua a fazenda, agora, não?
GONZAGA — Não. Quando eu ameacei tirar meu pai de lá e comprar um pedacinho de terra pra ele os donos da fazenda disseram: não, nós não vende terra pra estranho, não. Mas pra Januário nós vende um taquinho. Aí eu adquiri lá mesmo um pedaço de terra onde meu pai vive.
Ziraldo — Januário está vivo?
GONZAGA — Está vivo. Nós visitamos ele essa semana mesmo.
Ziraldo — E sua mãe?
GONZAGA — Minha mãe, infelizmente, não.
Ziraldo — Seu Januário ainda está com os oito baixos lá dele, firme?
GONZAGA — Ainda toca pras moças ouvirem. Não toca profissionalmente.
Sérgio — Ele está com quantos anos?
GONZAGA — 85 anos.
Ziraldo — Naquela música Respeita Januário você fala no velho Jacó. Ele existiu mesmo ou foi só pra rimar?
GONZAGA — Não, o velho Jacó existia. Era nosso vizinho lá. Era muito encrenqueiro, bebedor de cachaça. Era um derrotista, não acreditava em nada. Até os dezoito anos eu fiquei ali acompanhando meu pai na roça e nos forrós. Onde ele ia, eu ia pra ajudar o velho, até que eu arribei. Caí, entrei no oco do mundo até hoje.
Sérgio — Como é que você veio parar aqui no Rio com aquele sucesso?
GONZAGA — Eu gostava multo de ser militar, mas quando eu senti que ia ter baixa, eu já vinha escutando Antenógenes Silva tocar, Augusto Calheiros cantar, Zé do Norte cantar no rádio, e eu achava que eu podia entrar por ali desde que eu adquirisse um sanfona grande e bonita. Aí, economizei até adquirir uma sanfona e fui treinando em Juiz de Fora. Nessa época eu estava em Minas, em Juiz de Fora. Eu fui treinando com um mineiro chamado Domingos Ambrósio, que me ensinou umas posições. Quando chegou a minha baixa eu disse: agora eu vou pro norte. Tocar bem eu não sei, mas muita gente vai me pagar só pra ver essa sanfona, porque ela era bonita mesmo. Eu já estava assassinando algumas coisas de Antenógenes Silva e treinando também na jogada do Calheiros. Eu saí de Minas pro Rio de Janeiro e, do Rio, eu ia pegar o navio pro Recife. Eu era pernambucano e sou com muita honra. Quando eu chequei no Rio de Janeiro, me hospedaram num quartel. E eu com a sanfona guardada com medo de ser roubado. Um soldado carioca muito malandro me perguntou se aquilo era um piano de joelho. Eu disse que era. Ele disse: toca, gente fina. Aí eu puxei a sanfona no quartel. Ele disse: não toque mais não, que eu tenho um lugar pra gente ir. Aí eu disse: pode? Ele disse: pode, eu sou seu guarda. Ai me levou pra uma rua que tinha ali perto do Mangue que naquele tempo era muito movimentada, tinha muito marinheiro estrangeiro, estava começando a Guerra. Foi de 39 pra 40, ainda tinha muito marinheiro alemão. Eu comecei a tocar por ali, assassinando Strauss, Zequinha de Abreu, Gardel, vários compositores da época.
Sérgio — Você tocava dentro da zona do meretrício, mesmo?
GONZAGA — Isso mesmo. E correndo o pires ali naquelas mesinhas.
Ziraldo — O soldado era teu sócio?
GONZAGA — O soldado tirava uma percentagem.
Sérgio — Como era o nome dele? Marcos Lázaro?
