Pequenas Biografias: LUIZ GONZAGA_1o

LUIZ JR.

"Gonzaguinha era um menino meio maroto, mas tinha uma estrela muito grande. Quando ele fraquejou, que eu senti que ele não ia se formar, eu chamei ele e falei: 'Você está derrubando todos os meus planos. Eu lhe dei meu nome, queria ver um doutor de anel no dedo, no neto de Januário. Você é minha esperança e agora quer me derrubar'. Aí ele bateu na mesa com força e me disse: 'Se aguenta meu velho, que eu vou lhe dar essa alegria. Só não garanto uma coisa, é botar esse tal de anel no dedo'. Ele não botou, não foi nem buscar!".

Gonzaguinha não estava interessado nem um pouco em fazer carreira de economista. Queria ser músico. Para tanto, tinha todo o talento necessário. Ora, Gonzaga não tinha resistências contra o talento. Com aquela sensibilidade incrível, sabia detectar a estrela brilhando em cima das pessoas. Quem a possuísse, se tornava cria dele. Apesar das ambições universitárias que tinha para o filho, não hesitou em lhe dar o impulso necessário, lançando, em 1968, um LP no qual entravam quatro músicas de Gonzaga Júnior. Entre outras havia Pobreza por Pobreza, classificada nesse mesmo ano no 1° Festival Universitário. Outro jovem compositor também aparecia no LP, o recifense Rildo Hora, recém-nomeado diretor artístico da RCA, que teria grande importância na carreira de Gonzaga daí em diante.

No repertório havia ainda duas músicas de um certo Humberto Teixeira... uma delas dando o nome do disco: Canaã.

Entre 1968 e 1969, chegaram às lojas de discos, além de duas compilações e de Canaã, mais outros dois LPs: o místico O Sanfoneiro do Povo de Deus, e São João do Araripe, celebrando o centenário do povoado natal do artista. Foi Gonzaga quem se encarregou de organizar e financiar a festa grandiosa. Em troca, o clã Alencar homenageou o filho querido da terra tornada famosa pela sua música. E o povoado recebeu, ainda, como presente de aniversário, a luz elétrica!

JUVENTUDE

"Muitos artistas jovens que falam que têm, em minha pessoa, a principal influência, é porque quando eram meninos iam me assistir nas praças públicas com seus pais, de graça. E me viam cantando, pulando, falando, xaxando, fazendo as brincadeiras de cangaceiros, e ali foram desenvolvendo suas artes". 

No final dos anos 60, a geração que estava emergindo era justamente a criançada dos anos 50, em grande parte despertada para a música pela voz e a sanfona maravilhosas de Luiz Gonzaga, enchendo as ruas das cidadezinhas interioranas, se apresentando nos circos, nas praças públicas, brilhando nos programas da Rádio Nacional. Agora, afirmavam a influência do sanfoneiro que tanto alegrara a infância deles. Contudo, numa entrevista em que Gilberto Gil evocava o sanfoneiro como modelo importante, perguntavam: "E que fim levou Luiz Gonzaga?", demostrando o grau de esquecimento em que caíra o Rei do Baião. 

Foi quando Carlos Imperial propagou o delicioso boato de que os Beatles acabavam de gravar Asa Branca em seu novo disco, o duplo White Album (que tinha de fato uma ave, Blackbird, no repertório). A piada acabou rendendo:

"Todo mundo correu em cima. Chama pra televisão, paga cachê e não sei o quê, gravei programa, ganhei dinheiro e Carlos Imperial na maior gozação do mundo".

CAETANO

Indiferente à tensão política e social que vigorou no país a partir da promulgação do AI-5, Gonzaga partiu novamente pelas estradas, via Nordeste. Dominguinhos era agora seu chofer e a segunda sanfona no palco. Foi durante essa turnê que Dominguinhos e Anastácia se conheceram, dando início a uma história de amor e de parceria que iria fornecer bom repertório a muitos cantores (nordestinos ou não), entre os quais Luiz Gonzaga que, no LP Sertão 70, integrou a seu repertório, como primeira parceria do casal, Já Vou, Mãe.

Foi por essa mesma época que chegava às lojas do país inteiro, o novo LP de Caetano Veloso, gravado em Londres, onde o artista se achava exilado. 

Uma só música do disco não era da autoria de Caetano: Asa Branca, a única que ele cantava em português. O hino dos flagelados nordestinos se tornara o hino dos exilados brasileiros, vítimas da ditadura. 

