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O Humor 'Incorreto' da Família Caymmi
Gilda Mattoso, hoje septuagenária, passou mais de 30 anos acompanhando o dia a dia de uma infinidade de artistas da música brasileira. É/foi uma das assessoras de imprensa mais requisitadas do país.
Para compartilhar muitos dos 'causos' que colecionou na profissão, Gilda escreveu um livro de memórias, saído em 2006 e reeditado em 2024.
A niteroiense também é conhecida por ter sido a derradeira entre as inúmeras esposas de Vinicius de Moraes. Da proximidade entre Vinicius e Dorival deve ter se iniciado a amizade dela com os Caymmi, que seguiu pelos tempos afora.
O trecho a seguir está na edição de 2006 do livro Assessora de Encrenca, da Ediouro.
GILDA MATTOSO
Stella e Dorival Caymmi são pessoas adoradas por seus amigos. Ele, aquela mansidão e serenidade únicas. Stella, explosiva, desbocada, divertida, é uma força da natureza. Os três filhos puxaram a musicalidade do pai e o humor da mãe. Sou amiga e adoro a família toda.
Às vezes, dava uma passada na casa do casal, em Copacabana, no dia 24 de dezembro, pra comer um famoso e delicioso bacalhau. Uma ocasião, lá chegando, havia umas senhoras sentadas no sofá da sala e Stella foi logo me dizendo:
— Essa putada toda aí são minhas irmãs.
Enfim, sobre ela existem casos e mais casos que mereceriam um livro (alguns deles já constam da primorosa biografia de Caymmi, feita por sua neta, também Stella). Nana é aquele espetáculo, com sua voz única e sua irreverência. Ela só me chama de viúva, e a quem não me conhece, ela vai logo apresentando:
— Você conhece a viúva? Foi ela que matou Vinicius, coitado. Ele nunca bebeu. Depois que conheceu Gilda, pronto, entregou-se ao uísque.
Dori, a gente vê pouco, pois vive há anos em Los Angeles, mas acho a voz dele um sucesso e os seus mais recentes CDs — Influências e Contemporâneos — não saem do meu som. Ele tem como uma de suas especialidades fazer trocadilhos com nomes de artistas, tipo: 'a dupla de arquitetos Milton Mais Cimento e Roberto Menos Cal'; Hermínio Bello de Carvalho virou 'Hermínio Bebe pra Caralho'; Emilio Santiago é 'Emilio Senta em Algo'; Wagner Tiso virou 'Magnetismo'; Leni Andrade, 'Leviandade'. Nem a irmã ficou de fora, virando 'Mama Caída'!
Danilo é mais calmo, mas tão espirituoso quanto os outros. Sou madrinha de casamento dele e morremos de rir juntos. Ele tem por especialidade tirar o som de filmes, fazer uma dublagem absurda e depois mixar. Assim, a gente pode ver Charles Bronson entrando num saloon, botando a arma sobre o balcão e exclamando: "Afe, tô morta!". E outras loucuras do gênero. Recentemente, ele me contou que descobriram uma célula 'adormecida' da Al-Qaeda em Salvador e que um menininho recebe um telefonema e sai gritando pela rua: "Painho, painho, tio Bin-bin (Bin Laden) telefonou e disse pra tu soltar umas bombinhas por aqui, mas pediu pra não bulir em nada de Antonio Carlos".
Danilo e Dori brincam que Caymmi foi o primeiro compositor gay brasileiro ao escrever "Peguei o Ítalo Rossi / E vim pro Rio morar" (com a melodia de Peguei um 'Ita' no Norte).
Uma vez, num aniversário de Alice, filha de Danilo que tem a idade da minha, as crianças estavam desenhando sentadas no chão e Nana, com sua irreverência, disse pra mim:
— Viúva, cadê sua filha?
Eu apontei Marina sentadinha na roda. E Nana disse:
— Ô, piranha, vem cá com a tia Nana.
Marina olhou para ela e disse:
— Eu não sou piranha, eu sou Marina!
*
Transcrito de:
Assessora de Encrenca. © 2006 Gilda de Queirós Mattoso. Ediouro, 2006.
Imagem:
David Drew Zingg. Vinicius de Moraes e Dorival Caymmi, 1970. Acervo IMS.
Escolas de Samba do Rio de Janeiro
Escolas de Samba do Rio de Janeiro, de Sérgio Cabral, publicado pela Lazuli Editora em 2011 é a versão definitiva de um trabalho em progresso iniciado em 1961, quando o jornalista escreveu para o Jornal do Brasil uma série de 26 artigos sobre o tema.
Em 1966, Cabral preparou uma nova série para a Folha da Semana e em 1974 lançou o livro As Escolas de Samba — o quê, quem, como, quando e por quê.
"Ao datilografar o título, me esqueci do onde", reconhecia o autor, que em 1975, ainda elaborou para a Editora Globo uma coleção de oito fascículos acompanhados de discos, também com a história das escolas de samba.
Pela Lumiar Editora, em 1996 saiu uma edição já sem os quê, quem, como, quando e por quê e com o acréscimo do Rio de Janeiro no título (o onde).
Cabral conclui, na Introdução do livro de 2011:
"Passados tantos anos da primeira tentativa, não há como negar que todas elas foram incompletas e prejudicadas por erros, em boa parte, da minha responsabilidade. (...) Não asseguro dar a última palavra sobre a epopeia das escolas de samba (...). Outros escreverão obras melhores e mais completas. Garanto apenas que é o resultado de mais de trinta anos de trabalho e que, na sua elaboração, fui tomado por um forte sentimento de solidariedade e admiração pelos homens e mulheres do povo que, quase sempre no anonimato, criaram, levaram avante e nos legaram um tipo de manifestação carnavalesca que se transformou numa das marcas principais da minha cidade, o Rio de Janeiro".
Provavelmente, o mesmo sentimento o levou a manter no século XXI o prefácio que abria o livro de 1974, escrito pelo ilustríssimo Lúcio Rangel, outro personagem (assim como o próprio Cabral) de indiscutível relevância histórica.
Transcrevo na íntegra o prefácio de Rangel, que além de valer por uma resenha, recupera o clima de camaradagem inteligente (e alguma beligerância) que vigorava entre os estudiosos e amantes da música popular brasileira nas décadas de 1960 e 1970.
UM PREFÁCIO DE 1974 — Lúcio Rangel
O nome do livro diz tudo e Sérgio Cabral é figura das mais conhecidas por todos aqueles que se interessam pela música popular brasileira, desde que surgiu, assinando com José Ramos Tinhorão uma página semanal do Jornal do Brasil, inesquecível e valiosa contribuição para o conhecimento do nosso cancioneiro. Logo se tornou um dos mais acatados estudiosos do assunto, produzindo discos da melhor qualidade, shows e programas de rádio e tevê. Colabora na melhor imprensa do país e é figura lembrada quando o assunto é samba.
Sérgio, pelo sobrenome, considerava-se 'sobrinho' do inesquecível Mário Cabral, hoje saudoso, infelizmente sem as aspas que sempre usávamos quando escrevíamos seu nome. É que um cantor famoso anunciou no palco que cantaria Rosa, de Pixinguinha, acompanhado pelo 'saudoso' Mário Cabral. Com a morte de Mário e de Sérgio Porto, meu sobrinho e xará do autor deste livro, passei a 'tio' do Cabral Sérgio. Daí a razão, puramente sentimental, de ter ele me convidado a escrever esta desnecessária apresentação. Já dizia um velho romancista, Afrânio Peixoto, hoje pouco lido, que o prefaciador é sempre, ou na maioria das vezes, um homenageado pelo escritor que o convida a prefaciar. Daí...
Mas, falando do livro, estamos frente a um levantamento completo do que foram e são as escolas de samba, frente aos legendários sambistas de uma época que chamei 'heroica', pois o violão e o pandeiro eram sinônimos de malandragem. Quando um delegado de polícia, em minha presença, chamou Ismael Silva de malandro, pois nunca trabalhara, "só fazia samba", repliquei lembrando os nomes de Cole Porter e George Gershwin, que, como milhares de outros, 'só faziam música'. E, que eu saiba, nunca foram chamados de malandros.
Sérgio Cabral sabe de tudo e convive com os verdadeiros criadores de nossa música popular, os autênticos, um Cartola ou um Nelson Cavaquinho, como conviveu com um Heitor dos Prazeres e o imenso Pixinguinha. Não é como aquele crítico paulistano, 'cultíssimo', que escreveu 357 páginas sobre a bossa nova, crente que descobrira a pólvora e o mistério que rodeia a nossa música popular. "Pra quem quer comprar (o livro do tal crítico), o prejuízo será de Cr$ 47,00", avisou aos incautos o lúcido Tinhorão.
Voltando ao livro de Sérgio Cabral, este realmente importante, aqui está o Morro de Mangueira, o samba do "Claudionor", que, "para sustentar a família, foi bancar o estivador", de Manuel Dias, e que outro Manuel, o grande Bandeira, atribuía a Sinhô, como a fundação da primeira escola de samba, a Deixa Falar, do Estácio, e a Estação Primeira, de Mangueira, como as cores escolhidas por um dos seus fundadores, Angenor de Oliveira, o divino Cartola, nascido nas Laranjeiras e torcedor do Fluminense. Como todos sabem, as cores, por 'mera coincidência', são verde e rosa. E, por falar em Cartola, ele não se lembra do final da letra do samba Foi em Sonho, que é assim:
A compra de sambas por Mário Reis, que sempre conservou nos discos o nome do verdadeiro autor, e por Francisco Alves, que muitas vezes aparecia como único 'autor'. Exemplo: Amor de Malandro, de Ismael Silva. A figura do mulatão Brancura, que cheguei a conhecer e que assinava sambas como Deixa Essa Mulher Chorar, de Maciste de Mangueira, ou Me Admira Você, de Bucy Moreira, neto da famosa tia Ciata. Brancura também é autor (ou não) do samba Carinho Eu Tenho, primeira gravação de Ismael Silva como cantor. Se é verdade que Brancura comprava os sambas que têm seu nome como autor, é de se reconhecer que tinha invulgar bom gosto.
Sérgio Cabral lembra a ajuda que Sílvio Caldas prestou à Mangueira, sendo o primeiro surdo da escola oferecido por ele. Trinta anos mais tarde, quando acompanhei Sílvio Caldas até a Mangueira, que iria homenageá-lo, tive de dizer ao porteiro quem era ele e o 'homenageado' pagou a cerveja e os sanduíches que nos foram servidos.
Através de depoimentos dos autênticos criadores do samba, ficamos sabendo que o italiano e o português (*) não são autores de Implorar, inteirinho do Sedá.
Sérgio lembra de um só sambista com três nomes: José Gonçalves, Zé com Fome e Zé da Zilda, mas esquece o criador do estilo que seria chamado de samba de breque, com Moreira da Silva como seu maior intérprete, ambos influenciados pelo 'pai da criança', o grande Heitor Catumbi.
Fala em dona Vicentina, da Victor ainda de cachorrinho. Não será dona Valentina Biosca, viúva do caricaturista Figueiroa, muitas vezes acompanhada pelo Morengueira?
A história completa das escolas de samba, dos seus fundadores, dos seus primeiros desfiles, tudo encontramos no livro de Sérgio Cabral, uma contribuição de primeiríssima ordem, rara flor entre a bibliografia do gênero. É, pois, com o maior prazer que escrevo estas mal traçadas linhas e entrego ao leitor o livro tão vivo, tão curioso e tão elucidativo do meu 'sobrinho' Sérgio Cabral. Vamos a ele.
