Pequenas Biografias: PIXINGUINHA_o8

Carinhoso

Dona Darci Vargas, a primeira-dama, convocou a alta sociedade carioca para promover, em outubro de 1936, um espetáculo beneficente no Municipal: a Parada das Maravilhas. Misturados a talentosas socialites, músicos profissionais do naipe de Radamés Gnattali e d'O Bando da Lua garantiam a qualidade dos mais de 40 quadros. A jovem e promissora Heloísa Helena, atriz, cantora e compositora, preparando seu número, teve a ideia de colocar letra num choro de Pixinguinha já um tanto antigo, mas que vinha sendo cada vez mais executado pelos conjuntos regionais nas emissoras de rádio, o Carinhoso.

Heloísa procurou João de Barro, o Braguinha, com quem havia composto o samba Tempo Bom, interpretado por ela no filme Alô, Alô, Carnaval, no mesmo ano de 1936. Ali nasciam os versos daquela que seria até 2021 a segunda música mais regravada no Brasil em todos os tempos.

        Meu coração
        Não sei por quê
        Bate feliz
        Quando te vê
        
        E os meus olhos ficam sorrindo
        E pelas ruas vão te seguindo
        Mas, mesmo assim
        Foges de mim...

"No dia seguinte, entreguei a letra à Heloísa que, muito satisfeita, me presenteou com uma bela gravata italiana", disse o compositor a Jairo Severiano, o autor de sua biografia, Yes, Nós Temos Braguinha.

Carinhoso fora mantida em relativo segredo por Pixinguinha durante mais de 10 anos. No depoimento que deu ao MIS em 1968, explicou: "Eu fiz o Carinhoso em 1917. Naquele tempo, o pessoal nosso da música não admitia choro assim de duas partes. Então, eu fiz o Carinhoso e encostei. Tocar o Carinhoso naquele meio? Eu não tocava... ninguém ia aceitar".

Letra pronta, Pixinguinha tratou de mostrá-la a Mister Evans, pensando em lançar a novidade pela Victor. Mas, "a maioria não estava interessada. Todos queriam gravar a Rosa". O primeiro a ser chamado foi Francisco Alves, que recusou o convite. Carlos Galhardo, ao contrário, disse que sim, mas não apareceu no estúdio na data marcada (o que levou Mister Evans a esbravejar:  Não grava mais! Não veio no dia, não grava mais!). Finalmente, Orlando Silva, acompanhado pelo Conjunto Regional RCA Victor, tendo Radamés Gnattali ao piano, emplacou no mesmo disco dois clássicos, o agora 'samba estilizado' Carinhoso de um lado e a valsa Rosa do outro. Poucas músicas gravadas por Orlando obtiveram tanto sucesso quanto Rosa e CarinhosoCarinhoso teria sido ainda um sucesso internacional se, em 1944, Aloísio de Oliveira não convencesse Walt Disney a substituí-la por Na Baixa do Sapateiro no filme Você Já Foi à Bahia? (The Three Caballeros). Aloísio argumentou, não sem razão, que, apresentando o cenário aspectos da cidade de Salvador, a música teria de ter relação com a Bahia, o que não era o caso.

(...) "o Carinhoso era uma polca. Polca lenta. O andamento era o mesmo de hoje e eu classifiquei de polca lenta, ou polca vagarosa. Mais tarde mudei para chorinho".

Antes da consagradora versão cantada por Orlando Silva, o choro de apenas duas partes saiu em disco três vezes: em 1928, pela Parlophon, interpretado pela Orquestra Típica Pixinguinha-Donga; em 1929, com a Orquestra Victor Brasileira e em 1934, novamente pela Victor, na interpretação do bandolinista Luperce Miranda. Ouça aqui:

Tempos de crise

Ao longo de toda a década de 1930, mantiveram-se constantes os compromissos de trabalho, assim como o hábito de beber em quantidades industriais. "Qualquer momento de folga era suficiente para encostar no balcão do botequim e pedir uma cachaça", aponta Sérgio Cabral, o biógrafo que mais chama a atenção para os malefícios do álcool na vida e obra de Pixinguinha.