"Eu ouvi falar que Caetano Veloso estava na Inglaterra e tinha gravado Asa Branca. Era a época da primeira Missa do Vaqueiro, e eu estava no Norte. Um dia, em Fortaleza, estou passando em frente a uma loja de discos e o vendedor me chamou: 

— Ô, Seu Luiz, o senhor já ouviu a Asa Branca cantada por Caetano Veloso? 

 Não ouvi ainda não. 

 Quer ouvir? 

 Agorinha!... e entrei na loja.

Ele me deu a capa enquanto colocava o disco na vitrola. Essa capa com uma fotografia dele com aquele casaco de inverno, expressava tanta tristeza, mas tanta tristeza, que meus olhos se encheram de lágrimas. Quando tocou o disco, aí eu chorei por dentro de mim. Mas quando ele fez aquela gemedeira do cantador sertanejo, aí eu não aguentei, chorei feio! Foi uma das maiores emoções que eu tive na vida. Muita gente achou aquilo de mau gosto. Mas eu que sou autêntico, eu senti que ele teve uma força muito grande em fazer aquela gemedeira em Asa Branca. Aí subiu muito o conceito que eu já tinha dele, eu o admirava. Esses dois baianos, Caetano e Gil, moram no meu coração. Porque foi justamente através dos baianos, que quando foram para o Rio de Janeiro participar dos grandes festivais, fabulosos, com novas toadas, tiveram a dignidade de dizer nas entrevistas deles que tudo aquilo era Luiz Gonzaga. E isso bateu!".

Bateu tanto, que pouco tempo depois, Rildo Hora, diretor artístico na RCA, o procurou para fazer um disco de homenagem à juventude. A ideia calhava muito bem com as atitudes de Luiz Gonzaga: o velho Lua sabia agradecer! 

"Rildo Hora era produtor da RCA mas não produzia pra mim. Ele me dava músicas. Porém aí ele resolveu produzir um disco meu, que ele chamou O Canto Jovem de Luiz Gonzaga, no qual eu só interpretava músicas dos novos músicos: Gilberto Gil, Caetano Veloso, Antônio Carlos e Jocafi, Capinan, Edu Lobo, Dori Caymmi, Geraldo Vandré, Gonzaguinha, que fez também Asa Branca em duo comigo... Foi difícil. Eu tive grandes dificuldades, mas Rildo Hora foi muito habilidoso, ele empostou minha voz. Eu cantava muito em cima e ele botou minha voz lá em baixo, me trouxe para uma tonalidade média, baritonada. Eu gostei dessa tessitura que ele me deu, inclusive porque eu já estava ficando velho e a tendência quando se envelhece é que a voz baixe. Aliás, o velho vai baixando em tudo, na voz, no preço, no resto... Mas o disco agradou. Não foi um grande sucesso, mas deu pra chamar um pouco a atenção. E eu fiquei apoiado pelos jovens. Foram eles que me deram crédito. Eles tinham universidade. Por causa deles, eu me tornei respeitado". 

Nada adiantaria a nova geração estar abrindo espaço para o velho sanfoneiro, se ele não soubesse ocupá-lo. Mas o reinado pôde continuar, graças à inteligência, à sensibilidade, à perspicácia de Gonzaga, à sua capacidade de acompanhar o tempo, a evolução da sociedade, a mudança dos costumes, da música, da técnica, das mentalidades...

Apesar de ter no folclore sua principal fonte de inspiração, Luiz Gonzaga não era, e nunca foi, um folclorista. Caetano Veloso estava certo quando afirmava: "A formação de Luiz Gonzaga é pop, uma solução que ele, emigrante, morando no Rio, tentando a vida, descobriu, ali na transação da Rádio Nacional e gravadoras. Ele inventou algo que funcionou. É algo pop, como os Beatles, assim. Luiz Gonzaga para mim, é um grande artista pop".

Numa noite de março de 1972, o rojão de Luiz Gonzaga investiu sobre o palco do teatro Tereza Raquel, num show chamado Luiz Gonzaga Volta pra Curtir, produzido por Capinan. Naquela noite, Luiz Gonzaga estava partindo para a conquista do público estudantil, que encheu as bancadas do sofisticado teatro da Siqueira Campos, em Copacabana.

Gravar o nordestino voltava a ser um bom negócio, todo mundo estava incluindo Gonzaga no seu repertório. Todo mundo gravava Asa Branca.

*

Luiz Gonzaga, que aproveitava as viagens pelo Norte para catar talentos, estava trabalhando com um novo time de parceiros, muitos deles descobertos em Caruaru. A Capital do Agreste, verdadeiro celeiro de compositores, era muito benquista do sanfoneiro, que foi homenageado, em 1972, com o título de cidadão caruaruense.