Transcrito (com adaptações) de:
Escolas de Samba do Rio de Janeiro. © 2011 Sérgio Cabral. 1. ed. São Paulo. Lazuli Editora. Companhia Editora Nacional.
Imagem: Walter Firmo, carnaval de 1985.
(*) Lúcio Rangel referia-se à dupla Kid Pepe (José Gesolmino) e Germano Augusto — o primeiro italiano de nascimento, e o segundo, português — dois destacados personagens do segmento mais malandro da música popular do Rio de Janeiro.
Yes, Nós Temos Braguinha
As biografias e estudos mais antigos da música popular brasileira têm uma característica em comum: são assinados por pessoas muito próximas dos seus 'objetos'.
A relação entre as inúmeras figuras que passam pelas páginas de livros e artigos, é em grande medida, pessoal, apesar de ter se construído em ambientes de trabalho. Estamos lendo a respeito do 'povo do rádio', da 'gente do disco', de uma turma que dividia palcos e bastidores.
Os jornalistas e pesquisadores de então eram parte integrante desse mesmo círculo. Não raro, assinavam músicas em parceria com os compositores. Frequentavam-se mutuamente. Dividam a mesa. Bebiam juntos.
Muita coisa foi escrita nas décadas de 1970 e 1980, mas as amizades, muitas vezes, remontavam a 30, 40 anos atrás. Uma enorme tribo, onde cada participante tinha episódios compartilhados com muitos outros.
Yes, Nós Temos Braguinha, de Jairo Severiano, com prefácio de Paulo Tapajós e publicado em 1987 pela FUNARTE, não foge à regra.
A proximidade entre o biógrafo, o biografado e o prefaciador era tão grande que Tapajós chegou a considerar-se "suspeito para falar de João de Barro e do livro do Jairo"!
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1. Jairo Severiano, texto da contracapa:
João de Barro — Braguinha para os amigos —, um dos 'monstros sagrados' da música popular brasileira, completa 80 anos no dia 29 de março de 1987. São 80 anos de vida e 57 de carreira artística que produziu uma obra de 428 canções gravadas. Excepcional letrista e melodista, ele é um dos raros remanescentes da geração de ouro dos anos 30 ainda em atividade. Sozinho, ou com parceiros como Alberto Ribeiro, Pixinguinha, Noel Rosa, Lamartine Babo, Alcir Pires Vermelho, Antônio Almeida, Jota Júnior etc., Braguinha é o autor de dezenas de clássicos de nosso cancioneiro como os sambas Carinhoso, Copacabana, Laura, Onde o Céu Azul É Mais Azul, a toada A Saudade Mata a Gente, e as marchinhas que o consagraram nos carnavais, como Chiquita Bacana, Pastorinhas, Yes, Nós Temos Bananas, Touradas em Madri, Linda Lourinha, Pirata da Perna de Pau, Tem Gato na Tuba, A Mulata É a Tal e outras mais. Paralelamente à atividade de compositor, João de Barro dirigiu gravadoras (Columbia e Continental), criou os discos infantis, participou da produção de filmes (Alô, Alô Carnaval, João Ninguém, Laranja da China, etc.), e atuou nas áreas da editoração musical e das sociedades de direito autoral (ABCA e UBC). Tudo isso está contado neste livro que oferece, também, uma visão panorâmica da MPB nos últimos 60 anos.
2. Paulo Tapajós, prefácio:
A tarde morna da primavera-verão morria aos poucos. Lá longe, a Vésper, luminosa, me dizia que a noite ia chegar logo, logo. Olhos perdidos em sua luz, quanto mais eu a fitava, maior era meu assombro pelos mistérios da vida. Eu tinha acabado de ler os originais de Yes, Nós Temos Braguinha e filosofava desordenadamente, pensamento ao acaso, incerto, embora prisioneiro da leitura. Como é que eu e o Braguinha temos estado sempre tão perto um do outro esse tempo todo e só agora me dou conta disso, pela narrativa do Jairo Severiano! Quanta coisa me pareceu familiar, na vida dele. E quanta coisa me deu a impressão de ter sido comigo mesmo!
Tive ímpetos de me considerar suspeito para falar de João de Barro e do livro do Jairo, porque me vi, no livro, em vários episódios narrados. Assisti a diversos momentos artísticos e até familiares desse notável compositor brasileiro. Convivi com ele nos estúdios, nos cafés e bares, nas folgas e no trabalho, nas festas, nas solenidades, nas horas alegres e até mesmo nas raras ocasiões de tristeza de sua feliz caminhada por aí. Pensei muito sobre a suspeição. Poderia parecer que eu seria generoso por uma questão de amizade ao Jairo e ao Braguinha. Fiquei receoso. Mas, meditei melhor, depois de ouvir conselhos de amigos experientes e acabei concluindo que não havia motivo para tantos cuidados, tanto zelo, já que sou uma das poucas pessoas em condição de confirmar fatos e episódios. Conscientemente, posso dar meu testemunho pessoal a muitas histórias e exaltar o talento de João de Barro, a excelência de sua obra, justamente por causa de nossa longa proximidade e da honra de privar sempre com um dos maiores vultos da música brasileira.
Cada capítulo de Yes, Nós Temos Braguinha é uma sucessão de lembranças para mim, desde os tempos dos vendedores ambulantes que passavam pelas ruas apregoando "amendoim torradinho"... "olha a laranja seleta"... "sorvete, iaiá"... temas que levaram Braguinha a uma de suas primeiras composições. Lembro-me da toada Pra Vancê, que eu mesmo cantei em saraus de amigos, em Botafogo, muito antes do primeiro contato pessoal com o João de Barro. Ouvir o Bando de Tangarás, com Almirante liderando o canto, era quase uma obrigação minha, pois a embolada Galo Garnizé, o cateretê Anedotas e a canção Vestidinho Encarnado faziam parte do meu repertório também, uma vez que era fácil aprender ouvindo o rádio e o disco. Eu tinha entusiasmo pelo Bando e admirava a divisão melódica daquele samba:
cuja acentuação de ritmo não coincidia com as sílabas tônicas da letra. Uma curiosidade, uma coisa nova, sei lá, algo que dizia ser o Bando de Tangarás um grupo moderno para a época, um conjunto evoluído artisticamente.
Só não me lembro da primeira vez que estive com o João de Barro. Teria sido no rádio? Ou numa 'hora de arte'? Mas lembro-me muito bem de nosso encontro naquela noite junina em casa do pai dele, que eu chamava 'seu' Jerônimo, lá em Jacarepaguá. Um festão, tal como eram sempre as comemorações destinadas a Santo Antônio, São João e São Pedro. Dalva de Oliveira estava lá. Quase menina. A dupla Preto e Branco, também. Benedito Lacerda, Almirante, Augusto Calheiros, gente de rádio, do disco, do teatro.
Yes, Nós Temos Braguinha levou minhas lembranças até à bonita Lucila Noronha, que cantava com muito sentimento; ao gigantesco Paulo Neto de Freitas, que fazia rir a todos com suas piadas oportunas e engraçadas; à Olgarita del Amico, com quem ainda converso muito, até hoje, por telefone e que nunca chegou a gravar um disco-solo; à célebre Elizinha Coelho, que se tornou grande amiga a partir da época em que eu, ela e meu irmão, Haroldo, nos dedicamos ao repertório de Hekel Tavares, outro amigão. Chegamos até a dar concertos, no Rio de Janeiro.
Muita coisa dessa época ainda poderia ser lembrada aqui, comprovando a relação artística e de amizade com João de Barro. Entretanto, prefiro dar um salto no tempo e parar na época em que Braguinha estava entregue aos trabalhos de dublagem dos desenhos de Walt Disney, lá nos estúdios da Carmen Santos. Fui convidado por ele a fazer a voz do grilo, que era a consciência do Pinóquio. Quem falava pelo famoso boneco de pau era o Mesquitinha e quem cantava era eu. É que o Mesquitinha não sabia cantar e eu não sabia representar. Então, Braguinha resolveu juntar-nos. Mesquitinha falava e eu cantava. Criamos, os dois, o personagem, cuja canção-tema é linda e marcou, definitivamente, o filme do Pinóquio...
Numa outra ocasião, aconteceu um episódio inesquecível. Braguinha dirigia o elenco especialmente convocado para novas dublagens. Walt Disney estava entre nós e, com ele, seu braço direito, Jack Cutting. Certo dia, depois de uma gravação demorada, minuciosa e cansativa, o pessoal artístico que estava no estúdio da Carmen Santos, decidiu dar uma parada para almoço. Eu, Nuno Roland, Dorival Caymmi e o baixo Fernando Paes, formávamos um quarteto vocal só para as gravações do Disney. A fome nos levou a uma confeitaria onde se podia almoçar, na praça Sáenz Peña. Almirante foi conosco. Os desenhistas do Disney também foram e, nesse dia, eles discutiam a respeito de novos personagens, como o Zé Carioca, por exemplo. Discutiam e desenhavam sobre o mármore das mesas da confeitaria, enquanto os garçons não vinham atender. Eu via, embevecido, aqueles esboços todos e tinha vontade até de levar um dos mármores para casa, se possível autografado. Mas... os garçons chegaram, passaram um pano úmido sobre as mesas, apagaram tudo, puseram toalhas em cima e começaram a servir. Apagaram, sem saber, os primeiros estudos do Zé Carioca! No mármore da confeitaria...
Lembranças, muitas lembranças nos olhos perdidos lá longe, na tarde morna da primavera-verão, por causa do excelente livro do Jairo Severiano. Quem conhece o Jairo, sabe da fidelidade dele à verdade histórica. Sabe de sua dedicação aos números, às datas, às épocas e sabe da segurança com que ele presta informações a respeito de nossa música e seus personagens, sempre apoiado em provas concretas e indiscutíveis.
Ter a vida e a obra em detalhes, na descrição e no estudo de Jairo Severiano, é um privilégio. Braguinha é, portanto, um privilegiado. E isso porque, através de um livro de linguagem amena e atraente, todas as histórias são verdadeiras, todos os números estão certos, todas as citações são fiéis. Quem é que vai lucrar com isso? A história da música brasileira, em primeiro lugar. O biografado, logo a seguir, pois garante-se com o livro que sua carreira artística, perante o futuro, não poderá sofrer deturpações. E o leitor, é claro, lucrará em confiança e credibilidade.
Eu também pego uma carona nesse lucro, por estar aqui, em companhia do Braguinha e do Jairo Severiano.
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Yes, Nós Temos Braguinha. © 1987, Jairo Severiano. FUNARTE.
Imagem: Braguinha, 1957. Arquivo Nacional. Wikipédia.
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Ouça Pra Vancê, com Braguinha e o Bando de Tangarás, em 1929:
Tra-la-lá: vida e obra de Lamartine Babo
A FUNARTE lançou em 2014, a terceira edição, revista e ampliada, de Tra-la-lá: vida e obra de Lamartine Babo.
A edição original era de 1981 e, se não me falha a memória, foi o primeiro catatau entre as biografias de artistas da música brasileira publicadas pela FUNARTE a partir do final da década de 70 do século passado.
Explico: aqueles livros eram, quase sempre, vencedores de um concurso anual de monografias que a FUNARTE realizava, formato que acabou por determinar o fôlego da maioria dos textos.
