Pequenas Biografias: LUIZ GONZAGA_12

Com dois LPs lançados num ano só, apresentações em São Paulo e no Rio de Janeiro, um convite para participar do disco de Antônio Carlos e Jocafi, uma turnê com Carmélia Alves e Dominguinhos, mais de oitenta emissoras de rádio divulgando a série O Eterno Gonzaga produzida pelo estúdio Free em São Paulo, Luiz Gonzaga estava voltando ao seu ritmo de vida habitual e tão querido.
Efetivamente, na década de 1970, Gonzaga não mudou nada do que sempre fora e fizera, mantendo-se fiel ao espírito da música criada na década de 40. Tanto que todo o repertório dos anos 70 era semelhante ao da primeira fase de sua carreira: mesma temática, mesmos ritmos e melodias.
Com a chegada da década de 1980 ele mudou, adaptando-se às tendências da moda da época, ou seja, à predominância do... forró.
Todavia, em 1979, o LP Eu e Meu Pai não tinha ainda o tom festivo, ligeirinho e descompromissado do forró. Era um disco melancólico, uma saudação cheia de ternura ao velho Januário, que resolvera, no dia 11 de junho de 1978, exatamente 18 anos após Santana, ir animar o forró de São Pedro lá no céu. Apesar de não ser um disco relevante, Eu e Meu Pai carregava em si a marca de um momento forte da vida de Gonzaga. Além da homenagem filial, o LP continha Orélia, a última música de Humberto Teixeira para o velho companheiro. Nesse mesmo ano, o 'doutor do baião' também se despediu da vida. Órfão de dois inspiradores primordiais de sua obra, o sanfoneiro iria, ainda nesse disco, reatar os laços de afeição com o filho Gonzaguinha. Já que o presidente Figueiredo estava anistiando os presos e exilados políticos, parece que Gonzaguinha, num outro registro, resolvera anistiar o pai... com quem recriou, num lindo duo, Vida do Viajante. Também fizeram para Eu e Meu Pai parceria em Rio Brígida, uma música sobre o Exu.
"Uma vez eu entrei no Planalto com um casal de asas-brancas, para pedir ao presidente Figueiredo proteção para elas. Porque a asa-branca, como a rolinha, o juriti, a pomba, a ribaçã, são muito cobiçadas para o prato, e estão sumindo. Dificilmente se vê alguma no mato, hoje em dia. O Figueiredo fazia muita força pra ser populista, mas ele não conseguia. E nesse dia então, ele teve uma atitude muito de ditador mesmo. Me olhou e me perguntou:
— Cadê teu filho? Por que é que ele não gosta de mim?
— Isso eu não sei, general, o senhor sabe como é essa juventude de hoje, muito livre...
— Diga pra ele me deixar em paz.
Bem, ele chegou a prometer que faria alguma coisa pela asa-branca, mas ainda hoje espero. E eu saí do Planalto com meu casal de asas-brancas, meu chapéu de couro, meu gibão e... ah! ah!, eu parecia um palhaço, porque estava com uma crise de gota, aí fui lá de tênis! Foi por causa do tênis que eu não consegui nada".
Gonzaga, apesar de estar chegando perto dos setenta anos, permanecia ativíssimo, naquela vida de viajante que amava perdidamente, e da qual Helena praticamente não participava mais. Nessas viagens ele, que desertara havia anos da cama conjugal, mas que — como dizia — "não era viado", dava sempre um jeito de passar por Recife, e mais precisamente por um apartamentozinho aconchegante da praia de Boa Viagem onde morava Zuita, seu 'zamor'. Durante a vida inteira tivera toda sorte de casos, namoradas, amantes, aventuras sem futuro, mas desta vez estava apaixonado. Encontrara em Edelzuita tudo aquilo que Helena, afogada na dor do ciúme, do tédio, da depressão crônica na qual acabara mergulhando, não tinha mais força de lhe oferecer.
"Afinal de contas, eu e Helena nos casamos por amor e quando se casa por amor, sempre sobra alguma coisa, mesmo que estejamos velhos... A gente olha pra esposa e pensa que queria ter uma mulher igualzinha a ela quando era moça... Mas nossa vida não está mais prestando. Eu tentei falar com ela de separação, disse que lhe dava tudo. Só queria que ela me deixasse a sanfona. 'É isso que você quer? Então é isso mesmo que eu não vou querer', ela me respondeu".