Ao mesmo tempo, sentia-se cada vez mais atraído pelo Sertão natal. Aliás, já havia começado a reforma dos imóveis existentes nas terras que comprara, na entrada do Exu. O projeto de valorização da propriedade comportava a casa grande, um hotel, uma casa para Januário, um museu com seu acervo (realização de um velho sonho de Helena), um estudiozinho de som, e outras dependências de serviço. Em frente ao parque, à beira da estrada, um posto de gasolina, com uma lanchonete. Com isso, o sanfoneiro assegurava a aposentadoria, quando chegasse a hora. A construção foi feita, como tudo o que Gonzaga empreendia exceto a música, sem a menor lógica, na maior desorganização, com perdas, danos e provavelmente muito roubo. Mandava fazer as coisas, mudava de ideia, mandava desmanchar, escolhia um material e quando o via instalado não gostava mais, mandava tirar tudo, entregava a supervisão das obras a Helena, logo a retirava e dava para um sobrinho, tirava o sobrinho, botava um amigo, botava outro amigo e assim por diante. No final das contas, se aborrecia com todo mundo porque as coisas não se encaminhavam como ele queria... um inferno, que obviamente custou muito mais dinheiro do que o previsto. 

Ao mesmo tempo, pretextando alergia ao frio, Gonzaga vendeu a fazenda em Miguel Pereira, da qual de qualquer forma se afastara, magoado com o ambiente triste que lá reinava, por conta dos desentendimentos com a esposa. Mas fez péssimo negócio, como todos os seus negócios, e ganhou uma ninharia. Gonzaguinha, que adorava a fazenda, ficou desesperado e não perdoou o pai. De qualquer forma, as relações entre os dois estavam a cada dia mais difíceis.

"Ele não se sentia bem em casa, aí começou a frequentar a casa de um intelectual, o doutor Aloísio Porto Carreiro. Ele gostava de ir lá porque havia muita reunião de jovens, de artistas, pessoal dos festivais. Gonzaguinha ia lá, e foi ficando, ficando... E acabou casando com Angela, a filha do doutor Aloísio".

Além dos problemas psicológicos e emocionais entre o pai e o filho, havia agora profundas divergências políticas. Com a incoerência e absoluta falta de consciência política que o caracterizavam, Gonzaga, que pretendera candidatar-se pelo MDB, partido de oposição, não poupava, ao mesmo tempo, elogios à ditadura. Gonzaga Jr., muito engajado nos movimentos universitários de oposição ao regime militar, que estava atingindo, então, o auge do horror, dificilmente poderia suportar tal atitude do pai.

"O Gonzaguinha sabia que eu era muito pelos militares. Eu tinha sido soldado durante quase nove anos, e eu sentia naquele meio um engrandecimento muito grande para a minha pessoa. Eles me chamavam para cantar para eles e eu me apresentava diante de 20, 30 generais, cantando as coisas do Sertão, porque militar gosta muito de música que decanta o trabalho, a força, a coragem, a capacidade de desenvolver a terra, tudo que minha música cantava. Uma vez eu cantei para Castelo Branco, numa festa grande que houve em Fortaleza. No final, ele me cumprimentou e disse: 'Gosto muito de você, Luiz'". 

Para Gonzaguinha, a adesão do pai à ditadura feria três vezes. Era doloroso vê-lo defender uma política odiosa; era doloroso vê-lo se ridicularizar tocando para militares que não davam nenhum valor à sua arte. O sanfoneiro não percebia que, para esses poderosos, ele não passava de um pobre saltimbanco, apenas com uma vantagem: o velho 'Lua' não se opunha à ditadura, como grande parte da classe artística. Além do mais, não pedia cachê alto. Era doloroso, enfim, ser novamente abandonado pelo próprio pai, na hora em que a censura apertava.

"Durante o governo Médici, eu recebi uma notificação que haviam sido censuradas três músicas minhas: Asa BrancaVozes da Seca e Paulo Afonso. Mas eu não me conformei. Helena tampouco aceitou isso. Então nós fomos discutir com o pessoal da censura e Helena me defendeu, qual uma advogada".

Helena teria dito: "Eu não sei porque essa senhora censora fez isso, porque Luiz Gonzaga é um artista limpo, muito limpo! Mas ele tem um filho chamado Luiz Gonzaga também, e vai ver que confundiram os dois". 