Tra-la-lá ultrapassava os limites de páginas e ambição de uma monografia porque o autor, Suetônio Soares Valença, como conta sua viúva no prefácio a esta nova edição, fez da pesquisa sobre Lamartine Babo obra de uma vida inteira.
A revisão e ampliação, prontas em 2005, traziam já o dobro de páginas do calhamaço original.
Suetônio trabalhou no que poderíamos chamar de novo livro entre 1981 e 2005, quando veio a falecer. A partir daí, e a pedido dele, Rachel, sua ex-esposa e mãe das herdeiras únicas dos direitos sobre a propriedade intelectual de Valença, assumiu a guarda do manuscrito então inédito.
A versão final, a de 2014, tem 874 páginas, somados o trabalho de Suetônio e a atualização que a equipe montada por Rachel Valença e Pedro Paulo Malta, representando a FUNARTE, começou a empreender em 2012.
O périplo para a terceira edição da história de vida e obra de Lamartine Babo está relatado com graça e emoção num dos dois prefácios que abrem o livro (o primeiro foi escrito em 1981 por Nássara, depositário essencial da memória da música brasileira, parceiro de Lamartine, amigo de Suetônio).
No novo prefácio que escreveu, Rachel Valença faz menção ao pesquisador Jairo Severiano que em 1981 havia fornecido "uma quantidade impressionante de dados para a elaboração da discografia, já que era um dos autores do fantástico levantamento da discografia brasileira em 78 rpm".
"Em troca da ajuda", diz ela, "pedia apenas que mapeássemos em planilhas impressas que nos fornecia todos os discos em 78 rpm que encontrássemos na casa dos muitos entrevistados para o livro. Numa época em que não havia computadores nem bancos de dados, era dessa forma, artesanal e solidária, que circulava a informação".
Tra-la-lá: vida e obra de Lamartine Babo está disponível para download gratuito no site da FUNARTE. É um livro caudaloso, em 6 partes, cada parte contendo mais ou menos 10 capítulos. Os anexos com a discografia mencionada e a musicografia ocupam mais de duzentas páginas do volume.
É obra de vida inteira e poder acessá-la tão facilmente é decerto um dos privilégios que esse tempo transpassado pela tecnologia passou a nos permitir.
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Para baixar o livro digital, vá até a seção 'Edições Online' do portal da FUNARTE Digital:
https://funartemaisdigital.funarte.gov.br/
O Milagre do Corcovado
No táxi, sem nada desconfiar, o motorista tentou brincar com o passageiro. Seguiam pela Estrada das Paineiras, quando voltou ao assunto: "Não tem saia [mulher] metida nesse passeio, seu Assis?". O homem no banco de trás deu um sorriso forçado e respondeu que não. Insistiu na resposta anterior: "Minha filha nasceu perfeita e bonita como um anjo. Vou subir as escadas do Corcovado descalço, para pagar uma promessa". Pelo retrovisor, o taxista notou que os olhos do compositor famoso estavam vermelhos, como se ele tivesse bebido ou chorado antes de chamar o carro.
A viagem prosseguiu em silêncio. Quando parou no sopé do Corcovado, Assis Valente desceu apressado sem pagar a corrida. Deixou o paletó azul sobre o assento, tirou os sapatos e começou a subir as escadas, sem olhar para trás ou dar explicação ao motorista.
Até o alto, as escadarias somavam 218 degraus e 19 lances. No penúltimo, num movimento brusco, desviou-se para a direita, transpôs o corrimão e, pisando fortemente numa pedra cheia de limo, olhou para baixo.
A polícia apurou que José Manuel Gonçalves, vigia do Corcovado, foi o primeiro a ver Assis do outro lado da murada de proteção, num local onde ninguém podia ficar, pelo perigo que corria. "Ei, você, saia daí! É proibido ficar aí!", gritou. Foi o suficiente para que todos os visitantes do morro voltassem sua atenção para aquele homem que se preparava para pular.
Em poucos minutos, relatou a polícia, um carro dos Bombeiros foi chamado ao local. Em seguida, vieram os policiais da força pública, que abriram caminho na multidão que se formara. Coube ao detetive Juvenal Lima transpor a murada e se aproximar, acompanhado do vigia Gonçalves. Assis estava completamente descontrolado. Assim que viu os dois homens se aproximarem, tirou a camisa, atirou-a no vácuo, ficou ereto, de frente para todos, olhou para cima, fez o sinal da cruz e se atirou de costas no vazio rumo à morte.
À revista Manchete, Assis contou depois: "Perfeitamente lúcido, joguei-me lá de cima. No momento em que pulei, eu me vi inundado do mais imenso alívio de viver. A última coisa que vi foi o braço do Cristo, a mão direita estendida e subindo depressa diante dos meus olhos, que se afastavam". Correria, gritos de desespero, muitas pessoas chorando e o autor de 'Alegria' sumiu na encosta do lado da Gávea. Pulou do lado direito da estátua, na parte em que o abismo é mais profundo. Todo esse drama entre sua descida do táxi, a descoberta pelo vigia à beira do precipício, o apelo de populares e a chegada dos bombeiros, dos policiais e dos repórteres, durou mais de duas horas.
*
Do alto, quando os bombeiros analisavam uma forma de resgatar o corpo, alguém pensou ter ouvido um pedido de socorro. Mais outro. Todos pararam de falar para escutar, a pedido dos bombeiros. E o que parecia impossível aconteceu: o vigia, que conhecia bem a mata, chegou até a ponta da pedra, engatinhando, e viu o compositor preso entre as copas das árvores da encosta numa altura considerável — setenta metros, concluiu depois o Corpo de Bombeiros. Assis se agarrava aos galhos como podia e, aos gritos, implorava ajuda. A situação se inverteu lá em cima. O fato de estar vivo provocou euforia e apreensão na plateia. Uma queda até aquele ponto era o mesmo que cair de vinte andares de um prédio.
O cabo Nélson Melo se ofereceu para descer. Com duas cordas emendadas e a ponta presa no guincho do carro, o bombeiro chegou até Assis mais de duas horas depois, quando começava a escurecer. Para subir de volta, o cabo Nélson pediu que providenciassem mais uma corda, que seria amarrada nele mesmo para permitir que fosse içado. Quando a terceira corda chegou, passava das 19h30. Nélson concluiu que a melhor forma seria prender Assis às suas costas e mantê-lo amarrado em sua cintura, enquanto voluntários lá em cima puxariam os dois. Eram nove da noite quando chegaram à terra firme, com o compositor semiconsciente.
Assis deu entrada no Pronto-Socorro da Assistência Pública por volta das 22h. Minutos depois, o local foi tomado de gente de rádio, cantores, compositores, repórteres, parentes e pela esposa, Nadyle, que tinha sido avisada da tragédia por vizinhos. A multidão de jornalistas, fotógrafos e curiosos se concentrou à espera do primeiro boletim médico. Esperavam-se as piores notícias. Assis, porém, fraturara apenas duas costelas e sofrera contusões e escoriações nos braços, nas costas e no rosto, tudo sem gravidade. "Foi um milagre. Mais uma ou duas semanas de hospital, alguns calmantes, e tudo estará resolvido", disse o Dr. Paulo de Azevedo Sodré, diretor da unidade.
*
O Rio inteiro, comovido com o drama do compositor, queria saber por que ele fizera tamanha loucura. No leito do hospital, abalado, sob fortes sedativos, Assis não conseguia organizar as ideias e esclarecer as causas de seu gesto. Finalmente, dois dias depois, a polícia divulgou o "inteiro teor" dos vários bilhetes de suicida deixados em seu consultório. Todos eram curtos com, no máximo, duas linhas cada.
O primeiro era dirigido à esposa, a quem pedia perdão pelo "passo em falso". E acrescentava: "Beijos para nosso amor".
O segundo não tinha destinatário certo e trazia um tom dramático: "E assim termina a vida de quem quis a vitória. Quem se mata morto fica. Peço que não procurem ver meu corpo. Se tiverem qualquer interesse em mim, que seja dedicado à minha esposa e filha".
O recado seguinte fazia um apelo à imprensa: "Não façam blague com o meu caso. É doloroso demais para mim."
O quarto trazia uma espécie de testamento: "À minha querida filha Nara Nadyle, [deixo] a coleção de meus discos. Beijos de Assis Valente".
O bilhete seguinte era revelador de um dos motivos do suicídio: cobrança de credores. "À Rosina Cozzolino: você falou que eu deveria vender a casa para pagar-lhe. Pois bem, vendi-a por 4 contos. Seja feliz".
Outro bilhete revelava a situação financeira crítica em que vivia: "A todos a quem devo: Obrigado por tudo. Desculpem os meus erros".
Assis também se despediu dos colegas do laboratório e clientes: "Ao Nelson Machado e aos outros, um abraço pela sua camaradagem".
O oitavo bilhete confirmava o local da escolha para a morte e reafirmava sua paixão pela mulher e pela filha: "Atirei-me do Corcovado. A morte junto de Deus é outra coisa. Beijos à esposa e filha".
As mensagens deixavam evidente que Assis apostava que sua morte causaria comoção nacional e procurou forjar algo espetacular nesse sentido, sem esperar, claro, que sobrevivesse. Assim, procurou explorar os jornais no sentido de sensibilizar o presidente da República a amparar sua família. "Peço ao Dr. Getúlio Vargas e à sua excelentíssima esposa um auxílio para Nadyle e filha. Como chefes supremos do Direito, saberão compreender quanta tristeza me vai n’alma".
Transcrito (com adaptações) de:
Quem Samba Tem Alegria: a vida e o tempo do compositor Assis Valente. © 2014, Gonçalo Junior. Civilização Brasileira, 2015.
Camisas Listadas
Quase uma década havia se passado desde que Assis Valente convencera o colega da pensão de dona Estela, José de Aguiar Dantas, a se juntar a ele para montarem um laboratório de próteses dentárias. E havia seis anos que levava a vida de um célebre e admirado compositor de sambas e marchas, cujo nome estava definitivamente associado ao da maior cantora brasileira daquele tempo: Carmen Miranda.
Não fora um período fácil para Dantas, que carregava sozinho a firma e sofria com a instabilidade emocional e a falta de empenho do sócio, que muitas vezes deixava de cumprir os compromissos assumidos. (...) Os bons negócios fizeram Dantas chamar de Alagoas o irmão José. A ideia era ensiná-lo a fazer próteses e transformá-lo em auxiliar, garantindo-lhe uma profissão rentável que jamais conseguiria em sua terra. (...) A medida também fazia parte de um plano seu para dar um basta na sociedade com Assis, de quem gostava, mas que levara a situação ao insustentável.
A ruptura entre eles finalmente aconteceu quando, empolgado com o sucesso de Camisa Listada, Assis criou o grupo carnavalesco Os Camisas Listadas, com o qual desfilou pela cidade no carnaval de 1938. Por causa disso, o consultório se tornou um ponto de entra e sai de artistas e foliões interessados em participar do bloco.
(...) Os dois sócios tiveram, então, uma discussão violenta, como nunca acontecera.
"Olha, Assis, somos amigos, mas assim não dá mais!", teria dito Dantas.
Assis aproveitou para falar o que pensava: "Eu sei que você tem sido um pai para mim; nem meu pai ia me aturar ou ajudar tanto quanto você. Eu quero trabalhar meio a meio, mas só se for eu e você. O seu irmão tem que sair de nosso negócio".
