PENSAR A BOSSA_o9: A invasão francesa (leitura complementar)
SÉRGIO CABRAL
As filmagens de Orphée Noir tiveram início em 1957, um ano depois do Orfeu da Conceição ter estreado no Rio de Janeiro. O produtor Sacha Gordine convidou Marcel Camus, irmão do escritor Albert Camus, para a direção e convocou Jacques Viot para refazer o roteiro de Vinicius de Moraes. A indicação de Viot não causou qualquer reação negativa de Vinicius. É verdade que ninguém seria mais bem indicado do que o autor da história para cuidar do roteiro. Além disso, o cinema não era uma atividade estranha ao velho estudioso do assunto e militante durante alguns anos da critica cinematográfica. O que chateou Vinicius foi o resultado, mais uma consequência da velha mania europeia e norte-americana de exagerar os aspectos exóticos dos países do terceiro mundo. Vinicius ficou uma fera. Foi a primeira indisposição do poeta — em seguida, também de Tom Jobim — com os franceses do Orphée Noir (depois o filme passou a se chamar Orfeu Negro). Por isso, Vinicius pediu para retirar o seu nome da autoria do roteiro (que foi assinado por Viot e Camus), concordando apenas que aparecesse na coautoria dos diálogos. A discordância em relação ao roteiro, porém, não impediu que atendesse ao pedido da produção do filme para compor novas músicas, de preferência com mais sabor carnavalesco, como queria o diretor, que estava impressionado com a melancolia da música popular brasileira. "Quando traduzimos letras com aquelas histórias de 'pôs fim à existência', 'pedindo socorro', 'tornei-me um ébrio', 'acabou chorando' e outras mais, sua impressão foi maior ainda", diria Antonio Carlos Jobim numa entrevista à revista Manchete. A dupla de compositores encontrou alguma dificuldade para fazer as novas músicas porque, em 1958, o Itamaraty designou Vinicius de Moraes para servir como secretário da embaixada brasileira em Montevidéu. Ainda assim, os dois compuseram os carnavalescos Frevo de Orfeu, A Felicidade e O Nosso Amor. "O samba A Felicidade foi feito praticamente no telefone Rio-Montevidéu", revelou Tom. O pior é que nem sempre Marcel Camus aprovava as letras vindas de Montevidéu, obrigando a dupla a fazer intermináveis ligações telefônicas internacionais. A letra de A Felicidade foi a que deu mais trabalho, até que Vinicius de Moraes perdeu a paciência e mandou dizer que não mudaria mais nada.
Tanto trabalho sem qualquer garantia para os compositores, já que o contrato para a cessão das músicas seria assinado somente em setembro de 1959, quando o filme já conquistara prêmios e lotava os cinemas europeus. Sem experiência nesse tipo de negociação e sem uma boa assessoria, os compositores brasileiros assinaram um contrato estabelecendo que a metade dos direitos autorais auferidos com as músicas seria dos 'compositores-autores' e a outra metade dos produtores do filme. Tom e Vinicius não imaginaram que, na Europa, as suas obras teriam tantos 'compositores-autores' além deles, diluindo drasticamente os direitos arrecadados. E mais: autorizaram a produtora francesa (a Dispatfilm), com exclusividade, "a reproduzir, editar, publicar, vender, alugar, pôr em circulação de qualquer maneira que seja e onde pareça conveniente quaisquer reproduções das obras, qualquer que seja a forma e mediante qualquer publicação e a autorizar quem quer que seja a efetuar e pôr em circulação as reproduções de qualquer natureza". Mas os produtores queriam mais. Adiante, acentuava o contrato: "Teremos igualmente o direito exclusivo de reproduzir, editar, publicar, vender, alugar, pôr em circulação, de qualquer maneira que seja e onde que que nos pareça conveniente, quaisquer traduções, adaptações, versões, transcrições, reduções, bem como quaisquer arranjos, resumos, fragmentos e extra das obras". Os franceses pareciam satisfeitos, certo? Errado, queriam mais. Os autores brasileiros, que receberam o pagamento simbólico de um franco pela utilização das suas músicas no filme, perderam o direito de escolher sequer seus editores em qualquer lugar do planeta, pois a cláusula quatro do contrato determinava que Tom e Vinicius eram obrigados a aceitar "o contrato como nós o estabelecermos com qualquer editor de nossa escolha referente à edição de suas obras". A dupla brasileira ficou também obrigada a "não opor qualquer obstáculo à exploração pública de suas obras no mundo inteiro". Também não poderia "exigir qualquer outro pagamento além da importância de um franco mesmo se nos países em que o filme for explorado não existir meio de receber as percentagens sobre as receitas das bilheterias de cinema; ficando a retribuição que lhe cabe limitada aos pagamentos provenientes unicamente das cobranças efetuadas pelas Sociedades de Autores sobre as receitas de bilheteria onde existir acordo entre os exploradores e as Sociedades de Autores".
