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Livros, discos e sites a mancheia
Quem pesquisa música popular brasileira, por certo já deu com a imagem acima inúmeras vezes. Já quem não é do ramo, é provável que não reconheça pelo menos um dos personagens: Josué de Barros, no centro, à direita dele, Assis Valente e à esquerda, Dorival Caymmi.
A foto saiu na Revista da Semana de 21 de janeiro de 1950. Josué, Assis e Dorival são, como diz o título da matéria, Três Baianos na Vida de Carmen Miranda.
Josué, o mais velho, foi "verdadeira e indiscutivelmente quem descobriu e lançou a Carmen que não é de Bizet ou Merimée.
(...) Falando ao repórter, cercado por filhos e netos, todo evocações, Josué mirando um retrato de Carmen Miranda suspirou, vivendo intensamente num minuto de agradáveis recordações:
— Ela veio para as minhas mãos como um diamante bruto. Lapidei-o carinhosamente. Tinha voz, tinha talento, tinha isso que só fica bem dizendo em gíria: bossa. Fiz o que pude por ela. Outros tiveram mais chance e mais visão e carregaram-na".
Assis Valente é o 'Segundo Baiano'. Apresentado a Carmen pelo próprio Josué de Barros, entraria para a História como o "compositor exclusivo" da Pequena Notável:
Goodbye, Boy, Camisa Listrada, Uva de Caminhão, Disseram que Voltei Americanizada, E o Mundo Não se Acabou, Minha Embaixada Chegou...
Caymmi vai entrar em cena 10 anos depois do 'descobrimento'. Seu O Que É Que a Baiana Tem? é o clássico instantâneo que acompanhou Carmen Miranda rumo a Hollywood.
Em 1950, Carmen já morava longe tempo suficiente para ser rejeitada pela opinião pública no Brasil. A Revista da Semana faz referência discreta a esse estado de coisas e encerra a matéria dizendo:
(...) "Houve as temporadas em cassinos e boates e, depois, para Hollywood, para os dólares, para os braços de David Sebastian, foi um saltinho de pulga. Porque, graças ao talento de três baianos e ao seu próprio, Carmen Miranda é uma estrela que ainda não se eclipsou".
Na vida real, distante da linguagem polida da Revista, a estrela já estava em franca decadência. Com o fim da Segunda Grande Guerra, a política cultural de boa vizinhança dos Estados Unidos tornara-se desnecessária e Carmen foi progressivamente sendo posta de lado.
Cinco anos depois, morreria, por excesso de trabalho, de álcool e barbitúricos. Isso quem conta é Ruy Castro, no seu excelente Carmen: Uma Biografia.
A foto em cor sépia, a textura do papel jornal, o próprio amarelado do exemplar de 70 e tantos anos atrás carregam o leitor para um outro tempo.
Quem pesquisa música popular brasileira neste segundo milênio encontra com facilidade materiais que formavam, antes, verdadeiros tesouros escondidos, ou, muitas vezes, extraviados.
Em 2026 vivemos a era dos acervos digitais.
O arquivo PDF da Revista da Semana de janeiro de 1950 está disponível para consulta e download no acervo Dorival Caymmi, um dos sete acervos do site do Instituto Antonio Carlos Jobim.
Só na aba Dorival Caymmi é possível abrir mais de 4.000 documentos, entre cartas, telegramas, fotos, partituras, gravações em áudio e vídeo, além dos recortes de revistas e jornais.
Comparado ao site do Instituto Moreira Salles ou ao MIS, o maravilhoso site da família Jobim chega a ser modesto.
A própria Revista da Semana tem todas as edições, de 1900 a 1959, disponíveis para ler online ou baixar no portal da Biblioteca Nacional.
Enquanto isso o bom e velho YouTube segue em modo 'colaborativo' e abre as portas para um infinito de raridades jamais sonhado pelos amantes da música antes da internet.
A presente resenha se voltou para o conhecimento que hoje se espalha para além dos livros, aqueles "objetos transcendentes" a quem podemos amar com o mesmo "amor táctil que votamos aos maços de cigarro", como diria outro baiano célebre, Caetano Veloso.
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Leia a reportagem completa no acervo Caymmi do site do Instituto Jobim:
https://www.jobim.org/caymmi/handle/2010.1/13257
São Ismael do Estácio
São Ismael do Estácio; o sambista que foi rei abre com um capítulo dividido em três partes: Vida, Paixão e Morte do 'Rei do Estácio'.
Um sobrevoo pela história de Ismael Silva. Quase um livro dentro do livro.
Da 'Vida' ficamos sabendo onde nasceu, como cresceu, o porquê da família ter se mudado para o Estácio de Sá, o fascínio pelos estudos — de acordo com sua mitologia pessoal, Ismael, aos sete anos, 'invadiu' a escola do bairro e foi direto informar à diretora que "tinha fome de saber" e queria uma vaga. Matriculado na mesma hora, o "garoto humildemente vestido, magrinho, pobre, tornou-se modelo do colégio, primeiro aluno em todas as matérias", segundo o próprio.