Dantas perdeu a paciência e respondeu: "Desculpe-me, Assis, mas eu fico com meu irmão, que é alguém adulto e responsável". E deu o assunto por encerrado.
(...)
Assis mudou-se depois do carnaval. Dantas permaneceu no laboratório antigo apenas tempo suficiente para conseguir um ponto no promissor e aristocrático bairro de Copacabana e se mudar. Alugou um conjunto de duas salas e ali ficaria por décadas.
(...) Havia um consolo imediato para Assis, pensou ele: sem o sócio, ficava livre para fazer o que bem entendesse com o dinheiro que entrasse no laboratório. Não imaginava, claro, o quanto o controle financeiro exercido por Dantas logo começaria a lhe fazer falta, pois não demorou a entrar em colapso financeiro. Não parecia, mesmo assim, disposto a abrir mão daquele estilo de vida, principalmente porque continuava a compor sucessos.
O rompimento com Dantas e a chateação por causa das fofocas sobre sua vida pessoal, em especial por causa da ostentação da casa em que vivia no Rio Comprido, mais as dívidas que não paravam de se acumular, fizeram com que um explosivo e passional Assis desse uma entrevista bombástica à revista O Cruzeiro para mandar um recado a Dantas, em especial, de que pretendia deixar a vida de compositor, pois era homem de palavra e pretendia cumpri-la.
O Cruzeiro
Na edição de 22 de outubro, a publicação trouxe uma ampla reportagem de três páginas, com ele anunciando e explicando a novidade. Foi uma surpresa geral, pois fez isso no momento em que ... E o Mundo Não Se Acabou estava no auge do sucesso e Alegria e Camisa Listada continuavam a ser tocadas nas rádios.
Em seis fotos, Assis aparecia sorridente: quatro foram tiradas no laboratório; outra, com o Bando Carioca; e ele em casa, de pijama listrado, simulando que lia a mais recente edição de O Cruzeiro. Assis recebeu a revista em seu laboratório numa segunda-feira. Fora procurado porque circulava na cidade um boato — espalhado por ele mesmo — de que havia parado de compor. Era a primeira vez que vinha a público se queixar da falta de dinheiro, sem medir as consequências da propaganda negativa que faria para si — hábito que predominaria na maioria das entrevistas que daria depois.
"Vamos, seu Valente! Bote para fora essa história. Você abandonou ou não o samba?", perguntou Júlio Pires, que assinava a matéria.
"Ouvirás o romance todo?", respondeu Assis, perguntando.
"Perfeitamente".
(...) No decorrer da conversa, o repórter, que o conhecia bem, percebeu sua intenção: acabar com a imagem de boêmio gastador e profissional irresponsável. Na verdade, Assis fez o que se chamaria, décadas depois, de criar um factoide, um pretexto para atrair a atenção da imprensa com a finalidade de melhorar a imagem ruim de boêmio e beberrão que havia construído desde que começara a compor.
"Garanto, sou um rapaz sossegado. Depois do consultório, vou para casa descansar e ouvir rádio", afirmou. Nem mesmo ele parecia acreditar no que dizia.
Emendou com algumas observações críticas, que raramente eram faladas em público, sobre o funcionamento da indústria da música naquele momento: "Você não sabe o trabalho que dá para se lançar uma música! Ensaios sobre ensaios. Escolher o artista, organizar o acompanhamento, cuidar da publicidade. Fazer força junto aos editores e gravadoras. Enfim, empurrar o troço...".
"E daí?", perguntou Pires.
"Não tenho tempo, as encomendas aumentam de dia para dia. Todos me procuram, não posso deixá-los na mão".
Não era verdade. Boa parte da clientela havia preferido seguir Dantas, que ganhara admiração e respeito de dentistas da região central pela responsabilidade no cumprimento dos prazos. Assis queria, sim, fazer publicidade gratuita de seu trabalho e atrair novos clientes — tanto pela fama que tinha como compositor quanto de protético, que a imprensa ressaltava e que superava os comentários de que tinha se tornado relapso.
... E o Mundo Não Se Acabou
Menos de um mês depois da notícia de que abandonaria o samba, Assis voltou a ser destaque no noticiário no papel de compositor. Na edição de 19 de novembro de 1938, a revista Carioca destacou outra faceta sua de criador pouco comentada, porém de relevância em sua obra: as canções que fazia para teatro de revista. E foram muitas, descontado o exagero do repórter: "Assis foi durante muito tempo o ás da música popular. Não subiu uma revista à cena sem que uma ou mais músicas suas fossem incluídas na peça". Desde 1932, quando Aracy Cortes lançou no teatro Tem Francesa no Morro, dezenas de peças usaram suas músicas. Assis, por causa do talento em criar melodias que tinham cara, gosto e sucesso popular, viu-se atraído pelas revistas de palco. E fez trilhas para vários espetáculos de temática regionalista, como Casa de Caboclo, criado e produzido por Duque. O retorno de Aracy Cortes aos palcos, em 1937, no Teatro Recreio, também trazia a sua marca. A peça se chamou Rumo ao Catete, de Luís Iglesias, Freire Jr., Mário Lago e Custódio Mesquita. Era uma revista política que ficou mais de três meses em cartaz, com 250 apresentações. No elenco, Aracy e os estreantes Oscarito e Eva Todor. O astuto Duque incluiu no espetáculo o sucesso do ano, Camisa Listada. No material de promoção da peça enviado à imprensa — e reproduzido por alguns jornais cariocas — apareciam, numa foto, Aracy, Assis e seu grupo carnavalesco Os Camisas Listadas. E no momento em que 1938 chegou ao fim, Assis Valente continuava como sambista e protético, nessa ordem. Não podia imaginar que um acontecimento de repercussão no ano seguinte mudaria tragicamente sua vida: a decisão de Carmen Miranda de ir morar nos EUA.
Transcrito (com adaptações) de:
Quem Samba Tem Alegria: a vida e o tempo do compositor Assis Valente. © 2014, Gonçalo Júnior. Editora Civilização Brasileira, Rio de Janeiro.
Imagem: Assis Valente e o Bando Carioca. Revista O Cruzeiro, 22 de outubro de 1938.
Assis Valente tem uma biografia publicada no final da década de 1980 pela FUNARTE, A Jovialidade Trágica de José de Assis Valente.
Há nela certo ranço moralista e isso compromete a obra que, de resto, traz pesquisa bastante competente, incluída a discografia completa que sempre acompanha os livros de música brasileira da FUNARTE.
Isto posto, em 2015 saiu uma nova biografia de Assis, que encara com rigor as contradições — trágicas, sem dúvida — do personagem.
O autor, Gonçalo Júnior, em entrevista concedida ao jornal A Tarde, de Salvador, mostra a mudança de tom em relação à biografia dos anos '80.
Transcrevo a seguir os trechos principais da conversa de Gonçalo Júnior com o repórter Chico Castro Jr. publicada na seção de cultura d'A Tarde em dezembro de 2014, uma ótima introdução ao universo do compositor (a quem voltaremos para mais leituras).
Biografia Resgata a História de Assis Valente
Por Chico Castro Jr. em 18/12/2014
Enquanto parte da classe artística e o Congresso lutam para manter a história e a memória brasileiras no obscurantismo*, guerreiros como Gonçalo Junior (e outros) afiam suas penas para trazer à luz a realidade dos fatos sobre grandes vultos históricos.
Desta vez, o jornalista baiano, autor de A Guerra dos Gibis, O Homem-Abril e Maria Erótica & O Clamor do Sexo, volta seu escrutínio para um conterrâneo genial: Assis Valente (1911-1958).
Fruto de décadas de pesquisa, sua biografia para o compositor tem mais de 600 páginas e é superlativa até no título: Quem Samba Tem Alegria: A vida e o tempo de Assis Valente.
Justa homenagem ao compositor das célebres Brasil Pandeiro, Cai, Cai, Balão, Camisa Listrada e Boas Festas, recheado de revelações, o livro estabelece o vício em cocaína do artista e sua depressão.
* O texto se refere à polêmica sobre a publicação de biografias sem a aprovação prévia do biografado, que acabou sendo autorizada pelo STF em deliberação unânime em 11 de junho de 2015.
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A TARDE — O que motivou o livro? A lacuna editorial, demonstrar sua real dimensão, o desafio jornalístico, tudo isso junto?
GONÇALO JÚNIOR — Tudo isso e um pouco mais. Claro que acreditar que Assis Valente não recebeu ainda a devida atenção no sentido de dimensionar o quanto sua vida foi trágica é um estímulo e um desafio. Sou baiano e sempre quis escrever algo ligado à cidade que mais amo, que é Salvador, embora tenha nascido em Guanambi. Temos tantos artistas geniais. Adoraria biografar Luiz Caldas, que considero gênio e me permitiria contar um pouco da indústria musical de Salvador nesses 30 anos. Mas Assis me interessou mais por ser algo mais pessoal.
A TARDE — Como foi seu primeiro contato com a música de Assis?
GONÇALO JÚNIOR — Cresci ouvindo Assis no Carnaval, no São João e no Natal, com marchinhas inesquecíveis como Cai, Cai, Balão e Boas Festas. Em nossa casa era o que mais se tocava. Meu pai é uma enciclopédia ambulante da MPB. Ele cresceu ouvindo Carmen Miranda, Mário Reis, Francisco Alves, Bide e Marçal, Aracy de Almeida, Noel Rosa etc. Acompanhou os 30 primeiros anos do rádio e guardou muita coisa. Por ter perdido um irmão que se matou, citava a tragédia de Assis como exemplo de que tirar a própria vida não resolve nada. Cresci fascinado por sua história, queria saber como alguém que faz um samba chamado Alegria se atirou do Corcovado para a morte. E escapou por milagre.
A TARDE — O livro é também estudo bem detalhado de sua época. Quanto tempo levou na produção?
GONÇALO JÚNIOR — Eu passei uns 20 anos, desde a adolescência, na década de 1980, juntando discos, livros, recortes de jornais e revistas. Foi o primeiro livro que pensei escrever. Tanto que, em 1999, quando passei uma tarde inteira entrevistando Dorival Caymmi em seu apartamento no Rio e sabia que Assis tinha sido importante na sua vida, conversamos um tempão sobre ele. Ali já estava definido que escreveria sua biografia e aproveitei a oportunidade. O livro foi escrito entre 2009 e 2011. Percebi que a depressão que mataria Assis tinha a ver com as coisas à sua volta, como o lado nada glamoroso do rádio, roubos de composições, intrigas, fofocas, as chantagens de radialistas para conseguirem coautoria como condição para tocar as músicas. Está tudo lá, inclusive os nomes dos vilões dessa história, que ajudaram a arrastar Assis à cocaína, o que destruiu sua vida e acho a maior revelação da pesquisa.
A TARDE — Há dois anos, você me contou que o jurídico da editora tinha medo de processos, por conta das suas revelações em torno da relação do biografado com drogas. Como ficou isso?
GONÇALO JÚNIOR — Não tiraram uma vírgula. Não houve conversa com a família. Simplesmente a editora resolveu correr o risco em nome da liberdade de expressão, estimulada pela discussão que provocou aquele episódio deplorável do Roberto Carlos. Somos o país mais hipócrita do mundo. A discussão das biografias é meramente financeira, embora pudessem alegar direito de uso de imagem. Faça um bom acordo com as famílias e elas não vão se importar com honra. Não foi assim que a biografia de Garrincha (Ruy Castro) foi liberada? Quando o livro voltou às livrarias, estava exatamente como antes e a família com a conta bancária gorda. E os argumentos sobre honra e reputação foram abandonados.