GONZAGA — Aí apareceram lá uns universitários cearenses que começaram a me interrogar: você não sabe nada lá do norte? Eu digo: eu sei umas coisas que eu tocava quando eu tocava sanfona de oito baixos, mas não dá aqui. Eles disseram: Dá. Se procurar você acha. Está aqui uma boa gorjeta, a gente volta pra semana e só vamos dar dinheiro a você se você tocar umas coisas daquelas dos pés de serra lá do Araripe, da tua terra. Eles eram muito camaradas, aí eu comecei a relembrar as coisinhas que eu tocava quando eu era moleque, acompanhando meu pai. Quando eles voltaram eu taquei um pé de serra neles. Aí eles disseram: ei, pera aí, o seu caminho é aí. Você tocando música de gringo? Aí eu toquei o Vira e Mexe em cima deles. Aí eles me convidaram a visitar a república onde eles moravam, na Lapa. Era de zona à zona. Lá eles tinham um prédio por conta deles. Quando eu cheguei nesse prédio, eles disseram: eu te apresento aqui o presidente da república, fazendo blague, porque tinha um moreno lavando as cuecas dele, vestido de calçola e disse: muito prazer, Armando Falcão, que posteriormente foi deputado, candidato a governador do Ceará. Ele era estudante pobre na época. Foi aí que eu peguei o caminho da música do norte. Eu comecei a tocar essas coisinhas na zona e comecei a agradar muito mais porque eu estava com uma jogada nova. Em todo lugar que eu ia, ouvia tocar choro de Ernesto Nazareth e eu comecei a querer aprender esses choros de Ernesto Nazareth. Passei também o choro do Ernesto Nazareth pra minha sanfona e aí já fui desenvolvendo uma técnica melhor. Apesar de até hoje eu ter uma técnica completamente errada porque não tive quem me ensinasse. Aprendi quase que sozinho. Quando eu bati no programa de Ary Barroso, eu fui tocar valsa. Nota 1, nota 2, nota 3... Até que um dia ele me gozou: de novo por aqui? Eu digo: hoje eu vou tocar um negocinho do norte. O que é que vai tocar? Eu digo: Vira e Mexe. Ele disse: então, arrevire e mexa. Eu mandei brasa e fui classificado. Dai pra cá choveu na minha roça e nunca mais faltou feijão.
Leonam — E o negócio do chapéu de couro e tudo mais? Como é que você criou a imagem?
GONZAGA — Isso é muito importante. Naquela época eu percebia que todo cantor regional, todo cantor estrangeiro tinha uma característica própria. O gaúcho, aquela espora, bombacha, chapelão. O caipira paulista tinha lá o seu chapéu de palha. O carioca tinha a famosa camisa listrada, o chapéu coco. Os americanos, os cowboys. Quando Pedro Raymundo veio pra cá, vestido até os dentes de gaúcho, eu me senti nu. Eu digo: por que é que o Nordeste não tem a sua característica? Eu tenho que criar um troço. Só pode ser Lampião. Quando eu era menino eu era louco por Lampião. Apanhei por causa de Lampião. Eu digo: eu vou usar o chapéu de Lampião. Aí escrevi pra mamãe pedindo um chapéu de cangaceiro com toda urgência. No primeiro portador que ela teve, ela mandou o chapéu. Rapaz, quando eu botei o chapéu e que botei o pé no palco da Rádio Nacional, só faltaram me matar. Como é que você, um mulato formidável, um artista fabuloso, se passa por um negócio desse? Reviver o cangaço, cangaceiros, facínoras, ladrões, saqueadores? Eu disse: não se trata disso. E outra coisa: eu agora sou um cangaceiro musical. Aí fiquei com essa característica.
Ziraldo — Quando é que Humberto Teixeira apareceu na sua vida?
GONZAGA — Humberto Teixeira apareceu numa fase justamente em que eu precisava de um letrista. Eu vinha lutando com outros companheiros, Miguel Lima, J. Portela, mas eles não sentiam o Nordeste e eu precisava entrar no Nordeste. Mas eu não queria cantar uma simples embolada. Eu queria cantar coisas bonitas do Nordeste.
Ziraldo — Humberto Teixeira nunca tinha se metido com música na vida dele?
GONZAGA — Ele já vinha fazendo uns sambas, uns negócios, aí. Ele tinha muita tendência pra fazer música meio clássica, ele escrevia música e tudo. Quando o Lauro me apresentou ao Humberto, eu disse: eu tenho um tema pra você botar uma letrinha. Chama-se Pé de Serra. Olha aqui. Aí ele foi fazendo os versos no joelho. Eu disse: está ótimo, Humberto. Ele disse: mas isso não é a letra definitiva. Eu disse: péra aí, nessa aí você não vai bulir mais, não. A letra é essa. Ele disse: não, depois eu vou te dar a letra definitiva. Quando ele veio com a letra, eu ainda achava que a primeira era melhor. Aí, foi um sucesso.