Mais velho, depois que ingressou na boêmia, só queria saber de aprender... samba e batucada.
A pesquisa da biógrafa Maria Thereza Mello Soares revela que Me Faz Carinhos é o primeiro samba que Ismael compôs, vendeu e viu ser gravado.
Com outros bambas do Estácio criará o bloco de carnaval Deixa Falar, a que vão chamar 'Escola de Samba', meio na base da brincadeira. Mas o nome, como se sabe, 'pegou'.
A 'Vida' ainda fala de Chico Alves, de Nilton Bastos, de Noel Rosa, Mário Reis, de Vinicius de Moraes, de Hermínio Bello de Carvalho e de figuras consagradas da cultura nacional com quem o sambista convivia: Aníbal Machado, Tônia Carrero, Murilo Mendes, Rubem Braga, Portinari, Scliar...
Os 15 anos da 'Paixão' de 'São Ismael' se iniciam com os tiros que atingem a região glútea do motorneiro Edu, que, também segundo a mitologia pessoal do compositor, desrespeitou Orestina, sua irmã mais velha. Resultado: cinco anos de reclusão após ser preso em flagrante e condenado por tentativa de homicídio.
Aos dois anos e meio que efetivamente passou na cadeia acrescentaram-se outros mais de 12 em que Ismael, dizem, autocondenou-se ao ostracismo.
"Quando deixou o presídio era um homem diferente. Tudo parecia conspirar contra ele. Era alegre e ficou caladão".
Ele só retorna — o marco é o tão conhecido Antonico — nos anos 1950, mas nunca de maneira tranquila. Sumia às vezes. As dificuldades financeiras sempre presentes.
A 'Morte' veio encontrá-lo em 1978. Estava ameaçado de despejo e teve o corpo velado no salão nobre do Museu da Imagem e do Som, situações contrastantes que, no entanto, formam o estranho, mas fiel, retrato do 'rei' cujo trono ficou sem sucessor.
São Ismael do Estácio, o livro, traz ainda capítulos dedicados a analisar as composições de Ismael, a registrar o 'comércio' de compra e venda de sambas, a relembrar a história da música popular no Rio de Janeiro e o surgimento das escolas de samba. Tudo um tanto resumido em excesso, mas baseado em pesquisa de qualidade.
Como em todo livro editado pela FUNARTE na década de 1980, tem em anexo a discografia completa do biografado, fornecendo assim excelente fonte para pesquisar os discos no YouTube.
É encontrável em sebos online por preços modestos. Em abril de 2026 há exemplares por 30,00 ou pouco mais de 40,00. O 'mercado' continua a precificar Ismael Silva de maneira displicente.
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Orestes Barbosa: Repórter, cronista e poeta
— Por que não escreve você as suas memórias?
— Não escrevo as minhas memórias porque irão dizer que é ficção.
(Orestes Barbosa, entrevista ao Diário de São Paulo, em 5 de agosto de 1956.)
Carlos Didier, um dos autores de Noel Rosa, Uma Biografia, se debruçou sobre a vida 'stranger than fiction' de Orestes Barbosa. O desafio lhe custou 12 anos. De 1992 a 2004.
O produto, 'Orestes Barbosa: repórter, cronista e poeta', chegou às lojas em 2005.
Didier dedicou o livro a Antônio Nássara, a quem define como o "elo entre biógrafo e biografado". Nássara concedeu a Didier 20 entrevistas.
Orestes Barbosa está dividido em três grandes partes:
E um adendo, chamado de Posteridade (1996 - 2003).
Segundo sua própria mitologia, Orestes cresceu 'menino de rua'. Aos 18 anos, indicado por ninguém menos que Ruy Barbosa, foi admitido como revisor no periódico O Mundo.
Em 1921 é condenado a dois meses de prisão por 'imputação de fatos ofensivos à reputação' de um tal Francisco Venâncio Filho, a famosa 'injúria'.
Na Casa de Detenção escreve sobre o "labirinto de almas torturadas", temário que o acompanhará ao longo de toda vida. Voltará a ser preso ainda mais uma vez.
Demora a se achegar aos compositores de música popular. Antes, já havia publicado livros de poesia. A atividade de compositor guarda essa marca: escreve poemas metrificados e os entrega para algum parceiro botar melodia.
Chão de Estrelas, de 1937, é um exemplo claro. Toda escrita em decassílabos, exigiu de Silvio Caldas atenção redobrada para que os versos ganhassem a fluência musical e a naturalidade que se espera de uma valsa seresteira, feita para tocar no rádio.
As muitas (incontáveis) brigas, polêmicas, trocas de sopapos e ameaças de morte (punhaladas incluídas),
— Olha lá o Orestes na mesa do Café Nice. A quem estará envenenando? —
fazem par com as aventuras amorosas, e com a atenção redobrada aos acontecimentos da cultura nacional.
