Pequenas Biografias: PIXINGUINHA_o5
Les Batutas
Recém chegado a Paris, Pixinguinha, reza a lenda, era capaz de consumir quatro litros de rum por noite.
Lenda difundida por ele, em pessoa.
"Era fevereiro, fazia muito frio. Naquela época, o pessoal bebia muito rum Negrita. Então, era aquele negócio: 'Ô, Pixinguinha! Viens boire avec nous?'. Boire é beber. Aí, eu ia beber. Tinha um maître no Sheherazade que anotava tudo que a gente tomava. No fim do mês, ele dizia: 'Olha, aquele que está ali (era eu) tomou 120 litros de Negrita'. Num mês! Eu ia tocar e ficava tocando toda a vida. Fazia tanto frio que a gente tomava aquilo e não sentia nada" (Pixinguinha, entrevista para Revista Manchete, 1973).
A temporada, prevista para durar um mês, acabou por se estender até o final de julho. Em maio, Les Batutas já estavam de mudança para o Chez Duque, novo dancing aberto pelo dançarino baiano que tivera a iniciativa de levá-los à França. Na primavera animariam também as tardes ao ar livre no La Reserve de Saint Cloud, mais um empreendimento do Duque.
De acordo com as notícias que o cronista social Floresta de Miranda enviou para o Correio da Manhã, o sucesso era completo: "Pixinguinha, com a sua flauta infernal, faz o diabo. China abafa com seu violão e a sua bela voz enquanto Donga, assim como abafa no pinho, também desperta paixões".
Elogiados pelo príncipe da Grécia, indicados pela modernista Olívia Penteado para animar a festa do embaixador Souza Dantas no Palais des Affaires Publics, ou tocando na casa do campeão mundial dos pesos-pesados Jack Dempsey, os Batutas, "modéstia à parte", declarou Pixinguinha ao jornal A Notícia, triunfaram.
Os Oito Batutas
Provavelmente de olho nas oportunidades de trabalho durante os festejos do Centenário da Independência, os músicos, Duque e sua partenaire embarcam de volta para o Rio de Janeiro no dia 1º de agosto. A proverbial saudade de casa não faltaria entre as justificativas. Pixinguinha, com a sinceridade que sempre o caracterizou, também incluía a pressa do europeu e o que lhe pareceu profissionalismo em excesso:
"Lá é muito difícil a gente fazer amigos. A vida é muito agitada, sabe? Eles não conversam muito, não. São finos, gente delicada, mas não têm muito tempo. A conversa era: 'Ça và? Ça và? À demain, à demain'. Não dava para aguentar mais".
Shimmy
"No conjunto que se apresentava na casa em frente ao Sheherazade, havia um músico que, durante a apresentação, mudava do violoncelo para o saxofone, principalmente na hora de tocar o shimmy. Um dia, Arnaldo Guinle me perguntou: 'Você toca aquele instrumento?'. Respondi: 'Toco'. Na verdade, eu já conhecia a escala e sabia que era quase igual à da flauta. 'Então, vou mandar um saxofone pra você', me disse Arnaldo Guinle. Um mês depois, o saxofone estava pronto. Levei o instrumento para o hotel e ensaiei. No dia seguinte, já estava tocando uns chorinhos no saxofone. Toquei só para o Arnaldo ouvir. Ele ficou satisfeito com o que ouviu. Depois, fiquei só na flauta. Quando voltei ao Brasil é que passei a tocar mais saxofone" (Pixinguinha, primeiro depoimento ao MIS, 1966).
A onda do jazz-band começava a virar mania também no Rio de Janeiro. O shimmy foi apresentado à cidade pela companhia francesa de revista Ba-Ta-Clan, com o espetáculo V’la Paris no Teatro Lírico. Os dançarinos sacudiam vigorosamente os ombros, o que inspiraria o humor carioca a batizar a novidade de 'dança do treme-treme'.
Os Oito Batutas se integraram à trupe dirigida por Madame Bénédicte Rasimi durante duas semanas, tocando, de acordo com o Jornal do Brasil, "o mesmo repertório que apresentaram em Paris".
Como previam, enquanto durou, a Exposição do Centenário da Independência do Brasil, com seus mais de 10 pavilhões, restaurantes, parques de diversões e até uma praça de touros, rendeu trabalho diário para os Batutas. Pixinguinha, convidado a organizar uma orquestra para o evento, levou o grupo completo, além de incluir convidados especiais. Foi na Exposição do Centenário que aconteceu a primeira transmissão de rádio do Brasil, um ano antes de ser instalada a emissora pioneira no país, a Sociedade, criada por Roquete-Pinto. Um tanto distraído do momento histórico, Pixinguinha estava presente. "Lembro-me de que toquei naquela transmissão de rádio que aconteceu durante a exposição. Toquei num estudiozinho que havia lá", disse em seu depoimento ao MIS.