Além de Jobim e Vinicius, fizeram músicas para o filme, em parceria, os compositores Luiz Bonfá e Antônio Maria, autores de Manhã de Carnaval, o maior sucesso da trilha de Orfeu Negro.
Marcel Camus viajou para o Rio de Janeiro, dois meses antes do início das filmagens, e entrou em contato com vários jornalista e artistas brasileiros. Um dos jornalistas, Jota Efegê (pseudônimo de João Ferreira Gomes), levou-o à moradia do compositor Cartola, no Morro da Mangueira, onde comeu um feijoada preparada por Zica, mulher de Cartola, e conheceu o chamado samba de morro, além das músicas de Lamartine Babo, presente ao encontro. Cartola e Zica acabaram atuando como atores do Orfeu, além de faturarem uns trocados no trabalho de apoio, ele tomando conta das fantasias de carnaval usadas nas filmagens e Zica cozinhando para os profissionais envolvidos na produção.
O filme ganhou a Palma de Ouro do Festival de Cannes de 1959 e, em seguida, foi contemplado em Hollywood com o Oscar de melhor produção estrangeira. Marcel Camus e Sacha Gordine acertaram na mosca na exploração do exotismo. Pelo menos para o gosto europeu. Os prêmios internacionais conquistados pelo Orfeu (foram algumas dezenas) tiveram o mérito de livrarem Tom Jobim e Vinicius das críticas ouvidas dos conservadores brasileiros, contrariados pela produção de um filme que mostrava as favelas e os negros e não os ambientes sofisticados, "o Copacabana Palace, por exemplo", como queria um daqueles críticos. Além dos salões de cinema lotados na França e em outros países, a crítica francesa não poupou elogios. Robert Chazal, do France Soir, escreveu que o filme "é uma obra-prima que irrompe alegremente, brutalmente, como um verdadeiro hino à vida". A expressão obra-prima ("de ritmo e de inteligência") também foi usada por Louis Chauyet, do Le Figaro, que chamou atenção especialmente para o trabalho dos dois atores principais — o gaúcho Breno Mello, jogador do Fluminense F.C., e a norte-americana Marpessa Dawn — e das belíssimas mulatas Lea Garcia ("um corpo animado de um movimento perpétuo") e Lurdes de Oliveira. Já a critica brasileira de cinema detestou. Alex Viany, um dos maiores nomes da critica e que, tendo convivido com Vinicius de Moraes em Los Angeles, conhecia muito bem o texto original do Orfeu, protestou contra a versão cinematográfica. Embora considerando Marcel Camus "um francês simpático, culturalmente confuso, mas bem-intencionado", escreveu que o filme se perdeu "num emaranhado de confusões culturais, dramáticas, melodramáticas, mitológicas e psicológicas". E concluiu que Orfeu do Carnaval [o nome do filme no Brasil] nada contribui para o desenvolvimento da nossa cinematografia e nada acrescenta à investigação de novas formas cinematográficas".