Paralisado por seus preconceitos morais e pelo medo que confessava sentir da esposa, Gonzaga não conseguia resolver sua vida. A história com Zuita seria ritmada pelas rupturas e voltas, beijos e lágrimas, alternando entre a dor e o riso.
Nesse ano, lançou o LP Homem da Terra, uma verdadeira xaropada, cheia de violinos, cellos, bateria e baixo elétrico, totalmente estranhos à arte de Luiz Gonzaga. Sem contar que a música que dava título ao disco era de um comercial para o Bamerindus... Faltava às vezes rigor a Luiz Gonzaga, que transformava com a mesma falta de consciência suas músicas em jingles e seus jingles em músicas.
No entanto, o disco carregava em si todas as boas características que iriam marcar o trabalho do sanfoneiro na última fase de sua vida: tinha uma música de João Silva; também havia uma regravação de A Triste Partida, que foi uma das suas músicas-fetiche no fim da vida. Além do mais, ele a interpretava em duo com Gonzaguinha, com quem iria trabalhar intensamente nos anos seguintes. E não só com Gonzaguinha, mas com muitos outros artistas da geração do filho. Estava claro que, depois das mancadas do 'velho' nos anos da ditadura, 1981 representava o ano da reconciliação. Era o ano de A Festa, um belíssimo LP gravado com participação especial de Gonzaga Júnior, Emilinha Borba, Dominguinhos e Milton Nascimento, com quem cantou o imperecível Luar do Sertão.
"Era um antigo sonho meu gravar essa música, e o Pedro Cruz, que teve a ideia desse disco, arregimentou o encontro com o moreno mineiro. O contato com Milton Nascimento foi simples. Nós nem ensaiamos, todo mundo sabe cantar essa música. Só tive cuidado em afinar com ele, porque ele tem uma extensão de voz muito grande. E pra cima então, quando ele dispara, é uma beleza. E eu coloquei a segunda voz pra baixo da dele. Depois pediram pra gente posar juntos para um foto. Aí falei pro Milton: 'Olha, eu tenho uma ideia genial. Você não precisa se promover, porque você é um grande astro. Mas eu tenho interesse em me promover às custas de seu nome, então será que dá pra gente trocar de aparência? Ele achou graça, e aceitou a gente trocar de chapéu. Ele é uma figura interessante, fala pouco, muito pouco".

Foi durante a excursão de A Festa que o 'Luiz Gonzaga anos 80', recebeu o apelido de Gonzagão:
"Nós fomos tocar num forró em São Paulo. Quando chegamos lá, o forró estava engalanado, era faixa pra todo lado, bandeira e mais bandeira, frases e mais frases e o locutor apresentando a festa. Gonzaguinha aí me mostrou uma faixa. Estava escrito: 'Gonzaguinha e Gonzagão, a maior dupla sertaneja do Brasil'. Ah! Essa aí nós gostamos e daí por diante passou a ser nosso slogan".
O apelido pegou tão bem que, a partir de 1982, ele assinou Gonzagão em quase todos os seus discos. O primeiro de todos foi o disco com Gonzaguinha, uma coprodução das gravadoras dos dois artistas.
"Esse negócio de pai pra filho é difícil, porque quando começa discussão é sempre discussão feia. E eu tenho medo de perder o privilégio de ser amigo de meu filho, que além de tudo é genial. Hoje ficou tão importante o nome de Gonzaga quanto o de Gonzaga Júnior. Esse trabalho que nós fizemos juntos, ele colocou nas entrevistas como uma ajuda minha para ele se fazer conhecer. Mas ele já tinha nome feito. Se ele queria gravar comigo é porque se sentia capaz e achava que ia dar. E eu, no fundo, no fundo, estava me sentindo muito orgulhoso disso, estava envaidecido mesmo".
Em 1983 saía o LP Luiz Gonzaga, 70 anos de Sanfona e Simpatia, que abre com uma toada emocionante: Sequei os Olhos. Na segunda faixa Plano Piloto, de e com Alceu Valença.