Los Batutas
"Atesto que o requerente não é vagabundo nem mendigo, que não sofreu pena de prisão nos últimos cinco anos e que nada consta em desabono à sua conduta".
Munidos do boletim 11.916, expedido pelo Corpo de Investigação e Segurança Pública dois dias antes, em 1º de dezembro de 1922 os oito Batutas receberam seus vistos de entrada para a República da Argentina. Empresariados por José Saint-Clair, levavam para a estreia no Teatro Empire de Buenos Aires, além dos instrumentos costumeiros, as novidades 'jazzísticas' exigidas pela moda: o saxofone de Pixinguinha, a bateria de J. Tomás, o banjo de Donga, mais um piano e mesmo um cavaquinho-banjo.
"Nós tocávamos comercialmente, como profissionais, e pegávamos de tudo, no conjunto. Comercialmente tínhamos que tocar um bocadinho de cada coisa. E ficamos vivendo assim. Variando o programa" (Depoimento ao MIS).
Mais do que em Paris, a imprensa portenha abriu, entusiasmada, espaço para falar dos brasileiros.
La Nación: "La impresión que se recibe de ese conjunto es agradable y rara; se diria que se escucha una poesia fuerte e hermosa en una lengua desconocida, puesto que liga a subyugarnos por su ritmo, por sus acentos, por su ardor (...)".
La Critica: "Los Ocho Batutas (...) cultivam la música popular brasileña com muchíssima gracia costumbrista, dando color y vida a su interessante repertorio".
Da capital para outras províncias, o arrebatamento só cresce. Como sempre, é Pixinguinha quem rouba a cena.
El Figaro: "El flautista tiene una resistencia a prueba de pulmones".
El Dia: "El canto de la selva ejecutado por un flautista es una admirable imitación de los trinos de pájaros característicos del Brasil".
El Tribuno: "El personaje de la noche fué sin duda el negro Alfredo Vianna, que hace en la flauta maravillas de ejecución".
La Razón: (...) "sus condiciones de virtuoso superam en mucho a cuánto es imaginable".
Josué, o faquir
O sucesso de crítica e público não inibiu a ação nociva da empresa Delle Done y Franco, contratantes locais que, no final da excursão pelo interior, resolveram desaparecer com todo o dinheiro arrecadado — e que não era pouco: "Ni una sola localidad quedó sin ocupar, y muchos tuvieron que presenciar la función apostados de pié en los pasilios", registrou La Tarde sobre a sessão extra que Los Batutas fizeram no Teatro Español de Chivilcoy, distante 160 quilômetros de Buenos Aires, um dia depois da última data inicialmente estabelecida.
Como se não bastasse, e por razões jamais reveladas por qualquer um de seus integrantes, o octeto partiu-se ao meio. Donga, Nelson Alves, J. Tomás e Aristides de Oliveira embarcaram sem demora para o Rio. Pixinguinha e três outros remanescentes insistiram em ficar, mas se viram em apuros por não encontrar um único empresário que aceitasse programar shows apenas com a metade do grupo.
Quando acabou o dinheiro para o hotel, para a passagem de volta e até para a comida (Alfredinho Vianna, filho de Pixinguinha, lembrava que o pai chegou a penhorar a flauta), ocorreu ao violonista Josué de Barros uma ideia pra lá de inusitada.
Na entrevista que deu para o livro Carmen Miranda — vida, glória, amor e morte, de Queiroz Júnior, Josué explica:
"Em situação difícil na Argentina, com o conjunto desfeito pela negligência de alguns de seus componentes, não tive outro jeito senão exibir-me como faquir, ficando enterrado vivo durante 10 dias em Rio Cuarto, na Província de Córdoba".
No fascículo da História da Música Popular Brasileira, da Abril Cultural, dedicado a Pixinguinha, o 'causo' é contado com mais detalhes:
"Josué de Barros faria um número de 'enterrado vivo', 10 dias encerrado num caixão. Conseguiram quem financiasse o caixão e encontraram um terreno baldio para instalar o 'espetáculo'.
Depois do cortejo fúnebre, foram chegando os primeiros espectadores. Espiavam desconfiados, pelo vidro do ataúde. Lá dentro, Josué caprichava na cara séria. Mas fazia um calor fortíssimo e, à tardinha, uma nuvem de gafanhotos invadia a cidade, prendendo os moradores em suas casas". O enterrado vivo 'brasileño' não chegou a comover 'el pueblo' de Rio Cuarto.