Pela segunda vez, manipulado por Helena, Gonzaga abandonava o filho, pior ainda, o traía, entrando no jogo da ditadura. Quanto à juventude, aos roqueiros, aos baianos cheios de gratidão para com o mestre, ficaram meio desorientados quando ouviram Luiz Gonzaga afirmar publicamente que "essa coisa de tortura é jogada dos comunistas, pode haver tido alguma besteirinha do lado da Secretaria de Justiça", que Castelo Branco era "um presidente muito civilizado", que o general Geisel era "um grande estadista"... e defender a censura.

Tanto que a gonzagolatria broxou lamentavelmente. E a carreira do sanfoneiro que estava de novo levantando voo, parou no meio da decolagem.

ZUITA

A eterna turnê passava por Fortaleza, onde o sanfoneiro recebeu o título de Cidadão Cearense, deu entrevistas anunciando sua intenção de voltar muito breve, e definitivamente, para sua terra natal, e fez show. Chegou depois ao Recife e seguiu para Brasília. Foi no avião que o levava à capital federal que Gonzaga encontrou o grande amor da última fase da sua vida, Edelzuita Rabelo.

(...)

 Você vai ver meu pai, ele é seu fã.

"Até que eu fui conhecer o pai dela. Nesse dia eu falei pra ele: 

 Seu Cícero, eu tenho quase a idade do senhor, por isso eu tenho bastante juízo para conversar um assunto, que talvez até o senhor não vá gostar. Mas eu estou vindo à casa, estou amiudando, porque eu gosto de Zuita. 

 Mas o senhor não é casado? 

 Sou sim, mas com a minha mulher não tem... Sua filha é muito inteligente, eu gosto de conversar com ela, eu aprendo com ela, ela aprende comigo. O senhor impõe respeito e eu quero lhe garantir que o senhor jamais me verá na sua casa de sandália japonesa e bermuda, o torso descoberto, com um copo de uísque na mão. Eu respeitarei sua casa". 

O caso era sério mesmo e o inegável poder terapêutico da paixão deu asas a Gonzaga, que lançou em 1976, enfim, um bom disco, com título simbólico: Capim Novo. O Rei encontrara novamente seu espaço e se assumia, instalando-se confortavelmente na posição de coroa. Voltava à temática da autobiografia em tom jocoso, que vigorava no repertório antigo, quando zombava do jovem "malero, bochudo, cabeça de papagaio, zambeta, feio pá peste!" que fora, e do sanfoneiro "gordo que parece um major", com um "dinheiro danado" em que se transformara com o sucesso. Agora, tornava-se objeto de curtição, com o tema da velhice e da atividade sexual afrouxando... já decantada em 1972 em Ovo de Codorna

Capim Novo, a música que dava nome ao LP, justificava sem dúvida, a seus olhos, a paixão do madurão de 63 anos por Edelzuita, 28 anos mais nova do que ele. Mas também podia ser uma homenagem aos jovens que o tinham tirado do esquecimento e com os quais se identificava. Qualquer que fosse o recado contido na música, uma coisa era certa: ela fazia parte da trilha sonora da novela Saramandaia. Graças a isso, o cantor entrou nas paradas de sucesso da época, uma novidade para ele. Em agosto, a TV Globo exibiu um Especial Luiz Gonzaga, do qual participava toda a família. Mesmo Januário, apesar de seus sofridos 85 anos, fizera a viagem até o Rio de Janeiro para dar seu testemunho à câmera. O documentário era de importância, sendo divulgado em duas partes: nos dias 13 e 20 de agosto de 1976. 

De 1968 a 1975, Luiz Gonzaga assistira, sem atuar profundamente para isso, à sua reabilitação, a um novo ciclo de conhecimento da sua obra e da sua importância na música brasileira. E, realmente, as coisas poderiam ter ficado ali mesmo. O velho Lua aposentado, contemplando satisfeito seus seguidores, seus alunos, seus discípulos, seus êmulos prolongarem, reinventarem, recriarem a música nordestina. Mas quem disse que Lua podia parar de espalhar sua luz? Claro, a lua tem suas fases ... mas agora voltava o tempo da lua cheia. 

Era hora de brilhar nova e plenamente.

Transcrito (com adaptações) de

Vida do Viajante: a saga de Luiz Gonzaga. © 1996, Dominique Dreyfus. Editora 34.

Imagens:

1. Capa do LP Canaã, 1968

2. Capa do LP Caetano Veloso, 1971

3. Edelzuita Rabelo. Autor e data não identificados

4. Gonzaga madurão. https://telestoques.wordpress.com/