Ziraldo — Quais as músicas que são tuas e quais as que a ideia é de Humberto Teixeira?
GONZAGA — Ideia de Humberto Teixeira: Assum Preto, Mangaratiba.
Ziraldo — Asa Branca?
GONZAGA — Asa Branca a ideia é minha. Respeita Januário a ideia é minha, mas a letra é totalmente dele. Eu contei a história pra ele. Quando eu voltei pro sertão, depois de quinze, vinte anos que eu tinha me afastado eu queria saber quem era o melhor cantador de lá, ia investigando, querendo saber notícias. Pra todo mundo que eu perguntava, eles iam dizendo: tocador aqui é Januário. O menino dele foi lá pro Sul, mas não vem aqui, ficou por lá mesmo. Mas Januário aqui é o maior. A primeira música que eu toquei pro público eu notei que o povo não gostou muito. Então, alguém gritou: Luiz, respeita Januário! O Humberto gostou muito dessa história e fez a letra.
Sérgio — O teu letrista predileto é Humberto?
GONZAGA — Ah, não tem nem dúvida!
Sérgio — E aquele que era médico, que morreu?
GONZAGA — Zé Dantas? Zé Dantas foi outro caso espetacular. Ele veio na onda do baião. Ficou naquela área de sertão, puro, autêntico, rimas fabulosas. E Humberto nessa área de asfalto, sertão, norte, sul...
Ziraldo — Ele é um craque.
GONZAGA — É. Nós vamos voltar a produzir agora outra vez.
Ziraldo — Nesse negócio da volta do Luiz Gonzaga, você não acha que o pessoal esqueceu um pouco o Humberto?
GONZAGA — Humberto começou a ser injustiçado pelo Ceará, terra dele, Porque Lauro Maia era muito popular lá, os cearenses bebiam com o Lauro, cantavam com o Lauro e ele era tido como ídolo cearense. Logo após a morte de Lauro Maia, aparece Humberto. Aí começaram a acusar Humberto de ter herdado o baú de Lauro Maia. Isso foi negativo pra ele. Como você sabe, o cantor sempre leva a melhor, e se Humberto tem aparecido é porque eu faço questão de exaltar Humberto. Lá em Fortaleza nem adianta que ninguém acredita. Ele é um homem injustiçado. Agora, é um homem fabuloso. Ele fez um baiãozinho agora pra esse elepê, O Canto Jovem de Luiz Gonzaga e você vai ver que beleza. A letra diz assim:
Ziraldo — A tua relação com o Gonzaguinha é boa, Luiz Gonzaga?
GONZAGA — Houve uma coisa muito interessante. Eu tinha muito medo que o Gonzaguinha se desvirtuasse. Viesse a pertencer a um grupo mau caráter.
Ziraldo — Ele é o mais velho?
GONZAGA — É. Eu tenho uma filha com 19 anos, Rosinha. Pois bem, eu queria fazer aquele tipo de pai durão, hora de chegar, essa coisa toda e ele muito vivo, inteligente pra burro. Ele não foi totalmente criado por mim desde o início. É uma história muito bonita que existe na vida dele, na nossa vida.
Ziraldo — Quantos filhos você tem?
GONZAGA — Eu tenho um casal.
Ziraldo — Você pode contar pra gente?
GONZAGA — Posso. O Luizinho já se libertou completamente. O Luizinho encontrou uma família que dava apoio a jovens artistas e ele se sentiu bem naquele meio e me disse que eu ficasse tranquilo, que não me preocupasse, que, se por acaso ele não viesse dormir em casa algumas noites, era porque ele estava cuidando de festival e se sentia bem na casa do Doutor Porto Carrero, essa coisa toda. Aí ele foi ficando, foi ficando e finalmente com a vitória dele nos provou que estava certo, não adquiriu vício nenhum e hoje ele é ídolo lá em casa. Mesmo que eu quisesse pensar diferente, a Rosinha não deixaria porque é uma amizade muito sincera, muito pura e nós não queremos ser velho boko moko. O Luizinho é um rapaz que tem tudo pra se sentir muito seguro. Primeiro, nós não escondemos nada dele. Ele é chamado de vez em quando pra ser consultado nos negócios que eu pretendo fazer. Ele pode se considerar filho do povo e isso é muito importante, porque Luiz Gonzaga é povo, é gente. Ando de acordo com a minha maneira de pensar e ele próprio tem poucas coisas a me censurar. Quando tem que discordar, ele discorda mesmo.