Segundo Didier, Orestes é o primeiro a reconhecer a singularidade de Noel Rosa,
— Sabe de uma coisa, Nássara? O sem-queixo é um gênio!
tornando-se quem aponta aquele jovem franzino e inquieto como um 'ponto fora da curva' dentro da geração brilhante a que ambos pertencem e que inclui Ary Barroso, Lamartine Babo, Braguinha e o próprio Nássara, entre inúmeros outros.
A aposentadoria vai ser passada em Paquetá, a quem se refere como 'a toca'. Lá criava galinhas e se locomovia a bordo de uma charrete. No fim da vida, adoentado, voltou a morar no Rio.
O livro de Didier é um catatau de 684 páginas, resultado de pesquisa que localizou 1.061 crônicas, reportagens, colunas e notas de Orestes Barbosa, 46 depoimentos e entrevistas, 134 poemas, 125 canções, 13 livros e mais de 80 itens de correspondência, além das 53 horas de entrevistas inéditas e mais de 1.000 artigos de outros autores.
Orestes teria sido, diz a biografia, "aquele que percebeu que a canção era o veio no qual os poetas deveriam desaguar sua lírica".
(...) "Ao abandonar suas intenções acadêmicas e abraçar a música popular, Orestes Barbosa tornou-se uma espécie de Vinicius de Moraes dos anos 30, embora o mais correto seja afirmar que Vinicius foi o Orestes dos anos 50".
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Orestes Barbosa: repórter, cronista e poeta. © 2005 Carlos Didier. Agir Editora Ltda.
Imagens:
Orestes Barbosa.
Orestes Barbosa de charrete em Paquetá, no traço de Nássara.
Noel Pela Primeira Vez
Nesta resenha exumaremos matéria de novembro de 2000 na FSP sobre o lançamento de 14 CDs com a obra integral de Noel Rosa.
Os responsáveis pela 'Caixa' foram a FUNARTE, a pequena gravadora Velas e, principalmente, Omar Jubran, um professor de biologia que, nas horas vagas e com a paixão típica dos profissionais, coletou 100% das gravações do Poeta da Vila, com ou sem parceiros.
Na entrevista, Jubran conta que, para a empreitada, um impulso decisivo veio ao ver publicado, em 1990, Noel Rosa: Uma Biografia, de João Máximo e Carlos Didier, livro que foi assunto da 'Resenha' anterior.
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NOEL ROSA COMPLETO, PELA PRIMEIRA VEZ
Carlos Calado 17/11/2000
Um objeto de desejo para qualquer apreciador da música popular brasileira chega ao mercado na próxima semana. A caixa Noel Pela Primeira Vez (lançamento da Funarte com a gravadora Velas) reúne em 14 CDs a obra integral de Noel Rosa (1910-1937), que estaria completando 90 anos de idade no próximo dia 11. Nas 229 faixas dessa ambiciosa edição, o ouvinte terá acesso a todas as primeiras gravações das composições que o Poeta da Vila escreveu durante seus breves seis anos de atividade musical.
"Entre outros grandes compositores, como Ary Barroso e Lamartine Babo, Noel sempre chamou mais minha atenção por ser um artista multifacetado. Ele fazia suas sátiras e suas crônicas sempre com a mesma seriedade, por mais banal e simples que suas composições pudessem parecer", diz Omar Jubran, o pesquisador e professor de biologia paulistano, que passou 11 anos procurando, recuperando e remasterizando as gravações incluídas nessa edição.
"Noel foi o grande inovador de nossa lírica, o primeiro a mostrar que tudo (fome, miséria, mentira, futebol, jogo do bicho, assassinato, roubo, prostituição, homossexualidade, bebida, política, corrupção) podia ser convertido em letra de música", observa João Máximo, biógrafo do compositor, no texto de abertura do livreto de 160 páginas, que faz parte da caixa, incluindo todas as letras das canções e fichas técnicas das gravações. As canções foram organizadas em ordem cronológica, opção que permite acompanhar a evolução de Noel como compositor.
Da temática sertaneja de composições como a toada Festa no Céu e a embolada Minha Viola (ambas compostas em 1929 e gravadas pelo próprio autor), passa-se ao encanto de Noel pelos personagens do morro, flagrado em sambas como Mulato Bamba (1931), até se chegar a seus sambas mais elaborados, como Último Desejo (1937).
Além do próprio compositor, que pode ser ouvido em dezenas de faixas, assim como Aracy de Almeida (sua intérprete favorita), outros cantores notáveis se sucedem, como Silvio Caldas, Francisco Alves, Mário Reis, Carmen Miranda, Aurora Miranda, Marília Baptista, Elizeth Cardoso, João Nogueira e Jamelão. Gravações mais recentes, realizadas na última década, destacam ainda Vânia Bastos, Ná Ozzetti e Johnny Alf.