Durante muitos anos, apesar da bebida, o músico multifacetado "cumpria todos os seus compromissos com o brilhantismo de sempre", ressalta Cabral. Colegas e admiradores colecionavam episódios em que, mesmo "todo caneado", como Radamés Gnattali contou ao Pasquim em 1977, Pixinguinha era capaz de criar de improviso um choro completo. Numa noite de Natal, nos estúdios da Rádio Transmissora, Jacob do Bandolim chegou a passar mal ao ouvi-lo tocar. A flauta soou "com tanto sentimento" que o bandolinista teve "um choque emotivo" e precisou voltar para casa "carregado".

Mas, por certo, alguma hora, o excesso cobraria seu preço. A crise pessoal não poderia surgir em pior momento. Ou talvez, o que é mais provável, tenha sido potencializada pelas circunstâncias.

Esforço de guerra

Na virada para a década de 1940, os discos das orquestras norte-americanas, em consequência do esforço de propaganda dos EUA durante a Segunda Grande Guerra, começaram a penetrar o mercado nacional em proporções inéditas. Nas rádios e nas gravadoras, a entrada em cena de orquestradores mais jovens e mais antenados com as sonoridades da moda, começou a reduzir a demanda de trabalho para um arranjador e instrumentista tão decididamente afro-brasileiro como Pixinguinha.

Novos tempos e vícios antigos: durante toda a primeira metade dos 40, ele foi ficando, cada vez mais, fora de circulação. "Eu só tomava cachaça. Tomava uma garrafa por manhã. Saía cedinho de casa e ia até o armazém do Joaquim, na rua Felisberto Freire, em Ramos, onde o proprietário já me conhecia. Era só chegar e já se abria uma nova garrafa".

Ficava em Ramos, também, na rua Belarmino Barreto, 23, o imóvel que Pixinguinha adquiriu a prazo, no valor total de 35 contos de réis, em 1939. Betí havia passado por uma delicada cirurgia e manifestou o desejo de trocar o apartamento no prédio com escadas em que viviam por uma casa com quintal, provavelmente imaginando também uma infância mais livre para o filho, na tranquilidade do subúrbio carioca: quatro anos antes o casal, que não podia engravidar, adotara uma criança, Alfredo da Rocha Vianna Neto, o Alfredinho, que veio a se tornar grande companheiro do pai e guardião dos maravilhosos manuscritos deixados inéditos por ele.

Trabalhando pouco e 'deixando o ordenado' no bar, o atraso no pagamento das prestações da casa tornou-se inevitável. A entrada de cinco contos saiu das economias que a família possuía, mas os 30 restantes estavam difíceis de levantar. Como se não bastasse, tocar flauta ficava a cada dia mais sofrido. As mãos começaram a tremer e a extração de vários dentes comprometeu a embocadura. Pixinguinha era agora um homem de 42 anos, num país onde a expectativa de vida girava em torno dos 45.

Foi aí que o também flautista Benedito Lacerda entrou na história.

O Benedito

Lacerda era reconhecido ao mesmo tempo pelo talento como instrumentista e pela habilidade nos negócios. Gozava de grande prestígio entre as gravadoras, emissoras de rádio e editoras musicais. Obteve da Editora Irmãos Vitale um adiantamento suficiente para o amigo saudar a dívida acumulada e em seguida assinou contrato com a RCA Victor para a gravação de 25 discos, ou 50 fonogramas, ele tocando flauta e Pixinguinha, sax tenor. Em troca, passou a figurar como autor de tudo o que gravassem, inclusive choros que estavam compostos há cerca de 20 anos, como Um a Zero e Os Oito Batutas.