Sérgio — Você gosta das músicas dele?
GONZAGA — Eu gosto muito da linha melódica das canções de Luizinho. Ele tem uma harmonização muito bonita. Eu fico por aí, porque eu não entendo bem as letras.
Ziraldo — Gonzaguinha, por que você parou aquele caminho que você abriu no primeiro festival universitário? Era uma música fácil, que a Neide Maria Rosa cantou. É verdade que você criou um estilo, que é a coisa mais difícil de um compositor criar. Dos jovens, você é o único que criou um estilo. Mas por que que você abandonou aquela linha e partiu pra essa coisa mais elaborada que o seu pai não entende?
GONZAGA — Isso eu respondo. Eu acho que em Pobreza por Pobreza o Luizinho estava com uma linguagem muito direta, muito descoberto. Ele procurou fazer músicas mais elaboradas porque se alguém quiser lhe enquadrar, aí ele vai discutir. Ele está dando o recado poético dele, não está prejudicando ninguém. O Luizinho é o único dessa jogada universitária que tem aí que não está fazendo música pra ganhar dinheiro.
Leonam — Você disse que tinha um entusiasmo muito grande por Lampião. Você chegou a conhecer o bando?
GONZAGA — Não.
Sérgio — Você teve vontade de ir pro bando?
GONZAGA — Tive loucura. Eu era doido que Lampião passasse pelo Araripe pra eu seguir o bando. Quando deu-se o grito: Lampião vem aí!, as famílias todas foram para o mato e eu fui sob protesto. Ele precisava de um sanfoneiro, de um menino de chapéu de couro fazendo bonito e tirando retrato!
Ziraldo — Quantos anos você tinha?
GONZAGA — 15, 16, por aí. Nós nos escondemos no mato. Aí, no dia seguinte, minha mãe disse assim: quem é que quer ir lá no Araripe pra saber se Lampião já passou, se o povo já voltou? Eu digo: eu. Aí voltei correndo. Quando eu cheguei no Araripe todo mundo tinha voltado, menos nós, e Lampião não tinha passado. Foi quando ele foi ver o padre Cícero no Juazeiro. Tudo indicava que ele ia passar por ali, mas pegou outro caminho. Quando eu voltei pro rancho onde a gente estava escondido eu disse: vou me vingar. Aí gritei: corra gente, Lampião vem aí. Ah, menino. Foi um tal de rede debaixo do braço, todo mundo se arrumando pra correr, aí eu: é mentira! Todo mundo já voltou pra casa, só nós é que estamos aqui. Minhas irmãs, meu pai, minha mãe, todo mundo me cobriu. Levei o maior pau por causa de Lampião. Não conhecia Lampião, mas a primeira chance que eu tive, mandei buscar o chapéu, quebrei na testa, peguei uma sanfona e saí cantando as histórias de cangaceiro por aí.
Sérgio — Luiz Gonzaga, o sanfoneiro de Lampião.
GONZAGUINHA — Antes dele começar a gravar houve a maior briga dentro da Victor porque o pessoal não queria que ele cantasse.
Sérgio — Como é que foi essa história?