Omar Jubran conta que seu interesse por Noel foi despertado durante a infância, entre os anos 50 e 60. "A gente ainda não tinha TV em casa e eu ficava ouvindo rádio, que naquela época era muito mais segmentado do que é hoje. Havia várias emissoras que tocavam compositores mais antigos da música brasileira", recorda o pesquisador, hoje com 47 anos.
Dono de uma grande discoteca (atualmente com cerca de 15 mil títulos, entre 78 rotações, LPs, compactos e CDs de vários gêneros musicais), Jubran resolveu organizá-la pela primeira vez, em 1987, época em que decidiu investir mais na já vasta coleção de gravações do Poeta da Vila. O lançamento do livro Noel Rosa, Uma Biografia, de João Máximo e Carlos Didier, foi fundamental para que ele desse sequência à pesquisa. "Além de ser um livro diferente, por causa de seu rigor científico, ele trazia uma relação completa de todas as composições do Noel. Resolvi checar quantas eu tinha e percebi que já possuía 70% desse material. Virou ponto de honra para mim conseguir o que faltava", recorda.
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Em meio à pesquisa, Jubran começou a se interessar por equipamentos de áudio que permitissem recuperar gravações em estado precário. Investiu nessa aparelhagem, até que seu saldo bancário entrasse no vermelho. "Eu ficava chateado. Toda vez que saía algum novo CD de Noel eram sempre as mesmas músicas: Três Apitos, Feitiço da Vila e coisas assim. Decidi entrar de cabeça nisso, mas esses softwares de recuperação sonora são muito caros. Cheguei a vender um carro, em 93, mas mesmo assim não consegui o dinheiro suficiente", relembra.
A solução foi procurar uma roda de amigos e propor a eles que comprassem a coleção de Noel antecipadamente, para ajudá-lo a prosseguir. "Achei oito malucos que confiaram em mim, na verdade, pagando o preço de duas coleções para receberem apenas uma, num prazo que eu nem mesmo poderia precisar qual seria", conta.
Para reunir as gravações que faltavam, Jubran teve que viajar por várias cidades dos estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais. As gravações mais difíceis de conseguir (já não se lembra exatamente quais eram) pertenciam a um renitente colecionador do sul de Minas, que teve de ser 'amaciado' aos poucos, com muita paciência. "Ao telefone, ele me disse que tinha os discos, mas que eu não iria ouvi-los, nem mesmo ver de que cor eles eram", relembra.
Delicada também foi a operação para recuperar, certa vez, um 78 rotações que recebeu quebrado em três pedaços. Depois de colá-los, com o auxílio de uma lupa e um estilete, eliminou o excesso de adesivo. "Tive muita sorte porque os sulcos coincidiram", festeja, calculando que gastou cerca de 50 horas de trabalho, só para eliminar os ruídos produzidos pelas emendas. O resultado ficou tão bom que Jubran recusa-se a revelar que faixa é essa, desafiando seus amigos técnicos de gravação a descobri-la. Seu preciosismo levou-o até a ficar em dúvida quanto a incluir na caixa algumas canções que o grupo espírita Aquarius afirma terem sido psicografadas por Noel. "Com todo respeito, decidi ficar apenas no plano material", conclui.
Em janeiro de 1998, o trabalho de pesquisa, restauração e remasterização de todo o material estava terminado. Depois que as primeiras notícias chegaram à imprensa, o telefone de Jubran tocou bastante. "Fui procurado até por repórteres interessados em entrevistar Noel Rosa", diverte-se. Mesmo assim, só conseguiu fechar o contrato de edição com a Funarte e o Ministério de Cultura depois de procurar vários órgãos federais e estaduais de cultura. Entre vários absurdos, chegou a ouvir a sugestão de que fizesse somente uma compilação com as "melhores" faixas. Difícil também foi o processo para conseguir as permissões de todos os intérpretes e parceiros de Noel ou de seus herdeiros — trabalho coordenado por Luiz Pedreira, que se arrastou por mais de um ano. "Fiquei muito agradecido ao Vitor Martins, da Velas, que apoiou minha ideia de não subtrair nenhuma faixa da coleção", reconhece.
Jubran ainda leciona Biologia, atualmente, num colégio particular de São Paulo. Dizendo-se desiludido com a situação da educação no país, espera que a repercussão desse trabalho o ajude a viabilizar outros projetos semelhantes, como reunir as obras completas de Ary Barroso, Lamartine Babo e Adoniran Barbosa, já engatilhados. "Praticamente já tenho todas essas gravações", revela. Outro projeto, com o título provisório de Carnaval do Século XX, reuniria músicas de carnaval compostas entre 1899, ano em que Chiquinha Gonzaga lançou a pioneira Ó, Abre-Alas, e meados dos anos 70, época em que compositores deixaram de criar para o carnaval. "A ideia é incluir 15 ou 20 marchinhas importantes, ano por ano, e fazer uma análise de todas elas, localizando o momento histórico. Já consegui quase três mil músicas", calcula o pesquisador.
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Noel Pela Primeira Vez. Box com 14 CDs e um livreto. FUNARTE, Velas, Universal Music. 2000.