"Só não atingi o prazo marcado porque a esposa do chefe da polícia, penalizada, pediu que eu desistisse", concluiu Josué de Barros. Outras versões asseguram que o próprio faquir 'ressuscitou' no terceiro ou quarto dia, pois não aguentava mais o calor.
As condições para a volta ao Brasil, outro mistério nesse episódio repleto de versões divergentes, foi finalmente assegurada pelo consulado brasileiro em Buenos Aires, garante o jornalista e pesquisador Sérgio Cabral, reconhecido como o principal biógrafo de Pixinguinha.
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| Os Batutas |
Batutas e Cotubas
Um mês depois do fim da aventura argentina, os jornais anunciavam para breve o retorno dos Oito Batutas aos palcos.
Tendo regressado antes, Donga tivera tempo de colocar na praça um novo conjunto, os Oito... Cotubas. O repertório dos Cotubas era eclético. No programa poderiam constar a valsa Non, Jamais, les Hommes, o tango Valle Feittil e o foxtrote When Budda Smile, assim como o samba à moda paulista Tatu Subiu no Pau, ou uma 'Embolada do Norte'.
Era uma época boa para os músicos, pelo menos em matéria de mercado de trabalho. Havia os teatros e os cinemas e multiplicavam-se os locais com música para dançar.
Os Batutas, logo depois de reorganizados, assinaram novo contrato com o Assírio, o cabaré que funcionava no subsolo do Municipal, onde em 1921 haviam iniciado a parceria com Duque e Gaby.
Encerrada a temporada, outra novidade, alvissareira: os membros do grupo que se dividira, voltaram a se unir, com um nome ligeiramente modificado. Assim surgia a Bi-Orquestra Os Batutas.
China explicou ao repórter d’A Notícia que a Bi-Orquestra era ao mesmo tempo uma jazz-band e um conjunto capaz de tocar choros, sambas, etc.
A primeira temporada foi marcada para o Cineteatro Rialto, em agosto.
Agora com 26 anos, aquele menino criado na 'Pensão Vianna' continuava como o grande destaque. Frequentador assíduo das sessões do Rialto, Orestes Barbosa descreveria a arte de Pixinguinha em uma crônica inspirada que A Notícia publicou no dia 15 de setembro de 1923:
Está tocando o Urubu, um choro do seu repertório.
A flauta tem variações incríveis.
Dá volta de cobra.
Chora.
Silva.
Ri, na execução maravilhosa dos seus dedos.
E até os companheiros, habituados, ficam surpreendidos e sorriem, acompanhando com os corpos agitados nas cadeiras da orquestra magnetizada.
A flauta suspirosa agora é uma grande gargalhada eletrizante e Pixinguinha, suarento, suspende e abaixa o corpo na cadeira.
Suspende e abaixa os sons com criações suas. Pan-preto entre ninfas assustadas. Ninfas de decotes provocadores, cheias de ruge, algumas sozinhas, outras com os pais austeros, para atrapalhar.
*
Ouça a playlist com seis gravações d'Os Oito Batutas feitas em Buenos Aires em 1923
Bibliografia:
Pixinguinha, Vida e Obra. © 1978 Sérgio Cabral. FUNARTE, Rio de Janeiro.
Filho de Ogum Bexiguento. © 1979 Marília T. Barboza da Silva & Arthur L. de Oliveira Filho. FUNARTE, Rio de Janeiro.
pixinguinha.com.br / IMS
Vídeos:
Gilda Gray dança o shimmy, excerto de He Was Her Man, dirigido por Dudley Murphy, em 1931.
Playlist com gravações realizadas em 1923 na Argentina pelo grupo Os Oito Batutas, do álbum lançado pelo selo Revivendo.
Imagem nos vídeos: Chorinho, Candido Portinari, 1942.
Imagens:
Bottle of Rhum Negrita. 2013. Edsel Little. Flickr / Wikimedia.
Our Story / Our Saga. https://www.rhum-negrita.com/
Centenário da Independência do Brasil: Selo Comemorativo. Exposição Nacional, 1922. Correios. Impresso por Pimenta de Mello & Cia. Rio de Janeiro, RJ.
Os Batutas na onda do Jazz Band. Sebastião Cirino, Euclides Virgulino, Pixinguinha, Fausto Mozart Corrêa, José Monteiro, José Batista Paraíso e Esmerino Cardoso. Acervo IMS.