GONZAGA — Eu sabia que não havia mais quem comprasse os meus discos. Eu tocava, era um disco por mês. Eu precisava cantar. Eu já vinha tocando por aí nos dancings e cantava uns negocinhos. Mas o diretor, Vitório Lattari, não queria que eu cantasse. Tinha me visto cantar num dancing e achava que eu cantava mal. Quando fui ensinar ao Manezinho Araújo a cantar Cortando o Pano, eu chamei ele e disse assim: olha aqui, eu tenho uma rancheira aqui pra você. Aí mostrei, repeti, ele disse: não pode fazer embolada, não? Eu disse: não, Manezinho, embolada não. Eu não canto assim. Aí ele ficou furioso: ah, querendo me ensinar a cantar, é? Um cantorzinho de meia tigela querendo me ensinar a cantar. Eu digo: e agora perdi meu cantor predileto. Nessa época eu estava contratado pela Tamoio, e ousei cantar um número no meu programa. No dia seguinte estava escrito na parede: ao sanfoneiro Luiz Gonzaga é proibido cantar. Assinado, Fernando Lobo. O Anselmo Domingos era diretor auxiliar do Fernando Lobo. Eu digo: como é, Anselmo Domingos ? Ele disse: por mim você cantava, porque eu acho que você tem uma maneira própria de cantar, mas o homem é diretor. Eu desci da rádio todo frustrado. Aí eu encontrei o Átila Nunes. "Luiz, você vai cantar no meu programa". Eu disse: acabo de ser proibido de cantar na rádio. Ele disse: no meu programa você pode. O Fernando manda na rádio, mas no meu programa mando eu e o meu patrocinador. Você vai cantar no meu programa. Então, eu entrei, Átila Nunes me apresentou, xaxou comigo. Aí eu comecei no programa do Átila Nunes e o Fernando Lobo não pôde dizer nada. Aí eu me armei até os dentes e fui falar com o diretor da RCA Victor. Olha, eu estou cantando no programa do Átila Nunes. Já tenho duas cartas lá. Ele disse: ah, é ? Então trás essas cartas aqui. Quando eu fui apanhar as cartas, já tinha mais de dez. O povo pedindo pra eu cantar Alfaiate do Primeiro Ano, Dezessete e Setecentos. Aí eu mostrei as cartas pra ele e ele disse: mas mesmo assim você não vai gravar aqui, não. Eu disse: então você vai me dar uma permissão por escrito pra eu gravar na Odeon porque Felisberto Martins me prometeu que eu posso gravar lá com outro nome e eu vou gravar lá com o nome de Januário, que é o meu pai. Aí ele disse: bem, você grava aqui, mas não vai fazer o disco inteiro cantado, só uma face. Eu disse: tá certo. Naquele tempo todo mês eu ia receber dinheiro e tinha trezentos mil réis. Parecia um ordenado. Vinha aquela quantia certa. Aí eu gravei Dança Mariquinha. Lançou-se o disco. No fim do mês tinha trezentos e cinquenta mil réis. Eu disse: tá vendo ? Subiu! No outro mês foi quatrocentos. Aí comecei a gravar Cortando o Pano, Mula Preta e tudo por aí, até que veio a fase do baião.
Ziraldo — Você chegou a ser amigo de Pedro Raymundo ?
GONZAGA — Eu me inspirei nele. Foi uma influência muito grande, Pedro Raymundo. Mas deixa eu explicar. Nessa época que eu estava lutando com Miguel Lima, J, Portela e Manezinho Araújo, eu ainda não era cantor e foi nessa mesma fase que eu encontrei Humberto Teixeira. Nessa época eu não estava gravando porque a RCA Victor estava mudando a fábrica pra São Paulo. Eu estava parado. Parei de gravar no estilo que eu estava fazendo com Miguel Lima, J. Portela e outros, e passei a fazer música com Humberto Teixeira. Nessa fase é que lançou-se o Baião com Quatro Ases e um Coringa, Juazeiro e Mangaratiba.
Leonam — Você disse que o pessoal do Rio não liga pra você. Você não acha que talvez o pessoal do Rio não tenha esquecido você. Você que tenha esquecido o pessoal do do Rio? Você acha que se você fosse ao Maracanãzinho não lotaria?
GONZAGA — Acho que não. Aqui tem muito pouco nordestino. Eu acho que com esse meu disco novo que vem aí, em que eu canto música de Caetano, Gil, Dori Caymmi, Nonato Buzar, Capinan, meu Luizinho que está aqui perto de nós, esta turma bacana, eu acho que vou ter uma oportunidade muito boa. Eu acho que eu estou cantando melhor. Eu acho que eu consegui aprender a cantar diferente aos 59 anos de idade. Meu professor chama-se Rildo Hora. Foi quem produziu o meu disco. Praticamente me ensinou a cantar novamente. Eu vinha cantando há trinta anos com uma sanfona, com meu próprio acompanhamento, com as minhas mãos, com um domínio todo meu. Agora, encostar este instrumento e me sujeitar a cantar com um acompanhamento distante, é preciso aprender de novo. O Rildo Hora teve um carinho que eu acho que só o Luizinho poderia ter tido. O Luizinho assistiu à gravação do baião dele e ouviu algumas faixas.