Noel Rosa, Uma Biografia
Aqui no blog estão disponíveis 21 posts da 'Pequena Biografia' de Noel Rosa.
Cada um dos 21 posts foi transcrito, com as necessárias adaptações, do livro Noel Rosa, Uma Biografia, de João Máximo e Carlos Didier, tema desta resenha.
As playlists que acompanham os posts, trazendo mais de 100 composições de Noel, também foram montadas a partir da discografia organizada por Máximo e Didier no distante ano de 1990, quando Uma Biografia foi lançado.
Em 2000 saiu a caixa Pela Primeira Vez com 14 CDs contendo todas as composições conhecidas do artista em gravações remasterizadas com grande capricho, ou produzidas 'pela primeira vez' especialmente para o projeto, editado em parceria da FUNARTE com a gravadora Velas.
Se até o advento dessa caixa, ouvir o repertório original de Noel era quase coisa exclusiva de colecionador, atualmente, as músicas estão todas disponíveis no YouTube, em arquivos digitalizados a partir... da caixa!
Já o livro, este está impedido de ser reeditado desde a primeira impressão.
Vou me ater, então, ao quiproquó em torno da biografia, que envolve a família de Noel, os biógrafos e duas editoras. Talvez o assunto tenha tomado novos rumos. Minhas informações terminam em 2017, aos 80 anos da morte do poeta.
Vejamos.
Em 2013, Luiz Fernando Vianna dizia na Folha de São Paulo que:
"A obra vinha sendo barrada por ações judiciais das herdeiras, as sobrinhas Maria Alice e Irami, filhas de Hélio Rosa, irmão mais novo do biografado (morto por tuberculose em 1937, Noel não teve filhos).
Elas pediam indenização, alegando desrespeito à vida privada da família em função dos relatos sobre os suicídios da avó e do filho dela, o pai de Noel.
Os autores provaram que as mortes foram noticiadas em jornais. Em 26 de novembro de 2012, a última ação foi retirada da 3ª Vara Federal de Brasília".
A partir daí apareceram duas editoras interessadas em reeditar o livro. O que só fez aumentar a confusão.
Ainda para a mesma matéria da Folha, Didier disse que a editora José Olympio "há tempos tenta a reedição".
"A Companhia das Letras há pouco passou a se interessar. Esclareci que outra editora estava trabalhando o livro e que era necessário ter elegância — foi a palavra fora de moda que usei", conta.
"Recomendei que não se fizesse contato com a família Rosa para evitar a formação de um leilão. Virou leilão. O que me desagrada muito".
Procurado, João Máximo respondeu que, afora acenos informais no passado, só "recentemente" havia sido procurado pela José Olympio.
"A Companhia foi a única que me fez uma proposta de fato. E foi muito satisfatória. Já estavam previstos a tiragem, o preço, como e quando tudo seria feito. Só pedi que o livro fosse revisto e que eu escrevesse o texto final", disse.
A nova edição da biografia teria 900 páginas e tiragem inicial de 15 mil exemplares. À família de Noel Rosa, foram oferecidos, na época, R$ 60 mil.
"Da nossa parte, chegamos a um acordo. Para minha surpresa, houve a recusa do Didier", declarou o marido da sobrinha Maria Alice e representante nas negociações.
E nesse ponto vamos recorrer a uma reportagem de 2017, assinada por Amilton Pinheiro e publicada pelo Estadão: a desavença entre Máximo e Didier remonta a tempos anteriores, antes mesmo de vencerem na Justiça a pendenga contra as herdeiras de Noel.
"A confiança acabou. As pessoas vão ter que se contentar com os exemplares que saíram pela UnB, que aliás são suficientes para a demanda de um país em que a elite lê muito pouco, melhor dizendo, não lê quase nada", disse Carlos Didier, procurado por telefone pel'O Estado de São Paulo.
João Máximo volta mais um pouco no tempo:
"Foram oito anos pesquisando, desde que eu e Didier decidimos trabalhar juntos, depois de sermos apresentados por Sérgio Cabral, o pai, no final de 1980. Quando terminamos o texto, fomos atrás de uma editora, mas nenhuma se interessou. Já estávamos quase desistindo quando, num evento em Brasília, que participávamos, alguns professores da UnB nos procuraram no final interessados nos relatos que fizemos sobre Noel Rosa, sua música e seu tempo".
Segue o Estadão:
"Depois da publicação, dos elogios da imprensa e da crítica, a editora não pagou os direitos autorais dos autores, que tiveram de entrar na Justiça para receber o que lhes deviam. Acabaram sendo pagos com o restante do estoque de livros que ainda existia.
No meio tempo, a dupla começou a se estranhar por causa dos comentários que passaram a ser reproduzidos pela imprensa e pelos amigos. Segundo João Máximo, a maioria das referências da autoria do livro recaía sobre ele. 'Eu cheguei a falar com as pessoas que conhecia para que deixassem de atribuir o livro só a mim, que citassem também o Didier, mas não tinha jeito. Numa ocasião, reclamei com Ruy Castro para que falasse também que o livro era de Didier', conta Máximo, que entendia que a origem de tudo era o fato de ser 20 anos mais velho que seu parceiro, de ser um jornalista reconhecido e de estar mais estabelecido no meio.