A TARDE — Todo mundo conhece Brasil Pandeiro, Boas Festas e Cai, Cai, Balão. Mas poucos conhecem seu autor. Por que?
GONÇALO JÚNIOR — Depois de morto, ele ficou 15 anos praticamente esquecido. A sociedade desse que é, repito, o país mais hipócrita do mundo, não perdoa suicidas. Isso é praxe cultural, moral e religiosa. Os suicidas vão para o inferno e aqui, entre os vivos, são jogados no limbo. Assis foi um caso assim. Quando morreu, o presidente da Câmara Municipal do Rio não deixou velarem o corpo dele lá, alegou que não era famoso o suficiente para tamanha honraria. Na verdade, ele não o fez por se tratar de um suicida. Nessa época, Assis andava sujo, barba por fazer, sem tomar banho, delirante, consumido por seu vício pela cocaína. Essa revelação me foi feita pela afilhada, que conviveu com ele por 13 anos. Não é invenção ou especulação irresponsável, como dizer que ele era homossexual a partir de interpretações das letras de seus sambas. Contesto isso com segurança no livro, apenas ao não fazer referência a isso. A não ser que me provem com documento que Assis não foi vítima de especulação sobre sua sexualidade bem depois de sua morte. Usam Camisa Listrada, E o Mundo Não se Acabou e Fez Bobagem para afirmar que as letras são cifradas com simbologias gays. O que dizer, então, de Folhetim, de Chico Buarque? Me poupe.
A TARDE — Há a possibilidade de adaptação em filme ou série de TV?
GONÇALO JÚNIOR — Não, ninguém me procurou nesse sentido. Assis teve a vida mais trágica da história da MPB. Só o dia da morte dele, que relato em 15 páginas, daria um grande filme. Tomara que isso aconteça no sentido do Brasil rever seu valor e fazer justiça a um gênio esquecido.
A TARDE — Em que medida você acha que a obra de Assis foi importante no desenvolvimento da chamada 'linha evolutiva' da MPB?
GONÇALO JÚNIOR — Não sei se chegou tão longe, mas me parece que ao introduzir a melancolia no samba — que teria adeptos e seguidores como Caymmi, Nelson Cavaquinho, Cartola, Paulinho da Viola e Batatinha — ele mostrou novas possibilidades para o gênero. Para mim, Assis e Noel foram os dois modernizadores do samba e os dois maiores compositores da era do rádio, sem diminuir a importância de Ary Barroso, Lamartine Babo e outros. Claro que coloco Caymmi como posterior a isso, embora tenha sido revelado em 1939.
A TARDE — É comum descobrirmos que artistas que transmitem muita alegria em sua obra eram na verdade depressivos e viciados em drogas. Você diria que Assis se encaixa no perfil?
GONÇALO JÚNIOR — Perfeitamente. Assim como Assis, esses artistas têm em comum uma doença grave que só nas últimas décadas tem sido estudada: depressão. Não é coragem ou covardia que leva o sujeito a se matar. A depressão tira o interesse pela vida. E, muitas vezes, provoca alterações radicais de humor. Por isso, Assis recorreu terapeuticamente à cocaína. Em Alegria, ele escreveu: "Vou cantando fingindo alegria para a humanidade não me ver chorar".
A TARDE — Assis pegou a transição do tempos do teatro de revista para o rádio. Como ele se relacionou com a nascente comunicação de massa? Ele compreendeu sua importância logo de cara?
GONÇALO JÚNIOR — Assis foi um gênio instintivo ao perceber a força do rádio e as possibilidades de promoção, de se tornar famoso. Ele queria a fama para se fazer notar na Bahia, em Salvador, que o recusou como cartunista brilhante que ele era. Queria mostrar para o pai branco que era uma pessoa especial e merecia carinho e atenção. Descobriu-se um marqueteiro nato e ganhou muitos inimigos por isso. Era odiado por se promover tanto na condição de compositor e não cantor — só esses podiam brilhar. Os amigos faziam intrigas, fofocas, porque ele saía na rua com os bolsos cheios de fotos suas que distribuía e dava autógrafos no verso. Ele era tão astuto que, antes de ter seu primeiro samba gravado, convenceu o jornal O Globo a fazer uma concurso para escolher um cantor que interpretaria a marcha que ele fez em homenagem ao próprio jornal. Isso tudo aconteceu entre 1932 e 1939, quando ele emplacou uma centena de sucessos, ao menos. Um caso impressionante. Só Carmen Miranda gravou 23 músicas suas. A maioria caiu na boca do povo.
A TARDE — Em que medida você acha que a relação de Assis com entorpecentes foi decisiva para a sua ruína? Ou ele teria se arruinado mesmo que fosse 'careta'?
GONÇALO JÚNIOR — Se ele fosse careta, continuaria a fazer músicas tristes e melancólicas como Boas Festas (Eu pensei que todo mundo fosse filho de Papai Noel). Foi a doença que o inspirou a fazer músicas assim, não as drogas. A cocaína veio depois, quando Carmen Miranda foi embora do Brasil e ele perdeu sua maior intérprete. Por outro lado, a droga o destruiu, impediu de criar, arrastou-o para a sarjeta e ao endividamento desesperado, motivo para seus gestos de loucura, combinados com o grave quadro depressivo: matar-se por causa de dívidas. No livro, falo dos dramas de Orlando Silva, Nelson Gonçalves, Zezé Fonseca e outros que tiveram suas vidas arruinadas e até se mataram (como Zezé Fonseca, a musa de Orlando) ou tentaram.
A TARDE — A indústria fonográfica e a cena musical formam um meio assediado por marreteiros em busca de lucro fácil e imediato não é de hoje, como vemos no seu livro. Como você avalia a postura geral de Assis nesse 'antro'?
GONÇALO JÚNIOR — Assis e grandes compositores como Ary Barroso e Lamartine Babo reagiram com firmeza e se afastaram dos concursos de sambas e marchas ainda na década de 1930. Ary presidiu uma entidade de compositores e de arrecadação de direitos autorais e botou a boca no mundo, denunciou esquemas de jabás e apropriações de sambas e direitos autorais em jornais convencionais e nas páginas de revistas importantes como Carioca, O Malho, Revista do Rádio e Radiolândia, cujas coleções completas eu consultei para o livro. Só a Carioca teve 600 números. Na época havia um esquemão selvagem de propina que no meio se chama jabá ou jabaculê. Depois, piorou, quando passou-se a pagar até mesmo para não tocar os concorrentes. Alguém precisa escrever um livro sobre isso ao longo do século XX.
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Imagem: Assis Valente, por volta de 1957. Acervo Almirante / MIS.
Livros, discos e sites a mancheia
Quem pesquisa música popular brasileira, por certo já deu com a imagem acima inúmeras vezes. Já quem não é do ramo, é provável que não reconheça pelo menos um dos personagens: Josué de Barros, no centro, à direita dele, Assis Valente e à esquerda, Dorival Caymmi.
A foto saiu na Revista da Semana de 21 de janeiro de 1950. Josué, Assis e Dorival são, como diz o título da matéria, Três Baianos na Vida de Carmen Miranda.
Josué, o mais velho, foi "verdadeira e indiscutivelmente quem descobriu e lançou a Carmen que não é de Bizet ou Merimée.
(...) Falando ao repórter, cercado por filhos e netos, todo evocações, Josué mirando um retrato de Carmen Miranda suspirou, vivendo intensamente num minuto de agradáveis recordações:
— Ela veio para as minhas mãos como um diamante bruto. Lapidei-o carinhosamente. Tinha voz, tinha talento, tinha isso que só fica bem dizendo em gíria: bossa. Fiz o que pude por ela. Outros tiveram mais chance e mais visão e carregaram-na".
Assis Valente é o 'Segundo Baiano'. Apresentado a Carmen pelo próprio Josué de Barros, entraria para a História como o "compositor exclusivo" da Pequena Notável:
Goodbye, Boy, Camisa Listrada, Uva de Caminhão, Disseram que Voltei Americanizada, E o Mundo Não se Acabou, Minha Embaixada Chegou...
Caymmi vai entrar em cena 10 anos depois do 'descobrimento'. Seu O Que É Que a Baiana Tem? é o clássico instantâneo que acompanhou Carmen Miranda rumo a Hollywood.
Em 1950, Carmen já morava longe tempo suficiente para ser rejeitada pela opinião pública no Brasil. A Revista da Semana faz referência discreta a esse estado de coisas e encerra a matéria dizendo:
(...) "Houve as temporadas em cassinos e boates e, depois, para Hollywood, para os dólares, para os braços de David Sebastian, foi um saltinho de pulga. Porque, graças ao talento de três baianos e ao seu próprio, Carmen Miranda é uma estrela que ainda não se eclipsou".
Na vida real, distante da linguagem polida da Revista, a estrela já estava em franca decadência. Com o fim da Segunda Grande Guerra, a política cultural de boa vizinhança dos Estados Unidos tornara-se desnecessária e Carmen foi progressivamente sendo posta de lado.
Cinco anos depois, morreria, por excesso de trabalho, de álcool e barbitúricos. Isso quem conta é Ruy Castro, no seu excelente Carmen: Uma Biografia.
A foto em cor sépia, a textura do papel jornal, o próprio amarelado do exemplar de 70 e tantos anos atrás carregam o leitor para um outro tempo.
Quem pesquisa música popular brasileira neste segundo milênio encontra com facilidade materiais que formavam, antes, verdadeiros tesouros escondidos, ou, muitas vezes, extraviados.
Em 2026 vivemos a era dos acervos digitais.
O arquivo PDF da Revista da Semana de janeiro de 1950 está disponível para consulta e download no acervo Dorival Caymmi, um dos sete acervos do site do Instituto Antonio Carlos Jobim.
Só na aba Dorival Caymmi é possível abrir mais de 4.000 documentos, entre cartas, telegramas, fotos, partituras, gravações em áudio e vídeo, além dos recortes de revistas e jornais.
Comparado ao site do Instituto Moreira Salles ou ao MIS, o maravilhoso site da família Jobim chega a ser modesto.
A própria Revista da Semana tem todas as edições, de 1900 a 1959, disponíveis para ler online ou baixar no portal da Biblioteca Nacional.
Enquanto isso o bom e velho YouTube segue em modo 'colaborativo' e abre as portas para um infinito de raridades jamais sonhado pelos amantes da música antes da internet.
A presente resenha se voltou para o conhecimento que hoje se espalha para além dos livros, aqueles "objetos transcendentes" a quem podemos amar com o mesmo "amor táctil que votamos aos maços de cigarro", como diria outro baiano célebre, Caetano Veloso.
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Leia a reportagem completa no acervo Caymmi do site do Instituto Jobim:
https://www.jobim.org/caymmi/handle/2010.1/13257
São Ismael do Estácio
São Ismael do Estácio; o sambista que foi rei abre com um capítulo dividido em três partes: Vida, Paixão e Morte do 'Rei do Estácio'.
Um sobrevoo pela história de Ismael Silva. Quase um livro dentro do livro.
Da 'Vida' ficamos sabendo onde nasceu, como cresceu, o porquê da família ter se mudado para o Estácio de Sá, o fascínio pelos estudos — de acordo com sua mitologia pessoal, Ismael, aos sete anos, 'invadiu' a escola do bairro e foi direto informar à diretora que "tinha fome de saber" e queria uma vaga. Matriculado na mesma hora, o "garoto humildemente vestido, magrinho, pobre, tornou-se modelo do colégio, primeiro aluno em todas as matérias", segundo o próprio.