As opiniões se dividem até hoje: Benedito Lacerda passou a perna no ingênuo Pixinga? Canhoto, célebre cavaquinhista, é um dos que asseveravam que não. Num depoimento a Zuza Homem de Mello, disse: "Pixinguinha estava esquecido, ninguém falava dele. Benedito combinou de fazer os discos, mas entrava na parceria. Muitas pessoas meteram o pau, mas ele foi franco. Iam tomar a casa do Pixinguinha, Benedito foi ao Vitale e levantou o dinheiro para acabar de pagar".

A versão de Pixinguinha, descomplicado e avesso ao disse-me-disse, era mais ou menos a mesma, apenas mais discreta: "Benedito me procurou para gravarmos umas músicas minhas. Só choros. Negócio mais ou menos grande. São 25 discos de uma só tacada e as condições são boas. Ora, eu toco clarinete e saxofone. Então, combinamos que o flautista será Benedito Lacerda".

O primeiro disco, de um total que, ao longo de 10 anos, chegou a 17 (34 fonogramas), trazia de um lado Um a Zero e Sofres Porque Queres do outro, escritas por Pixinguinha e agora assinadas por ambos. Antes do final do ano, a Victor colocou na praça mais dois discos do duo: em outubro, os choros Naquele Tempo e Segura Ele e, em novembro, Vou Vivendo e Cheguei.

No retorno à gravadora, Pixinguinha também voltou a fazer arranjos e a lançar discos com a Orquestra Victor Brasileira. Voltaram ainda os convites para apresentações e turnês. As demandas do palco, dos estúdios de rádio, mais a gravação de discos estimulavam o compositor a escrever novas músicas e a revirar gavetas em busca de partituras inéditas. As prestações da casa foram pagas pontualmente até 1948, ano em que a dívida foi liquidada, Pixinguinha jamais fez qualquer menção negativa a Benedito e, juntos, criaram um dueto que influenciaria gerações de músicos. Aliás, a despeito do virtuosismo do flautista, o ponto de interesse da dupla sempre foi o originalíssimo fraseado em contraponto do saxofone. O músico e pesquisador Henrique Cazes avalia que "todos saíram ganhando" e mais, o público, presenteado com "gravações memoráveis".

Darcy Ribeiro, em seu um tanto amalucado livro de História, Aos Trancos e Barrancos: como o Brasil deu no que deu, 1900 - 1980, resumiu, no estilo ácido que o caracterizava:

"Pixinguinha, o melhor flautista brasileiro, de tanto beber pinga ficou de mãos tão trêmulas que passou a ser nosso melhor saxofone".

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Ouça a playlist com seis gravações da dupla Pixinguinha & Benedito Lacerda

Bibliografia:

Pixinguinha, Vida e Obra. © 1978 Sérgio Cabral. FUNARTE, Rio de Janeiro.

Filho de Ogum Bexiguento. © 1979 Marília T. Barboza da Silva & Arthur L. de Oliveira Filho. FUNARTE, Rio de Janeiro.

pixinguinha.com / IMS. 

Vídeos:

As quatro primeiras versões de Carinhoso.

Imagem do vídeo: Pessoal do rádio, incluindo Carmen e Aurora Miranda. Acervo IMS.

Playlist com seis das 34 gravações feitas pela dupla Pixinguinha e Benedito Lacerda para a RCA Victor na década de 1940.

Imagem nos vídeos: Pixinguinha e Benedito Lacerda, década de 1950. Acervo IMS.

Imagens:

Lado A do disco contendo Carinhoso e Rosa, com Orlando Silva e Conjunto Regional RCA Victor sob direção de Pixinguinha. Acervo IMS.

Pixinguinha e Benedito Lacerda, foto para divulgação. Wikipédia.

Alfredinho, Betí e Pixinguinha na casa n.º 23 da Belarmino Barreto, em Ramos, posteriormente, Rua Pixinguinha. Acervo IMS.