No início, relata Didier, alguns amigos chegavam para ele dizendo que tomasse cuidado com João, mas ele achava que aquilo era exagero das pessoas. 'Até um dia em que tive a comprovação de que quem espalhava os boatos sobre quem seria o autor de fato do livro era o próprio João, principal interessado para que essa história espalhasse', explica Didier.
A partir daí, Didier passou a evitar falar com João Máximo, mandou uma carta para ele dizendo que cada um seguisse seu caminho. Máximo estranhou e escreveu outra carta pedindo mais explicações, mas não teve retorno. O tempo passou e o livro saiu de catálogo e virou relíquia nos sebos, que chegam a cobrar até mil reais por um exemplar (valores de 2017, semelhantes aos atuais).
Os autores nunca mais se falaram até que, em 2012, Maria Amélia de Mello, que na época era editora da José Olympio, amiga de ambos, conseguiu reuni-los numa livraria em Botafogo, no Rio de Janeiro, porque estava interessada na reedição do livro. Os autores foram lá e, segundo Didier e Amélia, no final da reunião, houve um acordo verbal para que a biografia de Noel fosse editada pela José Olympio. 'Máximo concordou, e fui atrás de um patrocinador em São Paulo. Quando consegui, voltei para o Rio, mas João nem quis me ouvir, tinha fechado com a Companhia das Letras', diz Maria Amélia.
A versão de João Máximo é outra. 'Eu escutei tudo, e ficou acordado que Amélia mandaria uma proposta formal, já que havia uma proposta da editora Companhia das Letras, que estava querendo reeditar o livro. Mas ela nunca me enviou nada de proposta, como iria fechar um acordo sem algo de concreto?', questiona".
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Noel Rosa, Uma Biografia. © 1990, João Máximo & Carlos Didier. Editora UNB.
Fontes: Folha e Estadão
Marília T. Barboza da Silva
Nesta próxima resenha falarei, não apenas de um livro, mas de uma autora.
Marília Trindade Barboza.
Marília nasceu e se criou em Vila Isabel, no Rio de Janeiro.
No início da década de 1960, conheceu, aluna do Colégio Pedro II, o professor Arthur de Oliveira, que ensinava análise sintática utilizando letras de Noel Rosa e de outros importantes compositores brasileiros do período anterior à Bossa Nova.
Quase 20 anos mais tarde, em 1977, quando a Funarte lançou o concurso de monografias sobre Pixinguinha, falecido quatro anos antes, Marília convidou seu antigo professor para escrever a monografia a quatro mãos.
O júri do concurso classificou em primeiro lugar a biografia apresentada pelo jornalista e crítico Sérgio Cabral, Pixinguinha, Vida e Obra, concedendo ao trabalho dos dois um prêmio especial.
Em 1979 a Funarte publicaria a primeira edição de Filho de Ogum Bexiguento, de Marília e Oliveira (a segunda edição, revista e ampliada, sairia pela editora Gryphus, em 1998).
Em 1980, em parceria com Lygia Santos, Marília ganha o primeiro lugar no Concurso Nacional de Monografias da Funarte, com Paulo da Portela, Traço de União entre Duas Culturas, estudo sobre a formação das escolas de samba.
De novo com Arthur de Oliveira, receberia o primeiro prêmio no Concurso de Monografias do Projeto Lúcio Rangel, pelo trabalho Silas de Oliveira, do Jongo ao Samba-Enredo, publicado pela Funarte em 1981. No mesmo ano, sai pela Livraria José Olympio Editora mais um trabalho de Marília e Arthur, agora tendo a participação do compositor Carlos Cachaça, Fala, Mangueira.
Na época em que preparavam o livro sobre Silas de Oliveira, Marília e Arthur aproximaram-se de Cartola, que confessou aos autores seu desejo de ter um trabalho como aquele escrito sobre ele próprio. Nasce assim, em 1983, de mais uma parceria com Arthur de Oliveira, Cartola, os Tempos Idos, mais um primeiro lugar, dessa vez no Concurso de Monografias do Instituto Nacional de Música.
Cartola não chegaria a ver a biografia: falecido em 1981, deixou para Marília Barboza seus manuscritos e seu violão.
Com a pesquisadora Vera de Alencar, Marília Barboza lançaria por encomenda da Fundação Emílio Odebrecht Caymmi, Som-Imagem-Magia.
Da admiração pelo talento de Carlos Cachaça, com quem conviveu durante a elaboração de Fala, Mangueira, a pesquisadora publica pela Funarte, em 1989, Alvorada, um Tributo a Carlos Cachaça.
Um nome de peso dos estudos de música popular brasileira, menos conhecida fora dos círculos especializados do que sua obra merece.