Mais velho, depois que ingressou na boêmia, só queria saber de aprender... samba e batucada.
A pesquisa da biógrafa Maria Thereza Mello Soares revela que Me Faz Carinhos é o primeiro samba que Ismael compôs, vendeu e viu ser gravado.
Com outros bambas do Estácio criará o bloco de carnaval Deixa Falar, a que vão chamar 'Escola de Samba', meio na base da brincadeira. Mas o nome, como se sabe, 'pegou'.
A 'Vida' ainda fala de Chico Alves, de Nilton Bastos, de Noel Rosa, Mário Reis, de Vinicius de Moraes, de Hermínio Bello de Carvalho e de figuras consagradas da cultura nacional com quem o sambista convivia: Aníbal Machado, Tônia Carrero, Murilo Mendes, Rubem Braga, Portinari, Scliar...
Os 15 anos da 'Paixão' de 'São Ismael' se iniciam com os tiros que atingem a região glútea do motorneiro Edu, que, também segundo a mitologia pessoal do compositor, desrespeitou Orestina, sua irmã mais velha. Resultado: cinco anos de reclusão após ser preso em flagrante e condenado por tentativa de homicídio.
Aos dois anos e meio que efetivamente passou na cadeia acrescentaram-se outros mais de 12 em que Ismael, dizem, autocondenou-se ao ostracismo.
"Quando deixou o presídio era um homem diferente. Tudo parecia conspirar contra ele. Era alegre e ficou caladão".
Ele só retorna — o marco é o tão conhecido Antonico — nos anos 1950, mas nunca de maneira tranquila. Sumia às vezes. As dificuldades financeiras sempre presentes.
A 'Morte' veio encontrá-lo em 1978. Estava ameaçado de despejo e teve o corpo velado no salão nobre do Museu da Imagem e do Som, situações contrastantes que, no entanto, formam o estranho, mas fiel, retrato do 'rei' cujo trono ficou sem sucessor.
São Ismael do Estácio, o livro, traz ainda capítulos dedicados a analisar as composições de Ismael, a registrar o 'comércio' de compra e venda de sambas, a relembrar a história da música popular no Rio de Janeiro e o surgimento das escolas de samba. Tudo um tanto resumido em excesso, mas baseado em pesquisa de qualidade.
Como em todo livro editado pela FUNARTE na década de 1980, tem em anexo a discografia completa do biografado, fornecendo assim excelente fonte para pesquisar os discos no YouTube.
É encontrável em sebos online por preços modestos. Em abril de 2026 há exemplares por 30,00 ou pouco mais de 40,00. O 'mercado' continua a precificar Ismael Silva de maneira displicente.
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Orestes Barbosa: Repórter, cronista e poeta
— Por que não escreve você as suas memórias?
— Não escrevo as minhas memórias porque irão dizer que é ficção.
(Orestes Barbosa, entrevista ao Diário de São Paulo, em 5 de agosto de 1956.)
Carlos Didier, um dos autores de Noel Rosa, Uma Biografia, se debruçou sobre a vida 'stranger than fiction' de Orestes Barbosa. O desafio lhe custou 12 anos. De 1992 a 2004.
O produto, 'Orestes Barbosa: repórter, cronista e poeta', chegou às lojas em 2005.
Didier dedicou o livro a Antônio Nássara, a quem define como o "elo entre biógrafo e biografado". Nássara concedeu a Didier 20 entrevistas.
Orestes Barbosa está dividido em três grandes partes:
E um adendo, chamado de Posteridade (1996 - 2003).
Segundo sua própria mitologia, Orestes cresceu 'menino de rua'. Aos 18 anos, indicado por ninguém menos que Ruy Barbosa, foi admitido como revisor no periódico O Mundo.
Em 1921 é condenado a dois meses de prisão por 'imputação de fatos ofensivos à reputação' de um tal Francisco Venâncio Filho, a famosa 'injúria'.
Na Casa de Detenção escreve sobre o "labirinto de almas torturadas", temário que o acompanhará ao longo de toda vida. Voltará a ser preso ainda mais uma vez.
Demora a se achegar aos compositores de música popular. Antes, já havia publicado livros de poesia. A atividade de compositor guarda essa marca: escreve poemas metrificados e os entrega para algum parceiro botar melodia.
Chão de Estrelas, de 1937, é um exemplo claro. Toda escrita em decassílabos, exigiu de Silvio Caldas atenção redobrada para que os versos ganhassem a fluência musical e a naturalidade que se espera de uma valsa seresteira, feita para tocar no rádio.
As muitas (incontáveis) brigas, polêmicas, trocas de sopapos e ameaças de morte (punhaladas incluídas),
— Olha lá o Orestes na mesa do Café Nice. A quem estará envenenando? —
fazem par com as aventuras amorosas, e com a atenção redobrada aos acontecimentos da cultura nacional.
Segundo Didier, Orestes é o primeiro a reconhecer a singularidade de Noel Rosa,
— Sabe de uma coisa, Nássara? O sem-queixo é um gênio!
tornando-se quem aponta aquele jovem franzino e inquieto como um 'ponto fora da curva' dentro da geração brilhante a que ambos pertencem e que inclui Ary Barroso, Lamartine Babo, Braguinha e o próprio Nássara, entre inúmeros outros.
A aposentadoria vai ser passada em Paquetá, a quem se refere como 'a toca'. Lá criava galinhas e se locomovia a bordo de uma charrete. No fim da vida, adoentado, voltou a morar no Rio.
O livro de Didier é um catatau de 684 páginas, resultado de pesquisa que localizou 1.061 crônicas, reportagens, colunas e notas de Orestes Barbosa, 46 depoimentos e entrevistas, 134 poemas, 125 canções, 13 livros e mais de 80 itens de correspondência, além das 53 horas de entrevistas inéditas e mais de 1.000 artigos de outros autores.
Orestes teria sido, diz a biografia, "aquele que percebeu que a canção era o veio no qual os poetas deveriam desaguar sua lírica".
(...) "Ao abandonar suas intenções acadêmicas e abraçar a música popular, Orestes Barbosa tornou-se uma espécie de Vinicius de Moraes dos anos 30, embora o mais correto seja afirmar que Vinicius foi o Orestes dos anos 50".
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Orestes Barbosa: repórter, cronista e poeta. © 2005 Carlos Didier. Agir Editora Ltda.
Imagens:
Orestes Barbosa.
Orestes Barbosa de charrete em Paquetá, no traço de Nássara.
Noel Pela Primeira Vez
Nesta resenha exumaremos matéria de novembro de 2000 na FSP sobre o lançamento de 14 CDs com a obra integral de Noel Rosa.
Os responsáveis pela 'Caixa' foram a FUNARTE, a pequena gravadora Velas e, principalmente, Omar Jubran, um professor de biologia que, nas horas vagas e com a paixão típica dos profissionais, coletou 100% das gravações do Poeta da Vila, com ou sem parceiros.
Na entrevista, Jubran conta que, para a empreitada, um impulso decisivo veio ao ver publicado, em 1990, Noel Rosa: Uma Biografia, de João Máximo e Carlos Didier, livro que foi assunto da 'Resenha' anterior.
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NOEL ROSA COMPLETO, PELA PRIMEIRA VEZ
Carlos Calado 17/11/2000
Um objeto de desejo para qualquer apreciador da música popular brasileira chega ao mercado na próxima semana. A caixa Noel Pela Primeira Vez (lançamento da Funarte com a gravadora Velas) reúne em 14 CDs a obra integral de Noel Rosa (1910-1937), que estaria completando 90 anos de idade no próximo dia 11. Nas 229 faixas dessa ambiciosa edição, o ouvinte terá acesso a todas as primeiras gravações das composições que o Poeta da Vila escreveu durante seus breves seis anos de atividade musical.
"Entre outros grandes compositores, como Ary Barroso e Lamartine Babo, Noel sempre chamou mais minha atenção por ser um artista multifacetado. Ele fazia suas sátiras e suas crônicas sempre com a mesma seriedade, por mais banal e simples que suas composições pudessem parecer", diz Omar Jubran, o pesquisador e professor de biologia paulistano, que passou 11 anos procurando, recuperando e remasterizando as gravações incluídas nessa edição.
"Noel foi o grande inovador de nossa lírica, o primeiro a mostrar que tudo (fome, miséria, mentira, futebol, jogo do bicho, assassinato, roubo, prostituição, homossexualidade, bebida, política, corrupção) podia ser convertido em letra de música", observa João Máximo, biógrafo do compositor, no texto de abertura do livreto de 160 páginas, que faz parte da caixa, incluindo todas as letras das canções e fichas técnicas das gravações. As canções foram organizadas em ordem cronológica, opção que permite acompanhar a evolução de Noel como compositor.
Da temática sertaneja de composições como a toada Festa no Céu e a embolada Minha Viola (ambas compostas em 1929 e gravadas pelo próprio autor), passa-se ao encanto de Noel pelos personagens do morro, flagrado em sambas como Mulato Bamba (1931), até se chegar a seus sambas mais elaborados, como Último Desejo (1937).
Além do próprio compositor, que pode ser ouvido em dezenas de faixas, assim como Aracy de Almeida (sua intérprete favorita), outros cantores notáveis se sucedem, como Silvio Caldas, Francisco Alves, Mário Reis, Carmen Miranda, Aurora Miranda, Marília Baptista, Elizeth Cardoso, João Nogueira e Jamelão. Gravações mais recentes, realizadas na última década, destacam ainda Vânia Bastos, Ná Ozzetti e Johnny Alf.
Omar Jubran conta que seu interesse por Noel foi despertado durante a infância, entre os anos 50 e 60. "A gente ainda não tinha TV em casa e eu ficava ouvindo rádio, que naquela época era muito mais segmentado do que é hoje. Havia várias emissoras que tocavam compositores mais antigos da música brasileira", recorda o pesquisador, hoje com 47 anos.
Dono de uma grande discoteca (atualmente com cerca de 15 mil títulos, entre 78 rotações, LPs, compactos e CDs de vários gêneros musicais), Jubran resolveu organizá-la pela primeira vez, em 1987, época em que decidiu investir mais na já vasta coleção de gravações do Poeta da Vila. O lançamento do livro Noel Rosa, Uma Biografia, de João Máximo e Carlos Didier, foi fundamental para que ele desse sequência à pesquisa. "Além de ser um livro diferente, por causa de seu rigor científico, ele trazia uma relação completa de todas as composições do Noel. Resolvi checar quantas eu tinha e percebi que já possuía 70% desse material. Virou ponto de honra para mim conseguir o que faltava", recorda.
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Em meio à pesquisa, Jubran começou a se interessar por equipamentos de áudio que permitissem recuperar gravações em estado precário. Investiu nessa aparelhagem, até que seu saldo bancário entrasse no vermelho. "Eu ficava chateado. Toda vez que saía algum novo CD de Noel eram sempre as mesmas músicas: Três Apitos, Feitiço da Vila e coisas assim. Decidi entrar de cabeça nisso, mas esses softwares de recuperação sonora são muito caros. Cheguei a vender um carro, em 93, mas mesmo assim não consegui o dinheiro suficiente", relembra.