"A gente tinha se conhecido em 1982, em Natal, no show Nordeste Urgente para os flagelados. Depois a gente se encontrou em São Paulo. Estávamos hospedados no mesmo hotel e eu estava com uma dor-de-corno danada. Aí, fui pro quarto dele, que estava com Zuita, e comecei a me lamentar, e ele, com a sanfona, pontuava a conversa. Quando a gente gravou Plano Piloto, ele me disse: 'Olha, você, que é mais novo, vai no corridinho, e eu caio no xote, que é mais devagarinho'". (Alceu Valença)
Apesar da enxurrada de coros e violinos melosos, o disco valia pelo repertório e pela voz do artista, a cada dia mais solta, firme, sensual. Mais linda que nunca. A maturidade convinha maravilhosamente ao canto de Luiz Gonzaga.
Este voltara a ser uma figura proeminente e respeitada do meio. Teve então participação ativa na comissão da Sociedade Brasileira dos Intérpretes e Produtores Fonográficos, na elaboração da lei antipirataria.
Cada dia mais solicitado, estava com a agenda carregada, fazendo um especial na televisão para o qual convidou Fagner, Dominguinhos e Elba Ramalho; se apresentou, convocado por Chico Buarque e Gonzaguinha, no show do Primeiro de Maio promovido pelo Centro Brasil Democrático; foi convidado a participar, no LP Vaca Profana, de Gal Costa, em Tem Pouca Diferença. Ainda em 1984, quando a música nordestina se enlutou com a morte de Jackson do Pandeiro, Gonzaga recebeu o Prêmio Shell. No ano seguinte, foi-lhe concedido o Nipper de Ouro.
DORES
Anunciou à imprensa que chegara a hora de se aposentar. E graças aos deuses da música, foi alarme falso, apesar de estar sofrendo cada dia mais do que imaginou ser gota: já não aguentava o peso da sanfona. Agora viajavam com ele dois sanfoneiros: Joquinha, um sobrinho, e Mauro, um jovem exuense que tocava no coral da igreja.
"Não foi difícil eu me encaixar na banda de seu Luiz porque eu sempre toquei no estilo dele. Luiz Gonzaga era o grande modelo da gente. E até a cantar ele me ensinou". (Mauro)
"Quem tem talento não tem medo de perder. Eu botei um mundo de artistas cantando na minha linha e que é que deu? Reforcei as minhas criações e saí lucrando até hoje.
Eu não sou mais sanfoneiro, nem cantor, sou simplesmente Luiz Gonzaga, um velho com gogó bom. Não ganho mais dinheiro como sanfoneiro, ganho dinheiro como Luiz Gonzaga".
E realmente, o 'gogó do velho' cantava a cada dia, a cada disco, a cada show, mais lindo, valendo-lhe, em 85, dois discos de ouro para o LP Sanfoneiro Macho. João Silva estava mais presente do que nunca, com oito músicas, e o time na produção continuava o mesmo que em Danado de Bom, o disco de 1984. Os ingredientes para o sucesso haviam sido reunidos.
"Quando Luiz Gonzaga gravou Forró de Cabo a Rabo, a gente percebeu que não havia 'a' música que ia puxar o disco. Faltava o gancho, que passaria no rádio e daria o Disco de Ouro a ele. Agora, todo mundo podia dar música a Gonzaga, mas as que aconteciam mesmo eram as que ele fazia com João Silva. Então nós chamamos ele: 'Olha João, pegue uma suíte num hotel, leve sua garrafa de uísque, chame Gonzaga e pelo amor de Deus, façam a música pra amanhã'". (Pedro Cruz)
Gonzaga e João se encontraram à noite no hotel:
— E agora, como que nós vamos fazer?
— Olha, eu tenho um amigo lá em Miguel Pereira que se chama Zé Nabo, que é o diabo...
— Pois é, Gonzaga, e lá em Pernambuco, tem uma cidade que se chama Cabo. E você sabe que no Nordeste, os antigos quando eles queriam um negócio mesmo, eles diziam que "queriam de cabo a rabo". E tem outra coisa... mas antes me dê uma dose de uísque.
— Pronto! Já vou perder o artista! Diga antes, que depois eu dou o uísque.
— Não senhor, dê primeiro a dose, que depois eu digo.
— Tá aí, diga agora.
João Silva pegou o violão e começou a cantar:
Gonzaga continuou:
Nessa noite quase me acabo...
João Silva seguiu:
Tinha um mundão de...