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Texto elaborado sobre material do Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira.
Obs.: Todos os livros mencionados estão disponíveis para compra online.
Pixinguinha, Vida e Obra
Pixinguinha morreu às vésperas do Carnaval, em fevereiro de 1973.Na manhã do dia de sua morte, recebeu a visita de Hermínio Bello de Carvalho que, em companhia do fotógrafo Walter Firmo, foi a Inhaúmas ver como é que estava o amigo.
À tarde, Hermínio juntou-se ao desfile pré-carnavalesco da Banda de Ipanema. O bloco vinha debaixo de chuva, quando a notícia correu entre os foliões: Pixinguinha acabara de cair, fulminado por um infarto, em pleno altar da Igreja Nossa Senhora da Paz, enquanto batizava o filho recém-nascido do amigo Euclides Souza Lima.
Desmantelou-se a Banda em segundos, como descreveria, anos mais tarde, Sérgio Cabral, autor de Pixinguinha, Vida e Obra, biografia publicada pela Funarte através de sua Divisão de Música Popular, dirigida à época justamente por Hermínio Bello de Carvalho.
Hermínio e Sérgio estão entre os principais responsáveis pela revalorização da obra de Pixinguinha, onipresença na música brasileira desde os anos 10 do século XX, mas amargando certo ostracismo lá pelos finais da década de 1960.
A biografia, vencedora do primeiro concurso de monografias da Funarte, saiu pela primeira vez em 1978. É possível encontrar em sebos, além da edição original, reedições de 1980, 1997 e 2007.
O levantamento completo das composições, gravadas ou ainda não registradas, que forma um apêndice no livro, era parte das exigências do concurso e perdurou como marca de todas as biografias sobre compositores brasileiros editadas pela Funarte, a partir de então.
Cabral dá início à história pelo casarão onde Pixinguinha cresceu, filho de família numerosa e pai músico amador. Menino prodígio, por volta dos 13 anos já é chamado para apresentações, gravações e direção musical de blocos de carnaval.
De flautista virtuoso a principal nome da composição e do arranjo da Era do Rádio brasileira, Pixinguinha atravessa o século.
Morava, quando morreu, num pequeno conjunto habitacional em Inhaúmas. A esposa havia falecido, dividia o apartamento com o filho único. Mantinha-se com a aposentadoria de funcionário público da rede municipal de Educação e um ou outro rendimento de sua composição mais conhecida: Carinhoso.
Sérgio Cabral, além de contar da vida, deu o pontapé inicial para os estudos da vasta obra do maestro. Passados quase 40 anos, muitos novos materiais estão acessíveis: o site Pixinguinha mantido pelo Instituto Moreira Salles, edições de partituras inéditas, discos de vários artistas relendo o legado e até mesmo um catatau de 740 páginas, Proezas de Pixinguinha, escrito por José Silas Xavier e lançado em 2023.
Em presença de tantas novidades, o pioneiro Vida e Obra de Cabral continua impecável e cumpre a tarefa de apresentar, com grande conhecimento de causa, como foi que o homem Alfredo da Rocha Vianna Filho criou a maravilhosa música de Pixinguinha.
Leitura indispensável para quem quer saber mais sobre a música popular brasileira.
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Pixinguinha, Vida e Obra. © 1978 Sérgio Cabral. FUNARTE, Rio de Janeiro.
imagem: David Drew Zingg, 1967. IMS.
Tia Ciata e a Pequena África no Rio de Janeiro
"A Pequena África na zona portuária do Rio, compreendendo os bairros da Saúde, Santo Cristo e Gamboa, assim ficaria conhecida pela presença dominante do povo negro na área desde a Colônia. Essa presença foi o resultado do funcionamento do mercado de escravos do Valongo, entre 1774 e 1831, dos braços negros ocupados pelo trabalho no porto, e do estabelecimento, desde pouco antes da metade do século XIX, de uma vizinhança de negros africanos e baianos alforriados na região. Hoje, intimamente assim nomeada por seus próprios ocupantes e por muitos dos cariocas, a Pequena África tornou-se no local central do circuito histórico e arqueológico da ancestralidade africana no Rio de Janeiro.
Sua 'capital' fica no largo de São Francisco da Prainha e no adjacente largo João da Baiana, onde está a emblemática Pedra do Sal. De lá, antes dos aterros, vislumbrava-se a baía e o sinal que os navios emitiam: a bandeira branca de Oxalá, avisando que vinha chegando gente. Lá foi criada uma rede de convívio e solidariedade com suas expressões culturais próprias, a partir da fundação dos primeiros candomblés na antiga capital. Em suas ruas, saíram os ranchos e cordões que engendrariam o samba carioca, e foi ao lado da praça da Harmonia que seus moradores, em 1904, ergueram as barricadas da Revolta da Vacina".