A solução foi procurar uma roda de amigos e propor a eles que comprassem a coleção de Noel antecipadamente, para ajudá-lo a prosseguir. "Achei oito malucos que confiaram em mim, na verdade, pagando o preço de duas coleções para receberem apenas uma, num prazo que eu nem mesmo poderia precisar qual seria", conta.
Para reunir as gravações que faltavam, Jubran teve que viajar por várias cidades dos estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais. As gravações mais difíceis de conseguir (já não se lembra exatamente quais eram) pertenciam a um renitente colecionador do sul de Minas, que teve de ser 'amaciado' aos poucos, com muita paciência. "Ao telefone, ele me disse que tinha os discos, mas que eu não iria ouvi-los, nem mesmo ver de que cor eles eram", relembra.
Delicada também foi a operação para recuperar, certa vez, um 78 rotações que recebeu quebrado em três pedaços. Depois de colá-los, com o auxílio de uma lupa e um estilete, eliminou o excesso de adesivo. "Tive muita sorte porque os sulcos coincidiram", festeja, calculando que gastou cerca de 50 horas de trabalho, só para eliminar os ruídos produzidos pelas emendas. O resultado ficou tão bom que Jubran recusa-se a revelar que faixa é essa, desafiando seus amigos técnicos de gravação a descobri-la. Seu preciosismo levou-o até a ficar em dúvida quanto a incluir na caixa algumas canções que o grupo espírita Aquarius afirma terem sido psicografadas por Noel. "Com todo respeito, decidi ficar apenas no plano material", conclui.
Em janeiro de 1998, o trabalho de pesquisa, restauração e remasterização de todo o material estava terminado. Depois que as primeiras notícias chegaram à imprensa, o telefone de Jubran tocou bastante. "Fui procurado até por repórteres interessados em entrevistar Noel Rosa", diverte-se. Mesmo assim, só conseguiu fechar o contrato de edição com a Funarte e o Ministério de Cultura depois de procurar vários órgãos federais e estaduais de cultura. Entre vários absurdos, chegou a ouvir a sugestão de que fizesse somente uma compilação com as "melhores" faixas. Difícil também foi o processo para conseguir as permissões de todos os intérpretes e parceiros de Noel ou de seus herdeiros — trabalho coordenado por Luiz Pedreira, que se arrastou por mais de um ano. "Fiquei muito agradecido ao Vitor Martins, da Velas, que apoiou minha ideia de não subtrair nenhuma faixa da coleção", reconhece.
Jubran ainda leciona Biologia, atualmente, num colégio particular de São Paulo. Dizendo-se desiludido com a situação da educação no país, espera que a repercussão desse trabalho o ajude a viabilizar outros projetos semelhantes, como reunir as obras completas de Ary Barroso, Lamartine Babo e Adoniran Barbosa, já engatilhados. "Praticamente já tenho todas essas gravações", revela. Outro projeto, com o título provisório de Carnaval do Século XX, reuniria músicas de carnaval compostas entre 1899, ano em que Chiquinha Gonzaga lançou a pioneira Ó, Abre-Alas, e meados dos anos 70, época em que compositores deixaram de criar para o carnaval. "A ideia é incluir 15 ou 20 marchinhas importantes, ano por ano, e fazer uma análise de todas elas, localizando o momento histórico. Já consegui quase três mil músicas", calcula o pesquisador.
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Noel Pela Primeira Vez. Box com 14 CDs e um livreto. FUNARTE, Velas, Universal Music. 2000.
Noel Rosa, Uma Biografia
Aqui no blog estão disponíveis 21 posts da 'Pequena Biografia' de Noel Rosa.
Cada um dos 21 posts foi transcrito, com as necessárias adaptações, do livro Noel Rosa, Uma Biografia, de João Máximo e Carlos Didier, tema desta resenha.
As playlists que acompanham os posts, trazendo mais de 100 composições de Noel, também foram montadas a partir da discografia organizada por Máximo e Didier no distante ano de 1990, quando Uma Biografia foi lançado.
Em 2000 saiu a caixa Pela Primeira Vez com 14 CDs contendo todas as composições conhecidas do artista em gravações remasterizadas com grande capricho, ou produzidas 'pela primeira vez' especialmente para o projeto, editado em parceria da FUNARTE com a gravadora Velas.
Se até o advento dessa caixa, ouvir o repertório original de Noel era quase coisa exclusiva de colecionador, atualmente, as músicas estão todas disponíveis no YouTube, em arquivos digitalizados a partir... da caixa!
Já o livro, este está impedido de ser reeditado desde a primeira impressão.
Vou me ater, então, ao quiproquó em torno da biografia, que envolve a família de Noel, os biógrafos e duas editoras. Talvez o assunto tenha tomado novos rumos. Minhas informações terminam em 2017, aos 80 anos da morte do poeta.
Vejamos.
Em 2013, Luiz Fernando Vianna dizia na Folha de São Paulo que:
"A obra vinha sendo barrada por ações judiciais das herdeiras, as sobrinhas Maria Alice e Irami, filhas de Hélio Rosa, irmão mais novo do biografado (morto por tuberculose em 1937, Noel não teve filhos).
Elas pediam indenização, alegando desrespeito à vida privada da família em função dos relatos sobre os suicídios da avó e do filho dela, o pai de Noel.
Os autores provaram que as mortes foram noticiadas em jornais. Em 26 de novembro de 2012, a última ação foi retirada da 3ª Vara Federal de Brasília".
A partir daí apareceram duas editoras interessadas em reeditar o livro. O que só fez aumentar a confusão.
Ainda para a mesma matéria da Folha, Didier disse que a editora José Olympio "há tempos tenta a reedição".
"A Companhia das Letras há pouco passou a se interessar. Esclareci que outra editora estava trabalhando o livro e que era necessário ter elegância — foi a palavra fora de moda que usei", conta.
"Recomendei que não se fizesse contato com a família Rosa para evitar a formação de um leilão. Virou leilão. O que me desagrada muito".
Procurado, João Máximo respondeu que, afora acenos informais no passado, só "recentemente" havia sido procurado pela José Olympio.
"A Companhia foi a única que me fez uma proposta de fato. E foi muito satisfatória. Já estavam previstos a tiragem, o preço, como e quando tudo seria feito. Só pedi que o livro fosse revisto e que eu escrevesse o texto final", disse.
A nova edição da biografia teria 900 páginas e tiragem inicial de 15 mil exemplares. À família de Noel Rosa, foram oferecidos, na época, R$ 60 mil.
"Da nossa parte, chegamos a um acordo. Para minha surpresa, houve a recusa do Didier", declarou o marido da sobrinha Maria Alice e representante nas negociações.
E nesse ponto vamos recorrer a uma reportagem de 2017, assinada por Amilton Pinheiro e publicada pelo Estadão: a desavença entre Máximo e Didier remonta a tempos anteriores, antes mesmo de vencerem na Justiça a pendenga contra as herdeiras de Noel.
"A confiança acabou. As pessoas vão ter que se contentar com os exemplares que saíram pela UnB, que aliás são suficientes para a demanda de um país em que a elite lê muito pouco, melhor dizendo, não lê quase nada", disse Carlos Didier, procurado por telefone pel'O Estado de São Paulo.
João Máximo volta mais um pouco no tempo:
"Foram oito anos pesquisando, desde que eu e Didier decidimos trabalhar juntos, depois de sermos apresentados por Sérgio Cabral, o pai, no final de 1980. Quando terminamos o texto, fomos atrás de uma editora, mas nenhuma se interessou. Já estávamos quase desistindo quando, num evento em Brasília, que participávamos, alguns professores da UnB nos procuraram no final interessados nos relatos que fizemos sobre Noel Rosa, sua música e seu tempo".
Segue o Estadão:
"Depois da publicação, dos elogios da imprensa e da crítica, a editora não pagou os direitos autorais dos autores, que tiveram de entrar na Justiça para receber o que lhes deviam. Acabaram sendo pagos com o restante do estoque de livros que ainda existia.
No meio tempo, a dupla começou a se estranhar por causa dos comentários que passaram a ser reproduzidos pela imprensa e pelos amigos. Segundo João Máximo, a maioria das referências da autoria do livro recaía sobre ele. 'Eu cheguei a falar com as pessoas que conhecia para que deixassem de atribuir o livro só a mim, que citassem também o Didier, mas não tinha jeito. Numa ocasião, reclamei com Ruy Castro para que falasse também que o livro era de Didier', conta Máximo, que entendia que a origem de tudo era o fato de ser 20 anos mais velho que seu parceiro, de ser um jornalista reconhecido e de estar mais estabelecido no meio.
No início, relata Didier, alguns amigos chegavam para ele dizendo que tomasse cuidado com João, mas ele achava que aquilo era exagero das pessoas. 'Até um dia em que tive a comprovação de que quem espalhava os boatos sobre quem seria o autor de fato do livro era o próprio João, principal interessado para que essa história espalhasse', explica Didier.
A partir daí, Didier passou a evitar falar com João Máximo, mandou uma carta para ele dizendo que cada um seguisse seu caminho. Máximo estranhou e escreveu outra carta pedindo mais explicações, mas não teve retorno. O tempo passou e o livro saiu de catálogo e virou relíquia nos sebos, que chegam a cobrar até mil reais por um exemplar (valores de 2017, semelhantes aos atuais).
Os autores nunca mais se falaram até que, em 2012, Maria Amélia de Mello, que na época era editora da José Olympio, amiga de ambos, conseguiu reuni-los numa livraria em Botafogo, no Rio de Janeiro, porque estava interessada na reedição do livro. Os autores foram lá e, segundo Didier e Amélia, no final da reunião, houve um acordo verbal para que a biografia de Noel fosse editada pela José Olympio. 'Máximo concordou, e fui atrás de um patrocinador em São Paulo. Quando consegui, voltei para o Rio, mas João nem quis me ouvir, tinha fechado com a Companhia das Letras', diz Maria Amélia.
A versão de João Máximo é outra. 'Eu escutei tudo, e ficou acordado que Amélia mandaria uma proposta formal, já que havia uma proposta da editora Companhia das Letras, que estava querendo reeditar o livro. Mas ela nunca me enviou nada de proposta, como iria fechar um acordo sem algo de concreto?', questiona".
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Noel Rosa, Uma Biografia. © 1990, João Máximo & Carlos Didier. Editora UNB.
Fontes: Folha e Estadão
Marília T. Barboza da Silva
Nesta próxima resenha falarei, não apenas de um livro, mas de uma autora.
Marília Trindade Barboza.
Marília nasceu e se criou em Vila Isabel, no Rio de Janeiro.
No início da década de 1960, conheceu, aluna do Colégio Pedro II, o professor Arthur de Oliveira, que ensinava análise sintática utilizando letras de Noel Rosa e de outros importantes compositores brasileiros do período anterior à Bossa Nova.
Quase 20 anos mais tarde, em 1977, quando a Funarte lançou o concurso de monografias sobre Pixinguinha, falecido quatro anos antes, Marília convidou seu antigo professor para escrever a monografia a quatro mãos.
O júri do concurso classificou em primeiro lugar a biografia apresentada pelo jornalista e crítico Sérgio Cabral, Pixinguinha, Vida e Obra, concedendo ao trabalho dos dois um prêmio especial.
Em 1979 a Funarte publicaria a primeira edição de Filho de Ogum Bexiguento, de Marília e Oliveira (a segunda edição, revista e ampliada, sairia pela editora Gryphus, em 1998).