Sérgio — O seu prefixo é aquele: "Vai boiadeiro que a noite já vem", não é ? Queríamos que você contasse uma história que aconteceu com você num circo a propósito disso.
GONZAGA — Foi lá no Iguatu. Eu estava sendo esperado lá no Iguatu e o encarregado do amplificador mandou um olheiro lá pro hotel, pra quando eu chegasse dar o aviso. Aí quando cheguei no hotel, o olheiro fez um sinal pra ele e ele botou um disco que tenho chamado Aboios e Vaquejadas, que tinha um gado mugindo, chocalheira tocando, cachorro latindo. Lá no sertão, quando passa uma boiada por dentro da cidade, a cachorrada toda fica latindo. Pois bem, quando tocou esse disco, os cachorros foram latir no pé do poste onde tinha os alto-falantes.
Ziraldo — A Rosinha já era nascida quando você fez a música que fala dela? Canta aí um pedacinho.
GONZAGA — Humberto Teixeira é que escolheu esse personagem para figurar nas nossas canções, como moça romântica do sertão.
Ziraldo — Mas a Rosinha ainda não era nascida?
GONZAGA — Não. De tanto decantar esse nome, quando Rosinha nasceu eu disse: vai ser Rosinha em homenagem às canções. A música é de Klécius Caldas e Armando Cavalcanti.
Ziraldo — E o Pedro Raymundo?
GONZAGA — Quando eu mandei buscar meu chapéu de couro no sertão, eu já estava vendo Pedro Raymundo na Rádio Nacional abafando. Aquele gaúcho alegre, tocando, improvisando, fazendo versos e conversando, contando prosas. Eu disse: ai, meu Deus do Céu, ele no Sul e eu no Norte. Vou imitar esse senhor, mas ninguém vai perceber que eu estou imitando. Ele é gaúcho, eu vou ser o cangaceiro. Eu queria cantar o Nordeste, já estava cheio daquela gravatinha. Então, encostei o burro em cima de Pedro Raymundo. Ele gostou muito de mim, fizemos uma boa camaradagem.
Sérgio — Conta aquele caso que você contou do Pedro Raymundo, em Recife.
GONZAGA — Eu ainda não estava muito popular, muito no apogeu, mas já estava indo a Pernambuco. Pedro Raymundo era uma sensação. Não sei porque cargas d’agua, pernambucano me confundiu com Pedro Raymundo. Chegou pra mim e disse: Oi, Pedro, tudo bem? Você por aqui? Eu disse: É, estou outra vez. Ele disse: puxa vida, você está fazendo um sucesso danado. Eu não sei é que graça acham no Luiz Gonzaga.
Ziraldo — O Pedro Raymundo está onde?
GONZAGA — Está no Sul.
Ziraldo — Vamos trazer o Pedro Raymundo de volta, ué! Convoca o Pedro Raymundo aí. Manda ele voltar que você garante.
GONZAGA — Pedro Raymundo, o pessoal do Nordeste está falando muito em você, com muita saudade. Há também o seguinte: as pilhas Eveready estão querendo fazer um negócio com você pra viajar. Volta, Pedro Raymundo.
Ziraldo — O detalhe é o tom com que ele falou. Pareceu radioamador.
Transcrito de:
O PASQUIM, n. 111.
Imagens:
Foto da capa do fascículo Luiz Gonzaga Humberto Teixeira da coleção História da Música Popular Brasileira. Abril Cultural. 1970.
Cartaz do patrocinador Martini. https://luizluagonzaga.com.br/
Pedro Raymundo e Gonzaga, anos 1950. Vida do Viajante: a saga de Luiz Gonzaga.
O PASQUIM, n. 111. 1971. memoria.bn.gov.br/