Apesar das críticas brasileiras desfavoráveis, as conquistas internacionais de Orfeu Negro foram motivo de euforia no pais, numa época em que o clima era de muita esperança, proporcionado pela política desenvolvimentista do presidente Juscelino Kubitschek. Vários fatos contribuíam para o otimismo popular: a vitória da seleção brasileira na Copa do Mundo de 1958, na Suécia, as conquistas da tenista Maria Ester Bueno em quase todas as competições internacionais, a construção de Brasília, a implantação da indústria automobilística, o título de campeão mundial de boxe (peso-galo) conquistado por Éder Jofre, a estrada Belém-Brasília riscando a selva amazónica, os reduzidos índices de inflação e de desemprego etc. A própria bossa nova serviu como uma espécie de trilha sonora do clima de esperança da segunda metade da década de 1950. O cinema novo que teria início pouco depois, e a agitação do teatro brasileiro em busca de textos retratando com maior fidelidade a nossa realidade social e política também se enquadravam naquele contexto. Assim, o próprio presidente Juscelino Kubitschek prestigiou a conquista de Orfeu Negro, promovendo uma sessão especial do filme no Palácio do Catete, no Rio de Janeiro. Vinicius de Moraes, que ainda não conhecia o filme, foi um dos convidados. Mas a sua reação estava muito longe da euforia: não suportando a exploração exagerada do exotismo do filme aproveitou a escuridão do cinema para retirar-se sem se despedir, sequer, de presidente da República, tão irritado ficou. Terminada a exibição, Kubitschek perguntou: "E o nosso poeta? Não se sentiu bem?".
Daí em diante, foi uma série de desentendimentos da dupla Tom-Vinicius com os franceses, responsáveis pelo lançamento em Paris de um disco de 45 rotações com quatro músicas (as três da dupla e Manhã de Carnaval), omitindo nomes de autores brasileiros e acrescentando outros franceses.
"Era tudo uma grande esperteza, no fundo. Os franceses do Marcel Camus punham quatro nomes de parceria em cada música, de modo que o dinheiro não saísse da França. Tive parceiros que nunca existiram, dividindo com eles todos os meus direitos. Era a velha relação colonizador-colonizado", desabafou Tom Jobim em seu depoimento a Luís Carlos Lisboa, para o livro A Vida de Tom Jobim, da Editora Rio Cultura em convênio com as Faculdades Integradas Estácio de Sá. Para ele, era "porcaria" o dinheiro vindo da França: "O editor francês ficou com 60%, os 40% restantes foram divididos por seis parceiros e o imposto de renda francês comeu uma fatia", completou.
Os franceses do filme não ficaram nisso. Foram também responsáveis por atos criminosos como o de atribuírem à atriz do filme, a norte-americana Marpessa Dawn, a interpretação de Manhã de Carnaval, no long-play da trilha sonora vendido no mundo todo. No filme, quem cantava a música era Agostinho dos Santos, mas, no disco, era Elizeth Cardoso, que jamais recebeu um tostão pela venda do disco desse grande sucesso internacional. Foi um caso raro de roubo de voz, mas os criminosos ficaram impunes.
"Uma coisa é certa: o nosso Orfeu era melhor do que o que ganhou o Oscar em Hollywood", diria Tom ao jornalista João Máximo, muitos anos depois. Vinicius de Moraes chegou a chamar Sacha Gordine de "o rei do cheque sem fundo".
Em 1960, Antonio Carlos Jobim apresentava na TV Paulista um programa em que tocava piano e entrevistava o pessoal da música. Na noite em que recebeu Vinicius de Moraes (Agostinho dos Santos também compareceu), estabeleceram um diálogo que, segundo um crítico de São Paulo, foi a única coisa que ele não gostou simplesmente porque não entendeu. Era mais uma manifestação do humor surrealista de Tom Jobim. Vinicius de Moraes transcreveria depois o diálogo na Última Hora do Rio de Janeiro:
Tom — Como é, poeta?
Vinicius — Como é, maestro?
Tom — E os franceses, hein?
Vinicius — Deixa isso pra lá, Tonzinho.
Tom — Eles sabem do negócio, não sabem?
Vinicius — É, eles sabem.
Tom — Pois é. Mas eles não sabem de uma coisa.
Vinicius — O quê?
Tom — Eles não sabem que debaixo das folhas secas há uns caracóis listrados, e que grandes pedras estão lá vendo tudo.
Transcrito (com adaptações de:
Antonio Carlos Jobim: uma biografia. © 2008, Sérgio Cabral. Lazuli Editora / Companhia Editora Nacional.