Em 1980, em parceria com Lygia Santos, Marília ganha o primeiro lugar no Concurso Nacional de Monografias da Funarte, com Paulo da Portela, Traço de União entre Duas Culturas, estudo sobre a formação das escolas de samba.
De novo com Arthur de Oliveira, receberia o primeiro prêmio no Concurso de Monografias do Projeto Lúcio Rangel, pelo trabalho Silas de Oliveira, do Jongo ao Samba-Enredo, publicado pela Funarte em 1981. No mesmo ano, sai pela Livraria José Olympio Editora mais um trabalho de Marília e Arthur, agora tendo a participação do compositor Carlos Cachaça, Fala, Mangueira.
Na época em que preparavam o livro sobre Silas de Oliveira, Marília e Arthur aproximaram-se de Cartola, que confessou aos autores seu desejo de ter um trabalho como aquele escrito sobre ele próprio. Nasce assim, em 1983, de mais uma parceria com Arthur de Oliveira, Cartola, os Tempos Idos, mais um primeiro lugar, dessa vez no Concurso de Monografias do Instituto Nacional de Música.
Cartola não chegaria a ver a biografia: falecido em 1981, deixou para Marília Barboza seus manuscritos e seu violão.
Com a pesquisadora Vera de Alencar, Marília Barboza lançaria por encomenda da Fundação Emílio Odebrecht Caymmi, Som-Imagem-Magia.
Da admiração pelo talento de Carlos Cachaça, com quem conviveu durante a elaboração de Fala, Mangueira, a pesquisadora publica pela Funarte, em 1989, Alvorada, um Tributo a Carlos Cachaça.
Um nome de peso dos estudos de música popular brasileira, menos conhecida fora dos círculos especializados do que sua obra merece.
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Texto elaborado sobre material do Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira.
Obs.: Todos os livros mencionados estão disponíveis para compra online.
Pixinguinha, Vida e Obra
Pixinguinha morreu às vésperas do Carnaval, em fevereiro de 1973.Na manhã do dia de sua morte, recebeu a visita de Hermínio Bello de Carvalho que, em companhia do fotógrafo Walter Firmo, foi a Inhaúmas ver como é que estava o amigo.
À tarde, Hermínio juntou-se ao desfile pré-carnavalesco da Banda de Ipanema. O bloco vinha debaixo de chuva, quando a notícia correu entre os foliões: Pixinguinha acabara de cair, fulminado por um infarto, em pleno altar da Igreja Nossa Senhora da Paz, enquanto batizava o filho recém-nascido do amigo Euclides Souza Lima.
Desmantelou-se a Banda em segundos, como descreveria, anos mais tarde, Sérgio Cabral, autor de Pixinguinha, Vida e Obra, biografia publicada pela Funarte através de sua Divisão de Música Popular, dirigida à época justamente por Hermínio Bello de Carvalho.
Hermínio e Sérgio estão entre os principais responsáveis pela revalorização da obra de Pixinguinha, onipresença na música brasileira desde os anos 10 do século XX, mas amargando certo ostracismo lá pelos finais da década de 1960.
A biografia, vencedora do primeiro concurso de monografias da Funarte, saiu pela primeira vez em 1978. É possível encontrar em sebos, além da edição original, reedições de 1980, 1997 e 2007.
O levantamento completo das composições, gravadas ou ainda não registradas, que forma um apêndice no livro, era parte das exigências do concurso e perdurou como marca de todas as biografias sobre compositores brasileiros editadas pela Funarte, a partir de então.
Cabral dá início à história pelo casarão onde Pixinguinha cresceu, filho de família numerosa e pai músico amador. Menino prodígio, por volta dos 13 anos já é chamado para apresentações, gravações e direção musical de blocos de carnaval.
De flautista virtuoso a principal nome da composição e do arranjo da Era do Rádio brasileira, Pixinguinha atravessa o século.
Morava, quando morreu, num pequeno conjunto habitacional em Inhaúmas. A esposa havia falecido, dividia o apartamento com o filho único. Mantinha-se com a aposentadoria de funcionário público da rede municipal de Educação e um ou outro rendimento de sua composição mais conhecida: Carinhoso.
Sérgio Cabral, além de contar da vida, deu o pontapé inicial para os estudos da vasta obra do maestro. Passados quase 40 anos, muitos novos materiais estão acessíveis: o site Pixinguinha mantido pelo Instituto Moreira Salles, edições de partituras inéditas, discos de vários artistas relendo o legado e até mesmo um catatau de 740 páginas, Proezas de Pixinguinha, escrito por José Silas Xavier e lançado em 2023.
Em presença de tantas novidades, o pioneiro Vida e Obra de Cabral continua impecável e cumpre a tarefa de apresentar, com grande conhecimento de causa, como foi que o homem Alfredo da Rocha Vianna Filho criou a maravilhosa música de Pixinguinha.
Leitura indispensável para quem quer saber mais sobre a música popular brasileira.
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Pixinguinha, Vida e Obra. © 1978 Sérgio Cabral. FUNARTE, Rio de Janeiro.
imagem: David Drew Zingg, 1967. IMS.
Tia Ciata e a Pequena África no Rio de Janeiro
"A Pequena África na zona portuária do Rio, compreendendo os bairros da Saúde, Santo Cristo e Gamboa, assim ficaria conhecida pela presença dominante do povo negro na área desde a Colônia. Essa presença foi o resultado do funcionamento do mercado de escravos do Valongo, entre 1774 e 1831, dos braços negros ocupados pelo trabalho no porto, e do estabelecimento, desde pouco antes da metade do século XIX, de uma vizinhança de negros africanos e baianos alforriados na região. Hoje, intimamente assim nomeada por seus próprios ocupantes e por muitos dos cariocas, a Pequena África tornou-se no local central do circuito histórico e arqueológico da ancestralidade africana no Rio de Janeiro.
Sua 'capital' fica no largo de São Francisco da Prainha e no adjacente largo João da Baiana, onde está a emblemática Pedra do Sal. De lá, antes dos aterros, vislumbrava-se a baía e o sinal que os navios emitiam: a bandeira branca de Oxalá, avisando que vinha chegando gente. Lá foi criada uma rede de convívio e solidariedade com suas expressões culturais próprias, a partir da fundação dos primeiros candomblés na antiga capital. Em suas ruas, saíram os ranchos e cordões que engendrariam o samba carioca, e foi ao lado da praça da Harmonia que seus moradores, em 1904, ergueram as barricadas da Revolta da Vacina".
Estes dois parágrafos absolutamente densos abrem a conclusão da edição revista e atualizada do clássico Tia Ciata e a Pequena África no Rio de Janeiro, de Roberto Moura, publicado pela primeira vez em 1983 depois de vencer o concurso sobre vida e obra da Tia Ciata promovido pela Funarte através de sua Divisão de Música Popular, dirigida à época por Hermínio Bello de Carvalho.
Moura incluiu nesta versão dois capítulos: 'Os nagôs-minas no Rio de Janeiro' e 'As transformações', uma 'Nota do Autor' e a 'Conclusão'. Alterou alguns títulos de capítulos, mudou o texto em vários pontos e adicionou novas imagens, beneficiado pelo avanço dos processos de digitalização dos acervos nas últimas décadas.
Tia Ciata e a Pequena África é um divisor de águas na pesquisa sobre música popular no Brasil. Moura sempre diz que escreveu o livro que ele precisava ter, mas não havia sido escrito. Ou seja, no final dos anos 1970, a escassez de estudos voltados à cultura popular que se imbricou com a indústria do entretenimento era quase total.
Quem pode contar melhor a história desse livro é o próprio autor que concedeu uma longa entrevista para o podcast Ilustríssima Conversa do canal da Folha de São Paulo no YouTube em 2022. OUÇA
Moura, tamanho domínio tem do que escreveu, fala como se tivesse estado presente nos eventos do livro, o que, de certa forma, é verdade, pois encontrou ainda vivos protagonistas dessa longa e gloriosa história, como Cartola e dona Carmem do Xibuca que em 1980 afirmava estar com 112 anos de idade.
As edições de 1983 e 1995 são encontráveis em sebos, mas, nesse caso, a edição revista e atualizada fez com que as anteriores literalmente caducassem. O tema da presença negra no Brasil evoluiu muito nas últimas décadas e Moura modificou elementos substanciais que 'corrigem' certas imprecisões da versão original.
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Tia Ciata e a Pequena África no Rio de Janeiro. © 1983, 1995, 2022, Roberto Moura. Edição Revista e Atualizada. Todavia.
Imagem: Heitor dos Prazeres. 1963.
Uma História do Samba: volume 1 (As Origens)
Em primeiro lugar, o autor: Lira Neto tem como obra mais conhecida a biografia em três volumes de Getúlio Vargas.
Getúlio é nome constante nas 'histórias do samba': os anos que viram acontecer a Revolução de 30 e a vigência do Estado Novo (1937 — 1945) coincidem com a chamada Era de Ouro do Rádio no Brasil.
Provavelmente, a pesquisa de um livro surgiu de dentro da pesquisa para o outro.
Em determinado momento, Lira Neto chama a História de "empreitada bibliográfica" e parece uma boa descrição: trata-se de um relato de leituras. Aparentando ter consultado tudo o que foi escrito sobre o samba ao longo do século XX e princípios do XXI, o autor escolhe a dedo o que inclui e o que deixa de fora. Na Academia chamam esse tipo de pesquisa panorâmica de 'estado da arte'.
O resultado é uma obra de referência da mais alta qualidade. Para quem deseja se iniciar no assunto, tudo que há de essencial aparece nas duzentas e poucas páginas de texto propriamente dito, seguidas de outras mais de 100 reservadas às notas, bibliografia e índice remissivo. O material iconográfico, fotos clássicas, sem maiores novidades, mas digitalizadas e impressas com muito capricho, completam o quadro de excelência.
AS PARTES
Neto começa do começo: a indefectível presença das tias baianas, a Pequena África, Hilário Jovino e o bloco Dois de Ouro, no tempo em que não se sabendo se os blocos de rancho eram parte dos festejos natalinos ou do Carnaval, desfilava-se nos dois.
Fala da grande reforma urbanística levada a cabo pelo prefeito Pereira Passos, fala de Donga, Sinhô e João da Baiana. De Pixinguinha. Do Pelo Telefone, composto em improvisos coletivos nas rodas da casa da Tia Ciata e registrado, como se fosse de sua autoria, por Donga.
Fala dos Oito Batutas — no Rio, pelo Brasil, em Paris, na Argentina. De Chico Alves, de Mário Reis e do negócio de compra e venda de sambas.
Fala do aparecimento do pessoal do Estácio e registra a chegada de Noel. Fala de Cartola e da Mangueira, de Paulo da Portela no tempo do Conjunto Oswaldo Cruz.
Lira Neto escreveu um livro para consulta, se você é um especialista, ou iniciado, no tema. O rigor da pesquisa é alto e histórias que vieram sendo passadas de geração em geração são devidamente conferidas na vasta bibliografia estudada e em arquivos oficiais.
Se você não manja dos paranauê da tradição do samba brasileiro, Uma História do Samba é uma belíssima porta de entrada. Escrito com fluência, com a tarimba de quem vem do jornalismo e sabe se comunicar.
Este blog recomenda!
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Uma História do Samba: volume 1 (As Origens) © 2017, Lira Neto. Editora Companhia das Letras.
Imagem: UOL.