Estes dois parágrafos absolutamente densos abrem a conclusão da edição revista e atualizada do clássico Tia Ciata e a Pequena África no Rio de Janeiro, de Roberto Moura, publicado pela primeira vez em 1983 depois de vencer o concurso sobre vida e obra da Tia Ciata promovido pela Funarte através de sua Divisão de Música Popular, dirigida à época por Hermínio Bello de Carvalho.
Moura incluiu nesta versão dois capítulos: 'Os nagôs-minas no Rio de Janeiro' e 'As transformações', uma 'Nota do Autor' e a 'Conclusão'. Alterou alguns títulos de capítulos, mudou o texto em vários pontos e adicionou novas imagens, beneficiado pelo avanço dos processos de digitalização dos acervos nas últimas décadas.
Tia Ciata e a Pequena África é um divisor de águas na pesquisa sobre música popular no Brasil. Moura sempre diz que escreveu o livro que ele precisava ter, mas não havia sido escrito. Ou seja, no final dos anos 1970, a escassez de estudos voltados à cultura popular que se imbricou com a indústria do entretenimento era quase total.
Quem pode contar melhor a história desse livro é o próprio autor que concedeu uma longa entrevista para o podcast Ilustríssima Conversa do canal da Folha de São Paulo no YouTube em 2022. OUÇA
Moura, tamanho domínio tem do que escreveu, fala como se tivesse estado presente nos eventos do livro, o que, de certa forma, é verdade, pois encontrou ainda vivos protagonistas dessa longa e gloriosa história, como Cartola e dona Carmem do Xibuca que em 1980 afirmava estar com 112 anos de idade.
As edições de 1983 e 1995 são encontráveis em sebos, mas, nesse caso, a edição revista e atualizada fez com que as anteriores literalmente caducassem. O tema da presença negra no Brasil evoluiu muito nas últimas décadas e Moura modificou elementos substanciais que 'corrigem' certas imprecisões da versão original.
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Tia Ciata e a Pequena África no Rio de Janeiro. © 1983, 1995, 2022, Roberto Moura. Edição Revista e Atualizada. Todavia.
Imagem: Heitor dos Prazeres. 1963.
Uma História do Samba: volume 1 (As Origens)
Em primeiro lugar, o autor: Lira Neto tem como obra mais conhecida a biografia em três volumes de Getúlio Vargas.
Getúlio é nome constante nas 'histórias do samba': os anos que viram acontecer a Revolução de 30 e a vigência do Estado Novo (1937 — 1945) coincidem com a chamada Era de Ouro do Rádio no Brasil.
Provavelmente, a pesquisa de um livro surgiu de dentro da pesquisa para o outro.
Em determinado momento, Lira Neto chama a História de "empreitada bibliográfica" e parece uma boa descrição: trata-se de um relato de leituras. Aparentando ter consultado tudo o que foi escrito sobre o samba ao longo do século XX e princípios do XXI, o autor escolhe a dedo o que inclui e o que deixa de fora. Na Academia chamam esse tipo de pesquisa panorâmica de 'estado da arte'.
O resultado é uma obra de referência da mais alta qualidade. Para quem deseja se iniciar no assunto, tudo que há de essencial aparece nas duzentas e poucas páginas de texto propriamente dito, seguidas de outras mais de 100 reservadas às notas, bibliografia e índice remissivo. O material iconográfico, fotos clássicas, sem maiores novidades, mas digitalizadas e impressas com muito capricho, completam o quadro de excelência.
AS PARTES
Neto começa do começo: a indefectível presença das tias baianas, a Pequena África, Hilário Jovino e o bloco Dois de Ouro, no tempo em que não se sabendo se os blocos de rancho eram parte dos festejos natalinos ou do Carnaval, desfilava-se nos dois.
Fala da grande reforma urbanística levada a cabo pelo prefeito Pereira Passos, fala de Donga, Sinhô e João da Baiana. De Pixinguinha. Do Pelo Telefone, composto em improvisos coletivos nas rodas da casa da Tia Ciata e registrado, como se fosse de sua autoria, por Donga.
Fala dos Oito Batutas — no Rio, pelo Brasil, em Paris, na Argentina. De Chico Alves, de Mário Reis e do negócio de compra e venda de sambas.
Fala do aparecimento do pessoal do Estácio e registra a chegada de Noel. Fala de Cartola e da Mangueira, de Paulo da Portela no tempo do Conjunto Oswaldo Cruz.
Lira Neto escreveu um livro para consulta, se você é um especialista, ou iniciado, no tema. O rigor da pesquisa é alto e histórias que vieram sendo passadas de geração em geração são devidamente conferidas na vasta bibliografia estudada e em arquivos oficiais.
Se você não manja dos paranauê da tradição do samba brasileiro, Uma História do Samba é uma belíssima porta de entrada. Escrito com fluência, com a tarimba de quem vem do jornalismo e sabe se comunicar.
Este blog recomenda!
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Uma História do Samba: volume 1 (As Origens) © 2017, Lira Neto. Editora Companhia das Letras.
Imagem: UOL.