— Mundão, coisa nenhuma, que você sabe que vai dar outra coisa,
— Deixe de ser besta, Luiz! Escreva:
Assim continuaram até altas horas da noite. Quando o monstro ficou pronto, Gonzaga pegou a sanfona, João pegou o gravador. Gravaram a música e Gonzaga avisou o parceiro:
— Olha, agora acabou, e eu quero me deitar. Vá pra sua suíte e, pelo amor de Deus, não fique tocando violão que quero dormir.
No dia seguinte, Gonzaga escutou a gravação, ainda acrescentou uns versos, deu um jeito na música e, com João Silva, foi direto para a RCA.
"Quando chegamos, Gonzaga me falou: 'Eu vou botar uma introdução bem simples, porque os caras que gravam forró andam colocando introduções muito difíceis e os sanfoneiros do Nordeste são muito fracos com o instrumento'. Quando ficou tudo pronto, chamamos o pessoal da RCA, eles adoraram. A música foi um estouro total! Mas com três semanas, eu e Gonzaga já brigamos de novo, ele me disse: 'Não quero mais conversa com cachaceiro!'". (João Silva)
Mas acontece que Forró de Cabo a Rabo recebeu dois discos de ouro e de platina, por conta das parcerias com o 'cachaceiro', e Gonzaga se reconciliaria com o parceiro quando foi chegada a hora de preparar o LP seguinte, De Fiá Pavi, que foi pras lojas de discos em junho de 87.
A RCA tinha lançado o novo LP de Gonzaga pensando que a música De Fiá Pavi era o gancho para puxar o disco. Mas o público é quem decide — às vezes — e as festas de São João naquele ano foram atiçadas pelo som de Nem Se Despediu de Mim. Mais uma vez, o cantor e seus músicos percorreram o país, animando os folguedos juninos. Algumas semanas mais tarde, havia um show marcado em Caruaru. Foi quando seus problemas de próstata voltaram a se manifestar, sofrendo, na ocasião da viagem, os sintomas humilhantes do câncer que estava se expandindo. A presença serena e carinhosa de Zuita, que o acompanhava cada vez que podia nas suas viagens, acalmou o desespero do artista, que já padecia desde algum tempo de violentas dores nas pernas. Com profissionalismo e dignidade, deu nesse dia entrevistas à televisão, autógrafos a granel, posou para fotos, presenciou o jantar com o prefeito, se divertiu com o discurso de um notável local totalmente bêbado, cantou lindo para 5.000 pessoas no Forró Forrado da cidade. Ao fim, resolveu que iria regressar para o Recife depois do show.
Queria voltar ao aconchego do apartamento de Boa Viagem, curtir na intimidade o carinho de Zuita, deitado na sua rede. Cada vez mais, Gonzaga fugia das camas. Tanto que no Parque Aza Branca, assim como no apartamento de Zuita, tinha sua rede e lá dormia. No mais, não deixava nada de seus pertences no apartamento da amante, para que ficasse clara a situação. Ele era casado e casado continuaria:
"Eu sempre digo pra Helena que nós vamos até o fim. Ela não acredita, mas nós vamos. Daqui a dois anos, nós vamos cumprir quarenta anos de casados. Já é uma barra. Ela me ajudou, apesar dos probleminhas. Agora é que perdeu o pique. Não sabe o que fazer com a fortuna que possui. Inclusive EU!".
Com santa paciência, Zuita segurava a peteca. Ela sofria, Gonzaga sofria e Helena também sofria. Então, regularmente, Gonzaga aliviava a própria barra, rompendo com Edelzuita e retornando à esposa. Dali a pouco recomeçavam as brigas e Gonzaga voltava novamente para Edelzuita. Gonzaga que, nos primeiros anos da aventura com Zuita, escondia a relação, e nos telefonemas, nas cartas e nos bilhetes dissimulava a própria identidade sob o pseudônimo de Marcelo Luiz, agora se exibia publicamente com a namorada. E, curiosamente, com um respeito pouco habitual, a imprensa jamais escreveu a mínima notícia, nem fez a menor alusão ao adultério do Rei. Tampouco publicou fotos do ilícito casal.

No final de 87, a degradação da saúde dele se acelerou. Os exames confirmaram o câncer da próstata e revelaram metástase nos ossos, causa das dores nas pernas. Todos continuaram a dissimular a doença a Gonzaga, alegando que ele dizia que se mataria se soubesse que tinha câncer. Disseram-lhe que tinha osteoporose. No entanto, é verossímil supor que Gonzaga entendera de que mal sofria exatamente.
A partir de então, a vida entre Exu, no Parque Aza Branca, Recife com Zuita, Rio com Helena e a estrada nas turnês, se tornava difícil. O doente precisava de cuidados contínuos, de alguém constantemente a seu lado.
"Em novembro de 87, ele me disse: 'Olha Zuita, eu sou velho e quem vai cuidar de mim é Helena. Você é nova, vai continuar sua vida'. Assim terminava nossa história. Eu só pude aceitar a decisão dele e falei que, nesse caso, eu ia viajar para a Itália, onde tenho amigos. Gonzaguinha veio buscá-lo e o levou para o Rio, mas ele não suportou e voltou para o Exu". (Edelzuita Rabelo)
A morte não era assunto que Gonzaga abordasse. Nem mesmo a doença. Quando muito, aludia à dor nas pernas, para explicar os passeios que dava no Parque Aza Branca, cada dia de manhã cedinho. Vestido com um macacão branco, ele costumava dar várias vezes a volta no terreno que rodeava a casa.
Sua maneira de lidar com a própria morte foi a criação do Museu Luiz Gonzaga, no Parque Aza Branca, assunto de grande preocupação nos últimos anos de sua vida. E um campo ideal de pressão para Helena, que até sua própria morte, em 1992, manteve escondido todo o arquivo do artista.
Apesar de suas resoluções, Gonzaga não aguentou a separação com Zuita. Passou um mês, e ele começou a ligar para o escritório da mulher amada.
"Eu não atendia, mandava dizer que não estava. Até um dia, que minha colega me disse: 'Olhe Zuita, ele está chorando, fale com ele'. Eu peguei o telefone e ele me disse então que ia passar pelo Recife e tinha uma coisa importante que falar comigo, insistiu muito e eu acabei aceitando. No dia seguinte, lá estava ele me esperando na calçada, em frente a meu escritório. Nós voltamos pra casa, sem falar nada; na hora que a gente entrou na sala, ele me agarrou, me deu aquela banana e disse: 'Olha que tu vai pra Itália' e, jogando a mochila no chão, falou: 'Sabe quando eu vou embora?... Nunca! Eu não sei mais viver sem você, sujeita!'. (Edelzuita Rabelo)
Com 75 anos de idade e 12 de vai-e-vem entre Helena e Zuita, Luiz Gonzaga conseguira, enfim, superar a submissão da qual, culturalmente, era o fruto. Com a vida afetiva resolvida, Gonzaga melhorou, rejuvenesceu, voltou a rir, a cantar, a amar. Retornou aos palcos, às estradas, aos estúdios. Em 88 gravou Aí Tem Gonzagão, um LP sem grande relevo apesar da presença de Carmélia Alves em Vamos Ajuntar os Troços e de Geraldo Azevedo em Taqui pá Tu. A voz do Rei, pela primeira vez, começava a dar sinais de cansaço.
No mesmo ano, a RCA lançou 50 Anos de Chão, uma caixa com cinco LPs, magnífica compilação do essencial da obra de Luiz Gonzaga. Era o implícito presente de despedida que a gravadora fazia ao artista, depois de 47 anos de colaboração.
Mas Gonzaga não tinha talento para aposentadoria. Passou para a Copacabana, onde gravou Vou Te Matar de Cheiro, um péssimo disco que não deveria ter gravado. Já não havia mais nada que acrescentar à sua fabulosa história musical.
Uma história da qual ele teve a visão fulgurante, luminosa e cujo rumo dirigiu com impressionante firmeza e coerência.
Incansável cantador, Gonzaga estava com a agenda de São João cheia quando foi admitido no hospital Santa Joana no Recife, no dia 21 de junho de 1989. No dia 16 de julho seguinte, devia ser pronunciado o divórcio que enfim resolvera pedir, alegando maus-tratos. Depois, casaria com Zuita.
Na noite de 2 de agosto de 1989, adormeceu. Para a eternidade.

Transcrito (com adaptações) de:
Vida do Viajante: a saga de Luiz Gonzaga. © 2012, Dominique Dreyfus. Editora 34.
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